Pepita Pepita · Capítulo 1 de 1
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Pepita

Minh'alma é mundo virge' - ilha perdida -

Em lagos de cristais;

Vem, Pepita, - Colombo dos amores, -

Vem descobri-lo, no país das flores

Sultana reinarás!

Eu serei teu vassalo e teu cativo

Nas terras onde és rei

A sombra dos bambus vem tu ser minha

Teu reinado de amor, doce rainha,

Na lira cantarei.

Minh'alma é como o pombo inda sem penas

Sozinho a pipilar;

- Vem tu, Pepita, visitá-lo ao ninho;

As asas a bater, o passarinho

Contigo irá voar.

Minh'alma é como a rocha toda estéril

Nos plainos do Sarah;

Vem tu - fada de amor - dar-lhe co'a vara...

- Qual do penedo que Moisés tocara

O jorro saltará.

Minh'alma é um livro lindo, encadernado,

Co'as folhas em cetim;

- Vem tu, Pepita, soletrá-lo um dia...

Tem poemas de amor, tem melodia

Em cânticos sem fim!

Minh'alma é o batel prendido à margem

Sem leme, em ócio vil

- Vem soltá-lo, Pepita, e correremos

- Soltas as velas - desprezando remos,

Que o mar é todo anil.

Minh'alma é um jardim oculto em sombras

Co'as flores em botão;

- Vem ser da primavera o sopro louco,

Vem tu, Pepita, bafejar-me um pouco

Que as rosas abrirão.

O mundo em que eu habito tem mais sonhos,

A vida mais prazer;

- Vem, Pepita, das tardes no remanso,

Da rede dos amores no balanço

Comigo adormecer.

Oh! vem! eu sou a flor aberta à noite

Pendida no arrebol!

Dá-me um carinho dessa voz lasciva,

E a flor pendida s'erguerá mais viva

Aos raios desse sol!

Bem vês, sou como a planta que definha

Torrada do calor.

- Dá-me o riso feliz em vez da mágoa...

O lírio morto quer a gota d'água,

- Eu quero o teu amor!

A toi! toujours a toi!

V. Hugo.

Rio - 1858.

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