Natal nas Montanhas
Natal nas Montanhas
A tarde descia tranquila e bela. Era 24 de dezembro, e a noite de Natal se aproximava das montanhas com sua sombra sagrada. Eu caminhava por veredas altas, entre pinheiros e rochedos, quando me perdi do caminho e comecei a procurar abrigo.
Ao longe vi luzes. Eram as casas de um povoado escondido no vale. Desci até lá e fui recebido com bondade por um velho sacerdote, homem simples, alegre e firme, que parecia conhecer cada família, cada dor e cada esperança daquele lugar.
Logo percebi que o Natal ali não era festa de luxo, mas de comunidade. As casas se preparavam com o pouco que possuíam; as crianças cantavam; os trabalhadores voltavam dos campos; as mulheres acendiam fogos e punham à mesa o que havia. Tudo era humilde, mas nada era miserável, porque uma alegria comum atravessava o povoado.
O sacerdote contou-me sua história. Havia chegado àquelas montanhas quando o lugar era pobre, dividido e quase abandonado. Em vez de impor autoridade fria, escolhera viver entre os moradores, ensinar as crianças, curar os enfermos, pacificar inimigos e mostrar que religião também podia ser trabalho, escola e pão repartido.
Naquela noite vi as posadas, ouvi villancicos, acompanhei a missa e compreendi como a fé popular se misturava ao frio da serra, ao cheiro de lenha, ao riso dos pequenos e à memória dos ausentes. O presépio não era apenas imagem: repetia-se na própria pobreza digna do povo.
Também havia amor na história: amor à terra, à infância, às tradições e à possibilidade de reconciliação depois de guerras e violências. O Natal nas montanhas não apagava as feridas do México, mas acendia uma pequena luz sobre elas.
Quando a madrugada chegou, eu já não era apenas um viajante perdido. Levava comigo a lembrança de um povoado onde a bondade parecia possível porque era praticada todos os dias. E pensei que, enquanto houvesse lugares assim, escondidos entre montanhas, a esperança ainda teria onde nascer.