Páginas do Islã
Páginas do Islã
O caminho branco atravessava a luz dura da Argélia. Ao longe, as casas baixas pareciam feitas da mesma poeira que o chão; acima delas, o céu permanecia vasto, imóvel, quase severo.
A viajante avançava sem a pressa dos que procuram chegar. Para ela, o deserto não era vazio: era uma escrita lenta, feita de silêncio, vento, passos de homens, sombra de palmeiras, vozes de oração e olhos acostumados à distância.
Nas aldeias, via pobres sentados junto às portas, crianças descalças, mulheres que passavam como aparições discretas, cavaleiros envoltos em burnus claros. Havia dureza em tudo, mas também uma dignidade que não pedia licença ao olhar europeu.
Quando o chamado da oração subia, o mundo parecia deter-se. O gesto dos fiéis não era espetáculo; era ordem interior. Curvar-se, tocar a terra, levantar-se: cada movimento ligava o corpo à poeira e a poeira ao eterno.
Isabelle observava sem querer possuir. Sabia que a paisagem argelina não se entregava a quem a atravessava como turista. Era preciso aceitar a sede, a lentidão, a solidão, e também a estranha liberdade de não pertencer completamente a lugar nenhum.
À noite, sob as estrelas, as histórias vinham em voz baixa: santos, guerreiros, mulheres fiéis, homens perdidos, caminhos para zaouias remotas. O Islã dessas páginas não era abstração de livro, mas vida respirada: pão repartido, hospitalidade, resignação, orgulho e mistério.
E a viajante, que escolhera a errância como pátria, reconhecia ali algo de si mesma. Entre a cidade colonial e o deserto antigo, entre línguas e costumes, procurava uma verdade áspera: a de que só é livre quem aprende a caminhar sem exigir que o mundo se explique.