Clara dos Anjos Histórias e Sonhos · Capítulo 16 de 22
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Clara dos Anjos

Clara dos Anjos

A Andrade Murici

O carteiro Joaquim dos Anjos não era homem de serestas e

serenatas, mas gostava de violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta,

instrumento que já foi muito estimado, não o sendo tanto atualmente

como outrora. Acreditava-se até músico, pois compunha valsas, tangos

e acompanhamentos para modinhas.

Aprendera a "artinha" musical na terra de seu nascimento, nos

arredores de Diamantina, e a sabia de cor e salteado; mas não safra daí.

Pouco ambicioso em música, ele o era também nas demais

manifestações de sua vida. Empregado de um advogado famoso, sempre

quisera obter um modesto emprego público que lhe desse direito à

aposentadoria e ao montepio, para a mulher e a filha. Conseguira

aquele de carteiro, havia quinze para vinte anos, com o qual estava

muito contente, apesar de ser trabalhoso e o ordenado ser exíguo.

Logo que foi nomeado, tratou de vender as terras que tinha no

local de seu nascimento e adquirir aquela casita de subúrbio, por

preço módico, mas, mesmo assim, o dinheiro não chegara e o resto

pagou ele em prestações. Agora, e mesmo há vários anos, estava de

plena posse dela. Era simples a casa. Tinha dois quartos, um que dava para a sala de visitas e outro, para a de jantar. Correspondendo a um

terço da largura total da casa, havia nos fundos um puxadito que era

a cozinha. Fora do corpo da casa, um barracão para banheiro, tanque,

etc.; e o quintal era de superfície razoável, onde cresciam goiabeiras

maltratadas e um grande tamarineiro copado.

A rua desenvolvia-se no plano e, quando chovia, encharcava

que nem um pântano; entretanto, era povoada e dela se descortinava

um lindo panorama de montanhas que pareciam cercá-la de todos os

lados, embora a grande distância. Tinha boas casas a rua. Havia até

uma grande chácara de outros tempos com aquela casa característica

de velhas chácaras de longa fachada, de teto acaçapado, forrada de

azulejos até â metade do pé-direito, um tanto feia, é fato, sem

garridice, mas casando-se perfeitamente com as anosas mangueiras,

com as robustas jaqueiras e com todas aquelas grandes e velhas árvores

que, talvez, os que as plantaram, não tivessem visto frutificar.

Por aqueles tempos, nessa chácara, se haviam estabelecido as

"bíblias". Os seus cânticos, aos sábados, quase de hora em hora,

enchiam a redondeza. O povo não os via com hostilidade, mesmo

alguns humildes homens e pobres raparigas simpatizavam com eles,

porque, justificavam, não eram como os padres que, para tudo,

querem dinheiro.

Chefiava os protestantes um americano, Mr. Sharp, homem

tenaz e cheio de uma eloqüência bíblica que devia ser magnífica em

inglês; mas que, no seu duvidoso português, se fazia simplesmente

pitoresca. Era Sharp daquela raça curiosa de yankees que, de quando

em quando, à luz da interpretação de um ou mais versículos da Bíblia,

fundam seitas cristãs, propagam-nas, encontram adeptos logo, os

quais não sabem bem por que foram para a nova e qual a diferença

que há entre esta e a de que vieram.

Fazia prosélitos e, quando se tratava de iniciar uma turma, os

noviços dormiam em barracas de campanha, erguidas no eirado da

chácara ou entre as suas velhas árvores maltratadas e desprezadas. As

cerimônias preparatórias duravam uma semana, cheia de cânticos

divinos; e a velha propriedade, com as suas barracas e salmodias,

adquiria um aspecto esquisito de convento ao ar livre de mistura com

um certo ar de acampamento militar.

Da redondeza, poucos eram os adeptos ortodoxos; entretanto,

muitos lá iam por mera curiosidade ou para deliciar-se com a

oratória de Mr. Sharp.

Iam sem nenhuma repugnância, pois é próprio do nosso

pequeno povo fazer um extravagante amálgama de religiões e

crenças de toda sorte, e socorrer-se desta ou daquela, conforme os

transes de sua existência. Se se trata de afastar atrasos de vida, apela

para a feitiçaria; se se trata de curar uma moléstia tenaz e resistente,

procura o espírita; mas não falem à nossa gente humilde em deixar de

batizar o filho pelo sacerdote católico, porque não há quem não se

zangue: Meu filho ficar pagão! Deus me defenda!

Joaquim não fazia exceção desta regra e sua mulher, a Engrácia,

ainda menos.

Eram casados há quase vinte anos, mas só tinham uma filha, a

Clara. O carteiro era pardo claro, mas com cabelo ruim, como se diz;

a mulher, porém, apesar de mais escura, tinha o cabelo liso.

Na tez, a filha puxava o pai; e no cabelo, à mãe. Na estatura,

ficara entre os dois. Joaquim era alto, bem alto, acima da média

ombros quadrados; a mãe, não sendo muito baixa, não alcançava a

média, possuindo uma fisionomia miúda, mas regular, o que não

acontecia com o marido que tinha o nariz grosso, quase chato. A filha,

a Clara, tinha ficado em tudo entre os dois; média deles, era bem a

filha de ambos. Habituada às musicatas do pai, crescera cheia de

vapores das modinhas e enfumaçara a sua pequena alma de rapariga

pobre com os dengues e a melancolia dos descantes e cantarolas.

Com dezessete anos, tanto o pai como a mãe tinham por ela

grandes desvelos e cuidados. Mais depressa ia Engrácia à venda de

"seu" Nascimento, buscar isto, ou aquilo, do que ela. Não que a venda

de "seu" Nascimento fosse lugar de badernas; ao contrário: as pessoas

que lá faziam "ponto" eram de todo o respeito.

O Alípio, uma delas, era um tipo curioso de rapaz, que, conquanto

pobre, não deixava de ser respeitador e bem comportado.

Tinha um aspecto de galo de briga; entretanto, estava longe de

possuir a ferocidade repugnante desses galos malaios de apostas, não

possuindo - é preciso saber - nenhuma.

Um outro que aparecia sempre lá era um inglês, Mr. Persons,

desenhista de uma grande oficina mecânica das imediações. Quando

saía do trabalho, passava na venda, lá se sentava naqueles característicos

tamboretes de abrir e fechar, e deixava-se ficar até ao anoitecer

bebericando ou lendo os jornais do senhor Nascimento. Silencioso

quase taciturno, pouco conversava e implicava muito com quem o

tratava por mister.

Havia lá também o filósofo Meneses, um velho hidrópico, que

se tinha na conta de sábio, mas que não passava de um simples

dentista clandestino, e dizia tolices sobre todas as cousas. Era um velho

branco, simpático, com um todo de imperador romano, barbas alvas

e abundantes.

Aparecia, às vezes, o J. Amarante, um poeta, verdadeiramente

poeta, que tivera o seu momento de celebridade em todo o Brasil, se

ainda não a tem; mas que, naquela época, devido ao álcool e a desgostos

íntimos, era uma triste ruína de homem, apesar dos seus dez

volumes de versos, dez sucessos, com os quais todos ganharam

dinheiro menos ele. Amnésico, semi-imbecilizado, não seguia uma

conversa com tino e falava desconexamente. O subúrbio não sabia

bem quem ele era; chamava-o muito simplesmente - o poeta.

Um outro freqüentador da venda era o velho Valentim, um por-

tuguês dos seus sessenta anos e pouco, que tinha o corpo curvado

para diante, devido ao hábito contraído no seu oficio de chacareiro

que já devia exercer há mais de quarenta. Contava 'casos" e anedotas

de sua terra, pontilhando tudo de rifões portugueses do mais

saboroso pitoresco.

Apesar de ser assim decente, Clara não ia à venda; mas o pai, em

alguns domingos, permitia que fosse com as amigas ao cinema do

Méier ou Engenho de Dentro, enquanto ele e alguns amigos ficavam

em casa tocando violão, cantando modinhas e bebericando parati.

Pela manhã, logo nas primeiras horas, os companheiros apareciam,

tomavam café, iam em seguida para o quintal, para debaixo do

tamarineiro, jogar a bisca, com o litro de cachaça ao lado; e

ai, sem dar uma vista d'olhos sobre as montanhas circundantes, nuas e

empedrouçadas, deixavam-se ficar até à hora do "ajantarado" que a

mulher e a filha preparavam.

Só depois deste é que as cantorias começavam.

Certo dia, um dos companheiros dominicais do Joaquim pediu-lhe licença para

trazer, no dia do aniversário dele, que estava próximo, um rapaz de

sua amizade, o Júlio Costa, que era um exímio cantor de modinhas.

Acedeu. Veio o dia da festa e o famoso trovador apareceu. Branco,

sardento, insignificante, de rosto e de corpo, não tinha as tais melenas

denunciadoras, nem outro qualquer traço de capadócio. Vestia-se

seriamente com um apuro muito suburbano; sob a tesoura de

alfaiate de quarta ordem. A única pelintragem adequada ao seu mister

que apresentava consistia em trazer o cabelo repartido no alto da

cabeça, dividido muito exatamente pelo meio. Acompanhava-o o violão.

A sua entrada foi um sucesso.

Todas as moças das mais diferentes cores que, ai, a pobreza

harmonizava e esbatia, logo o admiraram. Nem César Bórgia,

entrando mascarado, num baile à fantasia dado por seu pai, no

Vaticano, causaria tanta emoção.

Afirmavam umas para as outras:

-É ele! É ele, sim!

Os rapazes, porém, não ficaram muito contentes com isto; e,

entre eles, puseram-se a contar histórias escabrosas da vida galante

do cantor de modinhas.

Apresentado aos donos da casa e à filha, ninguém notou o olhar

guloso que deitou para os seios empinados de Clara.

O baile começou com a música de um "terno" de flauta, cavaquinho

e violão. A polca era a dança preferida e quase todos a dançavam com requebros

próprios de samba.

Num intervalo Joaquim convidou:

- Por que não canta, "seu" Júlio?

- Estou sem voz, respondeu ele.

Até ali, ele tinha tomado parte no "remo"; e, repinicando as

cordas, não deixava de devorar com os olhos os bamboleios de quadris de

Clarinha, quando dançava. Vendo que seu pai convidara o rapaz,

animou-se a fazê-lo também:

- Por que não canta, "seu" Júlio? Dizem que o senhor canta tão

bem...

Esse - "tão bem" - foi alongado maciamente. O cantador

acudiu logo:

- Qual, minha senhora! São bondades dos camaradas...

Concertou a "pastinha" com as duas mãos, enquanto Clara dizia:

- Cante! Vá!

- Já que a senhora manda, disse ele, vou cantar.

Com todo o dengue, agarrou o violão, fez estalar as cordas e anunciou:

- Amor e sonho.

E começou com uma voz muito alta, quase berrando, a modinha,

para depois arrastá-la num tom mais baixo, cheio de mágoa e langor,

sibilando os "ss", carregando os "rr" das metáforas horrendas de que

estava cheia a cantoria. A cousa era, porém, sincera; e mesmo as comparações

estrambóticas levantavam nos singelos cérebros das ouvintes largas

perspectivas de sonhos, erguiam desejos, despertavam anseios e visões

douradas. Acabou. Os aplausos foram entusiásticos e só Clarínha não aplaudiu,

porque, tendo sonhado durante toda a modinha, ficara ainda embevecida quando

ela acabou...

Dias depois, vindo à janela por acaso - era de tarde - sem

grande surpresa, como se já o esperasse, Clara recebeu o cumprimento

do cantor magoado. Não pôs malícia na cousa, tanto assim que

disse candidamente à mãe:

- Mamãe, sabe quem passou aí?

- Quem?

- "Seu" Júlio.

- Que Júlio?

- Aquele que cantou nos "anos" de papai.

A vida da casa, após a festança de aniversário do Joaquim,

continuou a ser a mesma. Nos domingos, aquelas partidas de bisca com

o Eleutério, servente da biblioteca, e com o Augusto, guarda municipal,

acompanhadas de copitos de cachaça, e o violão, à tarde. Não tardou

que se viesse agregar um novo comensal: era o Júlio Costa, o famoso

modinheiro suburbano, amigo íntimo do Augusto e seu professor de

trovas.

Júlio quase nunca jantava, pois tinha sempre convites em todos os

quatro pontos cardeais daquelas paragens. Tomava parte nas partidas

de bisca, de parceirada, e pouco bebia. Apesar de não demorar-se

pela tarde adentro, pôde ir cercando a rapariga, a Clara, cujos seios

empinados, volumosos e redondos fascinavam-lhe extraordinariamente

e excitavam a sua gula carnal insaciável. Em começo foram só

olhares que a moça, com os seus úmidos olhos negros, grandes,

quase cobrindo toda a esclerótica, correspondia a furto e com medo;

depois, foram pequenas frases, galanteios, trocados às escondidas,

para, afinal, vir a fatídica carta.

Ela a recebeu, meteu-a no seio e, ao deitar-se, leu-a, sob a luz da

vela, medrosa e palpitante. A carta era a cousa mais fantástica, no que

diz respeito à ortografia e à sintaxe, que se pode imaginar; tinha,

porém, uma virtude: não era copiada do Secretário dos amantes, era

original. Contudo a missiva fez estremecer toda a natureza virgem de

Clara que, com a sua leitura, sentiu haver nela surgido alguma cousa

de novo, de estranho, até ali nunca sentida. Dormiu mal. Não sabia

bem o que fazer: se responder, se devolver. Viu o olhar severo do pai;

as recriminações da mãe. Ela, porém, precisava casar-se. Não havia de

ser toda a vida assim como um cão sem dono... Os pais viriam a morrer

e ela não podia ficar pelo mundo desamparada... Uma dúvida lhe

veio: ele era branco; ela, mulata... Mas que tinha isso?

Tinham-se visto tantos casos... Lembrou-se de alguns... Por que não havia de

ser? Ele falava com tanta paixão... Ofegava, suspirava, chorava; e os

seus seios duros estouravam de virgindade e de ansiedade de amar...

Responderia; e assim fez, no dia seguinte. As visitas de Costa

tomaram-se mais demoradas e as cartas mais constantes. A mãe

desconfiou e perguntou à filha:

- Você está namorando "seu" Júlio, Clarinha?

- Eu, mamãe! Nem penso nisso...

- Está, sim! Então não vejo?

A menina pôs-se a chorar; a mãe não falou mais nisso; e Clara,

logo que pôde, mandou pelo Aristides, um molecote da vizinhança,

uma carta ao modinheiro, relatando o fato.

Júlio morava na estação próxima e a situação de sua família era

bem superior à sua namorada. O seu pai tinha um emprego regular

na prefeitura e era, em tudo, diferente do filho. Sisudo, grave, sério,

ia até a imponência grotesca do bom funcionário; e não seria capaz

de admitir que a namorada do filho dançasse na sua sala. Sua mulher

não tinha o ar solene do marido, era, porém, relaxada de modos e

hábitos. Comia com a mão, andava descalça, catava intrigas e

"novidades" da vizinhança; mas tinha, apesar disso, uma pretensão

intima de ser grande cousa, de uma grande família.

Além do Júlio, tinha três filhas, uma das quais já era adjunta municipal;

e, das outras duas,

uma estava na Escola Normal e a mais moça cursava o Instituto de Música.

Tiravam muito ao pai, no gênio sobranceiro, no orgulho fofo da

família; e tinham ambição de casamentos doutorais. Mercedes,

Adelaide e Maria Eugênia, eram esses os nomes, não suportariam de

nenhuma forma Clara como cunhada, embora desprezassem soberbamente

o irmão pelos seus maus costumes, pelo seu violão, pelos

seus plebeus galos de briga e pela sua ignorância crassa.

Pequeno-burguesas, sem nenhuma fortuna, mas, devido à situação

do pai e a terem freqüentado escolas de certa importância, elas não

admitiriam, para Clara, senão um destino: o de criada de servir.

Entretanto, Clara era doce e meiga; inocente e boa, podia-se

dizer que era muito superior ao irmão delas pelo sentimento, ficando

talvez acima dele pela instrução, conquanto fosse rudimentar, como

não podia deixar de ser, dada a sua condição de rapariga pobríssima.

Júlio era quase analfabeto e não tinha poder de atenção suficiente

para ler o entrecho de uma fita de cinematógrafo. Muito estúpido, a

sua vida mental se cifrava na composição de modinhas delambidas,

recheadas das mais estranhas imagens que a sua imaginação erótica,

sufocada pelas conveniências, criava, tendo sempre perante seus

olhos o ato sexual.

Mais de uma vez, ele se vira a braços com a polícia por causa de

defloramento e seduções de menores.

O pai, desde a segunda, recusara intervir; mas a mãe, dona Inês,

a custo de rogos, de choro, de apelo - para a pureza de sangue da

família, conseguira que o marido, o capitão Bandeira, procurasse

influenciar, a fim de evitar que o filho casasse com uma negrinha de

dezesseis anos, a quem o Júlio "tinha feito mal".

Apesar de não ser totalmente má, os seus preconceitos junto à

estreiteza da sua inteligência não permitiram ao seu coração que

agasalhasse ou protegesse o seu infeliz neto. Sem nenhum remorso,

deixou-o por aí, à toa, pelo mundo...

O pai, desgostoso com o filho, largara-o de mão; e quase não se

viam. Júlio vivia no porão da casa ou nos fundos da chácara onde

tinha gaiolas de galos de briga, o bicho mais hediondo, mais repugnantemente

feroz que é dado a olhos humanos ver. Era a sua indústria

e o seu comércio, esse negócio de galos e as suas brigas em rinhadeiros.

Barganhava-os, vendia-os, chocava as galinhas, apostava nas rinhas;

e com o resultado disso e com alguns cobres que a mãe lhe dava,

vivia e obtinha dinheiro para vestir-se. Era o tipo completo do

vagabundo doméstico, como há milhares nos subúrbios e em outros

bairros do Rio de Janeiro.

A mãe, sempre temendo que se repetissem os seus ajustes de

contas com a polícia, esforçava-se sempre por estar ao corrente dos

seus amores. Veio a saber do seu último com a Clara e repreendeu-o

nos termos mais desabridos. Ouviu-a o filho respeitosamente, sem

dizer uma palavra; mas, julgou da boa política relatar, a seu modo,

por carta, tudo à namorada. Assim escreveu:

"Queridinha confeço-te que ontem quando recebi a tua carta

minha mãe viu e fiquei tão louco que confecei tudo a mamãe

que lhe amava muito e fazia por você as maiores violências,

ficaram todos contra mim é a razão porque previno-te que não

ligues ao que lhe disserem, por isso pesso-te que preze bem o

meu sofrimento.

Pense bem e veja se estás resolvida a fazer o

que lhe pedi na última cartinha.

Saudades e mais saudades deste infeliz que tanto lhe adora e

não é correspondido. O teu Júlio".

Clara já estava habituada com a redação e ortografia do seu

namorado, mas, apesar de escrever muito melhor, a sua instrução era

insuficiente para desprezar um galanteador tão analfabeto. Ainda por

cima, a sua fascinação pelo modinheiro e a sua obsessão pelo casamento

lhe tiravam toda a capacidade critica que pudesse ter. A carta

produziu o efeito esperado por Júlio. Choro, palpitações, anseios vagos,

esperanças nevoentas, vislumbres de céus desconhecidos e encantados

- tudo isso aquela carta lhe trouxe, além do halo de dedicação e amor

por ela com que Clara fez resplandecer, na imaginação, as pastinhas

do violeiro. Daí a dias, fez o prometido, isto é, deixou a janela do

quarto aberta para que ele entrasse no aposento. Repetiu a façanha

quase todas as noites seguidas, sem que ele se demorasse muito

no quarto.

Nos domingos, aparecia, cantava e semelhava que entre ambos

não havia nada. Um belo dia, Clara sentiu alguma cousa de estranho

no ventre. Comunicou ao namorado. Qual! Não era nada, disse ele.

Era, sim; era o filho. Ela chorou, ele acalmou-a, prometendo

casamento. O ventre crescia, crescia...

O cantador de modinhas foi fugindo, deixou de aparecer a

miúdo; e Clara chorava. Ainda não lhe tinham percebido a gravidez.

A mãe, porém, com auxilio de certas intimidades próprias de mãe

para filha, desconfiou e pó-la em confissão. Clara não pôde esconder,

disse tudo; e aquelas duas humildes mulheres choraram abraçadas

diante do irremediável... A filha teve uma idéia:

- Mamãe, antes da senhora dizer a papai, deixa-me ir até à casa

dele, para falar com a sua mãe?

A velha meditou e aceitou o alvitre:

- Vai!

Clara vestiu-se rapidamente e foi. Recebida com altaneria por

uma das filhas, disse que queria falar à mãe de Júlio. Recebeu-a esta

rispidamente; mas a rapariga, com toda a coragem e com sangue-frio

difícil de crer, confessou-lhe tudo, o seu erro e a sua desdita.

- Mas o que é que você quer que eu faça?

- Que ele se case comigo, fez Clara num só hausto.

- Ora, esta! Você não se enxerga! Você não vê mesmo que

meu filho não é para se casar com gente da laia de você! Ele não

amarrou você, ele não amordaçou você... Vá-se embora, rapariga!

Ora já se viu! Vá!

Clara saiu sem dizer nada, reprimindo as lágrimas, para que na

rua não lhe descobrissem a vergonha. Então, ela? Então ela não se

podia casar com aquele calaceiro, sem nenhum título, sem nenhuma

qualidade superior? Por quê?

Viu bem a sua condição na sociedade, o seu estado de inferioridade

permanente, sem poder aspirar a cousa mais simples a que todas

as moças aspiram. Para que seriam aqueles cuidados todos de seus

pais? Foram inúteis e contraproducentes, pois evitaram que ela

conhecesse bem justamente a sua condição e os limites das suas

aspirações sentimentais... Voltou para casa depressa. Chegou; o pai

ainda não viera.

Foi ao encontro da mãe. Não lhe disse nada; abraçou-a chorando.

A mãe também chorou e, quando Clara parou de chorar, entre soluços, disse:

- Mamãe, eu não sou nada nesta vida.

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