Os Dois Amores: Capítulo IX - Um serão do "Céu cor-de-rosa" Os Dois Amores · Capítulo 9 de 44
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Os Dois Amores: Capítulo IX - Um serão do "Céu cor-de-rosa"

A noite estava bela, a lua clara e brilhante e brisas sua­ves e frescas faziam esquecer a calma abrasadora de um dos primeiros dias de dezembro, que acabara de passar.

Um grupo de curiosos e amadores tinha-se formado defronte das janelas do "Céu cor-de-rosa" e aplaudia os cantos agradáveis que ali eram entoados.

Um velho guarda-portão estava sentado à porta do alpendre da casa feliz.

Jacó e Helena observavam de suas janelas o que se passava e o que se dizia.

Dentro do "Céu cor-de-rosa" reinava a felicidade e borbulhava o prazer. Cerca de trinta pessoas entre senhoras e ho­mens, gozavam o serão daquela noite.

Mariana estava radiante porque defronte dela, e com os olhos embebidos em seu rosto, Henrique parecia crer-se ditoso.

Salustiano não se mostrava ressentido disso, e fazia a corte exclusivamente à "Bela Órfã".

Cândido, um pouco afastado das senhoras, não parecia alegre nem triste; ia, a pesar seu, bebendo a largos tragos o terrível veneno d’alma que se bebe pelos olhos e se concen­tra no coração. Sem o sentir, ele ficava às vezes em êxtase, contemplando Celina do mesmo modo que pelo pensamento se prendia à vida dela inseparáve1, como a sombra de seu corpo. Longe da "Bela Órfã", receando aproximar-se, esquecia-se de si próprio em aéreas meditações; ou outras ve­zes despertava cruelmente sacudido pela mão espinhosa do ciúme, que lhe mostrava um jovem conversando a sós com Celina, ou sorrindo para ela.

Os sinos tocaram nove horas.

-- Oh! bem, disse Mariana. Há uma hora que cantamos; deixemos descansar aqueles que nos ouviram, conversemos também.

-- A comandante das moças deu a voz de -- liberdade! -- ao seu batalhão, disse um homem de meia-idade, que se supunha muito espirituoso.

-- Então hoje não se dança aqui, d. Celina? murmurou ao ouvido da "Bela Órfã" uma interessante mocinha.

-- Eu sei, d. Felícia! se você quer dançar, eu vou dizer a minha tia.

-- Deus me livre!

-- Mas por quê?...

-- Porque aqueles senhores haviam de pensar que eu morro por dançar.

-- Que tem isso? pensavam a verdade.

-- Sim... sim... porém pensariam também que eu gosto de dançar por causa deles... para conversar... para ouvi-los dizer muitas coisas...

-- E não é por isso?... perguntou Celina sorrindo.

-- Qual?...

-- Então por que é, d. Felícia?...

-- Ora, é porque a gente sempre gosta de se mostrar.

-- Bravo, d. Felícia, exclamou outra moça, que se sentava perto de Celina.

-- Ah! você estava ouvindo, D. Mariquinhas?... pois olhe, é muito mal feito vir escutar o que se está falando em se­gredo...

-- Obrigado pela repreensão, minha senhora, disse um mancebo que delas se aproximava nesse momento; eu a recebo, porque, na verdade, a mereço.

-- Oh! não; não era a V. Sa. que eu me estava dirigindo.

-- É o mesmo; talhou uma carapuça que me serve às mil maravilhas.

-- Pois então sirva-se, disse Mariquinhas.

-- Eu confesso que morro por saber um segredo de moça... há sempre tanta graça nos inocentes mistérios de um coração que tem só dezesseis anos!

-- Ah! tornou Mariquinhas, e se o senhor soubesse então dos mistérios de um coração como o de d. Felícia, que tem só dezessete anos e meio!

-- E desgraçadamente, nem ao menos nutro a esperança de poder sabê-lo um dia!

-- E que mistério... era um desejo imenso de...

-- D. Mariquinhas! exclamou Felícia.

-- Veja como ela cora... não.... não digo. Uma coisa espantosa... que pode produzir conseqüências tão desagra­dáveis...

-- Deveras, minha senhora?...

-- O senhor é de segredo?...

-- Muito.

-- Pois bem: d. Felícia...

-- Diga.

-- Quer dançar.

O moço não pôde deixar de rir.-- Pois que pensa, minha senhora?... disse ele; mesmo isso é um mistério: quem sabe a razão por que ela quer dançar?...

-- Não é por nada, interrompeu Felícia. Eu não disse, eu não desejei coisa alguma; o que me parece é que d. Mariquinhas está doida por uma contradança.

-- Lá isso também é verdade...

-- Pois é fácil satisfazer seus desejos; eu vou tocar.

O moço dirigiu-se ao piano.

-- Ah! d. Mariquinhas! tornou Felícia; você sempre está com disposição para gracejar!...

-- Mas agora não foi gracejo, foi cálculo. Eu queria dançar. Olhe, está vendo aquele moço de óculos verdes?... pediu-me uma contradança no último serão e devo pagar-lha neste...

-- Como anda você tão adiantada!...

-- Qual! pelo contrário, atrasada... estou carregada de dívidas... em três bailes não pago o que devo.

-- Bom, lá se tocam os compassos de prevenção... d. Leocádia já está bulindo na cadeira... que maldito costume tem aquela moça!

-- Coitada... é com razão. O exercício... o movimento a torna um pouco menos amarela.

As moças foram interrompidas por alguns cavalheiros que a elas se chegaram pedindo contradanças.

Mariana acabava de aproximar-se de uma janela. Salustiano foi ter com ela.

-- Uma contradança... a que se vai dançar, minha senhora...

-- Esta não é possível, já tenho par.

-- A seguinte?...

-- Também já a prometi.

-- Ao mesmo cavalheiro da primeira, sem dúvida... disse sorrindo Salustiano.

-- É verdade, respondeu Mariana sem hesitar.

-- O sr. Henrique?...

-- Ele mesmo.

-- Bem, tornou Salustiano mudando de tom: hei de logo pedir-lhe um obséquio de outra ordem.

Henrique veio dar a mão a Mariana, lançando um olhar de desprezo a Salustiano, que o pagou com seu costumeiro sorrir sarcástico.

Salustiano passou ainda pelo desgosto de achar Celina engajada para lª, 2ª e 3ª contradanças; eram tantas quantas se costumavam dançar em cada serão.

A dança começou. Cândido não se tinha levantado, e conversava então com a velha Irias.

Anacleto chegou-se a eles.

-- Que faz aqui, sentado e triste como um velho de setenta anos, este moço que não tem mais de vinte?...

-- Estava repreendendo-o por isso, respondeu Irias. É uma cabeça cheia de teias de aranha; sabe cantar, e não se deixa ouvir; dança com graça, e o estamos vendo sentado.

-- Pois ele canta?...

-- Não o sabia, sr. Anacleto?...

-- Disse-nos que pouco entendia de música.

-- Olhem só que mentiroso! exclamou a velha: canta, e tem excelente voz.

-- Minha mãe, disse Cândido, para que me há de estar comprometendo?

-- Canta, sr. Anacleto: o sujeitinho canta...

-- Deixe-o estar, que o tomo de agora por diante à minha conta.

Terminara a primeira quadrilha.

-- Venha cá, meu caro senhor, disse Anacleto tomando o braço de Cândido, venha cá, e fique sabendo que não gosto de caras tristes em minha casa.

O velho levou o mancebo até junto de sua neta. Cândido sentiu um calafrio geral coar-lhe por todo corpo.

-- Celina, disse Anacleto, apanhei este maganão em um crime: é mentiroso, é hipócrita, e tudo quanto há de mau neste mundo. Sabe cantar excelentemente, e veio aqui di­zer-nos que nada sabia de música.

-- É, senhor, que eu... realmente...

-- Adeus, meu caro, já não creio em suas desculpas. Celina, fazes anos daqui a quatro dias; tomaremos sem dúvida chá com nossos amigos na noite desse belo dia: não queres pedir alguma coisa ao sr. Cândido?

A "Bela Órfã" entendeu o pensamento do velho, e disse ao moço:

-- Peço-lhe que nessa noite nos dê o prazer de se deixar ouvir cantar.

-- E agora?... responda, meu cavalheiro.

-- Cantarei, minha senhora, respondeu o mancebo a tre­mer.

-- Tinha-se formado um círculo à roda de Anacleto, Cândido e Celina.

-- Bem, bem, tornou o velho esfregando as mãos; mas resta que de tua parte agradeças de antemão ao nosso mentiroso o sacrifício que vai fazer por teu respeito.

-- Mas eu não sei que espécie de agradecimento...

-- Sabes o que ele me dizia há pouco? que desejava ardentemente dançar contigo a próxima quadrilha...

-- Senhor... balbuciou Cândido.

-- Homem, não me venha com novas mentiras; fale, quer ou não quer dançar com minha neta?...

-- Minha senhora, disse o mancebo dirigindo-se a Celina; ouso pedir-lhe essa graça...

A moça hesitou primeiro, e enfim respondeu:

-- Com muito prazer.

Depois, levantando os olhos, viu diante dela Salustiano, a quem um quarto de hora antes tinha negado a mesma qua­drilha que acabava de conceder a Cândido.

Desfez-se o círculo que estava formado defronte de Celina. Salustiano retirou-se sem dirigir-lhe uma só palavra. As moças ficaram de novo livres da companhia dos homens.

-- D. Celina, perguntou Felícia, por que é que aquele moço tremia tanto quando te falava?...

-- Eu sei! é talvez por ser naturalmente acanhado.

-- Restava sabermos se ele tremeria do mesmo modo falando a qualquer de nós outras, acudiu a maliciosa Mariquinhas.

-- Por quê?...

-- Porque se não tremesse, tiraríamos uma bela conse­qüência.

-- Ma1iciosa!... disse Felícia, enquanto Celina fazia-se um pouco corada.

O piano chamou os pares à sala.

-- Nunca houve piano que tocasse mais a propósito, tornou Mariquinhas. Celina estava me contando, sem querer, umas poucas de coisas no rubor de suas faces.

-- Ah! d. Mariquinhas!...

-- Cuidado comigo... não hei de tirar os olhos de você, enquanto dançamos.

Dançou-se a segunda quadrilha.

Era a primeira vez que Cândido dançava ao lado de Celina. Uma mistura de prazer e de acanhamento, de satisfação imensa e de como dúvida do gosto de tão grande ventura, dava ao rosto do mancebo uma expressão nova, bela e interessante.

Acrescente-se a isso a perturbação de Celina, que se sentia devorada pelos olhos curiosos de Mariquinhas, e conceber-se-á a sensação que experimentavam os dois quando suas mãos se encontravam, quando se viam dançando defronte um do outro, esses dois jovens, uns dos quais não sabia dizer se amava, e o outro não compreendia ainda talvez o que era amor.

Em silêncio ambos, debalde uma e outra vez tentou Cândido encetar alguma conversação. Tudo se terminava em breves monossílabos pronunciados a tremer por qualquer dos dois.

A segunda quadrilha terminou; e no correr da terceira teve princípio um episódio que ocupou por alguns momen­tos a atenção da sociedade.

Em um passo mais rápido que Celina devia fazer, caiu-lhe do cabelo um botão de rosa, que foi a tempo apanhado pelo seu cavalheiro de vis-à-vis.

Terminada a quadrilha, o cavalheiro dirigiu-se à "Bela Órfã", e mostrando-lhe o botão de rosa, disse:

-- Na Inglaterra, minha senhora, os grandes fidalgos quando jogam, desprezam o dinheiro que lhes cai no chão, e que enfim fica pertencendo ao criado mais feliz que primeiro o apanha. Levantei este botão de rosa que lhe caiu quando dançava; e dar-me-ei por extremamente venturoso se dispensar a flor que rolou a seus pés.

-- Oh! é impossível! exclamou Celina com voz apaixonada; o meu botão de rosa!.. não... de modo nenhum...

-- Devo crer que a minha pouca ventura...

-- Não deve crer em nada... pouco ou muito feliz, teria sempre de ouvir a mesma coisa.

-- Ah! compreendo: não quer dar flores a moço

-- O meu botão de rosa?... nem a moças.

-- A sua melhor amiga...

-- Não conseguiria arrancar-mo.

-- Portanto este botão de rosa...

-- É a flor... do meu coração.

-- Feliz a mão que da roseira o colheu!

-- Foi a minha.

-- Pode ser... devo crê-lo... no entretanto preciso é que me sujeite ao sacrifício de entregar-lhe um tesouro que eu poderia guardar impunemente.

-- Faria uma ação má...

-- Bem, minha senhora; eis aí o seu talismã... Deus lhe conserve o valor e as virtudes.

O cavalheiro entregou o botão de rosa, talvez com má vontade, e retirou-se.

Cândido, quando viu a pequenina flor passar do peito do moço para o cabelo de Celina, sentiu entrar-lhe a vida no coração.

-- Oh! bravo, d. Celina! acudiu Mariquinhas; eis aí um botão de rosa que deve encerrar o mais interessante mistério.

-- É certo.

-- Foi dado?

-- Não; colhi-o.

-- Quem plantou a roseira?...

-- Não sei.

-- Mas então como se explica esse ardor com que há pouco pedias o teu botão de rosa?...

-- É que eu amo os botões de rosa; tenho predileção por eles, como você tem pelas violetas e d. Felícia pelos cravos brancos.

-- Nada... aí há coisa.

Celina esteve algum tempo pensando, e enfim disse:

-- Talvez.

-- Oh! pois então conta-nos. Eu sou louca por histórias em que entrem flores.

-- Porém é uma tolice de criança...

-- Não faz mal... conta.

-- Aqui não.

-- Vamos ao toilette.

-- Pois bem... vamos... vem conosco, d. Felícia.

As três moças saíram da sala.

Anacleto, que tinha podido apanhar algumas palavras do que elas acabavam de falar, chamou de parte Cândido, e levando-o para dentro consigo, disse-lhe:

-- Vamos devagar... pregaremos uma peça àquelas três sujeitinhas, ouvindo contar uma história de rosas, que sem dúvida não terá pés nem cabeça, mas que enfim poderá ser­vir para divertir-nos.

-- No entanto Salustiano tinha achado ocasião de falar a sós com Mariana. Chegou-se a ela e disse:

Depois de amanhã pelas cinco horas e meia da tarde, terei a honra de visitar a V. Exa. Conversaremos durante meia hora sobre objeto tão importante, que eu tenho a certeza de que V. Exa. achará na riqueza de seu espírito meios de sobra para afastar daqui todas as pessoas que nos possam ser incômodas durante essa meia hora.

-- Senhor!...

-- Depois de amanhã, às cinco horas e meia da tarde.

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