A Noite Santa
A Noite Santa
Quando eu tinha cinco anos, sofri uma grande tristeza: morreu minha avó. Até então ela se sentava todos os dias no sofá do quarto e contava histórias. Não me lembro de muito mais sobre ela, mas recordo sua voz, suas mãos pousadas sobre mim e as narrativas que pareciam abrir o mundo.
Uma dessas histórias falava de um homem que saiu certa noite para pedir fogo. Sua mulher acabara de dar à luz, e ele precisava acender uma fogueira para aquecer a mãe e a criança.
Era noite escura. O homem caminhou até avistar, ao longe, o brilho de brasas. Aproximou-se e viu um pastor adormecido, cercado por ovelhas. Três cães enormes guardavam o rebanho. Quando o homem chegou, os cães despertaram e avançaram contra ele; mas, embora abrissem as bocas para morder, nenhum dente o feriu.
O homem passou entre eles e chegou ao fogo. As ovelhas estavam tão juntas que formavam uma muralha de lã. Ele pisou sobre elas sem que nenhuma se mexesse ou reclamasse. Também o pastor, ao acordar, tomou seu cajado e o arremessou contra o estranho; mas o cajado desviou-se no ar e caiu longe.
Então o homem pediu brasas para aquecer sua mulher e seu filho. O pastor era duro de coração e quis negar. Mas, vendo que cães, ovelhas e cajado não conseguiam ferir aquele homem, sentiu medo e permitiu que levasse fogo.
Não havia pá nem vaso. O homem tomou as brasas com as mãos nuas e as pôs em seu manto. Elas não queimaram sua pele nem seu tecido. Então o pastor, espantado, pensou: Que noite é esta, em que os cães não mordem, as ovelhas não fogem, o cajado não fere e o fogo não queima?
Levantou-se e seguiu o homem. Encontrou-o em uma gruta pobre, onde uma mulher repousava com uma criança recém-nascida. O pastor viu a miséria deles e, tocado, ofereceu uma pele de ovelha para cobrir o menino.
No mesmo instante seus olhos se abriram. Viu ao redor anjos em multidão, e todos cantavam que naquela noite nascera o Salvador. Então compreendeu por que toda a natureza se mostrara mansa e cheia de reverência.
Minha avó terminava dizendo: Não depende de lâmpadas nem de velas. Não depende do sol nem da lua. O necessário é ter olhos capazes de ver a glória de Deus.