A Alma do Lázaro: Primeira Parte - Capítulo III
Começou o velho:
A voz do pescador tornou-se trêmula; e á tênue claridade da lua encoberta vi-o que enxugava com a mão rude e calosa uma lágrima de saudade.
-- Meu nome de bautismo é Antônio. Porém, o pai e a mãe chamavam a gente Tonico.
Essa emoção de um velho de oitenta anos, recordando-se do apelido familiar da meninice, essa memória poderosa do coração que através de uma longa existência cheia de vicissitudes e trabalhos refletia com todo o colorido os quadros singelos da infância, tocou-me.
Achei sublime isto, que outros acharão ridículo talvez.
O velho continuou, passada aquela primeira emoção:
-- Que doença? perguntei eu.
-- O moço era como o que foi ressuscitado pelo Cristo!
-- Lázaro?...
-- Senhor, sim. Agora quantos andam por aí como ele? Mas naquele tempo não era assim: a gente pensava que aquilo era uma praga.
O velho fez uma pausa.
-- Chove a valer!... Mau tempo de garoupas!...
-- Talvez estie ao amanhecer.
-- Se o vento rondar... "Mas naquela noite, que eu dizia, quando o moço saiu, já o pai estava dormindo. Vou eu, dou-lhe. o peixe como da véspera, e ele deixou o dinheiro na pedra. A gente naquela idade gosta de saber tudo. Eu quis ver o que ele estava fazendo acordado até tão tarde, e pus-me a espiar pela fresta da porta. Jesus! O corpo me tremia que nem linha d'anzol quando o peixe fisga!
-- Que caixinha?... perguntei, interrompendo o velho.
-- A caixinha de folha! retrucou surpreso da pergunta.
-- Já sei...
-- Ora! onde estava eu com a cabeça. Cuidava que já tinha dito... Mas não! Era uma caixa, assim por este tamanho. Também ele não tinha mais trastes senão aquele.