Onirologia
Onirologia
Há sonhos que desaparecem ao primeiro gesto da manhã. Outros ficam. Não como lembrança nítida, mas como um perfume sem flor, uma inquietação sem causa, uma porta que a consciência sabe ter visto aberta em algum lugar.
Maeterlinck aproxima-se do sonho não como médico, mas como poeta. Para ele, o sono não é simples apagamento. É uma região onde a alma continua trabalhando com materiais que o dia despreza: pressentimentos, imagens, medos antigos, pequenas luzes que não suportam o sol.
No sonho, os mortos voltam sem surpresa. Casas esquecidas reaparecem inteiras. Pessoas que mal conhecemos trazem mensagens decisivas. Caminhamos por lugares impossíveis com a naturalidade de quem reconhece uma pátria anterior.
O estranho é que, enquanto sonhamos, aceitamos tudo. O absurdo não nos fere. Uma escada sobe para a infância; uma janela se abre para o mar; alguém fala sem mover os lábios, e entendemos. Só ao acordar chamamos aquilo de incoerência.
Onirologia pergunta se o sonho é menos verdadeiro por não obedecer às leis da vigília. Talvez revele outras leis: as da memória profunda, do desejo mascarado, do medo que conhece nossos nomes antes que nós os pronunciemos.
A narrativa não resolve o mistério. Circunda-o. Sugere que cada pessoa carrega uma noite interior, e que nela se movem formas decisivas para nossa vida desperta. Quem despreza os sonhos perde uma parte de si; quem os toma literalmente perde-se de outra maneira.
Entre esses extremos, Maeterlinck escolhe a escuta. O sonho é frágil, mas insiste. Ao acordarmos, resta apenas uma sombra. Ainda assim, muitas vezes é essa sombra que nos acompanha durante o dia inteiro.