História
Mesmo ali na igreja, com o perfume das flores brancas e rosas decorando o corredor, os convidados chegando, outros conversando. Com sorrisos por todos os lados, gente se cumprimentando depois de anos sem se ver, crianças correndo entre as mesas da recepção improvisadas na entrada e fotógrafos registrando cada detalhe do grande dia.
Os noivos prestes a entrarem, os próprios filhos, prestes a começarem mais uma etapa em suas vidas, fazendo o que eles tanto sonharam um dia.
Mas ele não se importava com nada disso. Em meio a isso, ele a ver pela primeira vez em muitos anos. A viu antes mesmo que ela o visse. E, por um instante, o mundo pareceu parar. Ela está mais velha, mais madura, mas continua sendo ela. A única mulher por quem seu coração sempre bateu, Freya.
Ela estava ali apenas a alguns metros à frente, conversando com uma senhora, uma das mãos repousadas sobre a outra, exatamente como fazia quando estava desconfortável. Mesmo que o tempo tenha passado, era ela. A única mulher que ele tinha amada de verdade. E mesmo depois de tantos anos, seu coração ainda sabe a reconhecer antes mesmo que sua razão entendesse o que estava acontecendo.
Ela ergueu os olhos e o encontrou a observando, e sente seu coração errar uma batida. Fazia mais de vinte anos que não ficavam tão próximos como agora. Anos de encontros rápidos em aniversários dos filhos, formaturas, em algumas festas de fim de ano já que tem conhecidos que infelizmente os faziam se encontrarem. Sempre cercados de pessoas, sempre mantendo distância, fingindo uma cordialidade que nunca existiu de verdade. Anos fingindo que eram apenas duas pessoas que se conheciam. Anos se evitando para não lembrar do que um dia haviam sido.
Enquanto o celebrante dizia sobre amor, escolha e parceria, mas ela mal o conseguia escutar. Ela lembrava do pai dizendo que um homem daquela família nunca pisaria em sua casa. Lembrava da mãe chorando depois das discussões. Lembrava dos gritos, das ameaças e de Lief esperando por ela na praça, acreditando que o amor dos dois seria suficiente.
E lembrou de si mesma, assustada, jovem demais, que o amava o suficiente para querer fugir, mas não o bastante para conseguir abandonar tudo. E para sua infelicidade, foi naquela igreja que o viu pela última vez antes de seguirem caminhos diferentes.
Mas nessa noite, tudo era diferente, são os filhos deles estão se casando. Sendo a prova mais cruel que a vida realmente tinha seguindo em frente, ainda que eles nunca tivessem conseguido fazer o mesmo, por mais que tentassem.
E ele se aproxima, devagar, como se estivesse esperando por esse momento a vida inteira. E ela sente o coração acelerar, era tudo ridículo, tinham passando dos quarenta, tinham filhos adultos, e quem sabe logo teriam netos. Tinham uma vida inteira construída.
Mas bastava aquele homem caminhar em sua direção para ela se sentir outra vez uma garota de quinze anos que o esperava escondida atrás da igreja da cidade.
— Você está linda — ela sorri de forma educada, o sorriso que ele odiava, pelo simples motivos que era destinado aos desconhecidos.
Depois de alguns segundos de silêncio, ele olha para a igreja decorada, para os convidados ansiosos pela cerimonia. Quando seus olhos se encontram novamente, ela notou algo que conhecia bem demais, o arrependimento.
— Poderia ser nós.
Ela o encara, pega de surpresa pela frase, sente o coração errar uma batida. Também pensava isso, desde o momento que levantou da cama nesse dia. Desde o momento que viu sua filha pronta para se casar. Pensou quando soube que entraria na igreja para assistir a própria filha se casar com o filho dele, vivendo o que eles não tiveram coragem o suficiente para lutar.
Mas pensamentos são apenas isso, e não podiam ser ditos em voz alta.
— Leif, não vamos estragar o casamento dos nossos filhos — ele solta um riso fraco, triste, até mesmo cansado.
— Ainda dá tempo de a gente ser feliz de verdade.
Ela desvia o olhar, sabendo que essas palavras são perigosas demais, para a história deles. Ela segura a vontade de o questionar, se ele também pensava nela às vezes, se ainda se lembrava. Se também tinha noites em que olhava para o lado da cama e imaginava outra vida. Mas engole tudo. Encontrando a verdade nos olhos dele.
— Eu sou casada — ele assente.
— Eu também — ela volta a encará-lo.
— Então acabou. O nosso tempo acabou.
Ele a observa por alguns segundos, ficando em silêncio como se estivesse decorando cada detalhe do rosto dela. Então balança a cabeça.
— Não. Ainda não.
Ela respira fundo, sentindo o coração acelerar, soltando uma risada sem humor.
— Nós temos nossas vidas — ele não desvia os olhos dos dela.
— Você está feliz? — e então ela prende levemente a respiração, demorando a responder, apoderando o que iria sair de sua boca.
— Estou casada — ele sorri de lado, o sorriso arrogante, que ela tanto odiou, como se ele já soubesse de sua resposta antes mesmo dela dizer.
— Eu não perguntei isso.
E um por um mero segundo ficam em silêncio. Ela apertou dos dedos ao redor da bolsa, e ele percebeu, sempre percebia.
— Viu? Você nunca consegue responder essa pergunta — ela estreita os olhos já irritada, cutucando a bochecha com a língua incomodada, sentindo o rosto esquentar.
— Você não me conhece mais.
Ele dá mais um passo, em sua direção. A proximidade dele fazendo a respiração dela falhar. Perto o suficiente para lembrar de coisas que passou a vida inteira tentando esquecer.
— Conheço, sim. Você ainda mexe no anel quando está nervosa, ainda desvia o olhar quando vai mentir.
Ela ergue a cabeça, pelo simples motivo que estava fazendo exatamente isso, desviou o olhar, mexeu no anel, e ela se odiou por isso. E ele deu um meio sorriso.
Ele a observa por alguns segundos.
— E ainda me olha como se eu fosse o maior erro da sua vida... — diz com a voz mais rouca e perigosa, perdendo qualquer traço de humor — E também o amor dela.
Ela por um segundo o olha, apertando levemente a bolsa em sua mão, sem reação. Porque no fundo ainda era verdade. A verdade tão antiga quando o sentimento que eles sentem. Eles se amaram, e pelo visto nunca deixaram de se amar, como chegou a pensar. Apenas que ambos aprenderam a sobreviver sem ele, mesmo sabendo que precisavam desse sentimento como o ar que respiram.
Sentindo que nesse silêncio tão grande ela poderia ouvir o próprio coração. Mais o tempo passou e eles já não são mais dois adolescentes, ela respira fundo, precisava sair dali, parar o mais rápido possível essa conversa.
— O nosso tempo passou.
— Você pode enganar todo mundo. Pode até enganar a si mesma, mas nunca conseguiu me enganar.
Ela sente o coração acelerar, abre a boca para responder porém ele não dá tempo, seus olhos se encontrou com os dele, e se odiou porque ainda havia alguma coisa ali, algo que nunca morreu. E ele sustenta o olhou
— Eu me acostumei com a minha vida. Mas ser feliz... isso eu nunca mais fui.
Ela o encara sem conseguir dizer nada, piscando os olhos com a novidade. Porque, pela primeira vez em anos, alguém estava dizendo em voz alta tudo aquilo que ela passou décadas enterrando.
— Quando eu olho pra você... eu percebo que ainda estou fingindo.
Antes que a conversa continue, ela se afasta indo cumprimentar convidados. Organizar os últimos detalhes, procurou saber de como está o buque da filha, as fotos, até mesmo os padrinhos. Qualquer coisa para fugir daquela conversa. Mas as palavras dele permanecem.
"Poderia ser nós."
Durante a cerimônia, ela tentou prestar atenção na celebração. Tentou ouvir os votos, as promessas, os olhares, os risos nervosos dos noivos, os comentários emocionados dos convidados. Tentou se convencer de que estava ali apenas para ver o casamento de sua filha. Mas não conseguiu, seus olhos ficam presos neles. Na maneira como o noivo segurava as mãos da noiva, no jeito como os dois sorriam um para o outro, como se não existisse mais ninguém naquela igreja. Na segurança com que prometiam amor, parceria e uma vida inteira juntos.
E, pela primeira vez em muitos anos, ela se permite imaginar a vida que nunca teve coragem de viver. Não com qualquer casamento, com o ele. Imaginou o vestido, entrando nessa mesma igreja, imaginou outra música. Se imaginou caminhando até o altar onde ele a estaria esperando no fim do corredor. Imaginou os filhos que poderiam ter tidos juntos, as fotografias que nunca existiram, as discussões bobas, os domingos preguiçosos, os aniversários e as rugas que iriam enfrentar lado a lado. Seria uma vida inteira que simplesmente não pode acontecer.
E, do outro lado da igreja, percebe que ele está olhando para ela, não para os noivos, ou para seu próprio filho. Mas para ela. E havia algo em seu rosto que a fez prender a respiração. Porque parecia que ele estava pensando exatamente a mesma coisa que ela acabara de imaginar.
Na recepção, os dois fizeram o que vinham fazendo havia décadas, fingindo normalidade.
Ela conversa com familiares, sorria para as fotografias enquanto respondia perguntas que sequer estava ouvindo. Enquanto ele circula entre os convidados, apertava mãos, recebia cumprimentos e erguia taças.
Mas os olhares se encontram o tempo inteiro, eles se procuram sem perceber. Como se uma parte de cada um estivesse sempre procurando pelo outro. Ele mal conversa com a própria esposa nessa noite, e ela também não faz questão, como se já não se importasse mais.
Em determinado momento, ele se aproxima da esposa.
— Você não vai dançar?
Estende a mão para ela que aceita, dançam em silêncio por alguns segundos, após um giro ela ergue os olhos para ele e sorriu. Um sorriso triste, daqueles que só aparecem quando a dor já deixou de doer e se tornou um costume.
— Você nunca foi completo comigo, Leif.
Ele permanece em silêncio.
— Passei anos me perguntando o que eu tinha feito de errado. Se eu não era bonita o suficiente, interessante o suficiente, se não te amava da maneira certa — ela o deu um sorriso pequeno de lado — Depois eu entendi.
E ele finalmente a olhou.
— Entendeu o que?
— Você nunca me traiu de corpo. Mas me traiu todos os dias de alma. E, sinceramente... acho que isso dói muito mais.
Ele a encara, engolindo em seco, sabendo que condenou uma inocente a uma vida vazia. Ela o dá um pequeno sorriso.
— Com o tempo, eu parei de procurar por você dentro do nosso casamento — ela apertou levemente a mão dele — Vai dançar com ela — ele franze a testa.
— Dançar com ela?
— Eu perdi essa disputa antes mesmo de casar com você.
Pela primeira vez em anos, ele sente pena daquela mulher. Porque ela não está com raiva, só está cansada. Ela também deixou de procurá-lo emocionalmente há muito tempo. E no final entre eles só ficou o conforto dos anos, mais que nunca chegou a ser algo que os queimassem como se não existisse amanhã.
Pouco depois, Leif o encontra o marido de Freya perto do bar. Sozinho, com uma taça de champanhe entre os dedos, observando a pista de dança, vendo a filha dançando feliz completamente realizada. Parecia tranquilo demais para alguém cuja esposa passara a noite inteira trocando olhares com outro homem.
Ele parou ao seu lado, por alguns segundo, nenhum dos dois disse nada, ficam apenas olhando a festa acontecer.
— Cansei de ignorar.
O outro permanece em silêncio, tomando seu champanhe tranquilamente.
— Ignorar o quê? A sua falta de caráter?
Ele soltou uma pequena risada, sem humor.
— Isso.
Seu olhar vai na direção de Freya, o marido acompanhou o movimento. Quando voltou a encará-lo, sua expressão permanecia calma, quase irritantemente calma.
— Não existe mais ninguém para nos impedir — ele franze a testa.
— O quê?
— Quando éramos jovens, nossas famílias fizeram de tudo para nos separar. Fizeram escolhas por nós. Decidiram nossas vidas por nós. Mas agora... — ele deu de ombros —Agora não existe mais ninguém.
O outro o encarou por um longo momento.
— E daí?
Ele sustenta o olhar, não deixando rastros para hesitação em sua voz ou em sua posição.
— Daí que eu vou lutar por ela.
Por um segundo, o marido de Freya pareceu se divertir, quase sorriu, como se tivessem acabado de o contar uma piada.
— Você ainda fala como um garoto de dezoito anos.
Ele também sorriu, mas o seu sorriso não tinha humor algum.
— E você fala como alguém que já desistiu.
E por um mero segundo se tem um silêncio, perigoso mais formal demais para quem é de fora. Quem via de fora eram apenas dois homens conversando, dois homens que casaram seus filhos e uniram duas famílias importantes. Mas para eles, era uma guerra antiga voltando à vida.
— Talvez. Mas ela escolheu passar a vida comigo — ele sustenta seu olhar.
— Não. Ela escolheu viver sem mim. É diferente — seus olhos não deixam os do outro homem — Porque, no fundo, ela nunca foi sua, só aprendeu a viver sem mim.
O silêncio entre os dois parece se alongar, e então ele o dá um pequeno sorriso, quase triste.
— E eu vou atrás da mulher que nunca deveria ter saído do meu lado — ele inclina a cabeça — E eu já cansei de aceitar isso.
As palavras a tingiram o outro em cheio, pela primeira vez, a serenidade em seu rosto vacilou. Ele olhou para Freya, que ria de alguma coisa dita pela filha. Depois voltou a o encarar.
— Você tem muita certeza de si mesmo.
Ele acompanhou seu olhar até ela, e pela primeira vez naquela noite, conseguiu sorrir de verdade, um sorriso pequeno mais arrogante, até cruel.
— Não é de mim que eu tenho certeza.
Os olhos dos dois se encontraram novamente.
— É dela.
O marido de Freya apertou os dedos ao redor da taça.
— Veremos quem vence no final.
Ela estava perto da pista de dança quando o marido se aproximou, segurando duas taças.
— Você parece distante.
Ela solta um sorriso forçado, aceitando a bebida.
— Só estou cansada — ele soltou um pequeno riso.
— Você sempre diz isso quando não quer conversar.
Ela ergueu os olhos para ele, e como a muitos anos, realimentou o olhou. Ele era um bom homem, gentil, paciente, que nunca a fez sofrer, e talvez fosse justamente aquilo que a esmagava. Porque ele merecia mais.
— O que foi? — ele questionou.
Ela morde levemente o lábio inferior, girando a bebida na taça.
— Você já sentiu que viveu a vida errada? — questiona o pegando desprevenido, mas ele continua em silêncio — Não uma vida ruim. Apenas... a errada.
Ele a observa com atenção, mas então seu olhar vai na direção do homem que a encarava do outro lado do salão. E quando retorna a olhá-la, finalmente compreende, engolindo em seco a verdade dura que tanto tentou recusar em aceitar.
— É ele, não é? — ela não precisava responder, ele solta um suspiro — Eu passei anos esperando que isso acabasse.
Ela sente os olhos arderem.
— Me desculpa, Leif.
Ele solta um pequeno sorriso triste, realmente cansado.
— Acho que a pior parte é que eu nunca pude competir de verdade — ela franze a testa.
— Não diga isso.
— É verdade. Como se compete com alguém que foi embora há vinte e poucos anos e, ainda assim, nunca saiu daqui? — ele toca no peito dela, e ela sente o coração se apertar, porque não havia raiva na voz dele, apenas resignação — Eu te amei da melhor forma que consegui, Freya.
As lágrimas finalmente encheram seus olhos.
— Eu sei — ele confirma com a cabeça, a olhando por alguns segundos.
— A pergunta é... você conseguiu me amar da mesma forma?
— Eu...
Ela suspira, e ele confirma com a cabeça, se afastando, a deixando sozinha, e emocionalmente devastada. Ela olha para a própria aliança e se questiona, não pela primeira vez, se havia dito “sim” por amor ou por cansaço de esperar pelo impossível.
Mais tarde, ele a chama para dançar, e então ela hesita, sabe que o certo e recusar, mas no final acaba se rendendo, a mão estendida. O álcool havia deixado suas defesas mais lentas, e ter estado naquela igreja, vendo os filhos começarem uma história de amor, tinha aberto feridas que ela acreditava cicatrizadas. Então colocou a mão na dele.
A música é lenta e perigosa, e aos poucos ele a puxa para mais perto. Perto demais, para quem já tiveram uma história, e como se nunca tivessem se separado em algum momento. Próximos demais, ela sente o perfume dele, sentia o calor de sua mão em suas costas. Sentia a respiração roçando sua testa cada vez que ele se inclinava um pouco mais. E, de repente, não eram duas pessoas de quarenta anos, eram dois jovens de uma de quinze e outro de dezoito, dançando pela primeira vez.
Ele a observava como se estivesse tentando recuperar tantos anos perdidos. Ela evita o olhar porque sente mede do que poderia encontrar ali, ou pior, medo de encontrar exatamente o que ainda existia dentro dela.
— Sabe o que é engraçado? — ele disse durante a dança — Meus avós perderam o amor deles por orgulho. Os nossos pais perderam a vida alimentando esse orgulho. E nós... nós perdemos vinte e seis anos por causa de uma briga que nem era nossa.
Ela engole em seco, ficando em silêncio.
— Você sabe que nada foi como era para ser, vamos deixar isso no passado.
Ele a gira pelo salão, acariciando as costas delas, soltando uma risada amarga.
— Nós fomos idiotas o suficiente para pagar a conta.
— Sabe o que mais me dói? — ela ergue os olhos, finalmente o olhando.
— O quê?
— Que a gente passou a vida inteira aprendendo a viver sem o outro... e nunca conseguiu — ela engole em seco, sentindo os olhos se enchem de lágrimas.
— Para...
— Você também sente.
Ela não responde, porque no fundo sabe que ele está certo. E os dois sabem disso, e admitir isso significava colocar abaixo esses vinte e poucos anos de mentiras cuidadosamente construídas.
A bebida já diminuiu o controle de ambos, os sentimentos guardados por décadas estão à flor da pele. Freya estava rindo de algo que a filha tinha acabado de dizer quando o viu se aproximar. Havia bebida suficiente em seu organismo para a deixar mais leve. E sentimento suficiente em seu peito para a afogar seu presente.
No ápice da festa, a bando tocando, ele para diante dele, sem dizer nada, apenas a olhando, com um olhar intenso, cansado, como se tivesse chegado ao limite de uma guerra que travava consigo mesmo havia décadas.
— O que foi? — ela questiona, diminuindo o sorriso.
Ele passa a mão pelo rosto. Pela primeira vez naquela noite, não existem filhos, cônjuges, convidados ou música. Apenas eles, e um sentimento que foi sufocado por outros.
— Eu estou cansado — ela franze a testa confusa.
— De quê? — ele dá mais um passo.
— De passar uma vida inteira fingindo que não é você.
Ela abre a boca para responder, sentindo a respiração, um segundo, talvez até dois. Então alguma coisa simplesmente rompeu dentro dele, talvez fosse o orgulho, o bom senso ou mesmo o medo. Nada mais importava, passando por cima das aparências de quem estivesse acompanhando e das feridas do passado.
Ele a puxa na frente de todos os convidados, a segurando pelo rosto, e a beijou. Não um beijo delicado, mais sim, desesperado. Um beijo de duas pessoas que perderam anos e, por um instante, se recusaram a perder mais um segundo sequer.
Quando se afastam, ambos estão sem ar, ela o encara, assustada, enquanto ele também parece atordoado. Porque passaram a vida inteira prometendo que jamais atravessariam aquela linha.
E acabaram de atravessá-la, sem pensar, sem planejar, sem se importar com mais nada. Então ele segura sua mão e os dois saem dali, sem saber para onde estão indo.
Pela primeira vez em décadas, apenas sabendo que não conseguem mais fingir.