Parte VI A Dívida · Capítulo 6 de 7
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Parte VI

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Entretanto, mal sabia Montenegro que Lalá concebera um plano extravagante e o punha em prática enquanto ele, tranqüilo e despreocupado, imaginava que ela o houvesse posto à margem. Depois de aconselhar-se com a tia, que não primava pelo bom senso, a professora de piano e canto encheu-se de decisão e coragem, foi ter com o Doutor Veloso no seu escritório e disse-lhe que desejava dar-lhe duas palavras em particular.

A beleza de Lalá deslumbrou o advogado, e, como este era extremamente vaidoso, viu logo ali uma conquista amorosa em perspectiva.

-- Tenha a bondade de entrar neste gabinete, minha senhora.

Lalá entrou, sentou-se num divã, e contou ao Doutor Veloso toda a sua vida, repetindo, palavra por palavra, o que dissera a Montenegro durante o jantar do Conselheiro Brito.

Admirado de tanta loquacidade e de tanto espírito, Veloso perguntou-lhe, terminada a história, em que poderia servi-la.

-- Sou amada por um homem que é digno de mim, e o nosso casamento depende exclusivamente do doutor.

-- De mim?

-- A minha ventura está nas suas mãos. Custa-lhe apenas vinte contos de réis. Não quero crer que o doutor se negue a pagar por essa miserável quantia a felicidade... de uma órfã.

-- Não compreendo.

-- Compreenderá quando eu lhe disser que o homem por quem sou amada é o seu amigo e colega Doutor Gustavo Montenegro.

-- Ah! ah!...

-- Escusado é dizer que ele ignora absolutamente a resolução, que tomei, de vir falar-lhe.

-- Acredito.

-- Qual é a sua resposta?

-- Minha senhora, balbuciou Veloso, sorrindo; eu tenho algum dinheiro, tenho.. . mas perder assim vinte contos de reis...

-- Recusa?

-- Não, não recuso; mas peço algum tempo para refletir. Depois de amanhã venha buscar a resposta.

A conversação continuou por algum tempo, e Veloso começou a sentir pela moça a mesmíssima impressão que ela causara a Montenegro.

Lalá notou o efeito que produzia, e pôs em distribuição todos os seus diabólicos artifícios de mulher astuta e avisada.

-- Feliz Gustavo!

-- Feliz... por quê?

-- É amado!

-- Oh! não vá agora supor que ele me inspirasse uma paixão desenfreada!

-- Ah!

-- É um marido que me convém, isso é; mas se o doutor não abrir mão da dívida, e ele não se puder casar, não creia que eu me suicide!

Ouvindo esta frase, Veloso adiantou-se tanto, tanto, que, dois dias depois, quando Lalá foi saber a resposta, ele recebeu-a com estas palavras:

-- Não!... Se eu abrisse mão dos vinte contos, ele seria seu marido, e...

-- E...?

-- E eu... tenho ciúmes.

No dia seguinte ele era apresentado à tia, manejo aconselhado pela própria velha.

-- Este é mais rico, mais bonito e até mais inteligente que o outro... Não o deixes escapar, minha filha!

A verdade é que Veloso não se introduziu em casa de Lalá com boas intenções; mas a esperteza da moça e as indiscrições do advogado determinaram em breve uma situação de que ele não pôde recuar.

Imagine-se a surpresa de Montenegro quando lhe anunciaram o casamento de Lalá com o seu colega, e a indignação que dele se apoderou quando por portas travessas veio ao conhecimento do modo singular por que fora ajustado esse consórcio imprevisto.

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