Ao leitor Lourenço · Capítulo 1 de 19
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Ao leitor

Ao leitor

Palavras que escrevi, aos 3 de julho do anno corrente, na folha exterior do original donde fora copiado o «Lourenço» para a

Revista Brasileira

.

Esta chronica, pronta ha mais de dois annos para seguir em volume

o Matuto

, cujo é conclusão lógica e natural, acaba de sair a lume na

Revista Brasileira

, a que dedico affectos de natureza paternal.

Mudando-se o plano da publicação, tive por necessário adaptar aos leitores da

Revista

, que eu não podia presumir fossem absolutamente os mesmos do

Matuto

. Fiz por isso muitas alterações neste manuscripto. Augmentei informações e minucias, reproduzi idéas inuteis no primeiro caso, indispensaveis no segundo. Quem lêr agora o

Matuto

e o

notará algumas repetições. É certo,

porém, que, na leitura, póde ser este desacompanhado daquelle. Pelo que respeita ás repetições, passará as vistas por cima delas o leitor benevolo, sem enxergar materia para corpo de delito contra o autor, atentos os motivos explicados.

Cumpre advertir, que, conquanto cada uma das duas narrativas tenha acção propria, comquanto cada uma delas possa subsistir sem a outra, para melhor conhecimento da guerra dos mascates em que ambas se inspiraram, a leitura do

Matuto

sem a do

, e vice-versa, não é bastante.

Esforcei-me por dar, quer no primeiro quer no último, uma idéa tão completa quanto possivel, dessa guerra, ainda pouco estudada, não obstante a sua originalidade, por si só no caso de convidar a serio exame e meditação o historiador depois do economista e do politico. Pouca ou nenhuma importancia se lhe tem dado entre nós; é certo comtudo que, sem a guerra dos mascates, a qual deixou um valo profundo entre brazileiros e portuguezes. não teriamos a revolução de 1817, radiante e alva de que fôra aquela guerra o pallido crepusculo precursor do dia da Independencia em 1822.

Antes da emancipação das colônias americanas (1776), antes da conjuração mineira (1789), reunida a nobreza com o Senado da Camara de Olinda, em 1710 tratou de dar á capitania de Pernambuco outra fórma de governo, independente de Portugal: foi a

guerra dos mascates o primeiro grito do novo mundo contra as metrópoles européias. Não imitou Pernambuco a França nem os Estados Unidos. Pensou e obrou por si muito antes de nesses países se pensar em independência e república.

O ajuntamento discutiu a idéia sugerida por vários nobres de se estabelecer em Olinda uma república aristocrática modelada pela de Veneza; e se esta idéia, considerada por todos de alta magnitude, e recebida por muitos com medo, não prevaleceu, porque foram votos vencedores os dos moderados que, como meio de conciliar os ânimos discordes, propuseram fosse aceito para governador o bispo alheio às lutas partidárias, e a quem aliás cabia o governo, na falta do governador fugitivo, por via de sucessão, conforme dispunha a carta-régia prevenindo as vacâncias, nem por isso se deve desconhecer a prioridade de Pernambuco em cogitar na independência.

A devassa, instaurada depois da chegada do governador Félix José Machado, ocasionou homízios, prisões, seqüestros, que somente tiveram termo em 1714. A capitania ficou arruinada, muitas famílias na viuvez e na miséria; muitas fortunas desapareceram: foram quatro longos anos de calamidades, de lágrimas e luto. Se não houve execuções capitais, não foi por faltarem bons desejos ao governador e aos ministros, mas por se poderem avir neste ponto com aquelas autoridades sanguinárias os

ouvidores da Paraíba e das Alagoas; houve, porém, mortes e não poucas por ocasião dos levantes nos assaltos e batalhas; houve assassínios nas estradas e até nos refúgios onde os nobres tinham buscado pôr em segurança a sua vida.

Com todo o fundamento dever-se-ia reputar esta guerra como uma das mais prejudiciais a Pernambuco, se ela não fora a semente donde pululou a planta da nossa independência política.

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