Romance de uma Velha: Ato Quinto Romance de uma Velha · Capítulo 6 de 6
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Romance de uma Velha: Ato Quinto

A mesma sala do ato quarto

CENA I

CLEMÊNCIA e BRAZ, que chega

BRAZ (Grande cumprimento) -- É de mestra!... agora, aconteça o que acontecer, não vá pedir-me em casamento; porque se arrisca à negativa certa.

CLEMÊNCIA -- Tão feia ou má sou eu?

BRAZ -- Nem feia, nem má; é porém um demoninho de arteira.

CLEMÊNCIA -- Veremos nos resultados do artifício. Aqui todos guardam segredo: lembre-se que anteontem se declarou do meu partido...

BRAZ -- Bati bandeiras aos seus pés, estou rendido, hoje mil vezes mais.

CLEMÊNCIA -- Eu o esperava ansiosa para assegurar-me da sua discrição...

BRAZ -- Beijo-lhe as mãozinhas pela dúvida.

CLEMÊNCIA -- Agora... desculpe-me... devo completar o meu toilette...

BRAZ -- Bata as asas e voa já ao paraíso do espelho. (Vai-se Clemência)

CENA II

BRAZ e CASIMIRO

CASIMIRO -- Braz... Braz... então?... falaste-lhe de novo?...

BRAZ -- Tranqüiliza-te, Casimiro! estás que pareces desvairado! para mim são favas contadas; anteontem falei-lhe pela primeira vez e sabes já que houve trovoada e chuva; isto é, rugidos de cólera e lágrimas de dor...

CASIMIRO -- Coitadinha!

BRAZ -- Ontem de novo ataquei a fortaleza, e, como te disse, Irene defendeu-se com reticências... monossílabos... e enfim com um “saberá mais tarde” assobiado a tremer, que me fez ficar sabendo mais cedo...

CASIMIRO -- Confia talvez demais na minha felicidade...

BRAZ -- Tão seguro estou de conseguir o meu fim, que, obtida a permissão da mãe e do irmão de Irene, já alcancei todas as dispensas admissíveis para o casamento... em poucos dias teremos a boda.

CASIMIRO -- Excelente amigo!... mas hoje?... tornaste a falar-lhe?...

BRAZ -- Não há duas horas; Irene é como todas as moças; está morrendo por casar; mas faz-se de boa para ser muito rogada; insisti na história, e ela sorriu-se vaidosa... corou... vês?... foi como se começasse dizendo; “eu...” e pontinhos: depois suspirou... vês?... foi como se acabasse dizendo: “quero” com ponto final et coetera.

CASIMIRO -- Mas... como, suspirou... isso já e muito, e todavia... pode não ser coisa alguma.

BRAZ -- Enganas-te: isso é sempre alguma coisa. Irene caiu no laço; juro-te que desde dois dias o seu olhar, a sua fisionomia, os seus enleios, a sua respiração muitas vezes comprimida, estão denunciando noiva.

CASIMIRO -- É verdade que ela ontem falou-me com uma perturbação...

BRAZ -- Queres mais claro?

CASIMIRO -- Eu queria... o sim decisivo...

BRAZ -- Também eu quis, pedi-o, e exigi-o ainda há pouco.

CASIMIRO -- E ela?...

BRAZ -- Quis falar... hesitou... apertou-me a mão, feliz Casimiro! e enfim, depois de muita confusão... rosas de pejo nas faces... agitação palpitante do seio, et coetera, afortunado Casimiro! ela murmurou a custo: “Poupe-me ainda... farei por chegar um pouco cedo para o banquete de dª. Violante... e lá... se nos acharmos sós... o senhor me ouvirá... e ficará contente de mim.”

CASIMIRO -- Oh! ela disse isso? que tu ficarias contente dela?... então é certa a minha dita, Braz! é a conseqüência...

BRAZ -- Lógica, está claríssimo: o contrário fora absurdo et coetera; e por essa razão corri a esperá-la aqui; entendi-me com o irmão, que as acompanhará até a escada da varanda, e voltará depois.

CASIMIRO -- Ah, meu Braz!

BRAZ -- Traduzo ou interpreto: desejas ouvir a minha conferência com Irene.

CASIMIRO -- Se fosse possível...

BRAZ -- Vaidoso! vaidoso! é uma traição que a tua noiva me agradecerá; quando ela chegar, entra no teu gabinete, e da porta entreaberta ouvirás tudo. Feliz Casimiro! eu ponho-me de sentinela. (Na janela)

CASIMIRO -- Muito padece quem ama!

BRAZ (A janela) -- Com efeito um amor assim fora de tempo deve andar aos tombos pelas rugas do coração; mas a madrinha, que é oito anos mais velha do que nós, mostrou-te o caminho do casamento...

CASIMIRO -- Que doida! que velha ridícula!

BRAZ -- Desta vez é a madrinha que traz nos olhos a trave; mas o argueiro que está nos teus é de um tamanho colossal...

CASIMIRO -- Eu sinto verdadeiro amor...

BRAZ -- Também a madrinha diz que o sente; é questão de mais ou menos cabelos brancos nos dois amores... mas... Irene chega... como vem formosa! afortunado Casimiro! ao gabinete, perverso.

CASIMIRO (Entrando) -- Conversa de modo que eu ouça distintamente.

BRAZ -- Podes contar com isso: conversarei fortíssimo.

CENA III

BRAZ, IRENE e CASIMIRO no gabinete

BRAZ -- Minha senhora, dou parabéns à minha fortuna, pois que a madrinha e dª. Clemência ainda estão aprimorando os seus toilettes, e Casimiro e Mário provavelmente mostrando os seus.

IRENE -- A fortuna de que fala é determinada pelo cruel dever de dar-lhe contas de mim ... compreendo que me cumpre falar, explicar-me, responder-lhe... mas custame... o vexame atormenta-me...

BRAZ -- Na minha qualidade de homem é evidente que tenho menos vergonha e rompo a discussão, começando pelo fim, o que é mais em regra. Casimiro a adora; a sua mão de esposa vai aditar-me... uma só palavra sua resumirá mil discursos; diga -- sim -- , e está acabada não, mas principiada a história, e que história? et coetera.

IRENE -- Devo ser franca: o sr. Casimiro está adiantado em anos e eu sou quase menina; poderia sentir por ele somente amor filial; como lhe consagrarei amor de noiva? o nosso casamento seria muito desigual, e ainda isso é o menos.

BRAZ -- Caio das alturas: pois há mais?... tenha a bondade de chegar-se para mim, que sou um pouco surdo (Perto do gabinete) pois há mais?

IRENE -- Há: disse que ele é demasiado velho para uma noiva de dezoito anos... tem três idades minhas.

BRAZ -- Como?... esta surdez martiriza-me...

IRENE (Mais alto) -- O sr. Casimiro tem três idades minhas.

BRAZ -- Ah! isso é o menos: o que é o mais?...

IRENE -- Pois que é necessário dizê-lo... confesso-o... eu já sou amada... e... amo...

BRAZ -- Como?...

IRENE (Mais alto) -- Já sou ... e amo...

BRAZ -- Ah! essa circunstância... bilateral é bilateralmente grave.

IRENE -- E ainda mais...

BRAZ -- Mais?... então é o infinito na desgraça de Casimiro... estou caído das alturas et coetera!

IRENE -- Não é o infinito, mas é o impossível moral e absoluto...

BRAZ -- Que ilusão a minha! e eu que contava... mas então...

IRENE -- O homem por quem sou amada, aquele que amo... sr. Braz...

BRAZ -- Querem ver que sou eu...

IRENE -- É... Mário... o filho do sr. Casimiro...

CENA IV

BRAZ, IRENE, CASIMIRO no gabinete e MÁRIO, no fundo

BRAZ -- Como? esta surdez é o diabo.

IRENE (Alto) -- O homem por quem sou amada... aquele que amo... é Mário...

BRAZ -- Mário? a atrapalhação é séria; porém...Mário é um estróina.

IRENE -- Tem o mais nobre coração... é jovem e belo; eu o amo...o seu defeito era a ociosidade... ama-me porém ternamente... (Abre-se a porta do gabinete; Casimiro com os traços decompostos; Mário ao fundo entusiasmado) eu conseguirei corrigi-la... e pelo encanto... pela pureza e santidade do nosso amor levá-lo a trabalhar, a ser útil a si, à sociedade, e a esquecer entretenimentos vãos. (Casimiro sai arrebatado ao mesmo tempo que Mário avança)

MÁRIO -- Prova! acabo de vender Hipogrifo. (Confusão de Casimiro)

IRENE -- Ah! meu Deus!

BRAZ (A Casimiro) -- Contém-te, Mário chegou apenas a poucos momentos, e nada ouviu sobre tuas loucas pretensões... é indispensável que ele as ignore sempre.

CASIMIRO (A Braz) -- Mas como está desmoralizada a mocidade! (A Irene) Minha senhora.

IRENE -- Sr... Casimiro...

CASIMIRO -- Peço perdão...entrei precipitado...

MÁRIO -- Foi a mais feliz surpresa, meu pai.

CASIMIRO -- Impertinente! sempre desassisado...

MÁRIO -- Porque vendi Hipogrifo? dois contos para raiz de fortuna abençoada pelo amor de um anjo.

BRAZ -- Adorável estróina, Deus te abençoe.

IRENE -- Eu me confundo... e preferiria ir ver as senhoras.

CASIMIRO (A Mário) -- Não compreendes que és inconveniente?

MÁRIO -- Pois há mal no que disse?... meu pai, amo dª. Irene, ela ama-me; logo nos amamos; eu era um vadio, agora vou trabalhar; prova de juízo, vendo Hipogrifo; o que falta só é que meu pai aprove o que falta.

CASIMIRO (A Braz) -- Que lição cruel, malvado!

BRAZ (A Casimiro) -- Deixa-te de tingir os cabelos; resigna-te à reforma de namorado et coetera, e sabe ser feliz pela felicidade de teus filhos.

CENA V

BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, VIOLANTE e CLEMÊNCIA

VIOLANTE -- Mil agradecimentos, dª. Irene, por ter vindo honrar o nosso jantar, que será o do meu noivado.

IRENE -- Renovo-lhe os meus parabéns, minha senhora; e o seu noivado quando será, dª. Clemência?! espero ser convidada.

CLEMÊNCIA -- Fiz dois votos: o primeiro para que nós duas tenhamos as nossas bodas no mesmo dia; o segundo, para que a titia assista a elas ainda solteira e sem noivo.

VIOLANTE -- Esta pobre invejosa não passa de praguenta amalucada: a minha dita lhe tira o sono e faz delirar; em parte devo desculpá-la: o meu casamento, dª. Irene, foi resolvido pelas linhas tortas com que Deus costuma escrever direito; principiou por brinquedo de aposta, e vai acabar em coisa séria. Ah! se eu lhe contasse toda a história... mas... bem vê que por fim de contas há no nosso sexo certas revoltas do pudor...

IRENE -- Oh!... sem dúvida...

BRAZ -- E com todas essas revoltas a madrinha casa-se por fim de contas et coetera!

CLEMÊNCIA -- Quem sabe? eu hei de ver para crer...

VIOLANTE -- O que pretendes é perturbar-me o espírito com temores vãos... ficaste vencida!

CLEMÊNCIA -- Confesso; mas espero ficar sem vencedora. (Impaciência de Violante) titia, a que horas devem chegar os seus três pretendentes?

VIOLANTE -- Às quatro horas precisas (Consulta o relógio) são apenas três... ainda tenho de esperar um século!

CLEMÊNCIA -- E em uma hora transforma-se o mundo. (A Braz) Estou com medo...

BRAZ (A Clemência) -- E eu não; confio muito nas misérias humanas.

CENA VI

BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e um criado, que apresenta em uma salva de prata uma carta a Violante e retira-se

VIOLANTE (A Clemência.) -- Vê de quem é essa carta e o que contém.

CLEMÊNCIA (Abre e lê.) -- Oh!

CASIMIRO -- Que é?

CLEMÊNCIA (Lendo.) -- “Minha senhora: cedendo, a meu pesar, a circunstâncias imperiosas, sou obrigado a desistir das minhas pretensões à mão veneranda de v. exa.; se, porém, o destino não me permite ser esposo, serei ao menos sempre de v. exa. o mais humilde criado... dr. Augusto de Melo.”

CASIMIRO -- E esta?

VIOLANTE -- É falso! Como não sei ler, a maldita invejosa abusa da minha ignorância. (Toma a carta e dá-a a Braz.) Braz, lê tu esta carta por fim de contas.

BRAZ (Depois de ler para si.) -- Tal e qual, madrinha! E a letra e a firma são do dr. Augusto. Custa a crer... mas este... foi-se! et coetera.

VIOLANTE (Dissimulando mal.) -- Por fim de contas, era esse o que menos me agradava dos três.

CLEMÊNCIA -- Ah, titia!...

VIOLANTE (Com força.) -- Ainda tenho dois.

CENA VII

BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e o criado, que apresenta segunda carta a Violante e vai-se.

MÁRIO -- Este criado tem cara de correio de más novas.

VIOLANTE (Confusa dá a carta a Braz.) -- Lê tu, meu Braz; lê porém direito...

BRAZ (Abre a carta e lê.) -- Et coetera!!! “Excelentíssima: tendo empregado três dias em refletir, como v. exa. me ordenou, cheguei à triste convicção de que me cumpre declarar com o mais profundo respeito e dor acerba que dou o dito por não dito, e sou de v. exa. o servo mais dedicado. -- Leopoldo Pereira.” Li muito direito: a madrinha quer arquivar a carta? (Apresentando-a.)

VIOLANTE -- Deita fora esse papel sujo!

CLEMÊNCIA -- A titia deve ter paciência, como eu tive...

VIOLANTE -- Não me fales!... ainda me ficou o melhor dos três... por fim de contas o mesmo que eu estava resolvida a preferir... (Senta-se agitada e abana-se forte.)

IRENE -- Mas de que modo se explica semelhante procedimento?

VIOLANTE -- Juro que são intrigas desta pombinha sem fel! (Mostra Clemência e abana-se muito.) Por fim de contas está fazendo muito calor!...

CENA VIII

BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e o criado, que apresenta terceira carta a Violante e vai-se.

CASIMIRO -- Terceira carta! Será possível que...

VIOLANTE (Vai dar a carta a Braz, e arrepende-se; dá-a a Irene.) -- Dª. Irene, a senhora é uma santa...

MÁRIO -- Apoiado, titia!

VIOLANTE -- Uma santa menina que não me enganará: leia, leia a senhora.

IRENE (Abre a carta e lê para si.) -- Ah! É demais! Não ouso...

VIOLANTE -- Leia, ainda que seja a minha sentença de morte.

IRENE (Lendo.) -- “Excelentíssima senhora: tenho a honra de participar a v. exa. que ontem fiz-me examinar por dois médicos, os quais me declararam com hipertrofia do coração, e condenado ao celibato para viver mais alguns anos que consagrarei ao amor platônico do belo sexo; assim, pois, coagido por força maior e maldizendo da minha hipertrofia, peço mil perdões a v. exa....

VIOLANTE (Arrebata e rasga a carta.) -- Basta! Muito obrigada pelo seu favor: por fim de contas... (A Clemência.) foste tu que os endemoninhaste... mas por fim de contas eles são três demônios.

BRAZ -- Madrinha, tudo que Deus faz é por melhor; veja que de três harpias escapou; se se casasse com algum deles sabe o que teria de sofrer?...

VIOLANTE (Encolerizada,) -- O que?... O que?... O que?...

BRAZ -- Teria de sofrer... et coetera, et coetera, madrinha.

CASIMIRO -- E ficamos sem noivo para o banquete do noivado!

BRAZ -- Menos essa... já temos um... (Mostrando Mário.) e eis aí outro.

CENA IX

BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE, LAURIANO e, logo depois, PORFÍRIO.

LAURIANO -- Minhas senhoras! Meus senhores! (Cumprimento.)

IRENE -- Vens radioso de alegria...

LAURIANO -- Felicitem-me! Acabo de saber que com ótima aprovação nos exames de suficiência, que fiz, estou habilitado para ensinar diversas matérias de instrução secundária e tenho já prévios ajustes para lecionar em quatro colégios: oito horas de trabalho por dia; mas é quase riqueza, e seria riqueza completa (olhando Casimiro e Clemência.) se me fosse dado reparti-la com a escolhida do meu coração...

BRAZ -- Et coetera, Casimiro, et coetera! Isso é claríssimo, e cai do céu; não cai do céu dª. Clemência?...

PORFÍRIO (Arrebatado.) -- Que é dele?... Que é dele?... Quero abraçá-lo.

CASIMIRO -- Quem?

PORFÍRIO -- O capitão Jorge de Souza? Que é dele?...

BRAZ (A Clemência.) -- Temo-la travada!

CLEMÊNCIA (A Braz.) -- Agora pouco importa.

PORFÍRIO -- Mas que é do capitão?

CASIMIRO -- Estás doido?

VIOLANTE -- Que capitão, senhor?... Não sabe que o meu infeliz primo Jorge morreu há dois anos em combate no Paraguai?

PORFÍRIO -- Mas ressuscitou: no Paraguai muitas vezes se ressuscita; aqui está a gazetilha do Jornal do Commercio de hoje... (Mostra o jornal.)

VIOLANTE -- Ressuscitou! Meu primo!...

PORFÍRIO -- Estão cambando?... A gazetilha diz que a notícia é dada pela família; aqui está (Lendo.): “O capitão Jorge de Souza, que todos julgavam morto, escapando ao inimigo que o tinha prisioneiro, apresentou-se aos seus bravos companheiros no mesmo dia da vitória do Campo Largo e chegou ontem a esta corte no transporte de guerra”

VIOLANTE -- Meu primo! Meu primo!

PORFÍRIO -- Mas é de pasmar! Não os entendo... a gazetilha fala na senhora...

VIOLANTE -- Em mim?... Essa é boa! Eu em letra redonda por fim de contas.

PORFÍRIO -- Aqui está! Diz, que conforme condição expressa do testamento de seu tio e padrinho, a senhora, sua única e universal herdeira, estava obrigada a entregar toda a herança ao filho, o capitão Jorge de Souza, se em qualquer tempo ele aparecesse vivo...

VIOLANTE -- Isso é uma grande mentira; não há tal condição no testamento!

PORFÍRIO -- Vamos a melhor!... A gazetilha acrescenta que a senhora ontem mesmo apressou-se a fazer plena entrega da imensa fortuna que herdara, ficando em completa pobreza, mas abençoando generosa a chegada de seu primo. (Violante mede Clemência de alto abaixo.) Explique-me esta embrulhada...

CLEMÊNCIA (Abaixando os olhos.) -- A titia perdoe... se a gazetilha não está bem redigida... para outra vez escreverei melhor.

PORFÍRIO -- Eu fico às escuras!... Que quer dizer isto?

BRAZ -- Foi uma aposta que acabou sem vencedora; pois o vencedor foi somente o dinheiro, que conquistou três miseráveis, logo depois fugidos em debandada ao anúncio da pobreza.

PORFÍRIO -- Fiquei na mesma; o Braz quando não diz et coetera é ininteligível.

VIOLANTE (A Braz.) -- Meu Braz, vexame até aqui! Por fim de contas não sei onde me esconda!

BRAZ (A Violante.) -- Espere, que eu a salvo já. (Alto.) Basta de enganar estes pobres meninos: Clemência e Lauriano, Irene e Mário, tendes sido desde alguns dias objetos do nosso inocente divertimento; aqui não há velha noiva ridícula, nem velho com pretensões anacrônicas: ajoelhai-vos diante da tia benfeitora e do pai extremoso!

MÁRIO e CLEMÊNCIA -- Como?... Então?...

BRAZ -- Mário, eis as dispensas necessárias para que no fim de oito dias estejas casado com dª. Irene; a assinatura de Casimiro nestes papéis esclarece tudo.

MÁRIO -- Meu bom pai!... (Recebe os papéis, e vai com Irene beijar a mão de Casimiro.)

CASIMIRO (A Braz.) -- Obrigado, Braz, obrigado. (Aperta-lhe a mão.)

BRAZ -- Dª. Clemência, a madrinha nunca pensou em casar-se, quer viver, e vive para seus parentes, e ontem ordenou-me que tivesse pronto para cada um de seus dois sobrinhos um dote de cinqüenta contos de réis.

CLEMÊNCIA -- Titia... escuse-me as travessuras... sempre a amei... (Beija-lhe a mão.)

MÁRIO -- Com o produto da venda de Hipogrifo, titia, são cinqüenta e dois contos de réis para a minha Irene; não quero porém desigualdades; cedo um conto de réis a Clemência, e beijo-lhe a mão... vem beijá-la também, Irene!...

VIOLANTE (À sobrinha e Irene, que lhe beijam a mão.) -- Me deixem!

BRAZ (A Violante.) -- Cem contos de réis pela lição, madrinha... e negócio da China; aceite e cale-se.

VIOLANTE (A Braz.) -- O que eu merecia era ir para o hospício de Pedro II; aceito e calo-me. (Alto.) E por fim de contas...

BRAZ -- Et coetera... et coetera...

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