O Coração Delator
O Coração Delator
É verdade: eu era nervoso, terrivelmente nervoso. Mas por que dizer que sou louco? A doença aguçara meus sentidos; não os destruíra. Eu ouvia tudo: coisas do céu, da terra e até do inferno. Escutem, portanto, e verão com que calma posso contar a história.
Eu amava o velho. Ele nunca me ofendera. Não queria seu dinheiro. O que me perturbava era seu olho: pálido, velado, semelhante ao de uma ave de rapina. Quando aquele olho caía sobre mim, o sangue gelava. Decidi livrar-me dele para sempre.
Durante sete noites, abri a porta do quarto com cautela infinita. Introduzia a cabeça, levantava a lanterna apenas o bastante para procurar o olho. Mas o olho estava fechado, e eu não podia matar o homem enquanto aquilo que odiava não me fitasse.
Na oitava noite, ele despertou. Ficamos ambos imóveis, mergulhados na escuridão. Então ouvi um som baixo: o bater do coração do velho. Crescia, crescia, como tambor abafado. Temi que os vizinhos ouvissem. Saltei.
O crime foi rápido. Depois, com método perfeito, cortei o corpo e escondi as partes sob as tábuas do assoalho. Não deixei mancha, sinal, descuido. Quando a polícia chegou, recebida por mim com tranquilidade, tudo parecia em ordem.
Conversei, sorri, ofereci cadeiras. Sentei-me justamente sobre o esconderijo. Mas então o som voltou. Primeiro fraco, depois mais alto, mais alto, insuportável. Os policiais falavam e sorriam. Fingiam não ouvir? Zombavam de mim?
Não aguentei. Gritei que arrancassem as tábuas. Ali estava o corpo. Ali batia o coração horrendo.
Poe faz do conto uma armadilha: quanto mais o narrador tenta provar sua lucidez, mais sua voz denuncia a culpa. O coração talvez não bata sob o chão, mas dentro dele. E esse som nenhum assassino consegue enterrar.