O Licenciado Vidraça O Licenciado Vidraça · Capítulo 1 de 1
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O Licenciado Vidraça

O Licenciado Vidraça

Tomás Rodaja era rapaz de origem modesta e inteligência viva. Encontrado por estudantes que reconheceram nele graça e talento, seguiu caminho de letras, viagens e experiência. Aprendeu línguas, viu cidades, serviu, estudou e cresceu em fama de espírito agudo.

Mas a vida de Cervantes gosta de mudar por acidente. Uma mulher, ofendida por não ser amada, deu-lhe um feitiço ou veneno. Tomás adoeceu profundamente e, ao recuperar-se, trouxe consigo uma loucura singular: acreditava ser feito de vidro.

Desde então, evitava aproximações, temia abraços, fugia de qualquer toque. Dormia sobre palha, caminhava com cuidado, e suplicava que ninguém o quebrasse. O corpo imaginário era frágil; a língua, porém, tornou-se afiada.

A cidade passou a procurá-lo. Chamavam-no Licenciado Vidraça. Como louco, podia dizer verdades que os prudentes calavam. A comerciantes, soldados, poetas, juízes e vaidosos, respondia com sentenças rápidas e cruéis. Seu delírio protegia sua lucidez.

Cervantes constrói aí uma sátira social perfeita. A Espanha ri do homem que se pensa vidro, mas ele enxerga rachaduras em todos os outros. Cada resposta desmonta uma pretensão; cada piada deixa uma pequena ferida moral.

Mais tarde, Tomás recupera a razão. Volta a ser homem comum, formado, capaz. Mas o público, que adorava o louco espirituoso, perde interesse pelo sábio curado. Sem a máscara da loucura, suas verdades já não divertem.

O Licenciado Vidraça pergunta, com ironia amarga, que tipo de sociedade prefere a verdade apenas quando ela vem autorizada pelo ridículo. Talvez todos sejamos frágeis, feitos de vidro de alguma maneira. A diferença é que Tomás teve coragem involuntária de dizê-lo.

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