Prólogo Sob o Mesmo Céu · Capítulo 6 de 39
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Prólogo

Clara

Eu sempre amei minha cidade. Pacata demais para esconder muitos segredos. Ruas tranquilas, tardes previsíveis, pessoas que se conhecem pelo nome e pela rotina. Um lugar onde tudo parecia seguir o mesmo ritmo calmo, como se nada realmente importante pudesse acontecer ali. Ou, pelo menos, era o que eu pensava.

Minha rotina nunca fugiu do comum. Dias que começavam e terminavam quase iguais, como páginas repetidas de um livro que ninguém espera que mude de rumo.

Trabalhava em uma empresa de tecnologia, em um prédio alto demais para quem gosta de passar despercebida, mas com uma vista bonita o suficiente para enganar qualquer inquietação. Lá de cima, a cidade parecia ainda mais tranquila, quase inocente, como se nenhum problema pudesse alcançar aquelas janelas.

Naquele dia, saí às 18h para jantar.

Fui a um restaurante simples. Luzes amareladas, mesas próximas umas das outras, o cheiro familiar de comida recém-servida e conversas baixas misturadas ao som de talheres. Um encontro comum com um amigo. Uma pausa normal no meio de mais um dia comum.

Nada fora do esperado.

Até que eu a vi.

Era eu.

Ou alguém idêntica demais para ser coincidência. O mesmo rosto, os mesmos traços, a mesma expressão que eu conhecia tão bem quando me olhava no espelho. Por um instante, o mundo pareceu vacilar.

Contei ao meu amigo. Ele riu. Disse que devia ser cansaço, miragem, coisa da minha cabeça. Falou como quem tenta afastar um pensamento absurdo antes que ele se torne real.

Eu quase acreditei.

Se não tivesse descoberto depois que não éramos apenas duas.

Éramos doze.

Ela não tirava os olhos de mim. Não era um olhar curioso ou distraído. Era um olhar fixo demais para ser confortável. O olhar atravessava, como se dissesse algo que eu ainda não conseguia compreender.

Fomos embora.

E então veio a sensação de estar sendo seguida. Primeiro discreta, quase imaginária. Depois insistente, como um passo ecoando logo atrás do outro.

Naquela noite, o medo me acompanhou até em casa. Cada sombra parecia se mover mais do que deveria. Cada ruído parecia carregado de intenção.

Dormi tão mal que tive vários pesadelos e me acordei diversas vezes toda suada.

Às seis da manhã, o celular tocou.

Era meu amigo, com a voz trêmula, perguntando o que eu tinha feito. Havia algo na forma como ele falava que fez meu estômago se contrair antes mesmo de eu entender.

Eu não tinha feito nada.

Foi então que lembrei dela.

Da mulher idêntica a mim.

E soube que algo muito errado estava acontecendo.

A televisão, que eu liguei, interrompeu a programação. A música parou, a tela mudou, e o silêncio da sala ficou pesado demais.

Meu rosto estava lá.

Eu era procurada.

A partir desse momento, minha vida virou um inferno. Tudo o que antes era comum passou a carregar perigo.

Passei a viver com medo dos olhares, dos passos atrás de mim e até da polícia.

Eu só não sabia como provar minha inocência.

Nem imaginava até onde esse pesadelo poderia chegar.

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