Nocturno Nocturno · Capítulo 1 de 1
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Nocturno

Nocturno

Uma noite, uma noite cheia de perfumes, de murmúrios e de música de asas; uma noite em que ardiam, na sombra úmida e nupcial, vaga-lumes fantásticos; uma noite em que caminhavas a meu lado, lentamente, junto de mim, toda muda e pálida, como se um pressentimento de amarguras infinitas te agitasse até o fundo mais secreto.

Pela senda que atravessava a planície florida, caminhavas. E a lua cheia derramava nos céus profundos sua luz branca. A tua sombra, fina e lânguida, caía sobre a areia; e a minha sombra, projetada pelos raios lunares, seguia ao lado da tua.

As duas sombras se buscavam. As duas sombras se juntavam. As duas sombras, alongadas pela luz, pareciam viver uma vida mais silenciosa que a nossa. E nós, caminhando, sentíamos que a noite guardava algo de despedida, embora nenhum de nós ousasse dizê-lo.

Depois veio outra noite, uma noite de ausência. A mesma lua parecia fria; os mesmos caminhos pareciam vazios. A minha sombra ia sozinha pela planície solitária. Ia só. Ia só. Ia só pela estepe muda.

Então a memória trouxe de volta a tua sombra esbelta, ágil, fina e lânguida. Ela se aproximou da minha, marchou com ela, uniu-se a ela como naquela noite morna de primavera morta, cheia de perfumes, murmúrios e música de asas.

Ó sombras enlaçadas. Ó sombras que se procuram e se juntam nas noites de trevas e lágrimas. O corpo perde o que ama; a lembrança, porém, continua a desenhar no chão a companhia impossível.

Nocturno é esse canto de presença e perda. A amada já não caminha ao lado do poeta, mas a sombra dela retorna, e com ela volta tudo o que a noite permitiu sentir: o perfume, a lua, o silêncio, a dor de saber que certos encontros sobrevivem apenas como imagem projetada pela memória.

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