O Lunar de Sepé Lendas do Sul · Capítulo 15 de 21
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O Lunar de Sepé

O Luar de Sepé

Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!

Mandaram por serra acima

Espantar os corações;

Que os Reis Vizinhos queriam

Acabar com as Missões,

Entre espadas e mosquetes

Entre lanças e canhões!...

Cheiravam as brancas flores

Sobre os verdes laranjais;

Trabalhavam-se na folha

Que vem dos altos ervais;

Comia-se das lavouras

Da mandioca e milharais.

Ninguém a vida roubava

Do semelhante cristão

Nem a pobreza existia

Que chorasse pelo pão;

Jesus Cristo era contente

E dava sua benção...

Por que vinha aquele mal,

Se o pecado não havia?

O tributo se pagava

Se o vizo-rei pedia,

E, até sangue se mandava

Na gente moça que ia...

Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham,

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!

Os padres da encomenda

Faziam sua missão:

Batizando as criancinhas,

E casando, por união,

Os que juntavam os corpos

Por força do coração...

Do sangue dum grão Cacique

Nasceu um dia um menino,

Trazendo um lunar na testa,

Que era bem pequenino:

Mas era — cruzeiro — feito

Como um emblema divino!...

E aprendeu as letras feitas

Pelos padres, na escritura;

E tinha por penitência,

Que a sua própria figura

De dia, era igual às outras...

E diferente, em noite escura!...

Diferente em noite escura,

Pelo lunar do seu rosto,

Que se tornava visível

Apenas o sol era posto;

Assim era — Tiaraiú — ,

Chamado — Sepé, — por gosto.

Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!

Cresceu em sabedoria

E mando dos povos seus;

Os padres o instruíram

Para o serviço de Deus

E conhecer a defesa

Contra os males do ateus...

Era moço e vigoroso,

E mui valente guerreiro:

Sabia mandar manobras

Ou no campo ou no terreiro;

E na cruzada dos perigos

Sempre andava de primeiro.

Das brutas escaramuças

As artes e artimanhas

Foi o grande Languiru

Que lh’ensinou; e as façanhas,

De enredar o inimigo

Com o saber das aranhas...

E, tudo isto, aprendia;

E tudo já melhorava,

Sepé — Tiaraiú, chefe

Que o Sete Povos mandava,

Escutado pelos padres,

Que cada qual consultava.

Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!

E quando a guerra chegou

Por onde os Reis de além,

O lunar do moço índio

Brilhou de dia também,

Para que os povos vissem

Que Deus lhe queria bem...

Era a lomba da defesa,

Nas coxilhas de I-bagé,

Cacique muito matreiro

Que nunca mudou de fé;

Cavalo deu a ninguém...

E a ninguém deixou de a pé...

Lançaram-se cavaleiros

E infantes, com partazanas,

Contra os Tapés defensores

Do seu pomar e cabanas;

A mortandade batia,

Como ceifa de espadanas...

Couraças duras, de ferro,

Davam abrigo à vida

Dos muitos, que, assim fiados,

Cercavam um só na lida!...

Um só, que de flecha e arco,

Entra na luta perdida...

Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!

Os mosquetes estrondeam

Sobre a gente ignorada,

Que, acima do seu espanto,

Tem a vida decepada...;

E colubrinas maiores

Fazem maior matinada!...

Dócil gente, não receia,

As iras de Portugal:

Porque nunca houve lembrança

De haver-lhe feito algum mal:

Nunca manchara seu teto...;

Nunca comera seu sal!...

E de Castela tampouco

Esperava tal furor;

Pois sendo seu soberano,

Respeitara seu senhor;

Já lhe dera ouro e sangue,

E primazia e honor!...

A dor entrava nas suas carnes...

Na alma, a negra tristeza,

Dos guerreiros de Tiaraiú,

Que pelejavam defesa,

Porque o lunar divino

Mandava aquela proeza...

Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!

E já rodavam ginetes

Sobre os corpos dos infantes

Das Sete Santas Missões,

Que pareciam gigantes!...

Na peleja tão sozinhos...

Na morte tão confiantes!...

Mas, o lunar de Sepé

Era o rastro procurado

Pelos vassalos dos Reis,

Que o haviam condenado:...

Ficando o povo vencido...

E seu haver... conquistado!

Então, Sepé, foi erguido

Pela mão do Deus — Senhor,

Que lhe marcara na testa

O sinal do seu penhor!...

O corpo ficou na terra...

A alma, subiu em flor!...

E subindo para as nuvens,

Mandou aos povos — benção!

Que mandava o Céus — Senhor

Por meio do seu clarão...

E o — lunar — da sua testa

Tomou no céu posição...

Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham

Dizendo, por nosso bem:

Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!

Esta melopéia (?), ouvi-a em 1902, sofrivelmente recitada por uma velhíssima mestiça — Maria Genoria Alves — moradora na picada que atravessa o rio Camaquã, entre os municípios de Cangussu e Encruzilhada.

Aparte as deturpações aberrantes dos vocábulos e a difícil colocação, concatenada dos versos, conservei a forma original, difusa, opaca e, do mesmo passo ingênua e amorável, dentro da qual porém, sente-se que estremece uma idealização, tendente a aureolar a figura do chefe índio, superiorizando-a por um signo misterioso — o lunar — , mandado divino...

Deixei de parte alguns versos cujo sentido disforme e expressão eram de impossível entendimento e acomodação neste grupo. Relembrança popular do heróico guarani é esta (e procedência?...) a única que até hoje hei encontrado em não pequena perambulação.

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