A Pantufa de Safo
A Pantufa de Safo
Em Viena, onde o teatro às vezes parece mais real que a própria vida, um jovem admirador viu no palco uma atriz que lhe pareceu antiga e nova ao mesmo tempo: Safo ressuscitada sob luzes modernas, mulher de arte, canto e soberania.
Não se apaixonou apenas por sua beleza. Apaixonou-se pela imagem que ela criava: o gesto medido, a voz que dominava a sala, a delicadeza cruel com que fazia sofrer os personagens e, por meio deles, também o público.
Uma pequena pantufa, esquecida ou recebida como relíquia, tornou-se para ele sinal de culto. Era objeto mínimo, quase ridículo, mas continha todo o teatro: o passo sobre o palco, a distância entre adorador e ídolo, a promessa de uma intimidade que talvez nunca existisse.
O jovem escreveu cartas, esperou respostas, confundiu cortesia com destino. A atriz, habituada à devoção dos homens e ao brilho enganoso da ribalta, ora sorria, ora se afastava. Sabia que a paixão do espectador alimenta a artista, mas também a ameaça, porque deseja transformar representação em posse.
A pantufa passou de lembrança a fetiche. O admirador via nela não couro e tecido, mas a própria forma de sua submissão estética. Amar Safo era aceitar que a arte pisa sobre quem a venera. E, no entanto, esse peso parecia doce.
Aos poucos, ele compreendeu que amava menos a mulher real que a figura criada por sua imaginação. A atriz fora tela; ele pintara sobre ela sua fome de beleza, de humilhação e de absoluto. Quando enfim a distância se impôs, restou-lhe a pantufa como uma pequena ironia: o objeto que prometera aproximação provava apenas a distância.
Assim termina a história de uma paixão teatral: não com escândalo, mas com a melancolia de quem percebe que certos amores pertencem ao palco. Quando a cortina cai, a sala escurece; mas o coração, esse espectador obstinado, continua aplaudindo no vazio.