Quase doutor Vida Urbana · Capítulo 31 de 90
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Quase doutor

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A nossa instrução pública cada vez que é reformada, re­serva para o observador surpresas admiráveis. Não há oito dias, fui apresentado a um moço, aí dos seus vinte e poucos anos, bem posto em roupas, anéis, gravatas, bengalas, etc. O meu amigo Seráfico Falcote, estudante, disse-me o amigo co­mum que nos pôs em relações mútuas.

O senhor Falcote logo nos convidou a tomar qualquer coisa e fomos os três a uma confeitaria. Ao sentar-se, assim falou o anfitrião:

-- Caxero traz aí quarqué cosa de bebê e comê .

Pensei de mim para mim: esse moço foi criado na roça, por isso adquiriu esse modo feio de falar. Vieram as bebidas e ele disse ao nosso amigo:

-- Não sabe Cunugunde: o véio tá i .

O nosso amigo comum respondeu:

-- Deves então andar bem de dinheiros.

-- Quá ele tá i nós não arranja nada. Quando escrevo é aquela certeza. De boca, não se cava... O véio óia, óia e dá o fora .

Continuamos a beber e a comer alguns camarões e em­padas. A conversa veio a cair sobre a guerra européia. O estudante era alemão dos quatro costados.

-- Alamão, disse ele, vai vencer por uma força. Tão aqui, tão em Londres .

-- Qual!

- Pois óie: eles toma Paris, atravessa o Sena e é um dia inguelês .

Fiquei surpreendido com tão furioso tipo de estudante.

Ele olhou a garrafa de vermouth e observou: Francês tem muita parte... Escreve de um jeito e fala de outro.

-- Como?

-- Óie aqui: não está vermouth, como é que se diz "vermute"? Pra que tanta parte?

Continuei estuporado e o meu amigo, ou antes, o nosso amigo parecia não ter qualquer surpresa com tão famigerado estudante.

-- Sabe, disse este, quase que fui com o dôtô Lauro .

-- Porque não foi? perguntei.

-- Não posso andá por terra .

-- Tem medo?

-- Não. Mas óie que ele vai por Mato Grosso e não gosto de andá pelo mato .

Esse estudante era a coisa mais preciosa que tinha encontrado na minha vida. Como era ilustrado! Como falava bem! Que magnífico deputado não iria dar? Um figurão para o partido do Rapadura.

O nosso amigo indagou dele em certo momento:

-- Quando te formas?

-- No ano que vem .

Caí das nuvens. Este homem já tinha passado tantos exames e falava daquela forma e tinha tão firmes conheci­mentos!

O nosso amigo indagou ainda:

-- Tens tido boas notas?

-- Tudo. Espero tirá a medaia .

Careta , Rio, 8-5-1915.

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