Parte 4 — Capítulo VI: Final Fortunata e Jacinta · Capítulo 31 de 32
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Parte 4 — Capítulo VI: Final

Parte 4 — Capítulo VI: Final

i

Fortunata ouviu um ruído à porta e esta voz:

— Dá licença?

— Entre, dom Segismundo — disse, reconhecendo o gerente da farmácia.

E entrou o sujeito, de rosto sorridente e atitude prestativa, como

pessoa que se julga útil. A jovem estava recostada na cama, de camisola

e com um lenço na cabeça. “Como está bonita!”, pensava Ballester ao

cumprimentá-la, apertando-lhe muito a mão. “Que pena de mulher!”

— Ontem o senhor não entrou — disse-lhe ela com amabilidade —, porque

eu não sabia quem era e não quero receber visitas. Estou morta de medo,

e à noite sonho que alguém vem roubá-lo de mim. Quer vê-lo?...

Ao lado dela estava, dormindo um sono plácido, a personagem recém-chegada,

cujas graças precoces queria mostrar ao amigo. Assim fez, com mais

orgulho que pudor, afastando os lençóis e deixando à mostra o rostinho

rosado e os punhos cerrados do tenro menino.

— Veja como é bonito! — disse Ballester, inclinando-se. — Tem a quem

puxar dos dois lados.

— Faz duas horas que está dormindo assim. Que anjo! E se o senhor visse

como é espertalhão e comilão! Veio decidido a levar vida boa. Se o

visse quando se põe a olhar para mim... Pobrezinho! Ele me quer muito.

Sabe que eu o amo mais que à minha vida e que, para mim, é o mundo

inteiro.

— A senhora já sabe o que combinamos. Serei padrinho de Sua Excelência.

Prometeu-me isso na última vez em que nos vimos.

— Sim, sim, e não volto atrás. O senhor será o padrinho.

— E depois do primeiro nome, que a senhora escolherá — disse ele,

enchendo-se todo —, levará o meu, Segismundo. Que lhe parece?

— Muito bem. Vai se chamar Juan, depois Evaristo e depois Segismundo.

— Está bem; transijo com o terceiro lugar na escala, mas daí não passo;

se quiser me jogar para o quarto, eu me rebelo.

Ambos riram. Ballester sentara-se numa cadeira ao lado da cama e não

tirava os olhos daquela mulher, que então lhe parecia mais formosa que

nunca. “Eu lhe daria quatro beijos”, pensava; “mas de amizade, de pura

amizade, porque esta infeliz me interessa... e, digam o que disserem,

ela não é tão má quanto se pensa por aí.” Depois começou a dar notícias

da família e dos amigos, que Fortunata ouvia com grande curiosidade.

— Dona Lupe, apesar de toda a sua ferocidade, não se esquece da

senhora. Todos os dias pede notícias a mim ou a Quevedo, e pergunta

também pelo menino: se é robusto, se mama bem, se tem algum defeito

físico...

— Defeito!... — exclamou a mãe, indignada. — Se ele é uma preciosidade.

É mais perfeito que todas as perfeições. Vou mostrá-lo nu ao senhor,

para que veja que beleza de filho. Estou louca por ele. Parece-me que

virão tirá-lo de mim. E não pense que não; há tanta invejosa...!

Deixando passar a rajada de entusiasmo materno, Ballester continuou:

— Mas o que vai deixá-la pasma é saber que o amigo Maxi melhorou tanto,

mas tanto, que, se a senhora o vir, não o reconhecerá.

— Mas é verdade?... Qual! O senhor está brincando.

— Não, minha filha. Sempre que acontece na casa ou na vizinhança alguma

coisa difícil de resolver, consultam-no. Virou um Salomão. _Dona

Desdêmona_, quando surge alguma dificuldade em sua república de pássaros,

manda chamá-lo, e o que ele diz é feito.

— Ora, hoje estamos inspirados. Tomara que fosse verdade o que o senhor

diz. Eu ficaria muito contente, contanto que ele não se lembrasse de mim

para nada, nem soubesse que estou viva.

— Pois isso a senhora não consegue... Ele sabe de tudo.

— Ai, não me diga isso, por Deus! — exclamou ela, assustadíssima e

empalidecendo. — Não sabe o medo que me deu. Agora não terei um minuto

de sossego. Mas isso é verdade? Não se divirta à minha custa, Ballester;

veja que estou tremendo de medo.

— Medo de quê? Ele está muito razoável e mais tranquilo que nunca.

Todas as suas ideias são de benevolência e tolerância. Fala pouco e, de

repente, sai-se com coisas muito boas. Não diz um disparate à senhora

nem que lhe peçam por favor. A seu respeito, creio que o sentimento

dele é a indiferença, se é que a indiferença pode ser chamada de

sentimento.

— Não confio, não confio — dizia ela, pensativa, demonstrando pelo tom

que não se sentia inteiramente segura. — O senhor vai ver como, no dia

menos esperado...

A conversa passou de Maximiliano para as Samaniego, e Fortunata

mostrou grande estranheza por Aurora não se lembrar dela.

— É muita falta de educação, porque ela sabe muito bem onde estou, e de

sua oficina até aqui chega-se em três minutos. E, se ela não queria vir,

que lhe custava mandar uma das moças perguntar se estou viva ou morta?...

Acredite que isso me dói; porque, a quem gosta de mim por dois, eu gosto

por catorze.

Ballester respondeu com um grande suspiro, ao qual sua interlocutora não

deu a interpretação devida. De repente, o farmacêutico mudou de assunto:

— Ah! Eu me esquecia do melhor. Sabe que o crítico e eu ficamos amigos?

Quem diria! Eu, que tanto o odiava! Pois veja só. Certo dia, Padillita

enfiou-o na farmácia, e eu comecei a caçoar de suas críticas, dizendo

que gostava muito delas. Acontece que ele é muito modesto e fica

assustado quando elogiam o que escreve. Pouco a pouco fomos ficando

íntimos, e toda a aversão que eu lhe tinha evaporou-se. O pobre Ponce é

tão honesto que tudo quanto escreve é ditado pela consciência; até

quando elogiou aquele dramalhão que me tirava do sério, fez isso porque

lhe vinha de dentro. E, embora lhe paguem tarde, mal e nunca, ele segue

conformado em seu sacerdócio; leva-o a sério e acha que ninguém pode

ter opinião sobre as obras antes que ele dê a sua. Prestou concurso

para um empreguinho no Tribunal de Contas e ganhou. Pois o que a senhora

pensa? O infeliz tem de sustentar a mãe, que está doente; e eu, desde

que ele me contou sua história, não lhe cobro nada pelos remédios.

Fazemos troça com Olimpia e a peça que ela toca, dizendo-lhe que sua

amada é muito romântica e que não tenha medo de se casar, pois ela não

come. Nem precisam de cozinheira, nem de cozinha, nem sequer de cesta

para as compras. Digo-lhe que abandone o sacerdócio e deixe os autores

e o público se entenderem como quiserem. Ele concorda comigo e, por fim,

revelou-me um segredo: escreveu um drama e o entregou ao Español; se for

representado, o sucesso estrondoso é certo. Na noite da estreia, penso

ir com todos os meus amigos para fazer um alvoroço e chamar o autor ao

palco pelo menos quarenta vezes. Quer ler a obra para mim, e eu lhe

disse que a deixasse lá. Sem lê-la, direi que é magnífica, e um amigo

meu, jornalista, publicará uma notinha com aquilo de que _nos círculos

literários fala-se muito etc._... Estou lhe dizendo que esse infeliz me

interessa muito, e eu faria alguma coisa por ele se pudesse. Já lhe dei

mais de meio quartilho de bálsamo tranquilo, e ele consome extrato de

beladona como água, porque o que a mãe sofre é reumatismo. Também lhe

fiz um emplastro para a cintura que vale qualquer dinheiro. Eu sou

assim; a quem me agrada, dou até a camisa. E se a senhora visse o afeto

que Ponce tomou por mim! Temos longas conversas sobre a arte realista,

o ideal, a emoção estética, e tudo o que digo, ainda que seja um enorme

disparate, porque nunca vi coisas mais absurdas na vida, ele escuta

como se fosse o Evangelho; e, ao lado dele, eu me dou um lustro digno

de se ver. Fora essas bobagens da crítica, é uma alma de Deus, muito

agradecido, muito delicado, sem outra fraqueza além de amar Olimpia e

imaginar que um homem de juízo pode casar-se com semelhante inutilidade.

Meti na cabeça tirar-lhe isso da cabeça, e creio que estou conseguindo.

Pois eu lhe digo: “De que vão viver? Da peça?” Se ele se casar, serão

quatro na família: o casal, a mãe dele, doente, e uma irmãzinha que,

segundo Ponce me contou, deve passar uma fome canina. Falamos longamente

disso na farmácia, que chamamos de círculo literário, e eu vou

convencendo-o com manha. Olimpia me arrancaria os olhos se soubesse as

coisas que digo ao noivo; mas que se dane. Já conheci sete ursos dela,

e este também não será apanhado. Tomei-o sob minha proteção e hei de

salvá-lo. Que belo presente lhe cairia nas mãos se casasse...!

— Como o senhor me faz rir! Pobre Ponce! Eu já lhe dizia que era um bom

rapaz, e o senhor empenhado em fazê-lo engolir a linguiça.

— Ah! Ele escapou por pouco. Guardo a fatídica gema para outro, sim,

para outro, sobre quem agora recaem todos os meus ódios. Não me pergunte

quem é, porque não direi... Contarei depois que ele a tiver engolido,

pois há de comê-la, tão certo como hoje é hoje.

Nisso, o ruído de vozes que soava na saleta próxima aumentou

consideravelmente, e aos ouvidos de Ballester chegaram estas palavras:

aumento a aposta na menor, tudo nos pares.

— É meu tio José — disse Fortunata —, que está jogando mus com um

amigo. Mando-o vir aqui para me fazer companhia enquanto estou de cama,

porque tenho muito medo; e, para que não se aborreça, faço trazerem-lhe

uma garrafa de cerveja e permito que o amigo venha acompanhá-lo.

Ballester espiou pela porta entreaberta para ver a dupla. Não conhecia

nenhum dos dois; mas o rosto de Ido del Sagrario não lhe era novo, e

parecia-lhe tê-lo visto em alguma parte, embora não se lembrasse onde

nem quando.

ii

Na primeira vez em que Ballester viu Izquierdo e seu douto amigo, não

lhes disse mais que algumas palavras ditadas pela boa educação; mas, na

segunda, cruzou-se entre eles tal tiroteio de cumprimentos, oferecimentos

e franquezas que a amizade não tardaria a unir os três com apertado laço.

De sua alcova, onde continuava de cama, Fortunata ria das tiradas de

Segismundo, que provocava Platão e Ido del Sagrario, a quem costumava

chamar de mestre. Sempre que o farmacêutico ia lá à noite,

encontrava-os infalivelmente e divertia-se com eles de maneira

indescritível.

A desventurada jovem agradecia muito aquelas visitas. Ballester tinha o

coração mais honrado e generoso do mundo, e sentia certa vaidade em

assumir o cumprimento dos deveres que cabiam a outros e que esses outros

esqueciam. E, embora alimentasse, em relação à senhora de Rubín,

pretensões amorosas a longo prazo, seus atos de caridade não deixavam

por isso de ser puros e desinteressados, e teriam sido os mesmos ainda

que sua amiga espantasse de tão feia e não possuísse nenhum atrativo

pessoal.

Fortunata ia adquirindo confiança nele e revelava-lhe seus pensamentos

sobre diferentes coisas. Havia, contudo, algo que não se atrevia a

manifestar, por não ter certeza de ser bem compreendida. Nem Segunda nem

José Izquierdo o compreenderiam tampouco. E, como precisava pôr para

fora aquelas ideias, porque não lhe cabiam na mente e transbordavam,

tinha de dizê-las a si mesma para não sufocar.

“Agora, sim, não temo comparações. Entre ela e eu, que diferença! Eu

sou mãe do único filho da casa, mãe é o que sou, está bem claro, e

não há outro neto de dom Baldomero além deste rei do mundo que tenho

aqui... Haverá quem me negue isso? Não tenho culpa de a lei dizer uma

coisa ou outra. Se as leis são disparates muito grandes, não tenho nada

com elas. Por que as fizeram assim? A verdadeira lei é a do sangue, ou,

como diz Juan Pablo, a Natureza; e eu, pela Natureza, tirei da _macaca

do Céu_ o lugar que ela tinha tirado de mim... Agora queria vê-la aqui

na minha frente, para lhe dizer umas quatro coisas e mostrar-lhe este

filho... Ah! Que inveja vai sentir quando souber!... Como vai ficar

furiosa!... Que venha agora falar-me de leis, e verá o que lhe

respondo... Mas não, não guardo rancor dela; agora que ganhei a causa e

ela está por baixo, eu a perdoo; sou assim.”

“E ele, então, quando souber, o que fará?, o que pensará? Não consigo

parar de matutar nisso, meu Deus! Ele será um patife e um ingrato; mas

seu bebê ele terá de amar. Vai ficar louco pelo menino. E quando vir

que é seu retrato vivo, Cristo! E se dona Bárbara o visse...! E há de

vê-lo, ora se há, há de vê-lo... Tão certo como Deus existe, ela vai

ficar louca. Como estou contente, Senhor, como estou contente! Sei muito

bem que nunca poderei conviver de igual para igual com aquela família,

porque sou muito ordinária e eles, finíssimos demais; o que quero é que

fique registrado, que fique registrado, sim, que esta sua criada é a

mãe do herdeiro e que, sem esta sua criada, eles não teriam neto. Esta

é a minha ideia, a ideia que venho criando aqui há tanto, tanto tempo,

chocando-a até que saiu, como o passarinho sai da casca... Deus bem sabe

que não penso assim por interesse.

“Não quero para nada o dinheiro daquela gente, nem me faz falta nenhuma:

o que quero é que fique registrado... Sim, senhora dona Bárbara, a

senhora é minha sogra por cima da cabeça de Cristo Nosso Pai, e pode

espernear quanto quiser, mas eu sou a mamãe de seu neto, de seu único

neto.”

Ficava muito convencida depois de assentar essas arrogantes afirmações,

e a satisfação lhe produzia tamanho contentamento que se punha a cantar

baixinho, embalando o filho; e, quando ele adormecia, continuava

resmungando como a ave no ninho. Em algumas noites, o júbilo não a

deixava dormir, e ela passava longas horas brincando com sua ideia já

realizada, lançando-a ao ar como Feijoo lançava o bilboquê.

Quevedo ia vê-la todos os dias e, embora a encontrasse muito bem,

ordenava que não se levantasse. Que tédio ficar tanto tempo prisioneira!

Ainda bem que se distraía com seu pequenino. À noite, Segunda ajudava-a

a enfaixá-lo e limpá-lo; durante o dia, Encarnación, que era muito

esperta e ficava louca de alegria quando a patroa lhe permitia ter o

pequeno nos braços por alguns minutos. Em seus momentos de alegria

delirante, Fortunata lembrava-se muito de Estupiñá.

— Mas, tia, a senhora não encontrou Plácido na escada? Diga-lhe que

entre, que preciso falar com ele.

Segunda respondia que encontrara o sujeito não uma nem duas vezes, mas

mais de vinte; porém todas as indiretas que lhe lançava para que subisse

tinham dado em nada.

— Fez uma cara para mim, menina, quando lhe contei a novidade, que

parecia um juiz de primeira instância. E ontem me disse: “Saia daqui,

sua bruxa, alcoviteira; vou pôr a senhora e aquela outra fanfarrona na

rua!”

— Ele há de amansar. Quer apostar que amansa? — dizia a jovem,

sorrindo. — Quero que entre e veja esta estrela que caiu do Céu.

Segunda tanto fez e tais intrigas armou que Estupiñá entrou certa manhã,

resmungando e dando-se ares de homem de mau gênio que precisa contrair

todos os músculos do rosto para refrear a indignação. A tudo quanto lhe

diziam Segunda e o irmão, respondia com bufos; e, se a senhora de

Izquierdo não o segurasse por um braço, certamente teria saído correndo

escada abaixo.

— Não se pode lidar com essas mulheres fanfarronas... Vá plantar

batatas. Vá para o diabo que a carregue.

Mas, embora desse esses respiradouros à sua ira verdadeira ou fingida,

o fato é que não ia embora, e Segunda quase à força o enfiou na alcova.

Obedecendo a um impulso instintivo, Estupiñá tirou o chapéu no momento

em que ouviu os gritos do herdeiro de Santa Cruz, que reclamava o peito

com muita urgência. Ao ver o falador descobrir a venerável cabeça,

Fortunata sentiu uma inundação de alegria na alma e disse consigo:

“Isso mesmo, cumprimente seu patrãozinho. Ele protegerá você como o

protegeram os avós e o pai.” Plácido inclinou-se para vê-lo e, embora

quisesse fazer-se de homem terrível, escapou-lhe esta frase:

— Cuspido e escarrado, tal e qual...

— Como é feio!... Não é, dom Plácido? — disse a mãe, radiante de

alegria. — O quê, não lhe dá um beijo?... Acha que vai pegar alguma

coisa? Não se preocupe, que beleza não é contagiosa... Sabe de uma

coisa, dom Plácido? Parece-me que o senhor vai gostar dele... e ele do

senhor também. Não vai?

O falador murmurava algo que não se ouvia bem. Ficou por um instante

como que indeciso entre o furor e a brandura. Depois começou a conversar

com Segunda sobre se ela montaria ou não uma barraca naquele ano em San

Isidro e, por fim, retirou-se, despedindo-se de uma maneira que bem

podia passar por conciliadora. Fortunata estava contentíssima e dizia

consigo: “Com certeza, agora mesmo ele vai levar a notícia. É isso que

eu quero, que espalhe a novidade.” Encadeando ideias, pôs-se a pensar no

prazer que teria em ver dona Guillermina, presumindo ao mesmo tempo que,

se a visse, sentiria muita vergonha. “Vou lhe pedir perdão pela maneira

como me comportei naquele dia, e ela me perdoará... tão certo como isto

é luz. Com certeza vai me puxar as orelhas; mas aceito tudo, contanto

que veja a cara que ela fará diante deste filho. Quero ver o que tem a

dizer sobre minha ideia. O que lhe ocorrerá? Alguma coisa que eu não

entenderei, nem ninguém entenderá... Diga o que disser e considere a

coisa como quiser, Deus não pode voltar atrás no que fez; e, ainda que

o mundo desabe, este filho é o verdadeiro neto natural daqueles

senhores, dom Baldomero e dona Bárbara... e a outra, com todo o seu

encanto, não apita nada, não apita nada... é isso que eu digo. Que me

apresente um como este... Não apresentará, não. Porque Deus me disse:

você é que apitará; e a ela não disse tal coisa. E, se dona Bárbara

ficou louca pelo Pituso falso, como não perderá a cabeça pelo de ouro

de lei! De tão contente que estou, acho que vou adoecer... E é certo

que Estupiñá levará a notícia. A primeira pessoa que quero que saiba é

minha amiga a bispa. Quer apostar que vem me ver? Ora... não será

capaz de guardar consigo o sermão que tem preparado para mim. Venham os

sermões! Não me importo; melhor. Direi que ela tem razão; mas que eu

tenho o filho, e filhos por razões, dá elas por elas.”

Considerava infalível essa visita, pois a santa gostava muito de dar

repreensões e endireitar as que cometiam pecados graves. Tão certa

estava de vê-la que, sempre que soava a campainha, julgava que fosse ela

e se preparava para recebê-la, arrumando a cama e apresentando-se com a

maior decência possível, trêmula de emoção e esperança.

iii

O batizado celebrou-se com extrema modéstia em San Ginés, numa manhã

de abril, e deram ao menino os nomes de Juan Evaristo Segismundo e

alguns outros. Ballester mostrou-se galante naquele dia, oferecendo um

almoço a Izquierdo e Ido del Sagrario no próximo café de Levante.

Insistiu muito com o mestre para que comesse um bife; mas dom José

recusou, embora tivesse muita vontade de aceitar. Só de sentir o cheiro

da carne e ver-lhe o sangue e a gordura no prato dos amigos, parecia-lhe

que ia perder o juízo. Seu almoço foi um café com meia torrada de baixo...

e outra meia de cima. Depois do café vieram os cálices tentadores, aos

quais o professor também fez objeções; não assim o modelo, que encheu

o corpo de rum até não poder mais, sem que por isso se perturbasse sua

sólida cabeça, que devia ser um alambique. Enquanto comiam, viram passar

Maximiliano Rubín, que saía do café; mas, como ele fingiu não vê-los,

nada lhe disseram. Por volta da uma, Ballester foi para a farmácia, e

os dois Josés, para a casa da Cava. Era domingo, e nenhum dos dois tinha

ocupações. Izquierdo mandou Encarnación buscar uma garrafa grande de

cerveja e, tirando de uma caixa muito suja o jogo de dominó, espalhou e

misturou as pedras para começar uma partidinha. E contam as crônicas

platônicas que, antes de chegarem à metade da segunda partida, as

pobres pedras ficaram sozinhas. Ido levantara-se e dava voltas pela

sala. Izquierdo deixara-se cair no sofá de Vitoria e dormia como um

verdadeiro bruto, com o chapéu sobre os olhos, a boca aberta e as

quatro patas esticadas. Sinhá Segunda levou Encarnación à pracinha,

porque na noite anterior houvera incêndio em duas ou três barracas

próximas à sua, e passou a manhã ajudando as companheiras a recolher os

trastes que tinham sido retirados e a reparar o que ainda admitia

reparo.

Fortunata esteve aborrecidíssima naquele dia, com muita vontade de se

levantar. Por respeito às determinações do senhor Quevedo, continuava

na cama, mas não aguentaria mais dois dias naquela prisão enfadonha.

Juan Evaristo Segismundo, depois que o trouxeram de San Ginés, estava

tão bonito e satisfeito como se tivesse consciência de seu feliz

ingresso na família cristã; e, para celebrá-lo, assim que chegou ao lado

da mãe, procurou a despensa e encheu o corpo até não lhe caber mais uma

gota de leite. Fortunata ouvia os roncos do venerável Platão, como o

monólogo de um porco, e ouvia também os passos de Ido, algum monossílabo

ininteligível, suspiros que pareciam ais de dor ou invocações poéticas;

e, quando o professor chegava, em sua deambulação febril, à porta da

alcova, ela julgava distinguir-lhe as mãos ou parte de um braço que

subiam até perto do teto. Depois soou a campainha, e dom José foi abrir.

Fortunata pensou que fosse Encarnación voltando da pracinha; mas se

enganava. Não tardou a ouvir cochichos à porta. Quem seria? Depois ouviu

passos e um ranger de botas que a fizeram estremecer, e ficou muda de

terror ao ver Maximiliano à porta. Era ele; assim reconheceu, depois de

duvidar por um instante. O estupor que sentia mal lhe permitiu soltar um

grito, e seu primeiro movimento foi lançar os braços sobre o bebê,

decidida a comer a dentadas quem tentasse machucá-lo ou tirá-lo dela.

Rubín ficou mais de um minuto sem dar um passo, pregado à porta e

destacando-se dentro da moldura como a figura de um quadro. Coisa

estranha! Nenhum sinal de hostilidade se via em seu rosto ou em seu

gesto. Olhava para a mulher com seriedade, mas sem dureza; e, quando deu

os primeiros passos para se aproximar da cama, sua expressão era quase

indulgente. Ela, porém, não se sentia inteiramente segura e olhou-o como

quem se dispõe a uma defesa enérgica.

— Tio, tio — disse, erguendo a voz. — Encarnación...

Como nem Izquierdo nem a criada respondessem, quis chamar aquele

espantalho que passeava pelo quarto. Mas, ao tentar pronunciar-lhe o

nome, este lhe fugiu da memória.

“Como diabo se chama este homem?... O senhor, venha cá... Ah! Agora me

lembro. Senhor Sagrario, faça o favor de acordar meu tio.” Mas nem o tio

acordava, nem dom José percebia que o chamavam.

— Parece que você tem medo de mim e pede socorro — disse-lhe Maxi com

fria bondade. — Não vou comê-la. Está enganada se pensa que venho com

más intenções. Já não se trata de matar você nem de matar ninguém...

Essa ideia estúpida voou... para felicidade de todos.

Dizendo isso, sentou-se na cadeira e, tirando o chapéu, colocou-o sobre

a cama. Fortunata achou-o mais magro; a calva parecia maior, e seu olhar

tinha certo repouso que a tranquilizou.

— Embora ninguém me tenha dito uma palavra — prosseguiu Rubín —, sei de

tudo o que lhe aconteceu; descobri por minha própria razão, e venho me

compadecer de você e lhe fazer um grande bem... Porque perdi a razão,

você bem sabe; mas depois tornei a adquiri-la. Deus a tirou de mim e

tornou a dá-la tão completa que, neste momento, estou mais ajuizado que

você e que toda a família. Não se espante, minha filha, pois pelo que

vou dizer logo perceberá que minha cabeça está boa, tão boa como nunca

esteve. O quê, não acredita?

Fortunata não sabia se devia acreditar ou não. Seu medo não se

extinguira, e ela esperava que, depois daquelas palavras tranquilas,

viessem outras, iradas e sem pé nem cabeça. Não disse nada e continuou

protegendo o filho, em atitude de defendê-lo ao primeiro ataque. Maxi

parecia não reparar na criança. Com grande serenidade, falou assim:

— Estou com a cabeça tão sã que compreendo sua situação e a minha. Já

não pode haver nada entre nós. Casamo-nos por fraqueza sua e engano meu.

Eu a adorava; você não me amava. Matrimônio impossível. O divórcio

tinha de vir, e veio. Eu enlouqueci, e você se emancipou. Os disparates

que cometêramos foram corrigidos pela Natureza. Contra a Natureza não se

pode protestar.

Olhava para o volume que Juan Evaristo formava na cama; mas, como seu

gesto nada tinha de hostil, Fortunata ia se acalmando.

— Já sei o que há aqui! Pobre menino! Deus não quis que fosse meu. Se

fosse, você gostaria um pouco de mim. Mas não é, todos sabem, e eu

também sei... Divórcio consumado. Melhor assim. Eu não devia ter me

casado com você. Paguei caro, perdendo a razão. Que devo fazer agora que

a recuperei? Pois ver as coisas de muito alto, acatar os fatos e

observar as terríveis lições que Deus dá às criaturas... Antes, deu-as

a mim... agora, a você. Prepare-se. Não venho lhe fazer mal, mas

anunciar a boa-nova da lição, porque essas pedradas que vêm de cima

saram, curam e fortalecem.

“Mas este homem”, dizia Fortunata consigo, “está ajuizado ou está mais

louco do que antes? Está me dando uma bela dor de cabeça; mas, se não

passar disso, dá para aguentar.”

Quis dizer alguma coisa em voz alta; ele, porém, não a deixava meter

palavra e, como se trouxesse um discurso preparado e não quisesse deixar

de pronunciar nenhuma de suas partes, retomou imediatamente o fio:

— Lembra-se de quando eu estava louco? Os maus momentos que lhe causei

foram bem merecidos, pois na realidade você se portava muito mal

comigo. Sua infidelidade tinha se metido em minha cabeça; eu não tinha

nenhum dado em que me apoiar, mas não conseguia expulsar de mim a

convicção dela. Não sei dizer ao certo se sonhei que você seria mãe ou

se foram os ciúmes que me inspiraram essa ideia. Porque eu sentia uns

ciúmes, ai!, que não me deixavam viver. “Minha mulher me trai”, dizia

eu, “não há outro remédio senão que me traia; não pode ser de outra

maneira.” E, como pelo muito que a amava eu não encontrava para seu

pecado outra solução além da morte, eis por que nasceu em minha cabeça,

como nasce o musgo nos troncos, aquela ideia da libertação, pretextos e

artimanhas da mente para justificar o assassinato e o suicídio. Aquilo

era um reflexo das ideias comuns, o pensamento geral modificado e

adulterado por meu cérebro doente. Ai, como fiquei mal! Digo-lhe que,

quando inventei aquele sistema filosófico tão ridículo, estava na pior

fase. Não quero me lembrar. Recordo os disparates que dizia como se

recordam os dos romances lidos na infância; agora rio deles e calculo o

quanto os outros teriam rido. Você se lembra?

Fortunata respondeu que sim com a cabeça. Não tirava os olhos dele,

acompanhando atentamente seus movimentos para ver se se alterava e

estar preparada para qualquer agressão.

— Depois fui atacado pelo que chamo de Messianite... Era também uma

alteração cerebral dos ciúmes. O Messias... seu filho, o filho de um pai

que não era seu marido! Primeiro me ocorreu que eu devia matar você e

sua descendência; depois essa ideia fervia e se decompunha como uma

substância posta ao fogo, e, entre as espumas, borbulhava aquele absurdo

do Messias. Examine bem, e verá que tudo eram ciúmes, ciúmes fermentados

e em putrefação. Ai, minha filha, como é ruim estar louco! Quanto melhor

é estar ajuizado, ainda que, ao recobrar o juízo, a pessoa encontre

apagado o fogareiro dos afetos, morta toda a vida do coração e se veja

limitada a levar uma vida lógica, fria e um pouco triste.

Ao ouvir isso, que Maxi exprimiu com certa eloquência, Fortunata tornou

a inquietar-se e chamou de novo o tio, que continuava respondendo com

roncos. O mesmo resultado tiveram os chamados de “Senhor Sagrario,

senhor Sagrario... faça o favor de vir”. Dom José apareceu à porta,

lançando ao casal um olhar de professor que inspeciona a sala onde os

alunos estudam, e voltou a passear sem dar atenção a coisa alguma.

Rubín aproximou mais a cadeira, e Fortunata sentiu mais medo.

— Mas tudo aquilo da libertação e do Messias voou. Os fatos reais

substituíram as figurações de meu cérebro... Deus me devolveu a razão e

me devolveu corrigida e aumentada. Com ela vi os fatos; com ela descobri

o que minha família me ocultava; com ela reconstruí meu ser, que passara

por tantos cataclismos; com ela compreendi bem nosso divórcio e rejeitei

duas e até três vezes a ideia do homicídio; com ela pude chegar a

considerá-la uma mulher estranha, mãe de filhos que eu não podia ter, e

com ela me revesti de serenidade e conformidade. Não se admira de me ver

como me vê? Ficaria mais espantada se pudesse ler meu pensamento e

compreender a elevação com que contemplo todas as coisas, a calma com

que a vejo, a indiferença com que vejo seu filho... Mais um ser no

mundo! Se ele veio, terá suas razões. Que direito tenho de impedir-lhe

a vida? Que direito tenho de matá-la porque você lhe deu a vida? Repare

bem: é muito grave dizer “esta ou aquela pessoa não devia ter nascido”.

“Meu Deus!”, exclamou Fortunata para si. “Mas este homem está ajuizado

ou como está? Isso que diz é razão, ou são os maiores disparates que já

lhe ouvi em minha vida...?”

— Eu pergunto — acrescentou Maxi, aproximando-se mais. — O direito de

nascer não é o mais sagrado de todos os direitos? Quem sou eu para pôr

obstáculos a qualquer nascimento? Seria uma beleza... Que nasçam e

vivam, pois, vivendo, aprenderão.

“Nada, para mim ele está pior que antes”, pensava a esposa, “e isso que

diz pode ser sensato, mas eu não entendo patavina.”

— Parece que você tem medo de mim — disse ele, sempre sério e

tranquilo. — Não sei por quê. Já deve ter visto que ninguém me supera

em sensatez.

— Sim, é verdade; mas...

— Mas o quê?... Você dirá que gato escaldado tem medo de água fria —

disse ele, sorrindo levemente pela primeira vez naquela conferência. —

Outra coisa: mostre-me seu filho.

Fortunata tornou a sentir terror e, ao ver Maxi estender as mãos para o

lugar onde estava o pequeno, afastou-as com as suas, dizendo:

— Outro dia você o verá... Deixe-o... está dormindo, e você vai

acordá-lo.

— Mas como você é maníaca!... Pensei que, depois de me ouvir, ficaria

convencida de que minha razão está como um relógio e de que, além disso,

adquiri um grande talento. O que viu em mim que lhe pareça suspeito?

Absolutamente nada. Meus sentimentos são de paz; tive a última ideia má

há alguns dias, mas arranquei-a de mim e estou limpo de ira e ódio. E,

para lhe dizer tudo numa só palavra: Fortunata, sou um santo. Isto não

é jactância, é a verdade... Pensa que vou fazer mal a seu filho? Fazer

mal a uma criatura! Isso não cabe no humano. Deixe-me vê-lo, e eu lhe

direi algo que será proveitoso.

Fortunata, por fim, desconfiando que a contrariedade pudesse irritá-lo,

permitiu-lhe ver o bebê, sem que se aproximasse muito, e protegendo-o

com as mãos. Ele nada disse enquanto o olhava. Depois voltou a seu

assento e ficou algum tempo com o olhar perdido entre os ramos da

colcha, o cenho levemente franzido.

— Parece-se com seu carrasco. O mal nunca perece. A maldade gera, e os

bons se aniquilam na esterilidade.

iv

— Tio, por Deus, tio, acorde — tornou Fortunata a dizer, gritando; e,

como aparecesse à porta a flácida e carunculosa efígie de Ido del

Sagrario, a jovem lhe disse: — Mas o que o senhor está fazendo, que não

acorda meu tio?... Como me deixam sozinha aqui! E aquela menina que não

volta!

Ido resmungou algo que Fortunata não conseguiu entender. Olhando o

professor com pena, Maxi disse à esposa:

— Este bom senhor tem alguma perturbação. Sinto muita pena dele, porque

sei o que é andar mal da cabeça. Se ele quisesse seguir meu plano, eu

me comprometeria a deixá-lo como novo.

E, em voz alta, vendo o desventurado Ido chegar outra vez à porta da

alcova e olhar para dentro com olhos de idiota:

— Senhor dom José, serene-se e aprenda a ver a vida como ela é... É

tolice acreditar que as coisas são como as imaginamos, e não como elas

próprias querem ser. Ao amor não se ditam leis. Se a mulher trai,

divórcio imediato, e deixe-se a lógica agir, pois ela castiga sem pau

nem pedra.

Fortunata se persignava, cheia de espanto, dizendo consigo: “Mas será

verdade, meu Deus, que meu marido adquiriu um grande talento, ou essas

coisas que diz são fingimento para encobrir uma ideia ruim? Que farei

para que vá embora depressa? Porque, de repente, ele pode mudar de tom

e me dar um grande susto.”

— Parece-se com seu inimigo! — repetiu Maxi, voltando à ideia que o

agitara levemente. — É uma desgraça para ele. E, se no moral puxar à

raça, pior ainda. O menino inocente não é responsável pelas culpas do

pai, mas herda os maus hábitos. Pobre menino! Tenho pena dele. Se morrer,

você deve alegrar-se, porque, se viver, lhe dará muitos desgostos.

Fortunata indignou-se com essa ideia, mas não se atreveu a contradizê-la.

Que ele dissesse o que quisesse. Seu plano era não lhe responder nada,

para ver se ele se aborrecia e ia embora depressa.

— Tem a quem puxar — acrescentou Maxi, com lúgubre ironia. — Seu papai

vale ouro... Não precisa me dizer que ele não lhe dá atenção... Sei

muito bem. Nem sequer terá vindo vê-lo... Isso também imagino. Não

virá; pode ter certeza de que não virá.

— Quem sabe!... — deixou escapar a jovem, sentindo a garganta apertar-se.

— Repito que não virá... Tenho minhas razões para afirmá-lo.

— Claro... por que haveria de vir...! Nem faz falta.

— Você tem razão; nem faz falta. Ainda bem que ouço de você uma

expressão filosófica. Esse homem agora tem outros divertimentos.

Fortunata sentiu todo o sangue subir-lhe ao rosto e ficou muito

afogueada. Rubín estendeu o cotovelo sobre a cama, apoiando-se nele com

atitude preguiçosa, semelhante à que adotava na farmácia quando lia.

— É preciso que você saiba logo. Todo o tempo que demorar a saber é

tempo que demora a se regenerar.

A Pitusa sentia muito calor e, pegando um leque que tinha junto ao

travesseiro, começou a abanar-se.

— É preciso que saiba — tornou Maxi a dizer, com certa frieza

implacável, própria do homem habituado ao assassinato. — Seu carrasco já

não se lembra de você para nada e agora tem amores com outra mulher.

— Com outra mulher! — disse ela, repetindo a frase como um bordão do

qual não se extrai sentido. Seus olhos vagavam pelos desenhos da colcha.

— Sim, com outra mulher que você conhece.

O assassino ia ministrando à vítima as palavras em pequenas doses e a

observava, estudando o efeito que lhe causavam. Fortunata quis

sobrepor-se àquele suplício e, sacudindo a cabeça despenteada, como para

afastar e espantar uma convicção que queria penetrá-la, disse-lhe:

— Que histórias você vem me contar?... Deixe-me em paz.

— Isto que lhe conto não é intriga; é verdade. Esse homem está

apaixonado por outra mulher, e você a conhece. Aprenda, pois. Aí está a

maravilhosa arma da lógica humana, com a qual a firo para curá-la. É

melhor morrer aprendendo que viver ignorando. Esta terrível lição pode

levá-la até a santidade, que é o estado em que me encontro. E quem me

trouxe a este estado bendito? Uma lição, uma simples lição.

“Veja, Fortunata, bendita seja a faca que cura.”

— Falta ser verdade o que você conta — disse a vítima, defendendo-se.

— Você pode acreditar ou não, como um doente pode tomar ou não o

remédio que o médico lhe dá. Porque isto é o remédio de sua consciência.

Quer outro? Quer o nome daquela que lhe roubou o que você roubou? Pois

vou dizer.

Fortunata sentiu uma espécie de desmaio e, ao se erguer, a cabeça lhe

rodava e o quarto girava ao seu redor. Levando a mão aos olhos, disse ao

marido:

— Você tem de me dizer.

— É uma amiga sua.

— Amiga minha!

— Sim, e o nome dela começa com A.

— Aurora, é Aurora! — exclamou a jovem, dando um salto na cama e

olhando para o marido como olham as pessoas de honra que receberam uma

bofetada.

— É ela.

— Há tempos meu coração me dizia alguma coisa disso, mas muito baixinho,

e eu não queria acreditar.

— Tenho a maior certeza possível do que afirmo.

— Você me engana, você me engana — replicou a jovem, em atitude de

Dolorosa. — Quer me matar e, em vez de me dar um tiro, vem me contar

essa história.

— Se a recebe como golpe mortal, receba — manifestou Rubín com

implacável frieza.

— Aurora... Aurora!... Meu Deus, que ideia maldita...! — dizia ela,

agitando-se extraordinariamente. — Mas não pode ser. Este homem está

louco e não sabe o que diz.

— Eu, louco?... — disse ele, imperturbável. — Está bem, defenda-se com

isso. Mas você cairá, ficará convencida. Não tem saída. A verdade se

impõe. Aí está um tiro que nunca erra. Quer mais pormenores? Quando

Aurora sai de sua oficina, ele a espera na rua de Santo Tomás, e os dois

seguem juntos em direção ao Ave-María. Aos domingos, Aurora diz em casa

que vai à oficina, mas aonde vai é a...

— Cale-se; estou dizendo que se cale — gritou Fortunata, torcendo os

braços. — Você é um mentiroso, um caluniador.

— Pois o que você queria?... — perguntou ele, com um sorriso glacial.

— Minha filha, é preciso aceitar as verdes e as maduras. O que queria?

Ferir sem ser ferida? Matar sem ser morta? O mundo é assim. Hoje você

dá a estocada, e amanhã é você quem a recebe... Ainda duvida?

A vítima nada disse. Não duvidava, não; o que aquele homem denunciava,

ora parecendo demente, ora não, revestia as aparências de um fato certo.

A infeliz jovem tinha na cabeça alguma coisa que o confirmava,

inundando-a de luz. Recordou frases e atos, ligou os pontos e... nada,

era verdade, tão certo como Deus existe. O pobre rapaz estaria tão

doente quanto se quisesse supor; mas o que dizia era verdade.

— Ainda duvida? — tornou ele a perguntar.

— Não sei, não sei... E se você se enganou?... — disse ela, com extrema

inquietação e rajadas de ira. — Não sei o que pensar... Maxi, Maxi, se

tivesse me dado um tiro, teria me matado menos. Juro-lhe que, se for

verdade, essa mulher, essa hipócrita, essa sem-vergonha que me vendia

amizade, não há de rir de mim. Juro-lhe que espezinho a alma dela mais

depressa do que digo — acrescentou, revolvendo-se na cama. — Isso não

pode ficar assim. Eu a mato, arranco-lhe os olhos, arranco-lhe o

coração... Que me tragam minhas roupas. Tio, menina; quero me levantar.

Mas como me deixam abandonada!

— Compreendo que a coisa a atinja com tanta força. Também me atingiu;

mas depois me tornei estoico. Aprenda comigo. Não vê como estou sereno?

Passei por todas as crises da ira, da raiva e da loucura...

— Porque você não é homem — interrompeu ela.

— É que as lições me foram proveitosas.

— Está bem; porque você é santo... Eu não sou santa, nem quero ser.

— E por que você também não haveria de ser? — perguntou ele, tomando-lhe

as mãos e tentando conter com suavidade seus movimentos de ira. — Por

que não haveria de aspirar ao estado em que me encontro? Cheguei a ele

passando pela raiva, pela loucura... Agora mesmo, não faz muito, quando

vi aquele diabo de homem cometendo uma nova infâmia, senti outra vez a

fraqueza de espírito que julgava vencida... tive vontade de lhe dar um

tiro, para livrar a humanidade de semelhante monstro... Mas depois

consegui dominar-me e disse: uma consequência lógica castiga melhor que

um punhal.

— Quer dizer que você o viu com ela e ficou tão tranquilo! — gritou a

jovem, furibunda, lançando chamas pelos olhos.

— Não fiquei tranquilo... Agitei-me muito; mas depois veio a reflexão.

O que importa, disse comigo, não é que ele morra, mas que ela aprenda.

E você aprendeu.

— Pois se eu chegar a vê-los...!

— Se chegar a vê-los, lembre-se de mim. Faça-se santa como eu... Olhe

para eles e passe adiante...

— Você não é homem... Você não é nada — exclamou a jovem com desprezo.

— É ela, aquela velhaca, que eu queria pôr no lugar. Se a apanho, não

fica viva para contar. Infame, rasteira, indecente, enganar-me assim!

— Examine bem se você tem o direito de tratá-la dessa maneira.

— Claro que tenho! — exclamou, completamente cega e sem reparar no que

dizia. — Ela tirou o que era meu. Posso ser má, mas ela é pior, muito

pior.

— Compreendo sua exaltação. Eu, que não tinha outro móvel além da

justiça, quando os vi, quando me convenci de que pecavam, creio que, se

tivesse um revólver, dispararia os seis tiros pelas costas.

— Muito bem, muito bem — disse a esposa com ferocidade. — Por que não

fez isso? Você é um tolo... Ainda que depois me matasse também. Tem o

direito de fazê-lo.

— Vi-os entrar naquela casa...

Fortunata arregalava os olhos, aterrorizada.

— Esperei para vê-los sair. Rua tal, número tantos. Escondi-me num

portal. Oh! A sorte deles foi que eu não levava revólver...

— Eu compro um para você... Hoje mesmo, agora mesmo — disse ela,

agitando-se na cama, pegando o filho, tornando a deixá-lo, descobrindo o

peito, cobrindo-o e sem saber o que fazer.

— Matar!... E a lição dela? E a sua?

— A minha, a minha? Já a recebi, imbecil. Ainda quer mais lição? Àquela

traidora, sim, vou dar uma, e das grandes.

— Irá para a prisão se matar.

— Pois irei contente.

— E seu filhinho?

Ao ouvir isso, Fortunata recuou em sua ideia selvagem e, tomando o

menino, que começava a resmungar, levou-o ao seio.

A mãe chorava, o menino também, e o grande Ido apareceu outra vez à

porta sem dizer nada, contemplando marido e mulher com olhares

semelhantes aos das estátuas de gesso ou mármore, pois parecia não ter

pupilas nos olhos. Felizmente, a entrada de Segunda pôs fim à situação;

e foi só ver Rubín para se lançar sobre ele, soltando pela boca cobras e

lagartos e atribuindo toda a culpa ao irmão e ao inútil escrevinhador

dom José Ido, o qual, vendo-se insultado, a seu parecer sem motivo

algum, fazia contrações quase inverossímeis com os músculos do rosto,

juntando um olho à boca e erguendo o outro até a raiz dos cabelos.

— Não sei o que é — dizia —, não sei o que é; mas hoje minha cabeça

não está boa... E fique registrado que, se ele entrou, foi porque quis;

eu não mandei entrar... e, se a matar, terá suas razões, naturalmente...

Ora, que gênio tem esta senhora, e como me trata! Não sabe quem sou?

Pois sou Josef... o Idumeu... professor de partos... intelectuais.

v

— Cale-se, seu guillati — guinchava Segunda, que, pelos movimentos

ameaçadores que fazia, parecia disposta a desmantelar com duas bofetadas

a frágil pessoa do professor idumeu. — A culpa é deste animal que está

aqui ferrado no sono.

Foi obra de romanos acordar Platão; por fim, a irmã puxou-o por uma

perna, enquanto Encarnación puxava pela outra, e o corpanzil do

modelo, escorregando pelo sofá, desabou com estrondo no chão. Ficou

algum tempo espreguiçando-se, esfregando os olhos com as manoplas e

cuspindo mais hóstias que palavras.

— Onde está o judeu ladrão que entrou sem minha permissão? Hóstia! Eu o

parto pelo meio.

A linguagem de Segunda não ficava atrás da do irmão em finura nem na

escolha das palavras, o que desagradava extraordinariamente a Ido. Maxi

saiu para a saleta, e José Izquierdo plantou-se diante dele, ladrando

assim:

— Ah! Era o senhor. Agora mesmo para a rua... Brrr... E olhe que tenho

um gênio muito manso...! Pois se eu o tivesse visto antes, hóstia!, eu

me caso com a santíssima... se o tivesse visto antes, pela sacada dos

judeus, hóstia!, ia direto para a rua.

Sem demonstrar medo algum, Maximiliano sorria. Armou-se tamanha

algazarra que Ido teve de intervir com frases de concórdia; Segunda

gesticulava, lançando a culpa sobre o molenga do irmão; este repreendia

Encarnación; e a menina, de ricochete, investia contra Maxi. Foi tal o

vozerio que Estupiñá teve de aparecer à porta, que estava aberta, e

entrou na casa com gestos policiais, mandando todos se calarem e

ameaçando trazer uma patrulha.

— Eu bem dizia que não haveria paz neste quarto; e, se continuarem

assim, não demora e ponho todos na rua.

Foi embora resmungando e, ao anoitecer, quando Ido e Maxi já tinham

partido e os irmãos Izquierdo estavam comendo, tornou a subir, de bastão

de comando, e disse despoticamente:

— Ordem, ordem; e o primeiro que fizer barulho vai para a cadeia.

— Mas o quê, dom Plácido, vai chegar o Viático?

— Quase isso — replicou o falador, entrando sem pedir licença e

dirigindo-se à alcova. — Quem vai chegar é a patroa, a senhoria. Muita

ordem, senhores, muita compostura.

Foi só Platão ouvir que a senhora de Pacheco vinha para o temor de

vê-la deixá-lo inquieto e sem sossego. Engoliu a comida às pressas,

apressando-se a fugir para a rua. Tamanho era seu medo de que a senhora

o visse que desceu a escada correndo, e os cabelos se lhe arrepiavam ao

pensar que, se Guillermina subisse enquanto ele descia, não teria onde

se meter para evitar o encontro.

Desde a entrevista com o marido, Fortunata ficara tão inquieta que

Segunda teve de se zangar para impedi-la de se levantar, pois queria

fazê-lo a todo custo. O pequenino devia ter percebido alguma alteração

no tocante às provisões de boca, porque estava mal-humorado, como se

também quisesse lançar-se à rua em tom de pronunciamento. O aviso da

visita da santa acalmou bastante a mãe; não, porém, o filho, que ainda

não entendia patavina de santidades. A dama apresentou-se às nove,

acompanhada por Estupiñá; e, depois de cumprimentar Segunda como se ela

fosse a senhora mais distinta, entrou e, antes de dizer qualquer coisa

àquela que fora sua amiga, examinou bem Juan Evaristo Segismundo.

Segunda aproximava uma vela para que a dama pudesse ver bem as feições

do menino, que não parecia nem um pouco entusiasmado com inspeção tão

impertinente nem com a vivacidade da luz, tão próxima de seus olhinhos.

— Que mau gênio ele tem! — disse a santa, sentando-se junto à cama,

enquanto Fortunata acariciava o filho e, pondo-lhe o peito na boca,

tentava acalmá-lo.

Guillermina foi muito comedida nos cumprimentos e demonstrações de

afeto; depois, quando ficaram sozinhas a senhora de Rubín e a santa,

esta não falou de religião, nem mencionou a virtude, o pecado ou coisa

alguma referente à ordem moral. Falou sobre se a jovem mãe tinha muito

leite ou não e se sentia este ou aquele incômodo, além de outras coisas

pertinentes ao estado em que se encontrava. Fortunata notou no rosto

sereno da fundadora certa severidade estudada e, para romper aquele

gelo, disse o seguinte, cuja oportunidade poderia ser posta em dúvida:

— Este, sim, é o Pituso legítimo, o da própria tia Javiera, não é,

senhora? Ah! Não sabe? Assim que meu tio José ouviu dizer que a senhora

vinha, saiu correndo como alma que o diabo leva.

— Pelo medo que tem de mim. Bela peça nos pregou... Deixe-o estar, que,

se eu o apanhar à mão, vou lhe dizer umas quatro coisas.

E, quando a mãe pôs o menino a seu lado, já saciado e adormecido,

Guillermina tornou a olhá-lo atentamente, observando-lhe as feições como

o numismata observa o perfil apagado e as inscrições de uma moeda

antiga para descobrir se é autêntica ou falsificada. Depois suspirou e,

estreitando os olhos para olhar Fortunata, expressou-se assim:

— Fizemos uma bela coisa, fizemos...!

E ambas ficaram algum tempo caladas, olhando-se.

— Senhora — disse de repente a parturiente, como quem quer romper um

segredo que a oprime. — Tenho de lhe pedir perdão...

— A mim! Perdão... de quê?

— Das burradas que fiz, das atrocidades que disse naquela manhã em sua

casa. Também pediria perdão a ela, se a visse... Comportei-me mal, eu

reconheço. Não guardo rancor de ninguém... quero dizer, não guardo dela,

porque...

“Ai, senhora, a senhora não sabe o que está acontecendo, não sabe que

ele está enganando nós duas... e eu sei quem é que o entretém, uma

serpente, uma grande hipócrita, que me vendia amizade...! Isso não vai

ficar assim, senhora, não vai ficar assim...”

— Não venha me trazer histórias que não me aquecem nem me esfriam —

disse ela, com uma repreensão graciosa. — Agora o que lhe convém é

tranquilidade; haverá tempo de ajustar as contas atrasadas...

E tornou a olhar para o menino, recreando-se silenciosamente em sua

beleza e robustez. Fortunata bebia-lhe os olhares, vangloriando-se de

adivinhar seu pensamento, que bem poderia ser este: “Se Jacinta o

visse...!” Mas como poderia vê-lo? Isso, sim, era impossível. “Por mim”,

pensava a Pitusa, “não haveria inconveniente... Mas quanto sofreria a

pobrezinha se o visse! E talvez lhe desse vontade de tê-lo... Sim, ele

era para ela... Minha amiga, é preciso tê-los, tê-los... Esta irá

contando como ele é; dirá: ‘Tem a boca assim, os olhos assado; nisto se

parece com o pai, naquilo com a mãe. Deus não pôs no mundo criatura mais

perfeita.’”

— Quando a senhora estiver boa, conversaremos — indicou a santa, já com

intenção de se retirar. — Eu tenho uma ideia... Não é apenas a senhora

que tem ideias; só que as minhas não são más, pelo menos não as

considero assim. E, para concluir por hoje, precisa de alguma coisa? Se

não puder amamentar, não se aflija; arranjaremos uma ama para este

cavalheirinho, que me parece não haveria de recusá-la. É preciso criá-lo

bem.

— Eu posso, eu posso... Ora essa! — replicou a outra, contrariada. — O

que a senhora pensa? Sou muito forte. Ninguém além de mim cria meu

filho.

— Pois alimente-se bem — disse Guillermina, recuperando seu tom

docemente autoritário. — E cuidado para não fazer disparates. Obedeça ao

médico... Nada de acessos de ira nem de desvarios. Ah! Duvido muito que

a senhora sirva...

E, sentindo um daqueles arroubos de inspiração que a embelezavam e

sublimavam, disse-lhe isto, já de pé para partir:

— Pois saiba que Deus me fez tutora deste filho... Sim, bela moça, não

se espante nem me arregale esses olhos. A mãe é a senhora, mas eu tenho

sobre ele uma parcela de autoridade. Deus me deu. Se lhe faltasse a

mãe, eu me encarregaria de lhe dar outra, e também uma avó. Meu filho,

você veio ao mundo com bênção, porque, aconteça o que acontecer, nunca

ficará sozinho. Deixe-me vê-lo outra vez. Não me canso de olhá-lo.

Quero levá-lo guardado dentro dos olhos. Virgem do Carmo, como é

lindíssimo...! Tem a quem puxar. Adeus, adeus.

Saiu acompanhada por Estupiñá, dizendo à maneira de oração:

— Acatemos a vontade de Deus... Ele saberá por que mandou para cá este

anjinho. Jacinta, furiosa, diz que Deus está caduco e só faz disparates...

Pobrezinha... Como é limitada nossa inteligência! Não compreendemos

nada, mas nada, do que Ele faz, e quebramos a cabeça tentando adivinhar

o sentido de certas coisas que acontecem; quanto mais voltas lhes damos,

menos as entendemos. Por isso, corto logo o mal pela raiz, e toda a

minha matemática se reduz a dizer: “Cumpra-se a vontade do Senhor.”

Fortunata sonhou naquela noite que Aurora, Guillermina e Jacinta

entravam armadas de punhais e com máscaras negras e, ameaçando matá-la,

tiravam-lhe o filho. Depois era Aurora sozinha quem cometia o crime

nefando, entrando na ponta dos pés na alcova, fazendo-a cheirar um

maldito lenço embebido numa mistura da farmácia e deixando-a como

adormecida, sem movimento, mas capaz de perceber o que acontecia.

Aurora pegava o menino e o levava, sem que a mãe pudesse impedi-la, nem

sequer gritar. Despertou angustiadíssima. Sentia-se mal, propensa a

desvarios da mente assim que adormecia, e com muitíssima sede. Esta se

tornou tão forte que, não conseguindo acordar a tia batendo com os nós

dos dedos na divisória, teve por fim de se levantar em busca de água.

Ao voltar para a cama, sentiu bastante frio, e permaneceu nessas

alternâncias de frio e calor até de manhã.

vi

Ballester foi cedo, e ela não perdeu tempo em lhe falar da visita de

Maxi e da história que este lhe levara. O gerente incomodou-se muito ao

saber daquilo e, com seriedade e calor pouco habituais, negou o que seu

amigo contara sobre a Samaniego.

— Olhe, companheiro — disse ela —, quanto mais o senhor se empenha em

negar, mais eu acredito. O senhor nunca fala assim; e, quando fica

sério, só diz mentiras. O que quer é que eu me acalme. Agradeço; mas

não pode ser. E aquela francesinha asquerosa não há de rir de mim.

O bom amigo esgotou toda a sua lógica para lhe arrancar aquela ideia,

sem conseguir nada.

— E, afinal — disse ele, assumindo o tom festivo e malandro que

empregara com Maxi em outra ocasião —, para que damos atenção ao que

diz aquele desventurado?... Ai, como somos românticas e impressionáveis!

Meu amigo Rubín, com essa aparência que agora tem de homem ajuizado,

está mais tocati que nunca. Diz tudo ao contrário, e outro dia

sustentava que dona Desdêmona é uma mulher formosa. Parece-me que, se

continuarmos por esse caminho, terei de trazer a vara para cá...

Essas brincadeiras não afetaram Fortunata.

Ele a observava com séria atenção, notando que uma ideia muito sinistra

e tenaz a dominava e que não seria fácil tirá-la de sua cabeça. Receou

que aquele estado de ânimo influísse desfavoravelmente em sua saúde e,

para preveni-lo, tratou de assustá-la.

— Quevedo me disse que nestes dias é preciso ter muito cuidado com a

senhora e que não permitirá que se levante antes da semana que vem.

Qualquer disparate que fizesse poderia nos ser fatal. Portanto, minha

filha — disse, tomando-lhe as mãos —, muitíssimo cuidado. Não digo que

faça isso por mim. Que importância a senhora dá a este pobre

farmacêutico? Nenhuma, e com razão, porque para a senhora eu não sou

ninguém... Faça-o por meu amigo Juan Evaristo, a quem já quero como se

fosse meu filho, sim, fique sabendo, e me constituo seu tutor; faça-o

por ele, e tutti contenti.

Ela pareceu convencida, e Ballester foi embora com a impressão de ter

triunfado. Ficou tranquila a manhã inteira; mas, perto do meio-dia, ao

despertar de um sono breve, sentiu-se tão vivamente acometida pela

vontade de sair à rua que não conseguiu dominar aquele impulso cego.

Levantou-se, para grande surpresa de Encarnación, única pessoa que

estava na sala, penteou-se às pressas e vestiu sua saia de merino

escuro, um xale de crepe preto, outro lenço colorido na cabeça, mitenes

vermelhos, suas botas de cano claro e... Mas, antes de sair, dedicou

longo tempo ao filho, que despertara enquanto a mamãe se vestia e

parecia declarar com seus gritos que não aprovava a saidinha. Ela o

convenceu dando-lhe tudo o que ele quis, ou tudo o que havia, e o

anjinho adormeceu em seu berço de vime.

— Olhe — disse a patroa a Encarnación —, vou sair. Não ficarei fora

senão pouco tempo, porque tomarei um carro e farei a diligência em meia

hora. Você não sai daqui; se o menino acordar, embale-o e balance o

berço, dizendo que eu volto agorinha mesmo... Cuidado para não se

afastar dele. Escute: enquanto eu estiver fora, não abra para ninguém...

Melhor fazer outra coisa; eu tranco com duas voltas e levo a chave. Se

Segunda chegar, que espere na escada.

Deu muitos beijos no filho, de quem se separava pela primeira vez

naquela ocasião, e saiu, fechando a porta e levando a chave. “Não vá

acontecer de alguém chegar e... Não, não o tirarão de mim; mas já houve

casos. Vejo que este meu anjo tem muitos cobiçosos. E, sobretudo, é

aquela invejosa da Jacinta quem mais medo me dá. De tanta raiva, vão

nascer-lhe mais cabelos brancos, e ela vai ficar magra como um arame.

Mas que remédio tem além de se conformar...? Eu já sofri bastante...

que agora sofra ela. Ah! Ouço passos. Francamente, não queria que

ninguém me visse, porque começarão a dizer se saio ou deixo de sair, e

não gosto de falatórios.

“Parece-me que é dom Plácido quem sobe. Vou me esconder um pouco até

que entre em casa... Já chegou, abriu a porta. Agora escapo, e Deus me

acompanhe. Eu devia levar alguma coisa que doesse... Ah! A chave. É

melhor que o pilão do almofariz. Com isto e as unhas... eu juro que...”

Tomou um carro e, mal entrou nele, sentiu tanta vertigem, por causa do

movimento e de sua própria fraqueza, que teve de fechar os olhos e

inclinar a cabeça para não ver as casas girando ao seu redor. “Devia ter

tomado um caldinho antes de sair... Mas bela hora para me lembrar.

Enfim, isto passará.” Passou de fato, e a primeira coisa que fez ao se

recuperar foi mudar a ordem dada ao cocheiro. Dissera-lhe _Ave María,

18; mas teve uma ideia e disse Cabeza, 10_, pondo a cabeça para fora

da janela, estendendo o braço e tocando, com a chave que levava na mão à

guisa de arma, o braço do condutor. Ficou cerca de meia hora na casa por

último indicada e, quando desceu para tomar novamente a carruagem, seu

rosto pálido tinha transparências de cera, os lábios não tinham cor...

— Aonde vamos, senhora? — perguntou-lhe o cocheiro, vendo que o tempo

passava sem que ela desse ordem alguma.

— Subida de Santa Cruz, esquina com a rua de Vicario Viejo.

E, dito isso, enquanto a berlinda rodava, dava voltas a este pensamento:

“Claro; foi o que eu disse. Visitación não haveria de esconder isso de

mim. E depois o tolo do Ballester diz que meu marido está louco! Ele

tem mais razão e mais talento que todos os ajuizados juntos... Não se

enganou nem um tantinho assim. Dei vinte duros a Visitación pela

cantiga... Claro; de mim ela não haveria de negar...” E, partindo dessa

ideia, tornava a ela cem e cem vezes, descrevendo o doloroso círculo.

Desceu na subida de Santa Cruz e subiu à oficina de Samaniego, entrando

pelo portal que ficava na rua de Vicario Viejo. Ia tão decidida que não

teve a mais leve hesitação. A porta do entressolo tinha um anteparo de

oleado que, ao se abrir, fazia soar uma campainha. Fortunata estivera

ali nos dias anteriores à inauguração da loja e se lembrava

perfeitamente de tudo. Não era preciso bater; empurrava-se o anteparo,

soava um plim muito forte e a pessoa já estava dentro. Assim fez

naquele dia e, mal percorreu o curto corredor que conduzia à sala

principal, deu de frente com Aurora, que naquele momento ia do centro,

onde ficava a mesa, em direção a uma das janelas, levando tecidos na

mão. Ao redor da mesa, Fortunata viu umas seis ou sete costureiras

trabalhando; num sofá, junto à janela larga que dava para a rua, duas

senhoras examinavam rendas e tecidos à luz.

— Bom dia — disse a senhora de Rubín, detendo-se por um instante e

percorrendo com um olhar fugaz todos os rostos que tinha diante de si.

Aurora, ao vê-la, ficou tão perturbada que não soube o que dizer nem

que expressão adotar.

— Ah!... Você, Fortunata... Quanto tempo...!

De repente, assumiu um tom um pouco seco.

— Desculpe... Estou ocupada. Se você pudesse voltar em outra hora...

Mas no mesmo instante mudou de registro.

— Que rosto é esse? Esteve doente?

— E você, como está?... sempre tão esplêndida... — disse-lhe Fortunata,

aproximando-se e fazendo um rosto falsamente amável, no qual, contudo,

não era difícil ver a cruel suavidade com que certas feras lambem a

vítima antes de devorá-la.

— E você, por onde anda? — balbuciou Aurora, muito desconcertada, sem

saber para onde se voltar.

Por fim, dirigiu-se às senhoras que ali estavam, mas não soube o que

lhes dizer. Fortunata pôs-se diante dela quando voltava para a mesa

central.

— Eu precisava falar com você... Como você não aparece... Ai, que

amigas são estas; uma morre sem que lhe digam nada!

Aurora se tranquilizava um pouco com essa linguagem e respondeu,

sorrindo:

— Minha filha, com tantas ocupações, a pessoa não tem tempo para

visitas. Pensei em ir vê-la... Mas sente-se.

— Estou bem assim... Acabo logo.

Aurora se aproximou outra vez das senhoras e, ao voltar, a amiga

tocou-lhe o braço.

— Precisava lhe dizer duas palavras... uma coisinha que queria falar.

Estava morrendo de vontade de vê-la. Ingrata! Sabendo como sua companhia

me agrada...!

— Você tem razão — disse a outra, tornando a inquietar-se, porque notou

no rosto da amiga alguma coisa que a pôs de sobreaviso. — Todos os dias

eu pensava em ir...

— Sabendo que gosto tanto de você...

— E eu de você... Mas por que não se senta?

— Não... Vou embora já. Só vim lhe trazer uma coisa...

— Trazer uma coisa... para mim!

— Sim, você vai ver.

E, ao dizer vai ver, fez com o braço direito um movimento rápido e

enérgico e descarregou-lhe a mão tão em cheio no rosto que a outra não

pôde resistir ao impulso e, soltando um grito, caiu no chão. Fortunata

disse:

— Tome, indecente, víbora, ladra!

Nunca se deu bofetada mais sonora e terrível. Todas as costureiras

correram aterrorizadas em socorro da chefe; mas, por mais depressa que

acudissem, não foi possível impedir que Fortunata, empunhando a chave

com a mão direita, desferisse na outra uma martelada na testa; depois,

com indizível rapidez e coragem, agarrou-lhe o coque com as duas mãos e

puxou com toda a força. Os gritos de Aurora eram ouvidos da rua. As

duas senhoras saíram à escada pedindo socorro. Felizmente, as

costureiras seguraram a fera no momento em que cravava as garras nos

cabelos da vítima; do contrário, teria acabado com ela ali mesmo.

Contida por tantas mãos, Fortunata fez esforços para se soltar e

continuar a briga; mas por fim o número, não o valor, venceu sua

incrível pujança. Com uma pancada, derrubou uma das modistinhas de

pernas para o ar; deixou o olho de outra como um tomate. Arfando,

lívida e suada, os olhos lançando chamas, Fortunata continuava com a

língua a trágica obra que suas mãos não podiam realizar.

— Isso é para você tornar a meter os dedos no prato alheio, sua

patife... Mentirosa, trapaceira, comediante, capaz de enganar o Verbo

Divino. Foi um desperdício a água do batismo que jogaram em você!

Vigarista, negociante de feira... Espezinho seu rosto, ainda que

desonre as solas de minhas botas.

E fez tamanho esforço para se soltar que esteve a ponto de consegui-lo.

Duas delas tinham acudido para levantar Aurora, que continuava soltando

gritos de dor. Se Pepe Samaniego e um empregado não aparecessem, Deus

sabe o que se teria armado ali.

— O que é isto? O que aconteceu aqui? Quem é a senhora? O que procura?

— Quem sou eu!... — gritou Fortunata, desesperada. — Uma pessoa

decente...

— Sim, já se vê... Aurora, por Deus!... O que é isto?

— Uma pessoa decente, que veio ajustar as contas com esta grande

serpente que o senhor tem em casa. E, além disso, ela é caluniadora.

— Cale-se e vá para o diabo... Mas o que é isto, Aurora?... Jesus!

Sangue na cabeça. Um ferimento... Escute aqui, sua ordinária, agora

mesmo a senhora vai para a cadeia... Ei! Chamem uma patrulha.

A Fenelón estava quase desmaiada, e as aprendizes lhe desabotoaram o

vestido para afrouxar o espartilho.

— Quem vai para a cadeia é ela — guinchou a agressora, frenética,

revertida de repente às condições de sua origem, mulher do povo, com

toda a paixão e a grosseria que o trato social disfarçara nela. — Eu

não ofendi ninguém... Foi a mim que ofenderam... Aquela velhaca me

enganou, enganou nós duas, porque somos duas as ofendidas, duas, e o

senhor deve saber... Aquela é um anjo, eu sou outro anjo, quero dizer,

eu não... Mas tivemos um filho; o filho da casa, e esta é uma

intrometida, feia, sarnenta e sem-vergonha que tem de me pagar, tem de

me pagar.

— Se a senhora não se calar!... — disse Samaniego, aproximando-se dela

com gesto ameaçador. — Vamos, só por ser mulher não lhe dou uma surra

agora mesmo.

— O senhor, em mim?... Ainda falta poder. Faria melhor não permitindo

as indecências que esta mulher comete...

— Estou dizendo que, se não se calar... Não consigo me conter... Ei!

Chamem uma patrulha.

A cena tomou aspecto ainda pior com o aparecimento de dona Casta, que

por acaso chegou à loja naquele instante e, informada da algazarra,

subiu mancando e entrou no teatro do dramático acontecimento aos gritos.

— Filha de minha alma!... Mas o quê!... Mataram-na!... Sangue!... Ai,

meu Deus! Aurora... Aurora...! Mas quem fez isso?... Ah! Aquela mulher...

— Sim, eu, fui eu — disse-lhe Fortunata, do canto onde a tinham

encurralado. — Teria sido melhor para a senhora, sua bruxa, não servir

de cobertura para as patifarias de sua menina...

Dona Casta, correndo para a filha, não prestava atenção às flores que a

outra lhe lançava. Aurora recobrou os sentidos, soltando gemidos.

— Não é nada, tia — disse Samaniego. — Não se assuste... Uma leve

contusão e o susto correspondente... Mas aquela selvagem não vai se

calar?... Para o posto policial, para o posto...

— Deixem-na; que vá embora... — murmurou Aurora, com os olhos fechados.

— Para a cadeia — gritava dona Casta, rouca.

— Não, para a cadeia não — disse a vítima, fazendo gala de

generosidade. — Deixem-na, deixem-na... Pepe, não faça nada com ela.

— Não; eu não vou bater nela... Ela se entenderá com o juiz.

— Não, juiz não, juiz não — dizia a Fenelón, muito aflita. — Eu a

perdoo. Deixem-na; que vá embora, que vá depressa; não quero vê-la.

Fortunata, implacável, não queria se calar, e entre os que rodeavam a

vítima dividiram-se as opiniões sobre o que se devia fazer com a

agressora. Subiu mais gente, e a oficina, com tanta gritaria e as

pisadas dos que entravam e saíam, parecia um inferno.

vii

A primeira a chegar à casa da Cava, durante a ausência da Pitusa, foi

Guillermina. Depois que chamou duas vezes, a voz de Encarnación

respondeu através dos furos da chapa:

— A senhorita saiu. Deixou-me trancada.

— Saiu!... Deus nos acuda!... Mas isso é verdade, ou ela não quer me

receber?

— Não, senhora, ela não está. Disse que voltaria logo. Deu duas voltas

na chave.

— E o menino?

— Continua dormindo muito bem.

— Esperarei um pouco — disse a santa, soltando um suspiro; e, cansada

de ficar em pé, sentou-se no degrau mais alto do lance. Parecia uma

pobre que espera a porta se abrir para pedir esmola. — Mas aonde terá

ido aquela louca?... É o que eu digo: ninguém consegue segurá-la. Não

vai poder criar o filho. Às vezes tem uns impulsos felizes; mas, quando

menos se espera, faz uma dessas... Qualquer dia abandona o menino ou o

mete na Inclusa... Não, isso não permitiremos. Se o pobrezinho tem uma

mãe desnaturada, não lhe faltará quem cuide dele.

Enquanto pensava nisso, ouviu outra pessoa subindo. Era Ballester, que,

ao vê-la, ficou um pouco embaraçado.

— O senhor vem a esta casa? — disse-lhe a dama. — Pois tenha paciência,

que o pássaro voou. Aquela senhora foi para a rua. Lá dentro estão o

menino e a criada; mas, como levou a chave, não podemos entrar. Aguente

a espera, como eu, se não estiver com pressa; ela já não pode demorar.

— Mas nós a tínhamos proibido de sair! — exclamou ele, assustadíssimo e

contrariado. — Ontem à noite, segundo me disse dom Francisco de

Quevedo, ela estava um pouco agitada. Por isso eu vinha ver... Que

disparates comete!

— Claro que é um disparate! E o senhor não suspeita de onde ela possa

estar?

— Eu... não faço ideia. Enfim, esperaremos.

O gerente sentou-se dois degraus abaixo, e a santa estreitou os olhos

para observá-lo. Como não se detinha diante de nada quando considerava

necessário interrogar alguém, atacou Ballester sem mais preâmbulos:

— Diga-me, cavalheiro, e perdoe a confiança. É o senhor a pessoa que

agora... tem maior ascendência sobre esta mulher?

— Eu, senhora... não creio ter ascendência... Conheço-a há pouco tempo.

Sou amigo dela; interesso-me um pouco por ela.

— Não estou pedindo que me diga que espécie de amizade é essa...

— As relações mais puras... O quê, a senhora não acredita?

— Sim, acredito em tudo. Justamente, tenho muita fé — disse ela, rindo

com graça. — Mas não se trata disso agora. Que me importa? O que quero

dizer é que, se o senhor exerce alguma influência sobre ela, deve

aconselhá-la a... Porque, no dia menos pensado, esta mulher torna às

antigas e se cansa de criar o menino. O melhor seria arranjar-lhe uma

ama e entregá-lo a pessoas que cuidariam dele melhor que ela.

Aconselhe-lhe isso.

— Eu... o que quer que eu diga?... Creio que ela não o abandonará.

Está muito entusiasmada com ele.

— Sim; belo entusiasmo nos dê Deus. Veja só esta mulher!... Sair para

passear! Que vontade de rua ela tinha. Nem sei como o anjinho aguenta

tanto tempo sem mamar...

Ainda não terminara de dizer isso quando ouviram os gritos do pobre

menino. Sem conseguir se conter, Guillermina levantou-se e foi até a

chapa furada, por onde lançou estas veementes expressões:

— Meu filho, aquela louca que não volta!... Você tem razão... Patife!

Espere mais um pouquinho, um pouquinho.

Chamou a menina à porta e lhe disse:

— Escute, menina, veja se o distrai por um instante, pois sua patroa

não pode demorar. Embale-o no bercinho, cante alguma coisa para ele,

sua tonta.

E, voltando ao degrau, conversou com o companheiro de espera:

— Que alma de mulher...! Ai, tenho o gênio tão vivo que arrombaria a

porta, pegaria o menino e o levaria para alguém amamentá-lo... O senhor

é médico?

— Não, senhora; sou farmacêutico.

Calou-se porque ouviram passos já muito próximos, como os de uma pessoa

que subia com cautela, e olharam para o patamar intermediário, esperando

que aquele que subia desse a volta. O aparecimento daquela pessoa

deixou ambos muito surpresos. Era Maximiliano, que, ao ver dona

Guillermina e Segismundo sentados na escada, fez o seguinte raciocínio:

“Duas pessoas que esperam e que se sentaram de cansaço. Logo, esperam há

muito tempo, e a casa está fechada.”

Ficou imóvel por algum tempo, sem saber se continuava subindo ou voltava

para baixo. O gerente ria, e Guillermina o olhava com graça.

— Nada feito — disse-lhe ela —, o senhor também terá de esperar. Tem a

chave?

— Eu, chave?

— A chave do campo — indicou Ballester, mal-humorado, pensando que Maxi

não fazia falta alguma ali. — É melhor o senhor ir embora, amigo Rubín,

e voltar depois, porque isto vai demorar.

— Também esperarei — respondeu o outro, sentando-se abaixo de Ballester.

Tornaram a ouvir os gritos desesperados do Pituso, e Guillermina não

disfarçava a impaciência e a aflição.

— É claro, a pobre criatura está com fome... Veja só: levantar-se antes

da hora e plantar-se na rua... Digo-lhe que eu lhe daria uma surra...

Maximiliano permanecia calado, sem tirar os olhos da santa, a quem nunca

vira tão de perto.

— Pois estamos bem servidos — acrescentou ela. — Já somos três. E isto

está virando história. Ouço passos. Será afinal aquela catavento...

Os passos não pareciam de mulher. Quem seria? Os três olharam e surgiu

José Izquierdo, que, ao ver dona Guillermina, sobressaltou-se

extraordinariamente e olhou para baixo, como se quisesse se atirar de

cabeça. Daria qualquer coisa para ter onde se meter. A santa ria na

cara dele e, por fim, disse:

— Não tenha medo de mim, senhor Platão... Por que está tão assustado?

Não como gente. Se o senhor e eu somos amigos...

— Senhora — disse o modelo, com um grunhido —, quando o indivíduo

passa necessidade, não pode ser cavalheiro e faz qualquer coisa.

— Sim, homem, já sei; e aquele grande golpe que o senhor nos deu está

esquecido... Pois se visse como está bonito o Pituso!

— É verdade? Ai, pobre piolhinho de minhas entranhas!

— Sim; está se criando perfeitamente. E é tão esperto e travesso que

deixou o asilo inteiro em alvoroço.

— Ai, como se reconhece o santíssimo sangue da mãe, que virava meio

mundo de pernas para o ar. Aquele menino tinha um talento de homem...

Ora, que...

— Agora o senhor está como quer, senhor Platão, segundo ouvi dizer,

ganhando rios de dinheiro com a pintura.

— Defendemos o santo grão-de-bico, senhora...

— Alegro-me por diferentes motivos, pois, estando o senhor em tão boa

situação, não lhe ocorrerá enganar as pessoas.

Izquierdo coçava uma orelha e a teria dado para que a santa mudasse de

assunto.

— Se a senhora quiser, não olhemos para trás.

— Mas isto não é olhar para trás... Vamos, se agora o senhor

estivesse mal de dinheiro, bem poderia tentar outro negócio como

aquele... e não com moeda falsa, mas legítima.

Ballester ria, e Maximiliano estava muito sério, o que a fundadora

percebeu, apressando-se a dizer:

— Se não fossem essas brincadeiras, como suportaríamos esta espera

horrível? Eu me consumo quando tenho de esperar; e, quando espero

estupidamente pela tolice de uma pessoa, perco a paciência por completo...

Tornou a ouvir-se a queixosa cantilena de Juan Evaristo, e Guillermina

puxou a campainha para dizer à criada:

— Mulher, distraia-o; diga-lhe umas coisinhas. Você parece boba... Meu

filho, ela já vem, já vem!... Você vai ver a surra que lhe dou quando

entrar, por deixá-lo assim tão sozinho, morto de fome... Senhores —

disse ela, voltando ao degrau —, os senhores me perdoem; se algum se

cansar, não fique aqui só para me fazer companhia. Alguma coisa deve

ter acontecido àquela mulher, pois está demorando tanto. Proponho que se

nomeie uma comissão para fazer uma busca na rua e descobrir onde ela

pode estar.

Ao dizer isso, olhava para Maxi, dando a entender que ele fizesse parte

da citada comissão. O jovem não fez gesto algum que indicasse intenção

de se mover e, na mesma atitude indolente em que estava, olhando de

esguelha os companheiros de espera, disse:

— Há cerca de cinco quartos de hora, ela ia num carro pela rua de

Atocha... Entrou pela rua de Cañizares... Há cerca de três quartos de

hora, vi o mesmo carro atravessar a praça de Santa Cruz em direção à rua

de Esparteros...

Ballester e Guillermina se entreolharam alarmados.

— Pois proponho — repetiu ela — que uma comissão vá à rua de

Esparteros... E o senhor não viu se o carro parou em algum lugar?

— Não, senhora... Pensei que o carro viesse para cá, pois, embora o

caminho mais direto desde a rua de Atocha seja Plaza Mayor, Ciudad

Rodrigo e Cava, como na entrada da Plaza, pelo lado de Atocha, estão

assentando paralelepípedos e não se pode passar, eu disse: “O cocheiro

vai tomar a rua Mayor.” Mas, pelo visto, ela não veio para cá. Logo,

foi a outra parte. Talvez tenha ido visitar alguma amiga: Aurora, por

exemplo...

Ballester e a santa tornaram a se olhar com inquietação.

— O que este rapaz diz — indicou o farmacêutico, comunicando à dama

seus temores — me parece tão lógico que quase, quase me inclino a

considerá-lo verdadeiro.

Ouviram-se passos outra vez; mas eram muito pesados e vinham

acompanhados de pigarro e resfolegar de pessoa madura, razão por que

ninguém pensou que fosse Fortunata quem chegava.

— É Sigunda — disse Izquierdo antes de vê-la, e não se enganou.

A vendedora da praça pôs as mãos na cintura ao ver a escalonada tertúlia

que havia ali e, quando reconheceu quem estava sentada no lugar mais

alto, abriu a boca de espanto e expressou sua admiração desta maneira:

— Bendito Deus! A dona da casa sentadinha na escada, como uma pobre que

espera as sobras da comida! Mas o quê, aquela diaba não está? Fugiu para

a rua! Eu temia isso. Que cabeça! Se ontem à noite ela estava muito

exaltada...! Mas, senhora, por que não entra na casa de dom Plácido? Lá

haverá cadeiras, pelo menos, e a senhora e os cavalheiros poderão se

sentar à vontade...

— Faça o favor de bater no terceiro andar e ver se Plácido está. Tenho

certeza de que ele a encontra.

Segunda chamou, e Plácido não estava.

— A senhora quer que eu vá procurá-la?... Mas aonde?

— Eu irei — disse Ballester, que não conseguia afastar a ideia de que,

na oficina de Samaniego, dariam notícias da fugitiva.

Ainda falava em segredo com Guillermina quando Segunda, que descera em

busca de uma chave ou gazua para abrir a porta, gritou do primeiro

andar:

— Ela já está aqui, já está aqui.

— Ah, graças a Deus! — exclamou Guillermina, sem intenção de duplo

sentido. — A perdida apareceu. Veremos o que traz.

— Uma de duas — disse Ballester, suspirando —: ou traz o rosto

arranhado, ou traz sangue, talvez pele humana, debaixo das unhas.

— Esta mulher é tremenda...

Todos se levantaram, menos Maximiliano, que continuou estendido

apaticamente até ver a esposa. Ela subia ofegante, muito afogueada,

enxugando com um lenço o suor do rosto e levantando as saias para não

pisá-las. Trazia na mão a chave da casa.

— O quê, demorei?... Não demorei nada. Resolvi logo... Ah! Dona

Guillermina também está aqui. Minha filha, pensei que me desocuparia

mais depressa... E meu rei está com fome... já o ouço chorar... Vou,

vou, filho de minhas entranhas... Ai! Pensei que não me deixariam vir.

Se me levassem para a cadeia, não sei... meu pobrezinho.

— Abra, abra depressa... — disse-lhe Guillermina, empurrando-a —,

andarilha, cabra-montesa. Está visto: a senhora não serve para ser mãe...

Anjo de Deus, faz duas horas que ele está sofrendo... Se a senhora não

se corrigir, teremos de cuidar dele nós mesmos.

viii

Ela abriu, e todos entraram atropeladamente; Fortunata à frente,

Guillermina agarrada a ela, e atrás Ballester, Maxi, Izquierdo e

Segunda. A mãe correu direto para a alcova, onde o pequeno estava no

berço, dando gritos que comoveriam o cavalo de bronze de Felipe III.

— Aqui estou, meu tesouro, aqui está sua escrava... Venha, venha, céu

de minha vida; tome o peitinho, tome... Ai, que fome tão grande!... Como

meu anjo chorou!... Eu estava desesperada para voltar. Como meu menino

fica contente!... Já não chora mais, não é? Chega de chorar...

Sem tirar o xale, pegara o pequenino, dispondo-se a aplacar-lhe a grande

necessidade. Sentou-se na cama, deixando para Guillermina a única

cadeira que havia na alcova. A santa só prestava atenção ao pequeno,

observando se a ansiedade com que mamava vinha acompanhada de

satisfação.

— Receio que, com esses arroubos, a senhora fique sem leite.

— Qual o quê, senhora... Veja, tenho de sobra. Ao contrário, acho que,

se não desabafar, fico seca. Ontem à noite eu estava que não cabia em

mim. Precisava me vingar tanto quanto respirar e comer. Pois veja só...

depois de lhe dar uma bofetada que deve ter sido ouvida em Tetuán,

acertei-lhe uma pancada com a chave e abri-lhe a cabeça... depois agarrei

os cabelos...

— Cale-se, por Deus, que me dá horror ouvi-la.

— Queriam me levar para a cadeia, e ficaram quase uma hora decidindo se

me levavam ou não. Os policiais foram lá, e eu disse que estava

amamentando. Em suma, por fim me soltaram, e vim correndo para cá. Não

há nada como ser assim para ser respeitada! Se aquelas malditas

costureiras não estivessem lá, eu teria passeado por cima do corpanzil

dela como por aquela sala. Porque veja como ela é perversa; enganar

duas, duas, senhora, a mim e a outra, que é um anjo, segundo todos

dizem! Diga-lhe que sua conta com a Samaniego está ajustada.

— Parece-me que a senhora está muito transtornada... Cale-se, cale-se e

cuide de seu filho...

— Já estou cuidando, senhora, já estou. Não está vendo?... Filho,

glória de sua mãe, imperador do mundo... Ai! Acredite que, se aqueles

cães de policiais não me deixassem voltar para amamentar meu filho, não

sei o que seria de mim... Foi o próprio Samaniego quem me soltou,

dizendo: “Que vá para o diabo.” Pois sim, senhora, estou contente. E

acredite que não me alegro por interesse... Para que quero dinheiro?

Para nada. Alegro-me por ter o filho da casa, e ninguém me tira isso.

Nem com latim nem sem latim me tiram. Não é verdade, senhora? Agora a

senhora está do meu lado. E ela também está agora do meu lado, não é?

— Quando digo que sua cabeça não está boa — respondeu ela, bastante

alarmada. — Cale a boca. Tenhamos compostura — acrescentou, dando-lhe

palmadas no ombro —, porque, se a senhora não o criar bem,

arranjaremos uma ama; e, em último caso, até o recolheremos para ficar

conosco.

— Qual o quê!... Não, senhora... Eu não o solto — disse ela, com grande

excitação e transbordamentos de alegria. — Estou tão contente!... A

senhora vai gostar de mim, não é? Vai me querer? Porque preciso que

alguém me queira de verdade. Verá como vou me comportar bem daqui em

diante. Homens? Nem olhar para eles. Não quero relações com nenhum. Meu

filhinho e nada mais.

— Sim... quem não a conhece que a compre.

— Ah! A senhora não me conhece... Acha que...? Ha, ha, ha... Meu

filhinho, e aqui paz... Veja só; consideraremos que ele é filho de nós

três, e terá três mães em vez de uma...

A santa achou graça naquela estranha ideia.

— Veja, depois que Deus me deu o filho da casa, não guardo rancor da

outra... Porque sou tanto quanto ela, pelo menos... quando não mais.

Mas digamos que somos iguais. Não guardo rancor e, se me apertarem

muito, até tomarei carinho por ela... Três mamães terá este tesouro,

esta glória: eu, que sou a primeira mamãe; ela, a segunda mamãe; e a

senhora, a terceira mamãe.

— Mas, minha filha, como a senhora está agitada e quantos disparates

diz! — exclamou, tomando-lhe o pulso e examinando com alarme o brilho de

seus olhos. — Muito me admira que o pobre Juanín consiga tirar alguma

coisa desse peito...

As outras pessoas que tinham entrado na casa estavam na sala, sem se

atrever a passar enquanto durasse aquele animado colóquio entre a diaba

e a santa, cujo murmúrio distante ouviam. Guillermina foi à saleta em

busca de Ballester, que estava muito preocupado junto aos vidros da

janela, olhando para a praça, e lhe disse:

— Aquela mulher está excitadíssima, e receio que fique sem leite... Há

antiespasmódico aqui?

— Sim, sim, preparei-o com muitíssimo cuidado; mas trarei mais esta

noite. A senhora diz que ela está excitadíssima?

— Atrozmente... Cabeça transtornada; diz mil despropósitos. Entre.

Quando Ballester lhe propôs que tomasse o remédio, a jovem replicou:

— O que quero é água. Tenho uma sede horrível... a boca seca.

Bebeu com avidez e, enquanto isso, a fundadora levou Ballester para um

canto e lhe disse:

— Escute. E o marido dela, aquele pobre homem, o que vem procurar aqui?

O que faz, o que diz, como recebeu tudo isso?

— Senhora — replicou o gerente, oscilando entre a seriedade e o riso —,

a senhora não entende?... Pois eu também não. Ele é tímido por

natureza. Por isso, quando o vejo começar a falar com pessoas que não

são de confiança, fico muito desconfiado. De algum tempo para cá, tudo

quanto esse rapaz diz é tão acertado que os sete sábios da Grécia

poderiam adotá-lo como seu.

— Mas ele não está...? — perguntou a dama, levando o indicador à

têmpora.

— Quem sabe... Foi ele quem lhe trouxe a história daquele com aquela,

quero dizer, com a Fenelón. Não confio no juízo deste cavalheirinho e,

sempre que o apanho, revisto-o para ver se traz alguma arma. Não gosto

nem um pouco de vê-lo aqui.

Rubín e Izquierdo estavam sentados no sofá da sala, ambos silenciosos.

Fortunata chamou Ballester e Platão para lhes contar o que fizera;

enquanto isso, Guillermina foi sentar-se junto a Maximiliano,

insinuando-se com um sorriso de bondade. A dama quis falar-lhe e não

conseguiu dizer uma palavra, pois, com todo o seu talento e experiência

do mundo, não acertava a chave das ideias que deveria desenvolver

diante daquele homem, dada a situação dele. O que lhe diria? Este, sim,

era um problema! Que tom adotaria? O sujeito era ajuizado ou não?

Porque, se havia dificuldades em considerá-lo demente, tratá-lo como

são apresentava dificuldades que raiavam o impossível. Falaria do

menino?... Jesus, que disparate. Diria que a mulher dele era uma joia?

Que barbaridade! Enfrentaria o estado real das coisas? Nem pensar. Iria

pelo lado religioso e da resignação? Tampouco. Pelo lado mundano? Qual...

Nunca a boa senhora se vira diante de um problema de ciência social tão

intrincado e temeroso. Aquele enigma superava todos quantos vira em sua

vida infatigável.

“Vamos”, pensou a fundadora, “quer apostar que, tomando o caminho do

meio, saio-me bem? É o melhor, e esse sistema sempre me deu resultado.

Escute, cavalheirinho...”

— Senhora...

E ali o diálogo encalhou, porque a santa não se atrevia a ir adiante.

Mas quis Deus que a própria esfinge lhe abrisse caminho, dizendo:

— Eu a conhecia de vista e de fama, mas nunca tivera o prazer de falar

com a senhora... A senhora é uma santa e, quando morrer, nós a

canonizaremos e a poremos nos altares.

— Obrigada; é muita gentileza — replicou ela com graça. — E a mim me

parece que o santo é o senhor.

— Eu... — disse ele, sem se espantar muito com a lisonja. — Mas há uma

grande diferença entre mim e a senhora. É verdade que ganhei algumas

pequenas batalhas contra minhas paixões; porém não cheguei nem de longe

ao seu grau de perfeição. Ainda estou bastante distante. Se o sofrimento

bastasse para chegar lá, já estaríamos no pináculo, porque sofri muito,

senhora. A senhora ficará pasma com a serenidade que nota em mim. Todos

ficam pasmos, e não é para menos. Pois este homem que a senhora vê já

esteve louco, completamente louco...

— Eu sei, eu sei... Ai, que dor!

— E fui passando por este e aquele grau. Primeiro tive delírio de

perseguição; depois, delírio de grandeza... Inventei religiões; julguei

ser o chefe de uma seita que transformaria o mundo. Sofri também de

furor homicida e por pouco não matei minha tia e Papitos. Seguiram-se

depressões horríveis, vontade de morrer, mania religiosa, ânsias de

anacoreta e o delírio da abnegação e do desprendimento...

“Mas Deus quis me curar e, pouco a pouco, aqueles estados foram

passando; a razão, que estava morta, começou a nascer, primeiro bem

pequenina e depois cresceu tanto, tanto, que se formou em mim um cérebro

novo, e me tornei outro homem, senhora. E então me descobri com a

novidade de um grande talento, perdoe a imodéstia, com uma grande

aptidão para julgar todas as coisas...”

Guillermina estava pasma e não lhe ocorria nada que opor àquelas razões.

Ele se expressava com admirável serenidade, com palavras fáceis e até

engenhosas, sem atropelar-se nem hesitar um instante, as feições

repousadas, todo cortesia e aprumo.

— E, quando voltei à vida, porque aquilo foi voltar à vida, encontrei-me

como quem sobe a um monte muito alto, muito alto, e vê todas as coisas

de uma só vez, reduzidas ao menor tamanho. “Aquilo”, dizia eu, “que me

pareceu tão grande, vejam-no lá, tão pequenino.” Dei-me conta de tudo o

que acontecera durante minha doença, que mais me parecia um sonho, e vi

a infidelidade daquela desgraçada; vi também que tinha uma cria, e a

clareza daquela razão nova e robusta que eu desenvolvera me fez ver um

caso de aplicação da justiça. Considerei que era meu dever contribuir

para a extirpação do mal na humanidade, matando aquela infeliz, com o

que a redimiria, porque sempre disse: “Bem-aventurados os que vão ao

patíbulo, porque em seu suplício se arrependem e, arrependendo-se,

salvam-se.”

Guillermina ia responder alguma coisa, mas o outro não a deixava meter

palavra.

— Espere um pouco, que falta a segunda parte. Eu pensava em como

realizaria aquele ato de justiça quando o acaso, ou melhor, a

Providência, ofereceu-me uma solução melhor e mais cristã que a morte.

Esta pobre mulher não precisava de minha justiça. O próprio Deus havia

disposto seu castigo e uma terrível lição. Que devia eu fazer? Deixar a

lição ferir. A infidelidade castiga a infidelidade. Há coisa mais lógica

que isso? Eu devia, portanto, deixar a lógica agir. Dei graças a Deus

por aquela luz que fez chegar até mim. Deus é o único que castiga, não

é, senhora? E como sabe fazê-lo bem! Para que usurpar suas funções?

Deus, realizando a justiça por meio dos acontecimentos, logicamente, é

o espetáculo mais admirável que o mundo e a história podem oferecer.

Assim, lavo as mãos e deixo que a lição natural se produza e a justiça

se cumpra. Isso é ser razoável? Isso é ser ajuizado...?

Fez a pergunta cruzando os braços, e Guillermina, depois de hesitar,

disse-lhe:

— Claro que é. E Cristo nos ensina que não devemos fazer justiça com

as próprias mãos, pois Deus castiga sem pau nem pedra, e Ele dá a cada

criatura o que lhe convém. Quando alguma injustiça nos envolve, pelas

patifarias dos homens, o que devemos fazer é suportar, cruzar os braços

e dizer: “Venham os golpes. Quanto mais me humilharem, mais me erguerei

depois. Quanto mais me açoitarem aqui, mais saúde terei lá.”

— É exatamente o que penso. Fui descartando os ressentimentos que havia

em meu coração... Considero a ideia de matar ineficaz e absurda, como

um medicamento equivocado. Só Deus mata, e é Ele quem sempre ensina.

Tive ciúmes horríveis, tive rancores ardentes; entretanto, todo esse

mato vai caindo sob o machado da razão... Razão e nada mais que razão.

Já não penso em matar ninguém, nem mesmo aqueles a quem tanto odiei.

Vejo os admiráveis ensinamentos de Deus, vejo os maus receberem seu

castigo e procuro não merecê-lo eu mesmo... Este é meu sistema, esta é

minha vida.

Segismundo chamara Guillermina da porta da alcova. Ali cochicharam algo

referente a Fortunata e, tendo o farmacêutico perguntado à santa sua

opinião a respeito do jovem Rubín, a fundadora expressou-se deste modo:

— A última coisa que ele me disse é o cúmulo da sabedoria e do juízo;

mas...

— A senhora não está inteiramente convencida... Nem eu.

ix

Izquierdo entrou com uma garrafa de cerveja, seguido pelo garçom do café

de Gallo, que trazia uma grande de limão, poncheira e copos.

— A senhora — disse ele, querendo ser amável — vai tomar um copinho de

cerveja com limão.

— Saia com isso! — replicou a dama. — Não bebo essas porcarias.

Agradeço...

Também ofereceram a Fortunata, mas ela tampouco quis e pediu leite.

Ballester, atento a agradá-la, mandou Encarnación buscá-lo, e

Guillermina se despediu para partir no momento em que entrava Plácido,

que subira apressado e cheio de solicitude para se pôr às suas ordens.

Segismundo observava a amiga e, na verdade, seu estado não lhe parecia

muito bom. A falsa alegria que a fazia rir a todo instante não era bom

sinal, e ele teria desejado que ela falasse menos. Mas ela não parava de

contar o episódio com Aurora, dando-lhe proporções trágicas; e, uma vez

concluído, começava-o de novo, revelando contra aquela que fora sua

amiga uma sanha implacável. Ballester a contradizia suavemente,

recomendando-lhe prudência, tolerância e perdão das injúrias. Já sem

saber o que dizer, chegou a lhe apresentar o exemplo de Maximiliano,

que carregava com tão cristã mansidão o peso de suas ofensas. Ao ouvir

isso, a diaba ria ainda mais, dizendo que o marido era um santo, um

verdadeiro santo, e que, se o canonizassem e o pusessem nos altares,

ela rezaria para ele e cuspiria nele. Rubín não ouviu isso, pois naquele

momento jogava damas com Izquierdo.

Trouxeram o leite e, quando Encarnación o servia à patroa, esta viu que

duas moscas tinham caído ali; sentiu muito nojo e deixou a menina

arrasada, chamando-a de porca e descuidada. O gerente mandou trazer mais

leite e disse que beberia o das moscas, pois não tinha nojo de nada.

Tirou os insetos com o dedo mínimo, e a amiga criticou a ação,

chamando-o de sujo e tratando-o com certa secura. Trouxeram o leite bem

coberto para que não caíssem moscas; enquanto Fortunata o bebia,

Ballester tomou o outro, fazendo brincadeiras e pilhérias com as quais

não conseguiu dissipar a negra tristeza em que a jovem caíra depois da

ruidosa alegria. Mandou-a deitar-se e, enquanto isso, passou à sala,

fingindo prestar atenção ao jogo de damas. Não conseguia ficar tranquilo

enquanto Maxi estivesse ali, nem confiava em suas aparências resignadas

e filosóficas. Disfarçadamente, fingindo fazer-lhe cócegas por

brincadeira, apalpou-lhe os bolsos, receoso de que carregasse alguma

arma. Nada encontrou em sua discreta revista. Apesar disso, Ballester

não queria ir embora sem levá-lo à frente; tanto insistiu com ele que

acabou conseguindo. Saiu, pois, o gerente, com o propósito de voltar,

pois a amiga o deixara preocupado.

Platão também partiu ao anoitecer, mas às nove regressou e acendeu a

luz da sala. Ainda não eram nove e quinze quando Fortunata, que começara

a cochilar, ouviu passos e viu um homem entrar na alcova.

— Quem é? — perguntou, alarmada, lançando os braços sobre o filho. —

Ah! É você, Maxi; não o tinha reconhecido. Está tão escuro aqui...

A tos rouca do tio a tranquilizou, dizendo-lhe que não estava sozinha.

Mandou a menina trazer luz, pois o sono lhe fugira, e José, atento a

vigiá-la, aparecia a todo instante à porta da alcova. Maximiliano

sentou-se junto à cama como no dia anterior e lhe disse com bondade:

— Esta tarde havia muita gente aqui, e não pude falar com você. Por

isso voltei. Já sei que você e Aurora brigaram. Dona Casta está furiosa,

e minha tia, você não imagina como está exaltada contra você. A respeito

do acontecimento de hoje, ocorreu-me uma coisa que quero lhe comunicar.

— Diga, diga depressa — indicou ela, que, sem saber por quê, esperava

daquele homem a quem tinha em tão pouca conta ideias estranhas e talvez

consoladoras.

— Pois o que você fez esta tarde favorece sua inimiga — afirmou Rubín

com severidade de médico, esperando o efeito que tais palavras

produziriam nela. — Sim, favorece sua inimiga. Você é tola e não

conhece a natureza humana. Desde que entrei nesta grande crise da razão,

vejo tudo com clareza, e a natureza humana não tem segredos para mim.

Fortunata não compreendia.

— Vou me explicar melhor. Quero dizer que, ao maltratar sua rival, você

lhe deu a vitória sobre si. O homem que ambas amam poderia ter hesitado

antes de escolher aquela que definitivamente mereceria seu amor. Agora

não hesitará. Entre uma que perde a compostura e comete as brutalidades

que você cometeu e outra que sofre e é maltratada, o amor tem de

preferir a vítima. Toda vítima é interessante por si mesma. Todo

carrasco é odioso por si mesmo. Numa disputa amorosa, a vítima sempre

vence. Essa verdade está escrita no coração humano como num livro, e eu

a leio com tanta clareza como lemos uma notícia em El Imparcial. Sei

de tudo; nada me fica oculto. Você já tem provas suficientes disso.

Aquilo fez tão mal a Fortunata que ela sentiu vontade de pegar o

castiçal e atirá-lo na cabeça dele. Respondeu, despeitada:

— Pois, se ela vencer, melhor. Não me importa nada que ele a ame ou

deixe de amar...

— E agora vai amá-la tanto — acrescentou Maxi, impassível e frio —,

vai amá-la tanto que os amantes de Teruel serão nada perto deles. Vai

amá-la porque foi atacada, e as vítimas sempre inspiram amor. Acredite,

porque sou eu quem diz, eu que sei tudo. Vai amá-la loucamente, mais

que a você, mais que à própria mulher; e fará com ela o que não fez com

nenhuma. Abandonará a mulher e os pais para viver à vontade com ela...

E serão felizes e terão muitos filhinhos.

O que a senhora de Rubín soltou não foi mais que um mugido. Fez menção

de pegar o castiçal. Depois cobriu o rosto com a mão.

— Digo-lhe essas coisas porque são a verdade, e golpeio você com a

verdade para que a lição arda. Assim, assim é que se aprende. Bela

lição, não é? É verdade que dói e faz sangue; mas sofrer e aprender são

sinônimos. É para seu bem. Sua consciência se purificará, e tomara que

morresse com essa dor, porque iria direto para o Céu.

A jovem chorava angustiada, e ele não parecia sentir compaixão.

— Vejo que acredita em mim, e faz bem. Tudo o que lhe disse sempre se

revelou verdadeiro. Sei de tudo, e minha razão apresenta a vida diante

de meus olhos como um panorama. É um dom que recebi de Deus. Quando

estava louco, adivinhava por inspiração; você bem sabe e se lembrará de

que anunciei tudo o que aconteceria... A verdade vinha então a mim

envolta numa espécie de simbolismo, como as verdades reveladas aos povos

do Oriente. Mas depois entrei na época da razão, e a verdade se oferece

a mim clara e nua; nua e clara eu a digo a você. Acertei ao encontrá-la

quando todos me diziam que você tinha morrido? Acertei ao descobrir o

caso de Aurora, com os detalhes da casa, da hora em que se encontravam

etc.? Pois aí está. Nada se esconde de mim, e o que acabo de lhe dizer

é o Evangelho. Você deu a vitória à sua inimiga... aguente o golpe. Sua

vítima e seu carrasco serão felizes e terão muitos filhos.

— Cale-se, cale-se, ou você vai ver... — disse Fortunata, ameaçando-o

com o punho e tentando vencer o terror sugestivo e supersticioso que o

marido lhe inspirava. — Eu também conheço verdades e vou lhe dizer uma.

— Pois diga depressa.

— Digo que você é um homem sem honra...

Maximiliano estremeceu levemente, mas nada mais. Continuava ouvindo.

— E o que mais? — perguntou.

— Acha pouco? — prosseguiu a diaba, que, de tão furiosa, tinha espuma

de saliva nos lábios. — Pois Ballester e dona Guillermina diziam há

pouco: “É um santo, mas não tem o sentimento da honra.” Agora já sabe.

Deixe-me em paz. Não quero vê-lo mais. Uns dizem que você está

ajuizado, outros que está louco. Eu creio que está ajuizado, mas não é

homem; perdeu a condição de homem e não tem... digamos, amor-próprio nem

dignidade... Aí está sua lição. Aguente e volte para receber outra. O

que pensava? Que eu suportaria suas lições sem lhe dar as minhas?

— O que você diz — respondeu ele, com glacial estoicismo — é próprio

de uma criatura cheia de fraquezas e impurezas, em quem a razão se

encontra em estado embrionário e que fala e age sempre movida pelas

paixões e pelo vício.

— Teologias! — gritou Fortunata, exaltando-se e movendo os braços

como uma atriz numa passagem dramática. — Se você tivesse um tantinho

assim de dignidade, teria me dado um tiro... Não deu. Melhor para mim.

E digo mais uma coisa. Se tivesse uma gota de sangue de homem, quando

viu aquele e aquela, teria disparado seis tiros neles e deixado os dois

secos. Mas você não tem sangue. Essa santidade, essa cristandade e essa

razão de confeitaria são a orchata que corre em suas veias...

Izquierdo, que ouvia da porta, alarmou-se e julgou oportuno interromper

aquele colóquio, que tomava tão mau rumo.

— Vamos — disse, entrando —, já falamos bastante. E o senhor, senhor

Maxi, faça o favor de dar o fora...

Pegou-o por um braço, sem que ele oferecesse resistência. Rubín estava

um tanto aturdido, como se analisasse e decompusesse na mente as

acusações da mulher antes de lhes dar a resposta merecida. De repente,

como movida por um impulso epiléptico, Fortunata ergueu-se na cama,

lançou os braços para a frente e cravou os dedos de uma das mãos no

ombro do marido com tanta força que o manteve preso como numa tenaz; e,

devorando-o com os olhos, gritou-lhe desta maneira:

— Meu marido, quer que eu o ame? Quer que o ame com a alma e a vida?...

Diga se quer... Eu me comportei mal com você; mas agora, se fizer o que

lhe peço, vou me comportar bem. Serei uma santa como você... Diga se

quer...

Maxi a interrogava com o olhar luminoso.

— Diga se quer. Verá como cumpro. Serei uma mulher exemplar, e teremos

filhos, você e eu... Mas terá de fazer o que lhe digo. Juro que não

voltarei atrás e que o amarei. Você não sabe o que é uma mulher que

morre por um homem. Pobrezinho, esse mel você nunca provou!... Não

daria alguma coisa para que eu o amasse como você me amava?... Lembra-se

de quando me adorava, lembra-se?... Pois imagine que eu o adoro do

mesmo jeito e o levo gravado no coração, como você me levava...

Maximiliano começou a se perturbar... A máscara fria e estoica parecia

desfazer-se como cera ao calor, e seus olhos revelavam uma emoção que

crescia a cada instante, como uma onda que avança engrossando.

— Diga se quer... — repetia a diaba, com exaltação delirante. — Deixe

as santidades de lado, vamos nos reconciliar e nos amar... Você nunca

provou isso. Não sabe o que é ser amado... Vai ver... Mas terá de ser

com uma condição... Que faça o que devia ter feito: matar aquela

indigna, matá-la... porque merece... Eu compro o revólver... agora

mesmo...

Suas mãos revolveram trêmulas sob os travesseiros, procurando a

carteira. Tirou dela uma cédula de banco.

— Tome, quer mais? Compre um revólver... bem seguro... mas bem seguro...

fique à espreita e, plim... deixe-a seca... Escute outra coisa: para

acabar com seus ciúmes e cumprir sua honra como um cavalheiro, mate os

dois, está ouvindo?, ela e ele, que também merece; e, depois de mortos

— acrescentou, com sarcasmo selvagem —, depois de mortos, que tenham os

filhos no outro mundo!... Então, fará isso? Faça por mim e pela pobre

mulher dele, que é um anjo... nós duas somos anjos, cada uma à sua

maneira... Diga que fará... E depois eu o amarei tanto...! Viverei

apenas para você... Como seremos felizes!... teremos crianças... filhos

seus, o que pensa?...

Maxi, aparvalhado e mudo, olhava para ela; por fim, seus olhos se

umedeceram... Estava degelando. Quis falar e não conseguiu... A voz lhe

gargarejava na garganta.

— Sim... amar você — acrescentou ela. — Não sei por que duvida. Ah!

Você não me conhece... não sabe do que sou capaz... deixe as teologias

de lado... O amor! Eu lhe ensinarei o que é... Você não sabe, tolinho...

a coisa mais gostosa...!

— Vamos, que lições são essas? — clamou Izquierdo, puxando Rubín pelo

braço. — Chega de música... Para a rua, que esta menina está muito mal.

— Tio, deixe-o, deixe-o... É meu marido, e queremos ficar juntos...

Ora essa!

Maxi deixava-se levantar do assento como um saco. Ficara inerte. De

repente, houve em seu espírito algo que poderia ser comparado a uma

virada súbita, ou ao movimento de coisas que, girando sobre um eixo,

estavam embaixo e passaram para cima. As mãos lhe tremiam, os olhos

lançaram faíscas e, quando disse matá-los, matá-los, sua voz soou em

falsete, como naquela noite funesta, depois do atropelamento de que fora

vítima em Cuatro Caminos.

— Mate-os para mim, sim... — acrescentou a diaba, torcendo as mãos. —

Filhos, ela!... No inferno é que os terá...

Desabou sobre os travesseiros, batendo a cabeça nos ferros da cama.

Maxi estendeu a mão e recolheu a cédula, que ainda estava sobre a

colcha. No momento em que Izquierdo o fazia sair, ressoou com timbre

agudíssimo a voz de Juan Evaristo, e Segismundo entrou, muito espantado

de ver o filósofo ali outra vez.

x

— Que rapaz dos diabos! — disse a Izquierdo quando voltava de

acompanhar o senhor de Rubín até a porta. — É preciso ter muito cuidado

com ele e não o perder de vista quando entra aqui. E ela, como está?...

Bela moça, como anda essa coragem?

A jovem não respondia. Estava como que letárgica. Mas o menino

continuou gritando e, atendendo ao chamado dele, a mãe abriu os olhos,

tomou-o nos braços e o aproximou do peito. Ballester mandou a criada

apagar a luz, que aquecia muito a alcova, e sentou-se onde Maxi estivera

antes. Depois tirou uma caixinha de remédios e um frasquinho com uma

poção.

— Aqui trago outro antiespasmódico. Eu mesmo o preparei, e trago também

o percloreto de ferro e a ergotina, para o caso de serem necessários...

Muito cuidado, minha filha, muito repouso; as emoções e os disparates de

hoje podem nos trazer uma complicação. Aposto que Maxi veio lhe contar

outra tolice. É preciso proibir-lhe a entrada.

Fortunata tornara a fechar os olhos. O menino se calara, e ouviam-se as

linguadas que dava.

— O amigo tem boa capacidade — disse Ballester; e para si, contemplando

a diaba, que dormia ou fingia dormir: “Como está formosa!... Eu lhe

daria dois beijos... com a intenção mais pura do mundo... Eis uma mulher

que hoje nada vale moralmente e que valeria muito se aquele maldito

Santa Cruz rebentasse, pois ele a mantém sugestionada... Que pena de

coração jogado aos cães...!”

O menino tornou a chorar, e a mãe parecia tão inquieta quanto ele.

— Amigo Ballester... sabe que me parece que estou ficando sem leite?...

Meu filho chupa, chupa e não tira nada...

— Não se assuste. É passageiro. Procure dormir... Vejamos: Maxi lhe

disse alguma tolice?

— Tolice, não... verdades...

— Verdades!... — exclamou, começando a rir. — E como a senhora sabe que

são verdades?

— Porque as grandes verdades são ditas pelas crianças e pelos loucos.

— É um provérbio sem sentido. Os loucos só dizem disparates.

— É que meu marido não está louco... Agora tem muito talento. É o que

eu penso.

Juan Evaristo tornou a se calar, agarrando-se ao mamilo com selvagem

afinco.

— Tome um pouco desta bebida. Preparei-a especialmente para a senhora...

Está deliciosa. É preciso acalmar os nervos.

A menina trouxe um copo com colherinha, e Fortunata tomou o

antiespasmódico.

— Como o senhor é bom, Segismundo! Como sou grata pelo que faz por mim!

— A senhora merece tudo isso e muito mais, caramba — replicou o

farmacêutico com efusão de carinho. — Havemos de ser muito amigos.

— Amigos, sim, porque amar... Não voltarei a amar homem algum, a não

ser meu marido, contanto que faça o que mando.

— Seu marido! — disse ele, levando aquilo na brincadeira. — Não me

parece mal. E agora que virou santo...

— Santo, não... Que bobagens o senhor diz!

— Santo; exatamente isso. De modo que a senhora também será santa...

Pois eu serei seu discípulo. Nós três iremos para um deserto fazer

penitência e comer ervas.

— Cale-se.

— A senhora é que vai se calar... para ver se adormece e acalma os

nervos. A saída de hoje não terá consequências. Sabe o que eu vinha

pensando? Que, se encontrasse a bela moça mal, ficaria aqui esta noite.

Ao sair de casa, disse a minha mãe que talvez não voltasse. Nada, estou

decidido a cuidar da senhora como se fosse minha cara-metade.

— Não; não é preciso que o senhor se incomode. Acredite que me sinto

razoavelmente bem esta noite, quase boa. Ontem à noite, sabe?, estava

pior.

— Pois ficarei até meia-noite ou uma hora. Vou ler La Correspondencia

ou jogar tute com o senhor Izquierdo. Se a vir tranquila e adormecida,

irei embora. Caso contrário, fico aqui de sentinela.

Assim fez e, como não observasse nada de especial até depois da meia-noite,

saiu na ponta dos pés, dando à vendedora da praça instruções para o caso

de a mamãe ou o menino apresentarem alguma alteração durante a noite. O

modelo também foi embora, e Segunda se meteu em seu cubículo; mas mal

pegara no primeiro sono quando Encarnación a chamou por ordem da

senhorita, que se sentia mal. O pequeno soltava todos os registros da

voz, e não havia maneira de fazê-lo calar. A mãe esgotou todos os seus

recursos, e Encarnación os dela, que consistiam em tomá-lo nos braços e

dar um passo para a frente e outro para trás, como se dançasse, tentando

persuadi-lo com palavras carinhosas de que as crianças devem ficar

quietinhas.

— Parece-me — disse Fortunata com terror — que estou secando.

— Pois, se você secar — respondeu a tia, que até para consolar era

ralhadora e áspera —, pois, se secar, diabos!, melhor; arranjamos uma

ama e vamos viver...

— Diga, tia, meu marido veio?

Segunda olhou para ela, espantada.

— Seu marido!... Você sabe que horas são? E para que quer que aquele

sujeito venha aqui?

— Eu precisava falar com ele...

— Santo Cristo de Burgos, cortinas verdes!... Bela hora para nos vir a

delicadeza... Quem consegue entender você, menina? Agora clama pelo

marido! Para o que ele há de lhe servir, é melhor que não apareça por

aqui em mil anos.

— É que eu precisava falar com ele. Não esteve aqui desde ontem à noite.

Segunda tornou a olhá-la e começou a rir com descarada grosseria.

— Mas, menina, ele esteve aqui esta noite e foi embora às dez...

— Ah! Foi esta noite? É que estou confundindo as noites... Pensei que

tivesse havido um dia entre elas. Quando a pessoa fica de cama, perde a

noção do tempo...

A criança continuava alvoroçada, e a mãe se queixava de um desassossego

que não conseguia explicar.

— Como lamento que Segismundo tenha ido embora! Ele me receitaria

alguma coisa ou, pelo menos, diria que isso não é nada, e eu acreditaria.

Segunda propôs ir chamá-lo, mas Fortunata não consentiu, porque, disse,

uma noite se passa de qualquer maneira. Assim foi, e a verdade é que

todos a passaram muito mal, inclusive Encarnación, que adormecia em pé.

Na manhã seguinte, Estupiñá subiu para perguntar por toda a família com

um interesse do qual Segunda sabia tirar proveito.

— Como a mamãe passou a noite? E o menino, como está? Já me informei

sobre o artigo amas de leite, e tenho notícias de três muito boas:

uma pasiega, outra de Santa María de Nieva e a terceira lá das Astúrias,

cada qual com um úbere como o de uma vaca suíça. Mercadoria excelente!

— Pois não foi demais o senhor ter tomado essas providências, dom

Plácido, porque estou achando que ela está secando — disse a vendedora,

feliz por meter sua colher naquele assunto —; e, se a senhora —

aludindo a Guillermina — quiser que se arranje uma ama, sou da mesma

opinião.

Plácido, depois de tagarelar um pouco com Segunda à porta da casa dela,

desceu para a sua. Na saleta, forrada de cartazes de novenas e outras

funções eclesiásticas, estava Guillermina, de pé, com o rosário e o

livro de orações na mão. A senhoria e o administrador tagarelaram mais

um pouco, e o resultado dessa nova conferência foi que Rossini tornou a

subir apressado e teve outra conversa de focinhos com Segunda à porta.

— Diga-me, ela está dormindo agora? E o menino mama ou não mama?

— Pois agora os dois estão calados... Parece que dormem.

— Então, silêncio. Cuide para que não haja barulho na casa... Quanto a

mim, se os filhos do latoeiro saírem fazendo algazarra na escada, eu

lhes quebro o espinhaço.

E tornou a descer e a subir novamente com um recado.

— Sinhá Segunda, escute. Não deixe de mandar hoje um aviso àquele

senhor Quevedo, para que a examine e nos diga se trazemos ou não a ama.

— Está bem, está bem.

— Ficarei atento; já tenho as três apalavradas, e nós as examinaremos

em minha casa. Boas mulheres, e não têm a pretensão de cobrar os olhos

da cara. Quanto ao leite, sinhá Segunda, quanto ao leite, creio que a

asturiana nos dará melhor resultado que todas. Tenho um olho... Enfim,

muito cuidado.

E tornou a descer com toda a sua solicitude e diligência, disposto a

subir cem vezes se fosse necessário. Guillermina ainda ficou algum

tempo na casa do amigo, que não sabia o que fazer ao ver sua pobre

morada honrada por pessoa tão excelsa. Teria trazido de San Ginés, se

pudesse, o trono da Virgem do Rosário para que ela se sentasse. Pois,

quando bateram à porta e ele foi abrir e viu diante de si a simpática

figura de Jacinta, o pobre homem julgou que toda a corte celestial

entrava em sua casa. A senhorita nada disse; limitou-se a sorrir de uma

maneira que significava: “Como é estranho me ver aqui!” Guillermina

ergueu a voz da sala, dizendo:

— Entre, estou aqui...

Estupiñá, sempre delicado, afastou-se para deixá-las falar a sós. A

santa parecia repreender paternalmente a outra:

— Já lhe disse para deixar isso por minha conta. Eu me entendo. Se você

insistir em meter a colher, acho que vai estragar tudo... Não, não deixo

você subir... Acha fácil entrar para vê-lo sem que a mãe perceba?

Atrevidinha você ficou... Que o tragam aqui para baixo? Ora, as coisas

que lhe ocorrem!... Você terá tempo de vê-lo. Se começarmos a cometer

disparates e a nos comportar como duas intrigantes que se metem onde não

são chamadas, mereceremos que Ido nos tome como personagens de seus

romances. Vamos agora a San Ginés; depois saberemos a opinião do senhor

Quevedo. Não se preocupe, ele não morrerá de fome.

Saíram, e Plácido foi com elas à igreja, pois, embora já tivesse estado

lá, era-lhe muito agradável acompanhar as senhoras à missa. Ouviram

duas e, antes de sair, sentadas num banco, a Delfina disse à amiga:

— Sabe que não consegui ouvir as missas com devoção, pensando naquela

mulher? Não consigo tirá-la da cabeça. E o pior é que o que fez ontem me

parece muito bem-feito. Deus me perdoe esta barbaridade que vou dizer:

acho que, com a justiça feita ontem, aquela patife redimiu parte de suas

culpas. Ela será tão má quanto se queira; mas é valente. Todas devíamos

fazer o mesmo.

A santa não respondeu, porque dentro da igreja não gostava de tratar de

certos assuntos reconhecidamente profanos; mas, quando saíam pelo pátio

que dá para a rua do Arenal, tomou o braço da amiguinha e disse:

— O episódio foi bom, foi bom. Que par de joias!

— Acredite que me deu uma alegria quando ouvi contar!... Eu teria dado

qualquer coisa para estar presente naquela tragédia...

— Saia com isso... É repugnante... Duas mulheres brigando...

— Será o que a senhora quiser; mas, desde que me contaram, a antiga

velhaca cresceu aos meus olhos e me parece menos rasteira que a moderna.

— Este mundo, minha filha, está cheio de maldades. Para onde quer que

se olhe, só se veem pecados, e pecados cada vez maiores, porque a

humanidade parece ficar a cada dia mais descarada e menos temente a

Deus... Quem diria que aquela moça, aquela Aurorita, que parecia tão

boa, tão esperta...! Não, esperta ela é; embora a outra tenha sido

mais... E o que diz Bárbara? Estava encantada com ela e ia todos os dias

à oficina vê-la trabalhar... Mas cale-se, que lá vem sua senhora sogra...

Barbarita e a dupla se encontraram.

— Você já não alcança a missa do senhor cura... Que horas para ir à

missa!

— Mas não me deixaram sair a manhã inteira... Olhe, Jacinta, seu marido

está lá chamando por você sem parar... Entrei e... “Onde você estava?

O que tinha de fazer na rua tão cedo?” Portanto, é melhor se apressar.

— Que espere... Só faltava essa... — replicou Jacinta com tédio. — Que

tenha paciência, pois os outros também têm.

— E vocês, de onde vêm?

— Nós? De ver amas de leite — disse a santa, sorrindo.

— Amas de leite!...

— Sim, não é brincadeira... amas, amas, amas.

— Como você está engraçada hoje!...

— O quê, esta tonta não lhe contou que encontramos outro Pituso?

Barbarita começou a rir com graça.

— Mas o quê, deram outro golpe em vocês?

— Qual; agora não. Este é autêntico... este é de lei; não é folheado,

como o outro por quem você perdeu a cabeça.

— Bah! Não quero ouvi-la... — respondeu Barbarita, com humor festivo,

e separou-se delas para ir depressa à igreja.

— Escute... olhe — disse Guillermina, chamando-a. — Quando sair, dê uma

volta pelas lojas. Ali está seu corretor, Estupiñá, o Grande. Espere,

escute; compre um bom berço...

A dama ria; todas riam.

xi

O parecer de Quevedo não foi alarmante quanto à mãe; mas, em relação ao

menino, o parteiro deu más notícias, anunciando que ele estava ficando

sem provisões. À tarde, Plácido comunicou à senhora que aquela mulher se

recusava a pôr o filho no peito de uma ama, ainda que esta tivesse

descido do Céu; insistia em que tinha leite; o menino berrava, dando a

entender que sua mamãe faltava descaradamente com a verdade...

— Enfim, senhora — acrescentou Estupiñá, com solicitude rancorosa —,

essa mulher precisa ser morta. É mais ruim que a peste, e o que quer é

que a criaturinha pereça...

A fundadora foi até lá e alegrou-se ao encontrar Ballester na sala.

— Veja se consegue convencê-la de que não pode amamentar. A pobre, como

está com a cabeça um tanto fraca e transtornada, imagina que vão tirar

o filho dela... E não é isso, não é isso... O que se quer é que ele

seja bem-criado.

— Já lhe disse... Empreguei quase as mesmas palavras, senhora... Mas,

se a senhora visse... Hoje ela está num estado de apatia e tristeza que

não me agrada nem um pouco. Não há meio de arrancar-lhe resposta a nada

do que se diz. Fica com o menino nos braços e, quando lhe falam de amas

ou de que está secando, aperta-o, aperta-o tanto contra si que receio

que, numa dessas, o sufoque.

— Tudo seja por Deus... Entrarei para ver a fera, e tentaremos amansá-la.

Sem abandonar aquela atitude de desconfiança e medo, Fortunata pareceu

alegrar-se ao ver Guillermina, que a cumprimentou com extrema

amabilidade, demonstrando grande interesse por ela e pelo menino.

— Que prazer vê-la! — exclamou a pecadora, sem se mover. — Eu queria

que a senhora viesse para lhe dizer uma coisa...

— Pois diga logo, porque vou embora depressa.

A infeliz jovem pôs o bebê a seu lado, mostrando menos desconfiança;

mas rodeou-o com o braço num gesto de proteção.

— Mas a senhora vai tirá-lo de mim?... Diga se queria tirá-lo... Sem

brincadeiras. O que a senhora me disser, acreditarei.

— Muito obrigada, minha amiga... A senhora me toma por ladra de

crianças. Eu não sabia que era bruxa...

— Não; é que... veja. Pensei que iam tirá-lo de mim por eu ter sido tão

má. Mas uma coisa não tem relação com a outra, não é? Pois agora sou

muito mais má. Ai, senhora, cometi um pecado tão grande, tão enorme,

que não creio que Deus me perdoe.

— Quer apostar que é alguma bobagem? — disse ela, inclinando-se e

acariciando-lhe o queixo.

— Ai, senhora, quem dera fosse bobagem!... Vou contar... Mas não me

repreenda muito... Pois ontem à noite meu marido esteve aqui,

conversamos, e eu lhe dei vinte duros para comprar um revólver. O

revólver é para matar aquele e aquela... sobretudo a francesona,

infame, traidora...

Guillermina recebeu um choque muito forte com essas palavras, mas fez

um esforço para aparentar que não perdia a serenidade.

— É um pouco grave, sim, senhora... Mas seu marido não fará nada.

Conversei com ele, e me pareceu muito razoável.

— A razão é o assunto preferido dele... mas não se deve confiar...

Quanto aos tiros, acredite que não deixarão de sair. Eu lhe esquentei

bem a cabeça... Toda aquela sabedoria que agora tem, tirei dele com as

coisas que disse... Ele enlouqueceu outra vez, senhora; prometi amá-lo

como ele me amou, e acredite que fiz a promessa com vontade.

— A senhora me faz tremer — disse ela, alarmando-se. — Vamos, esse

pecado é dos mais atrozes que pode haver. Se ele os matar, pecará menos

que a senhora, que mandou fazê-lo e o inflamou com promessas.

— Parece-me o mesmo, e por isso passei a noite inteira com medo.

— Se reconhece que agiu mal, pede perdão a Deus por sua má intenção e

procura limpar-se dela, Deus terá piedade da pecadora.

— É que... veja... estou arrependida pela metade. Matar ele! Sabe que

me dá pena? Não, não, que não o mate... Mas aquela velhaca, trapaceira,

mentirosa... Pois não tem o descaramento de acreditar que terá filhos?...

Filhos, ela!... Diga-me, o que se perde se um traste desses for para o

outro mundo?

Dizia isso com tanta naturalidade que Guillermina, por um instante, não

soube se devia indignar-se ou levar a coisa na brincadeira.

— Ora, suas ideias me agradam muito... Parece-me que marido e mulher

empatam... em sabedoria. Se a senhora não retirar imediatamente todos

esses disparates, vou embora e nunca mais voltará a me ver. Isso não se

pode tolerar...

— Então não se dá nenhum castigo a essa mulher monstruosa?... Essa é

boa. E ela continuará rindo de nós... Não entendo.

— Deus é quem castiga; nós aprendemos.

As duas se calaram, olhando uma para a outra.

— Tenho de trazer um confessor para a senhora. Não está bem nem do

corpo nem da alma. Pois imagine se, Deus não permita, a morte sobrevém

quando menos se espera e a apanha assim; tirou a sorte grande.

— Se eu morrer, levo meu filho comigo — disse a diaba, tornando a

pegá-lo e apertando-o contra si.

— Outra barbaridade. Hoje estamos inspiradas.

— Pois ele não é meu? Não lhe dei a vida? — perguntou com impaciência

e ardor febris.

— Como!... A senhora lhe deu a vida? Minha filha, não tem poucas

pretensões. Também quer competir com o Criador do mundo e de todas as

coisas... Vamos, o melhor é eu começar a rir... Enfim, estamos aqui

como duas tolas, e é preciso pôr as coisas no lugar. A senhora tem de

chamar seu marido e dizer-lhe que, para amá-la como Deus manda, é

preciso não matar ninguém, absolutamente ninguém. Fará isso?

— Se a senhora manda, sim... Ai! Eu pensava que matar quem nos engana,

quem nos vende, não era pecado... quero dizer, não era pecado muito

grave; o fel me subiu à cabeça. Tenho tanta raiva daquela...! Digo que

uma pessoa pode sentir raiva de outra, desejar que a matem e, apesar

disso, não ser má.

Ergueu-se para expressar com mímica mais persuasiva um argumento que lhe

ocorrera e que julgava muito forte:

— Vamos ver, senhora. Quer apostar que agora a deixo calada? Que,

sabendo tanto quanto sabe, não consegue responder a esta?

— O quê?

— Este argumento. Vamos ver. A senhorita Jacinta é, por assim dizer,

um anjo... Todos a chamam assim... Está bem; pois, apesar de todo o seu

mérito e de sua santificação, ela não ficaria contente se me tirassem

do caminho?

Tornou a se recostar nos travesseiros, satisfeita, esperando a resposta,

com a certeza de que a santa não teria outro remédio senão mentir para

não lhe dar razão.

— O que a senhora está dizendo? — replicou Guillermina, indignada. —

Jacinta desejar que matem alguém!... Ou a senhora é tola, ou perdeu o

juízo!

— Vamos... Está bem, direi outra coisa — respondeu, recuando para a

segunda linha depois de repelida na primeira. — Ela não ficaria contente

se eu morresse?...

— Contente... por a senhora morrer... por Deus levá-la...? — disse,

hesitando. — Tampouco... tampouco... Jacinta não deseja o mal ao

próximo e sabe que devemos amar nossos inimigos e fazer o bem aos que

nos odeiam.

Com um ru-ru melancólico, Fortunata expressou sua incredulidade.

— Ai! A senhora não acredita?...

— Que ela deseja meu bem!

Tem graça.

— Jacinta não sabe guardar rancor... nem se lembra da senhora para

nada...

— Mas daí a me ver com bons olhos...

— Só faltava ela amá-la como ama a mim... Por certo, a menina fez por

merecê-lo. Deve dar-se por satisfeita se ela a perdoar...

— E me perdoa de verdade?... Mas é verdade?

— Pois que dúvida há? Como a senhora não sabe o que é fé, nem temor de

Deus, nem coisa alguma, não compreende isso.

— E poderia ser minha amiga?...

— Minha filha, tanto quanto amiga... Isso já é um pouco demais — disse,

sem conseguir conter o riso. — Ora, a senhora não pede pouco... Agora

quer que, depois de tudo o que aconteceu, sejam unha e carne...

— Amigas!... — repetiu a diaba, franzindo as sobrancelhas. — Por mais

que a senhora diga, ela não pode me ver, sobretudo agora que tive um

filho e ela não... E agora já não terá, está visto... Não adianta dar

voltas.

Como Ballester se aproximasse da porta da alcova ao ouvir a santa rir,

esta lhe disse:

— Entre, se quiser se divertir, porque isto é uma comédia. Sua amiga

ainda precisa ser conquistada. Que ideias tem! Por falar nisso, vou

trazer o padre Nones. Precisamos fazer-lhe uma boa limpeza. Enfim, vou

embora, pois com essas bobagens a manhã se perde.

Levantou-se, e Fortunata puxou-lhe o vestido para fazê-la sentar-se de

novo.

— Ainda me resta uma dúvida, senhora. Tire-me dela.

— Vejamos essa dúvida... outro despropósito. Ai, que cabeça!

— Sente-se um instante, que vou fazer outra pergunta. Diga-me — falou,

baixando a voz —, Jacinta faltou ou não faltou com aquele cavalheiro?

— Ave Maria Puríssima!... Com que cavalheiro?

— Aquele que morreu de repente...

— Cale-se, cale-se, ou eu lhe bato...

— Não, eu já não acredito. Acreditava; mas, como foi a indecente da

Aurora quem me disse, deixei de acreditar... só me restava uma pequena

dúvida.

— Aquela...? — exclamou com soberano desprezo. — E se atrevia a dizer...!

— Se ela é a pior de todas... A senhora não imagina como ela é má —

disse com a maior boa-fé. — Eu, aqui onde me vê, ao lado dela sou um

anjo.

— Acredito — respondeu, sorrindo. — Não nos ocupemos dessas misérias.

Jacinta faltar! Essas pecadoras empedernidas pensam que todas são como

elas...

— Não, eu não acredito, senhora, não acreditei — disse, muito aflita.

— Foi ela quem disse e acreditava nisso... Sabe de uma coisa? —

perguntou, atraindo-a para si e falando-lhe em segredo. — Acredite no

que vou dizer... Um dos motivos por que bati nela foi ter dito isso,

ter me enfiado a mentira de que Jacinta era como nós... E diga-me, ela

não merecia a pancada que lhe dei com a chave por afrontar nossa

amiguinha?... Não merecia? Claro que sim...

Guillermina estava confusa; não sabia se devia aprovar ou desaprovar...

— Ficamos combinadas numa coisa — disse, levantando-se —: amanhã virá

o padre Nones para a senhora e, para este bezerrinho, uma ama asturiana

que, segundo diz Estupiñá...

— Ama, não... Para quê? Se eu posso... Não viu como está satisfeito o

rei da casa? Não é verdade, meu tesouro, que você não precisa de ama

nenhuma? Sua mamãe, sua mamãe dá ao menino tudo o que ele quer.

— O senhor Quevedo sabe mais que a senhora... Aqui só se faz o que eu

mando — declarou a santa, com aquele gesto e tom autoritários aos quais

ninguém podia se opor. — Se até amanhã Quevedo não mudar de opinião, a

ama virá. A senhora se cala e obedece... Eu pago e disponho. Portanto,

cuide-se, e depois conversaremos. O excelentíssimo senhor Ballester

fica encarregado da execução do presente decreto.

xii

À tarde, dona Lupe chegou muito alarmada, procurando Maximiliano, que

supunha estar ali. Não passou da sala nem quis ver Fortunata, de quem

disse ter pena, mas com quem não podia manter relação alguma. Na sala,

a ministra cochichou com Segismundo, contando-lhe o ocorrido. Pois

não era pouca coisa: Maximiliano comprara um revólver... mas quem diabos

lhe dera o dinheiro? A senhora descobrira por acaso... Sentiu o cheiro

ao vê-lo entrar com um embrulho entre papéis. O pior foi que não

conseguiu tirá-lo dele. Ele saiu correndo de casa e, pouco depois, os da

ferraria do térreo vieram dizer que o tinham visto na Ronda, disparando

contra o muro da fábrica de Gás, como se estivesse treinando... Ai, _a

dos Perus_ estava aterrorizada. Toda aquela sabedoria lógica que o pobre

rapaz tinha na cabeça sem dúvida se transformara em fumaça. E o pior

era que ele não fora almoçar, e ninguém sabia onde estava...

— Temos de avisar a polícia, para evitar que cometa alguma barbaridade.

Pensei que tivesse vindo para cá e corri desesperada... Onde diabos

estará? Ballester, por Deus, descubra e tire-me deste conflito. O senhor

é a única pessoa que o domina quando ele fica assim... Saia para ver se

o encontra; eu lhe peço.

A isso o bom farmacêutico replicou que não podia tocar o sino e seguir

na procissão. A senhora de Jáuregui foi embora desconsoladíssima, com a

intenção de procurar o senhor Torquemada, farol luminoso que lhe indicava

o porto em todas as tempestades da vida.

Fortunata ouvira a voz de dona Lupe e, quando esta se retirou, quis que

Ballester lhe explicasse o que ela viera fazer ali.

— Nada; aquela ministra quer meter o nariz, ver a senhora, conversar

e lhe dizer coisas que sem dúvida a deixarão tonta.

— Ah! Não deixe que entre... Não posso vê-la. Acho que passarei mal se

a vir. E sobre meu marido, o que ela disse?

— Não falou nele.

— Pois também não quero ver Maxi... O senhor não sabe como me faz mal

vê-lo e falar com ele... Ele me transtorna. Não os deixe entrar. Que

vão para o inferno. Estou tão tranquila aqui, sozinha com meu filho e

os amigos que me protegem...! Que ele não venha, por Deus! O senhor me

promete que não virão?

Pedia isso com terror suplicante. Ballester, desfazendo-se em

demonstrações de cavalheiresca proteção e fraternal nobreza, disse-lhe

que os Rubín, grandes e pequenos, tanto os de carne e osso como os que

tinham peitos de algodão, não entrariam naquela alcova senão passando

por cima de seu cadáver.

Durante toda aquela tarde, a jovem ficou com a ideia fixa de como os

Rubín eram antipáticos e do que faria para não recebê-los caso fossem

vê-la. O bom Segismundo esforçava-se para tranquilizá-la a esse respeito

e, tendo observado que a lembrança de outras pessoas excitava e

animava favoravelmente seu espírito, falou-lhe de dona Guillermina e de

sua bela vida.

— Sabe o que me disse ao sair? Que, se a senhora precisar de alguma

coisa quando eu não estiver aqui, avise dom Plácido, que foi encarregado

de se pôr às suas ordens caso necessite.

— Claro — disse Fortunata, transbordando de orgulho inocente —, pois

Plácido é todo da casa, e desde pequeno só faz levar recados dos

senhores e servi-los em mil ninharias. É um bom homem, e gosto muito

dele... E dona Bárbara, o senhor conhece? Eu também não... Mas, quando

Jacinta e eu formos amigas, também serei amiga de dona Bárbara...

Francamente, estou admirada com o carinho que sinto agora pela _macaca

do Céu_, quando, antigamente, só de pensar nela eu passava mal. É

verdade que nunca chegava a odiá-la inteiramente, quer dizer, eu a

odiava e gostava dela... coisa estranha, não é? Agora seremos amigas,

acredite que seremos amigas... O senhor duvida?

— Como poderia duvidar disso, criatura?

— É que o senhor parece sorrir um pouquinho quando me ouve dizer.

— A senhora está vendo coisas. Vamos bem...

— Pois, ainda que o senhor caçoe, seremos amigas... e ninguém terá de

dizer isto de mim — disse, estalando os dedos —, para que o senhor

saiba... Porque vou me comportar... Cristo, como vou me comportar

agora! Meu filho, meu filho e nada mais... Ora, vai sustentar que não

está sorrindo agora?

— Sim, mas é de satisfação por vê-la tão regenerada... Quem ousará

enfrentar a senhora agora, estando em relações com pessoas da corte

celestial...!

— E nada mais... Pois o que o senhor pensava?

Ela se afogueava tanto que o farmacêutico julgou prudente levar a

conversa para um terreno insignificante; Fortunata, porém, dava um jeito

de voltar ao mesmo: que ela e a Delfina seriam unha e carne e que sua

conduta futura seria a de quem estudava numa escola de serafins.

— Aqui onde me vê, amigo Ballester, eu também posso ser anjo, se me

dedicar a isso. Tudo depende de se dedicar... E é uma coisa muito

simples. Pelo menos me parece que não me custará trabalho algum. Sinto

isso aqui dentro de mim.

— Também depende das pessoas com quem se convive — disse-lhe o amigo,

muito sério. — Falemos agora de outra coisa. Sobre certas ousadias que

eu tinha e tenho a respeito da senhora, não quero dizer nada, porque

estamos prestes a torná-la santa... Embora tudo pudesse ser conciliado,

parece-me: ser santa e amar este filho de Deus... Mas, enfim, viro a

página. Sabe que, se eu me descuidar, perco meu emprego na farmácia de

Samaniego? Se dona Casta souber que essas minhas ausências são para vir

visitar quem tirou as medidas de sua filha, imediatamente corta meu

sustento. Por isso não posso esticar muito a corda e não virei esta

noite. Tenho de ficar de plantão. Eu romperia com tudo, não fosse a

dificuldade de encontrar outro emprego imediatamente; e acredite que um

período de férias me deixaria aleijado... Por mim não me importaria;

mas não quero fazer minha mãe e minha irmã jejuarem. O pobre pensador,

meu ilustre cunhado, está mal de dinheiro e, se eu não puxar a carroça,

os ais e lamentos pedindo pão serão ouvidos em Algeciras.

— Mas não seja tolo — disse Fortunata com aquele arroubo de

generosidade tão comum nela. — Eu tenho dinheiro. Se quiser mandar

as Samaniego passear, mande. Que se danem, que arruínem, que comam

pedras... Eu lhe dou o que precisar para sua mãe e para o pensador,

até que encontre outra farmácia. Tenha confiança em mim... Ou somos

ou não somos.

Ballester era tão delicado que, só de ouvir tal proposta, seu rosto

ficou vermelho, e ele recusou com expressões de gratidão. Pouco depois

do anoitecer, retirou-se, dando aos irmãos Izquierdo as ordens mais

rigorosas quanto às visitas. Se aparecesse algum Rubín, fosse quem

fosse, não abrir. Deixou sobre a mesa da sala um arsenal de medicamentos

e recomendou a Fortunata quietude e que _batesse a porta do cérebro no

focinho_ de toda ideia triste que aparecesse.

Izquierdo plantou-se de sentinela na sala, acompanhado de uma garrafa

grande de cerveja e, caso a grande não bastasse para atravessar a noite,

levou também uma pequena de reserva. Segunda voltou às dez, depois da

horinha de tertúlia que costumava passar na barraca de carnes e, vendo

a sobrinha muito desperta, ficou conversando um pouco com ela:

— Sabe quem vi? Aquela tia, a dos Perus. Foi me procurar na barraca,

muito ofendida porque o senhor Ballester não a deixou entrar para vê-la.

Anda à caça do sobrinho que lhes escapou esta manhã, e ele ainda não

apareceu. Sabe o que me disse? Conto para você rir. Diz que _as

Samaniego_ estão furiosas com você e que aquela velhona, dona Casta,

não descansará até vê-la na prisão. Que comédia! Ria, porque isso é

inveja. Pois veja, aquela tia indecente, a Fenelón, francesona, pior

que a fome, diz que este filho que você tem não é filho de quem é, mas

de dom Segismundo. Ria, sua tonta, porque isso não passa de inveja.

A criatura não disse palavra; mas via-se claramente que aquelas

palavras tinham produzido um efeito desastroso em seu espírito. Quando

ficou sozinha, não conseguiu conter o impulso de se levantar. A raiva

surgiu terrível em sua alma e, sem reparar no que fazia, ergueu-se na

cama, estendendo as mãos para o cabide a fim de pegar a roupa...

“Agora mesmo, agora mesmo vou e, com este chinelo, golpeio-lhe o rosto

até esmagar o nariz... traste, indecente. Dizer isso...! Uma mentira tão

grande! Mas que horas são? Estão batendo meia-noite! Seja a hora que

for, sairei; não consigo me conter... Vou, entro na casa, arrasto-a

para fora da cama, passeio sobre sua alma... Dizer isso, dizer isso...!

Sem acreditar, porque ela não acredita. Diz para me desonrar! Antes

caluniou Jacinta, agora me calunia.”

Sentou-se na cama, percebendo, apesar da perturbação de seu espírito, as

dificuldades da empresa. “Se deixar para amanhã, já não irei, porque me

tirarão isso da cabeça... E eu hei de esfregar-lhe o focinho com a sola

de minhas botas. Se não fizer isso, meu Deus, será impossível eu me

tornar anjo, e não poderei alcançar a santidade. Se não fizer isso,

terei de voltar a ser má; reconheço em mim.”

Ora vestia uma peça de roupa, ora a tirava, com horrível hesitação,

oscilando entre os formidáveis ímpetos de seu desejo e o sentimento da

impossibilidade. Por fim, vestiu-se e, saindo para a sala, viu o tio

adormecido, de bruços sobre a mesa, junto à luz, a garrafa grande ao seu

lado, meio vazia. “Eu poderia sair sem que ninguém percebesse... E se

acordasse meu tio e lhe pedisse que viesse comigo...?” A ideia de

associar Platão à sua temerária empresa fez-lhe enxergar a realidade

e o absurdo daquele plano. “Pois amanhã bem cedo”, disse consigo,

voltando à alcova, “amanhã cedinho, antes que ela saia para a oficina,

vou lá e a estrangulo...”

Ao olhar para o filho, a chama de sua ira se avivou ainda mais. “Dizer

que não é filho de seu pai...! Que infâmia! Eu a despedaçaria sem

compaixão alguma. Inocente! Tão pequeno, e já querem desonrá-lo! Mas não

o desonrarão, não, pois aqui está sua mãe para defendê-lo; e a quem me

disser que este não é o filho da casa, arranco os olhos. Ele não

pode ter dito isso... Soltou para mim, mas assim como brincadeira.

Ele não pode ter dito; e, se eu soubesse que disse, juro por esta

cruz” — fez uma cruz com os dedos e a beijou —, “por esta cruz em que

o mataram, meu Cristo, juro que hei de odiá-lo... mas odiá-lo pela raiz,

não de mentirinha... Ai, meu Deus!” — exclamou, lançando-se à cama,

angustiadíssima. “Se disserem uma mentira tão grande a Guillermina e a

Jacinta, elas acreditarão?... Talvez sim... Acredita-se em tudo o que é

mau, e acredita-se ainda mais no que se diz de mau a meu respeito...

Mas não, talvez não acreditem... A mentira é atroz demais. Ninguém pode

acreditar nisso, não pode ser, não pode ser; antes acreditarão que o

mundo vira do avesso, que o dia se torna noite, o sol, lua, e a água,

fogo. E, se alguém acreditasse, ele desmentiria; tenho certeza de que

desmentiria. Eu não traí, eu não traí” — disse, erguendo a voz —, “e

quem disser que traí mente e merece que lhe arranquem a língua com uma

tenaz de ferro em brasa. Querem que eu me perca; mas, por mais que

aqueles cães façam, não me impedirão, meu Deus, de ser tão anjo quanto

qualquer outra. Que morram de raiva, que morram de raiva, porque eu

serei, eu serei.”

Estava inquietíssima, virando-se na cama. O filhinho pediu e tomou o

peito; mas não devia encontrar provisão muito abundante, pois a todo

instante afastava a boca, gritando desesperadamente. Aos gritos de

necessidade e desolação dele uniam-se os da mãe, que dizia:

— Filho de minha alma... o quê, não há?... Aquela, aquela bruxa ladra

tem a culpa; ela tirou o leite de você. Vai ver como sua mamãe a põe no

lugar... Pobrezinho, tão pequeno, e já querem desonrá-lo... E meu

menino é o rei da Espanha e não tem nada que ver com Ballester, que é

seu amiguinho e nada mais... E meu menino é filho de quem é, e não há

outro na casa, nem haverá, não é?... Não é, glória, céu, alegria do

mundo?

xiii

Tudo isso era muito bonito e muito terno; mas o leite não aparecia,

razão pela qual Juan Evaristo não se dava por satisfeito com expressões

de tão pouco valor prático. Os gritos que mãe e filho davam, cada um em

seu registro, não despertaram José Izquierdo, pois este era homem que,

depois de agarrar uma bebedeira, nem um canhão o endireitava; mas

tiraram Segunda de seu torpor. Ela foi ver o que acontecia e, ao

encontrar a sobrinha meio vestida, ficou furiosa e por pouco não lhe

bateu.

— Olhe que eu a arrebento, se começar a fazer cenas de comédia — disse

com aquelas formas primorosas que usava. — Mas você não vê, sua burra,

não vê que o leite secou e o pobrezinho não tem o que mamar?

Por sorte, entre as coisas que Ballester deixara em previsão de todos

os contratempos possíveis, havia uma mamadeira muito bonita. Segunda,

com rápida determinação, encheu-a de leite, do qual por acaso tinha um

par de copos, e tentou dá-la ao menino. A princípio, ele estranhou a

dureza e a frieza daquele mamilo que lhe metiam na boquinha. Fez algum

desagrado, mas por fim a fome pôde mais que os melindres, e ele aceitou

o peito artificial.

— Olhe, olhe como o anjinho se acostuma depressa com tudo. Se é a

criatura mais nobre... Tesouro... que fome estávamos passando!

A mãe o contemplava desconsolada, embora contente por se ter encontrado

forma e maneira de vencer a dificuldade.

— Sabe de uma coisa? — disse-lhe a tia, pondo-lhe as mãos no rosto. —

Você está com febre... Isso é por se pôr a pensar no que não deve. Se

me desse ouvidos, agora que vai ser a rainha do mundo... Porque sua

mesada terão de dar. A dos Perus e eu conversamos sobre isso... Ora,

você agora não será pouca senhora... Menina, menina, não se faça de

mel; levante a cabeça. Ânimo!... Não vê que aquelas grandes senhoras

estão lhe fazendo a corte? Você será uma potentada; e eu, se estivesse

em seu lugar, não descansaria até Jacinta vir beijar meu chinelo. Pois

o quê... pensa que ele também não virá? O sangue o chamará e, assim que

vir este retrato seu, ficará babando... e... menina, acredite em mim,

até carro teremos... que comédia! Quando digo que viveremos em grande!

Ele virá, virá; e garanto que, se demorar quatro dias, já será muito.

Não vê que aquela família não tem um bebê que a alegre?... Todos estão

morrendo de vontade de ter uma criança... Você, trabalhe bem a questão,

pois Deus veio nos visitar com este filho de nossas entranhas... Estou

muito orgulhosa, porque ele é Santa Cruz, tão certo como Deus existe;

mas ninguém lhe tira seu tantinho de Izquierdo: as duas famílias estão

de parabéns... Já comecei a sacudir as pulgas, e esta tarde lancei uma

indireta a Plácido para nos dar a casa de graça... O que pensa?... Os

Santa Cruz estão com seu filho como crianças de sapatos novos... Vou

lhe contar uma coisa que você não sabe. Ontem Jacinta esteve na casa de

dom Plácido... Queria subir para vê-lo; mas aquela outra, a santarrona,

disse que seria em outro dia, caso você se exaltasse... Portanto, vá

tomando conhecimento... Ah! Quem me diria!... Ainda vou me ver de braço

dado com dom Baldomero, passeando pela Castellana... e como vou me

exibir...! É uma comédia... Dê-se importância, não seja boba... porque,

se soubermos aproveitar a ocasião, desta vez viramos marquesas.

Desde que a tia começara a falar, Fortunata chorava a lágrima solta;

mas, ao ouvir que seriam marquesas, uma rajada de jovialidade passou

sobre a onda de tristeza, e a jovem começou a rir com o rosto inundado

de lágrimas.

— Não, não ria; tanto quanto marquesas, não; nem para que queremos ser

tituladas? Mas nosso carro ninguém nos tira... Garanto que, se

Jacinta vier hoje, terá de subir... Verá como o outro vem depressa...

Claro, quando a mulher dele não estiver aqui... Parece que, desta vez,

a mulher dele terá de ir plantar cebolinhas. Você, você é quem subirá

ao trono agora, ou não há justiça na terra... E não venham dizer que é

casada e que seu filho deve se chamar Rubín... Que comédia! Você é

praticamente viúva e livre, porque seu marido pode ser contado como se

estivesse na glória... E todos sabem que, visto pelo avesso, o pano é

vermelho; o menino traz a raça no rosto e, quanto à pensão, verá como

lhe darão.

Fortunata não tornou a rir, nem Segunda disse mais nada que despertasse

sua hilaridade. Até a madrugada, a tia ficou acompanhando-a; vendo-a

relativamente sossegada, foi tirar um cochilo antes de descer ao mercado.

Pouco depois de ficar sozinha, a jovem sentiu dentro de si algo

estranho. Os olhos se lhe nublaram, e alguma coisa se desprendia em seu

interior, como quando Juan Evaristo veio ao mundo; só que sem dor alguma.

Não conseguiu avaliar bem aquele fenômeno, porque desmaiou. Ao recobrar

os sentidos, percebeu que já era dia claro e ouviu o chilrear dos

passarinhos que tinham seu quartel-general nas árvores da Plaza Mayor e

nas crinas de bronze do cavalo de Felipe III. Foi tomar o filho nos

braços e quase não conseguiu erguê-lo. Faltavam-lhe as forças; e de que

maneira! Até a visão parecia diminuir e se perverter, porque via os

objetos desfigurados e se enganava a todo instante, julgando ver o que

não existia. Assustou-se muito e chamou; mas ninguém veio em seu auxílio.

Depois de chamar umas três vezes, tentou uma quarta e... aquilo, sim,

era grave; não tinha voz, a voz não soava, a intenção da palavra ficava

na garganta sem que pudesse pronunciá-la. Deu algumas pancadas com os

nós dos dedos na divisória; mas, por fim, sua mão ficou como se fosse

de algodão; batia com ela, e as pancadas não soavam. Também podia ser

que soassem e ela não as ouvisse. Mas como Segunda, que estava do outro

lado da divisória, não as ouvia? Depois o braço também ficou como carne

morta, recusando-se a se mover.

“Será que estou morrendo?”, pensou a jovem, lançando olhares para dentro

de si. Mas pouco pôde ver ali, pois o interior estava às escuras ou

fantasticamente iluminado. Todas as suas ideias sofreram perturbações

mais ou menos febris; as imagens se disfarçaram, como se fossem a um

baile de máscaras, tomando o rosto e a aparência do que não eram; e a

única sensação dominante com alguma clareza naquela desordem era a de

estar imóvel e rígida, com os movimentos involuntários suspensos e os

voluntários desobedientes ao desejo. A seu parecer, não respirava; o

ouvido e a vista davam, de tempos em tempos, alguma impressão fugaz da

vida exterior, mas essas impressões eram como algo que passava, sempre

da esquerda para a direita. Julgou ver Segunda e ouvi-la falar com

Encarnación; mas falavam às pressas, como seres endemoninhados, passando

e se perdendo num plano vago que caía para o lado direito. O chilrear

dos pássaros também se precipitava naquele sombrio confim, assim como os

gritos com que Juan Evaristo pedia sua mamadeira.

Passado certo tempo, indeterminado para ela, recobrou os sentidos e

pôde se mover, percebendo facilmente a realidade.

— Quem é você? — perguntou a Encarnación, única pessoa que estava a

seu lado. — Ah! Já a reconheço... Como sou boba! Minha tia não está?

A menina lhe disse que sinhá Segunda descera ao mercado, que subira com

o leite para o menino e depois tornara a sair. Fortunata extraiu daquele

desmaio uma convicção que se firmava em sua alma como as ideias

primárias: a certeza de que morreria naquela manhã. Sentia a ferida lá

dentro, sem saber onde, ferida ou decomposição irremediáveis, que a

consciência fisiológica revelava com diagnóstico infalível, semelhante

a inspiração ou nume profético. A cabeça se serenara; a respiração era

fácil, embora curta; a fraqueza crescia atrozmente nas extremidades.

Mas, enquanto a personalidade física se extinguia, a moral,

concentrando-se numa única ideia, afirmava-se com vigor e força pouco

comuns. Naquela ideia vertia, como num molde, tudo de bom que podia

pensar e sentir; nela estampava, com fórmula simples, o perfil mais belo

e talvez menos humano de seu caráter, para deixar atrás de si uma

impressão clara e enérgica dele.

“Se eu me descuidar”, pensou com grande ansiedade, “a morte me apanhará,

e não poderei fazer isto... que grande ideia!... Ter me ocorrido tal

coisa é sinal de que irei direto para o Céu... Depressa, depressa, que

a vida está me deixando...” Chamando Encarnación, disse-lhe:

— Menina, corra ao quarto de baixo e diga a dom Plácido que preciso

dele... entendeu? Que preciso dele, que suba... Vá, não demore. Ele já

deve estar aí, de volta da igreja, tomando seu chocolate... Vá depressa,

minha filha, e eu lhe agradecerei muito.

Durante o tempo em que Encarnación esteve fora, a diaba não fez senão

dar muitos beijos no filho, dizendo-lhe mil ternuras. O menino estava

acordado e, calado, olhava para ela; e, embora nada dissesse, pareceu-lhe

que falava...

— Você ficará muito bem... meu filho. Não o amarão tanto quanto eu,

mas só um pouquinho menos... Estou morrendo... sei lá o que tenho...

Aquele remédio... eu o tomaria... onde está?... Encarnación!... Mas ela

foi lá embaixo... Parece que estou me esvaindo em sangue... Meu filho,

Deus quer me separar de você; será para seu bem... Estou morrendo; a

vida escorre para fora de mim, como o rio que corre para o mar. Ainda

estou viva por causa desta bendita ideia que tenho... Ah! Que ideia tão

preciosa... Com ela não preciso dos Sacramentos; claro, porque me foi

dita lá de cima. Sinto aqui no coração a voz do anjo que me diz. Tive

essa ideia quando estava sem fala e, ao despertar, agarrei-me a ela...

É a chave da porta do Céu... Meu filho, fique quietinho e não faça

barulho; se sua mamãe vai embora, é porque Deus manda... Ah! Dom

Plácido, o senhor está aí?...

— Sim, senhora — disse o falador, entrando na alcova com os gestos mais

prestativos do mundo. — O que deseja? A senhora me encarregou...

— Amigo, faça o favor de trazer pena e papel... Espere; dê-me o

remédio, aqueles pós amarelos... quais? Não sei... Mas deixe, deixe,

porque o senhor tem de escrever uma carta para mim.

— Uma carta!... Mas antes... — disse, remexendo a mesa de cabeceira. —

Que remédio deseja?

— Nenhum, para quê agora?... Ande depressa, que estou indo... que estou

morrendo.

— Morrendo! Vamos... não brinque.

— Dom Plácido, se não me ajudar nisso, chamarei outra pessoa. Se eu

pudesse esperar Ballester; mas não, não tenho tempo...

— Não, minha filha, não é preciso se afligir. Vou buscar o tinteiro.

Não levou cinco minutos para voltar e, ao entrar de novo na alcova, viu

que Fortunata se erguera na cama com o pequeno nos braços e que depois,

entre ela e Encarnación, o acomodavam bem agasalhado no berço de vime,

que parecia um cesto. Puseram-lhe entre as mãos a mamadeira, para que

não fizesse algazarra, e cobriram-no com um finíssimo lenço de seda.

Estupiñá não entendia palavra, nem via que relação a pena e o papel

poderiam ter com o que presenciava.

— Dom Plácido — disse Fortunata com muita animação —, faça o favor de

escrever... Aqui não há mesa. Menina, traga-lhe o tabuleiro de damas.

Deixe os remédios... Para quê agora?... Vamos, dom Plácido, prepare-se;

verá que golpe... Ocorreu-me uma ideia há pouco, quando estava sem fala,

no mesmo instante em que também me veio a ideia da morte... Escreva aí

o que eu disser: “Senhora dona Jacinta. Eu...”

— “Eu...” — repetiu Plácido.

— Não; é preciso começar de outra maneira... Não me ocorre. Como sou

desajeitada! Ah, sim, escreva: “Como o Senhor houve por bem levar-me

com Ele, e agora compreendo como fui má...” Que tal? Está bom assim?

— “Como fui má...”

— Enfim, continue escrevendo o que eu disser... “Não quero morrer sem

lhe fazer uma gentileza e lhe mando, pelas mãos do amigo dom Plácido,

esse macaco do Céu que seu marido me deu, por engano...” Não, não,

risque “por engano”; escreva: “que me deu depois de roubá-lo da

senhora...” Não, dom Plácido, assim não; ficou muito ruim... porque eu

o tive... eu, e nada foi tirado dela. O que há é que quero lhe dar o

menino, porque sei que há de amá-lo e porque é minha amiga... Escreva:

“Para que se console dos amargos sofrimentos que seu maridinho lhe faz

passar, mando-lhe o verdadeiro Pituso. Este não é falso, é legítimo e

natural, como a senhora verá no rosto dele. Suplico-lhe...”

— “Suplico-lhe...”

— Ponha tudo bem claro, dom Plácido; eu lhe dou a ideia. Pois:

“Suplico-lhe que o considere como filho e o tenha por natural seu e

do pai... E disponha de sua fiel criada e amiga, que lhe beija a mão...”

Que tal? Está com delicadeza?... Agora vejamos se consigo pôr meu nome...

Minha mão treme muito... Traga-me a pena...

Fez um rabisco e depois mandou Estupiñá abrir a cômoda e tirar o

certificado das ações do Banco. Depois de muito remexer, encontraram o

documento.

— Isso — disse Fortunata — o senhor entrega a minha amiga dona

Guillermina.

— Mas não vale sem transferência — replicou o falador, examinando o

papel.

— Sem o quê?

— Sem transferência em devida forma.

— Bobagens. É meu, e posso dar a quem quiser. Pegue a pena e escreva

que é minha vontade que essas ações fiquem para dona Guillermina

Pacheco. Farei muitas assinaturas embaixo, e verá se vale.

Embora Estupiñá não acreditasse na validade daquela forma de testar,

fez o que lhe mandavam.

— Agora, amigo — disse ela, perdendo gradualmente o uso da palavra —,

pegue meu filho e leve-o... ai, deixe-me beijá-lo outra vez... Espere

que eu morra... Não; leve-o antes que venham minha tia, meu marido ou

dona Lupe... gente má. Podem chegar e, veja... que situação. Não me

deixarão fazer minha vontade, eu me irritarei e não morrerei tão

santamente... como quero morrer.

Nada mais disse. Plácido, aproximando-se para contemplá-la, assustou-se

extraordinariamente. Pensou que estivesse morta ou que lhe faltasse

pouco para morrer; mandou Encarnación buscar Segunda e José Izquierdo

e, tomando o cesto em que Juan Evaristo dormia, colocou-o na sala.

“Não tenho coragem de levá-lo”, pensou o bom velho. “Mas, ao mesmo

tempo, se aqueles brutos insistirem em me impedir de levar... Ah, não;

eu o carrego, e que façam o que quiserem.” Pegou o cesto e, descendo-o

para sua casa com toda a rapidez que suas pernas pouco fortes lhe

permitiam, assustado como ladrão ou contrabandista, tornou a subir e se

aproximou da enferma, olhando-a tão de perto que os rostos quase se

tocavam.

— Fortunata... Pitusa — murmurou, lançando a voz diretamente no

ouvido da jovem.

Ao terceiro ou quarto chamado, Fortunata moveu ligeiramente as

pálpebras e, entreabrindo os lábios, mal conseguiu dizer:

— Bebê...

xiv

“Caramba, esta mulher está indo embora... E eu sozinho aqui com ela, e

o bebê lá embaixo. Vão dizer que eu o roubei! Ora, os ladrões serão

eles. Que digam o que quiserem. Que me importa? Mostro-lhes o papelinho

assinado por ela, e estamos quites. Pobre mulher!” — contemplava-a,

horrorizado. “Virgem do Carmo, ela está se esvaindo em sangue!... Mas

como essa gentalha a abandona assim? Não viram o perigo? E aquele

médico, em que está pensando?... Que situação! E o que eu lhe diria?...

Há remédios aqui; vou dar a ela. Mas e se eu me enganar? Cuidado com as

drogas, Plácido; não vá cometer uma barbaridade. Esperaremos. Mas o

quê... quando vierem, ela já estará no outro mundo. Deus a perdoe e lhe

dê o que mais lhe convém... É preciso tentar animá-la...” Falando-lhe ao

ouvido: “Fortunata, Fortunatinha, abra os olhos e não morra assim tão

tolamente... Trarei o Viático, ao menos a Extrema-Unção... Ei! Minha

filha, menina... Qual, ela não percebe... Isto está perdido. Minha

filha, pense em Deus e na Santíssima Virgem; invoque-os nesta hora

terrível, e eles a ampararão... Nada; é como se lhe falassem em grego.

Não ouve, ou está tão apegada à maldade que não quer ouvir falar de

religião. Vou tocar outro registro”, pensou, malicioso.

— Fortunata, bela moça, olhe quem está aqui... acorde e verá... Não o

reconhece? É aquele sujeito, o senhor dom Juanito, que vem ver sua...

dama... Olhe para ele, olhe como está aflito por vê-la doente.

Falando consigo: “Como a patife sorri! Ah! Está corrompida até a medula.

Abre os olhos e o procura com o olhar. É como os bêbados, que, mesmo

quando estão expirando, se alguém lhes fala em vinho, parecem

ressuscitar... Esta não se salva! Vai direto para o inferno... Vejam

que maneira de se arrepender. Falo-lhe de Nosso Divino Redentor e de

Maria Santíssima do Carmo, e nada... Surda como uma porta. Mas falo do

senhorito, e ei-la tão desperta, querendo viver e, sem dúvida, com

intenções de pecar. Ah! Esta se salva no dia de São Nunca... Parece-me

que a tia já está subindo. Ouço seus resfolegares como os de uma loba

marinha... Sim, aí vêm.” Saiu para o corredor e falou a Segunda, que

subia muito ofegante, precedida por Encarnación: “Que calma a senhora

tem! Ela ficou muito mal, mas muito mal.”

Mal entrou na alcova, Segunda começou a gritar:

— Filha de minha alma, mataram-na, mataram-na, assassinaram-na! Ai, que

carnificina, como ela está!... Mataram-na... E o menino? Roubaram-no de

nós, roubaram-no...

— Cuide de sua sobrinha e veja se consegue salvá-la — disse Estupiñá,

segurando-a pelo braço —, e deixe de assassinatos e roubos de filhos;

não seja ridícula.

— Menina de minha alma... mas o quê? Fortunata... mataram você, ou o

que é isto? Vejamos, cordeirinha, você tem ferimentos? Parece que lhe

deram cem punhaladas... Mas está viva. Conte-me o que foi, quem fez

isso. E seu menino, nosso menino, onde está? Tiraram-no de você?...

— Chame o médico — indicou Plácido com ira. — Onde mora? Eu o avisarei...

E não se preocupe com o menino, que está melhor do que poderia desejar

e nada lhe falta.

— Mas onde está?... Dom Plácido, dom Plácido — exclamou Segunda,

descomposta e furiosa —, parece-me que o senhor vai acabar na forca...

Vou dar parte à Justiça. O senhor é um bandido, sim, senhor, não volto

atrás... O senhor nos roubou a criatura.

— Essa é boa!... Mas, mulher de Barrabás — disse ele, recuando por medo

de que Segunda lhe arrancasse os olhos —, quer se calar? Não vê que sua

sobrinha está morrendo?

— Porque o senhor a matou, seu carrasco, seu canibal, o senhor, o

senhor.

— E continua... Será preciso pôr-lhe uma focinheira. Vou avisar a Casa

de Socorro.

— É para a cadeia que o senhor tem de ir.

Nesse momento entrou José Izquierdo, a quem a irmã quis incitar para

que atacasse o bom Estupiñá. Platão hesitava, não dando a Segunda

todo o crédito que ela julgava merecer.

— Vamos, já estou ficando farto... e quem vai trazer o juiz sou eu —

afirmou o ancião, batendo o pé. — O menino está onde deve estar, e bem

sabem que não minto. Se não, perguntem à mãe dele.

— Filha de minha vida — gritava Segunda, abraçando e beijando a

sobrinha, que, se ainda não era cadáver, assim parecia. — Diga-nos o

que fizeram com você, diga, meu coração. Ai, que dor de filha!...

— O senhor — disse Plácido a Izquierdo, autoritariamente —, corra para

chamar aquele farmacêutico que costuma vir, o que agora a protege. Eu

avisarei outra pessoa, e vamos depressa, pois a morte está tomando a

dianteira.

Escapuliu sem esperar a opinião de Segunda. Platão, compreendendo por

instinto mais que por discernimento que as ordens de Estupiñá eram mais

práticas que as da vendedora, saiu e foi depressa para a rua do Ave

María.

A primeira pessoa a chegar à casa foi Guillermina, a quem Plácido

informou pelo caminho de tudo o que acontecera. Subindo a escada, a

santa disse a seu sacristão:

— Entre em sua casa para esperar Jacinta, que virá imediatamente.

Avise-a de que não quero que suba. Assim que puder, descerei. Que

Jacinta não saia daqui e espere por mim.

Quando a fundadora entrou, a enferma continuava no mesmo estado.

Segunda, cheia de consternação, já não falava em assassinato e, embora

não acabasse de compreender o roubo do pequeno, não se atreveu a

mencioná-lo diante da senhoria. Tentara fazer Fortunata tomar fortes

doses de ergotina, mas não conseguira. Ela cerrava os dentes, e não

havia meio de trazê-la à razão. Guillermina teve mais sorte ou empregou

meios melhores, pois conseguiu fazê-la beber um pouco daquele eficaz

medicamento. Houve grande confusão, aplicação apressada de diferentes

remédios, externos e internos. A santa e a vendedora, ambas com igual

ardor, trabalharam para deter a vida que se ia; mas a vida não queria

parar e, diante da inutilidade de seus esforços, as duas mulheres se

detiveram, exaustas e desconsoladas. Fortunata olhava para a amiga com

expressão de gratidão e, quando esta lhe segurava a mão, tentava falar;

mas mal conseguia articular algum monossílabo. Caladas, conversaram com

o olhar.

— O padre Nones virá — disse a santa. — Mandei-lhe um recado ao sair de

casa. Prepare-se, minha filha, pondo o pensamento em Nosso Senhor Jesus

Cristo; se lhe pedir perdão pelos pecados com verdadeiro arrependimento,

Ele lhe dará. Já pediu?

Fortunata respondeu que sim com a cabeça.

— Minha amiguinha soube do presente que a senhora lhe deu e está muito

agradecida. Foi um gesto feliz e cristão.

Nas névoas que envolviam seu pensamento, a infeliz jovem, ao ouvir

aquilo do gesto, lembrou-se de Feijoo e de suas proibições; mas essa

lembrança não a fez se arrepender do que fizera.

— Jacinta me encarrega de lhe agradecer. Não guarda rancor algum da

senhora. Ao contrário, a senhora soube se arranjar para deixar boa

lembrança de si. Além disso, ela é uma das poucas pessoas que sabem

perdoar. Imite-a agora; não lhe faria mal, neste instante, sufocar suas

paixões, amar seus inimigos e fazer o bem aos que a odeiam. Minha filha

— disse, abraçando-a —, perdoou o homem culpado por todos os seus males

e que tantas vezes a arrastou ao pecado?

Fortunata respondeu que sim com a cabeça, e seu olhar dava a entender

que aquele era um dos perdões fáceis, pois o amor estava envolvido.

— Perdoa também aquela mulher por quem se julgava ofendida e a quem a

senhora ofendeu por palavras e atos, com ou sem motivo?

Esse perdão, sim, era dos difíceis. A santa calou-se, observando a diaba

inquieta. Esta tinha a cabeça inclinada para trás, movendo-a sobre o

travesseiro com certo desassossego, e seus olhos vagavam pelo teto.

— O quê, a senhora hesita?... Pois Deus, para nos perdoar, precisa

saber antes se nós perdoamos. Para que quer agora esse ódio mesquinho?

De que lhe serve? É um peso que a impedirá de subir ao Céu. É preciso

jogar fora esse chumbo — disse, abraçando-a com mais carinho. —

Amiguinha, faça isso por mim, pelo macaco do Céu, que deve ficar aqui

cercado de bênçãos, não de maldições.

Fortunata estremeceu dos cabelos aos pés... Sua respiração fatigosa

indicava o esforço de vencer as resistências físicas que impediam a

voz.

— Não precisa falar — disse-lhe a santa —; basta manifestar sua

intenção respondendo com a cabeça. A senhora perdoa Aurora?...

A moribunda moveu a cabeça de uma maneira que poderia passar por

afirmativa, mas com pouca ênfase, como se não fosse toda a alma, mas

apenas uma parte dela que afirmasse.

— Mais, mais claro.

Fortunata acentuou um pouquinho mais, e seus olhos se umedeceram.

— Assim é que eu gosto.

Então resplandeceu no rosto da infeliz senhora de Rubín algo que parecia

inspiração poética ou êxtase religioso e, vencendo maravilhosamente a

prostração em que se encontrava, teve impulso e palavras para dizer:

— Eu também... a senhora não sabe?... sou anjo...

Expressou mais alguma coisa; mas as palavras tornaram a ficar

ininteligíveis, e em seu rosto permaneceu uma expressão de felicidade

inefável e serena. A santa ficou um instante sem saber que atitude tomar.

— Anjo!... Sim — disse por fim —; será, se se purificar bem. Querida

amiga, é preciso se preparar com seriedade. O padre Nones virá e lhe

dará consolos que eu não posso dar... Agora me lembro de que a senhora

tinha uma ideia maligna, origem de muitos pecados. É preciso expulsá-la

e pisoteá-la... Procure, remexa bem o espírito, e verá como a encontra;

é aquele disparate de que o casamento, quando não há filhos, não vale...

e de que a senhora, por tê-los, era a verdadeira esposa de... Vamos —

disse com extraordinária ternura —, reconheça que semelhante ideia era

um erro diabólico de tão tolo e prometa que renegará dela e não se

esquecerá de mencioná-la quando o amigo Nones a confessar. Veja que, se

a levar consigo, ela vai atrapalhá-la muito por lá.

A Pitusa não manifestava nada, razão pela qual sua fervorosa amiga

tornava ao ataque com mais brio e paixão.

— Fortunata, minha filha, pelo carinho que tem por mim, e que não

mereço, pelo que tomei pela senhora e que conservarei por toda a vida,

peço que arranque essa ideia e a jogue aqui, como se fosse um enfeite

dos que as pecadoras usam, uma pinta postiça, um rouge. Isso não serve

lá, a não ser que sirva ao diabo para fazer das suas... A senhora a

arranca, sim ou não? Faça por mim, para que eu fique tranquila.

Fortunata tornou a ter aquela labareda nos olhos, como reflexo de uma

iluminação cerebral, e vibrações de júbilo no corpo, como se um espírito

benigno entrasse nela tumultuosamente. A vontade e a palavra

reapareceram; mas foi apenas para dizer:

— Sou anjo... não está vendo?...

— Anjo, sim; está bem, essa convicção me agrada — respondeu com

inquietação. — Mas eu queria...

O aparecimento do padre Nones interrompeu a senhora; ele não cabia pela

porta e teve de se inclinar para entrar. Todo o aposento se encheu de

uma negrura triste e severa.

— Aqui estou, mestra — disse o ancião, e a dama se levantou para lhe

ceder o assento.

Os dois cochicharam alguma coisa antes de ela se retirar. Nones falou

carinhosamente à enferma, que o olhava com olhos turvos, sem dar resposta

alguma às suas palavras... Por fim, soltou uma voz que parecia infantil,

voz queixosa e dolorida, como a de uma tenra criatura ferida. O que

Nones julgou compreender entre aquelas articulações de sentimento

indefinível foi isto:

— Não sabe?... sou anjo... eu também... macaca do Céu.

E o padre prosseguiu a exortação, dizendo consigo: “Trabalho perdido...

cabeça transtornada.”

E, em voz alta:

— Anjo, sim; mas é preciso, minha filha, confessar a fé de Cristo,

consagrar a ela nossos últimos pensamentos e pedir-lhe de coração que

nos perdoe. Ele é tão bom, tão bom, que não nega seu amparo a nenhum

pecador que se aproxime dEle, por mais empedernido que seja... O

principal é ter um interior puro, um...

Olhou-a, alarmado. Ela dissera alguma coisa? Sim; mas Nones não

conseguiu entender. Sem dúvida fora aquilo de sou anjo; depois,

inclinou a cabeça como quem vai dormir. O sacerdote olhou-a mais de

perto e disse em voz alta:

— Mestra, mestra, venha.

Guillermina entrou, e ambos a observaram.

— Creio — disse Nones — que acabou. Não pôde se confessar... Cabeça

transtornada... Pobrezinha! Diz que é anjo... Deus é quem sabe...

A mestra e o padre começaram a rezar em voz alta. Segunda começou a

fazer escândalo, e nesse momento chegava Segismundo, que, informado na

escada do que acontecia, entrou na casa e na alcova mais morto que vivo.

xv

Enquanto o padre Nones esteve ali, Ballester manteve-se numa atitude

consternada, contemplando o lastimoso quadro com o respeito inspirado

pelos mortos e encerrando a dor numa compostura que tinha certa

correção. Mas, quando não restaram ali outras testemunhas além da santa

e de Segunda, o bom farmacêutico julgou não haver razão para conter a

onda impetuosa que lhe saía do coração e, aproximando-se do corpo ainda

quente de sua infeliz amiga, abraçou-o e estampou uma multidão de beijos

em sua testa e nas faces.

— Ah, senhora — disse à fundadora, enxugando as lágrimas —, vejo que a

senhora se espanta de... de me ver chorar assim e destas demonstrações...

É que eu gostava muito dela... era minha amiga... ia ser minha amante...

quero dizer... não, perdoe-me, éramos amigos... A senhora não a conhecia

bem; eu, sim... Era um anjo... quero dizer, devia ser, poderia ser;

perdoe-me, senhora, não sei o que digo, porque esta desgraça me atingiu

a alma. Eu não esperava... Foi uma negligência. Ela mesma, com os

disparates que fazia... pois era desses anjos que cometem muitos

disparates... a senhora entende?... Pobre mulher... tão formosa e tão

boa!... A hemorragia sem dúvida resultou de não se ter realizado a

involução... Eu temia isso... A saída antes da hora, a agitação moral...

Acrescente negligências, falta de assistência, de vigilância e de uma

autoridade que se impusesse a ela. Ah! Se eu tivesse estado aqui. Mas

não podia, não podia. Minhas obrigações... Ah, senhora, acredite que

tenho o coração despedaçado e demorarei a me consolar desta tristeza...

Eu tomara por ela tanto carinho que a tinha no pensamento a toda hora.

Meu destino me ligava a ela, e teríamos sido felizes, sim, felizes,

acredite... Teríamos ido para outro país, um país distante, muito

distante. Com sua licença, vou beijá-la outra vez. Nunca a tinha beijado.

Eu não me atrevia, nem ela o teria permitido, porque era a pessoa mais

honrada e honesta que a senhora pode imaginar.

Guillermina sentia tanto espanto quanto pena diante das demonstrações

daquele bom homem, que se expressava com tamanha franqueza. Pouco a

pouco, a dor de Segismundo tomou tons mais tranquilos e, sentado à

cabeceira do leito mortuário, ele falou com a santa sobre um assunto

que, necessariamente e pela força da realidade, se impunha.

— Ah, não, senhora; perdoe-me. Eu pago as despesas do enterro. Quero

ter essa satisfação. Não a tire de mim, por Deus...

— Mas, meu filho — replicou a fundadora —, se o senhor é pobre. Que

necessidade tem de fazer essa despesa? Se não houvesse outro remédio,

seria muito santo e muito bom. Mas não seja tolo e guarde seu dinheiro,

que bastante falta lhe faz. Esta obrigação será paga por quem deve

pagá-la; não digo mais: para bom entendedor...

Sem se dar por vencido, Ballester persistiu em sua ideia; mas

Guillermina insistiu tanto que por fim conseguiu tirá-la de sua cabeça.

Segunda e suas duas companheiras da pracinha amortalharam a infeliz

senhora de Rubín, enquanto o farmacêutico se ocupava, com atividade

incansável, dos preparativos do enterro, que seria na manhã seguinte.

Durante todo aquele dia, não abandonou a casa mortuária. Ao meio-dia,

estava sozinho ali, e o corpo de Fortunata, já vestido com seu hábito

negro das Dores, jazia no leito. Ballester não se cansava de contemplá-la,

observando a serenidade daquelas feições que a morte já tinha por suas,

mas que ainda não devorara. O rosto era como de marfim, tocado de

manchas cor de vinho na cavidade dos olhos e nos lábios; as sobrancelhas

pareciam ainda mais finas, delineadas e negras que em vida. Duas ou três

moscas haviam pousado naquelas feições murchas. Segismundo tornou a

sentir vontade de beijar a amiga. Que lhe importavam as moscas? Era como

quando caíam no leite. Ele as tirava e depois bebia como se nada tivesse

acontecido. As moscas fugiram quando o rosto vivo se inclinou sobre o

morto e, ao se afastar, tornaram a pousar. Então Ballester cobriu o

rosto da amiga com um lenço finíssimo.

Guillermina voltou mais tarde. Subia do quarto de Plácido para dizer a

Ballester algo referente ao enterro. Conversaram por algum tempo e,

como ela se mostrasse receosa de que o marido da falecida aparecesse e

provocasse um escândalo, o farmacêutico a tranquilizou:

— Não tema nada. Esta manhã conseguimos trancá-lo. O infeliz está

furioso, e foi preciso Deus e ajuda para lhe tirar um maldito revólver

que comprou e com o qual quer fuzilar as pobres Samaniego e outra

pessoa que costuma passear pelo bairro. A célebre dona Lupe estava com

o coração na mão. Padilla e eu fomos acudir e, com muito trabalho,

conseguimos desarmar o filósofo e trancá-lo no quarto, onde ficou dando

cabeçadas nas paredes e soltando gritos que eram ouvidos da rua.

— Eu bem disse. Tanta e tanta lógica tinha de acabar nisso... Portanto,

o senhor já sabe. Às dez haverá missa e responso no cemitério. E foi

determinado, por quem devia fazê-lo, que o enterro seja de primeira:

carro de luxo com seis cavalos; irão as crianças do Hospício... O senhor

dirá que essa ostentação não vem ao caso.

— Não, eu não digo nada.

— Não haveria nada de estranho se dissesse, porque à primeira vista é

absurdo. Mas a complicação das causas traz a complicação dos efeitos e,

por isso, vemos no mundo tantas coisas que nos parecem despropósitos e

nos fazem rir. Veja por que professo o princípio de que não devemos rir

de nada e que tudo o que acontece, pelo simples fato de acontecer, já

merece algum respeito. Está compreendendo?

Ia dizer mais alguma coisa, mas Plácido entrou, chapéu na mão e com

certos ares de ajudante de campo, anunciando à sua generala que dona

Bárbara chegara.

A santa desceu e encontrou a amiga um pouco severa, observando as

carinhosas efusões de Jacinta com aquele passarinho de alcova que estava

em seu poder, como se o tivesse achado na rua ou o tivessem deixado

numa cesta à porta de sua casa. As feições do pequenino também diziam

alguma coisa à senhora de Santa Cruz; mas, escarmentada e prudente,

continha-se para não incorrer no ridículo de uma decepção semelhante à

de outrora. Estava, portanto, indecisa, sem se decidir a se entusiasmar;

e as razões que Guillermina lhe deu para convencê-la não a tiraram

daquela atitude reservada e desconfiada. Os afetos que transbordavam do

coração da Delfina eram uma combinação harmoniosa de alegria e dor,

pelas circunstâncias em que aquela tenra criatura fora parar em suas

mãos. Não conseguia afastar o pensamento da pessoa que, um pouco mais

acima, na mesma casa, deixara de existir naquela manhã; e se maravilhava

ao notar no coração sentimentos que eram algo mais que pena pela mulher

desventurada, pois talvez envolvessem certo companheirismo, uma

fraternidade fundada em desgraças comuns. Lembrava-se, sim, de que a

morta fora sua maior inimiga; mas as últimas etapas da inimizade e o

caso incrível da herança do Pituso envolviam, sem que a inteligência

pudesse decifrar o enigma, uma reconciliação. Com a morte entre elas,

uma na vida visível, outra na invisível, bem poderia ser que as duas

mulheres se olhassem de margem a margem, com intenção e desejo de se

abraçar.

As três senhoras disseram ao mesmo tempo:

— E o que fazemos agora?

Iniciou-se breve discussão sobre o lugar para onde levariam aquela

preciosa aquisição. Guillermina cortou as dificuldades, propondo que o

levassem para sua casa. Deram ordens a Estupiñá para que também fossem

conduzidas à residência da santa as três mulheronas entre as quais seria

escolhida, com todo o cuidado, aquela que criaria o macaco do Céu.

Na noite daquele célebre dia, houve uma cena memorável na casa de Santa

Cruz.

Jacinta e a sogra tomaram o Delfín por sua conta e o puseram em duro

aperto, contando-lhe o ocorrido, mostrando-lhe a carta redigida por

Estupiñá e obrigando-o, com lamentável rebaixamento de sua dignidade, a

mostrar-se sinceramente consternado, pois o caso não era para ser

transformado em zombaria nem evitado com quatro frases e um pensamento

engenhoso. Ele faltara gravemente, ofendendo a esposa legítima,

abandonando depois sua cúmplice e tornando-a digna de compaixão e até

de simpatia, por uma série de fatos dos quais era o único responsável.

Por fim, Santa Cruz, tentando reconstruir o amor-próprio despedaçado,

negou algumas coisas; outras, as mais amargas, adoçou e confeitou

admiravelmente para que fossem engolidas; terminou afirmando que o

menino era seu, muito seu, e que assim o reconhecia e aceitava, com o

propósito de amá-lo como se o tivesse tido de sua adorada e legítima

esposa.

Quando os Delfines ficaram a sós, Jacinta desabafou à vontade com o

marido; e estava tão coberta de razão, tão firme e corajosa, que ele mal

conseguiu responder, e suas artimanhas foram armas impotentes e

ridículas contra a verdade que fluía dos lábios da esposa ofendida. Ela

o fazia tremer com seus julgamentos cortantes, e já não era fácil ao

habilidoso cavalheiro triunfar sobre aquela alma terna, cuja dialética

costumava enfraquecer pela força do carinho. Viu-se então que a

continuidade dos sofrimentos destruíra em Jacinta a estima pelo marido,

e a ruína da estima arrastara consigo parte do amor, que por fim se

encontrava reduzido a proporções tão míseras que quase não se deixava

ver. A situação desairosa em que isso o colocava inflamava cada vez mais

o orgulho de Santa Cruz; e, diante do desdém não fingido, mas real e

efetivo, que a mulher lhe mostrava, o pobre homem sofria horrivelmente,

pois era muito triste para ele que a vítima já não sentisse os golpes

que recebia. Não ser ninguém diante da mulher, não encontrar ali o

refúgio ao qual periodicamente estava habituado, deixava-o de péssimo

humor. E era tamanha sua confiança na segurança daquele refúgio que, ao

perdê-lo, experimentou pela primeira vez essa tristíssima sensação das

perdas irreparáveis e do vazio da vida, sensação que em plena juventude

equivale a envelhecer, em plena família equivale a ficar sozinho, e

marca a hora em que o melhor da existência recua, deixando às costas os

horizontes que antes estavam adiante. Ela lhe disse isso claramente,

com expressiva sinceridade nos olhos, que nunca enganavam:

— Faça o que quiser. Você é livre como o ar. Suas trapaças não me

afetam em nada.

Aquilo não era palavrório, e, nas provas da vida real, o Delfín viu que

daquela vez era sério.

Durante algum tempo, o Delfinzinho continuou na casa de Guillermina,

onde estava a ama, até que dom Baldomero foi informado de tudo e o

menino pôde ser levado para a casa da família. Jacinta vivia consagrada

a ele de corpo e alma e tinha a satisfação de que todos na casa o

amavam, inclusive seu pai. A sós com ele, a dama se entretinha

construindo, no pensamento ousado, edifícios de fumaça com torres de ar

e cúpulas ainda mais frágeis, por serem feitas de pura ideia. As feições

do menino herdado não eram as da outra; eram as suas. E tanto podia a

imaginação que a mãe putativa chegava a se extasiar com a lembrança

artificial de ter carregado aquele precioso filho nas entranhas e a

estremecer com a suposição das dores sofridas ao trazê-lo ao mundo.

Depois desses jogos da fantasia travessa, vinha a reflexão sobre como

andavam desordenadas as coisas do mundo. Também ela tinha sua ideia a

respeito dos vínculos estabelecidos pela lei e os rompia com o

pensamento, realizando a impossível obra de fazer o tempo voltar, mudar

e trocar as qualidades das pessoas, dando a este o coração daquele e a

outro a cabeça de mais alguém; fazia, enfim, correções tão extravagantes

à obra total do mundo que Deus riria delas, se as conhecesse, assim como

sua vigária de saias, Guillermina Pacheco. Jacinta fazia girar todo esse

ciclone de pensamentos e correções ao redor da cabeça angelical de Juan

Evaristo; recompunha-lhe as feições, atribuindo-lhe as suas próprias,

misturadas e confundidas com as de um ser ideal, que bem poderia ter o

rosto de Santa Cruz, mas cujo coração era certamente o de Moreno...

aquele coração que a adorava e morria por ela... Porque Moreno bem

poderia ter sido seu marido... ainda viver, não estar gasto nem doente

e ter o mesmo rosto do Delfín, esse falso, essa má pessoa... “E ainda

que não o tivesse, vamos, ainda que não o tivesse... Ah! Então o mundo

seria como devia ser, e não aconteceriam as muitas coisas ruins que

acontecem...”

xvi

No enterro da senhora de Rubín, o luxo do carro fúnebre contrastava com

o pequeno número de carruagens do acompanhamento, pois havia apenas duas

ou três. Na primeira ia Ballester, que, para não ir sozinho, fizera-se

acompanhar por seu amigo, o crítico. No longo trajeto da Cava até o

cemitério, um dos do Sul, Segismundo contou ao bom Ponce tudo o que

sabia da história de Fortunata, que não era pouco, sem omitir o último

episódio, sem dúvida o melhor. O eminente julgador de obras literárias

disse que havia ali elementos para um drama ou romance, embora, em sua

opinião, o tecido artístico só resultasse vistoso se fossem

introduzidas certas urdiduras absolutamente necessárias para que a

vulgaridade da vida pudesse se converter em matéria estética. Ele não

tolerava que a vida fosse levada à arte tal como era, mas preparada,

temperada com especiarias aromáticas e depois posta ao fogo até cozinhar

bem. Segismundo não partilhava dessa opinião, e os dois discutiram a

respeito com argumentos escolhidos de ambas as partes, cada qual ficando

com suas ideias e convicções. Resultou por fim que a fruta crua, bem

madura, é coisa muito boa, e que também o são as compotas, se o

confeiteiro sabe o que faz.

Nisso chegaram, e o corpo da senhora de Rubín foi sepultado diante das

quatro ou cinco pessoas que o acompanhavam: Segismundo e o crítico,

Estupiñá, José Izquierdo e o marido de uma das vendedoras da praça,

amiga de Segunda. Ballester, muito abalado, fazia das tripas coração e

foi o último a se retirar. No regresso a Madrid, dentro da carruagem,

levava fresca na mente a imagem daquela que já não era nada.

— Esta imagem — disse ao amigo — viverá em mim por algum tempo; mas irá

se apagando, apagando, até desaparecer inteiramente. A suposição de um

possível esquecimento, ainda que distante, dá-me mais tristeza que o

que acabo de ver... Mas tem de haver esquecimento, assim como tem de

haver morte. Sem o esquecimento, não haveria espaço para ideias e

sentimentos novos. Se não esquecêssemos, não poderíamos viver, porque no

trabalho digestivo do espírito não pode haver ingestão sem que haja

também eliminação.

E, mais adiante:

— Veja, amigo Ponce, estou inconsolável; mas não ignoro que, do ponto

de vista do egoísmo social, a morte daquela mulher é um bem para mim —

bens e males sempre andam emparelhados na vida —, porque, acredite, eu

me preparava para cometer grandes disparates por aquela bela moça; já

os estava cometendo, e teria chegado sabe Deus aonde... Imagine a

atração que ela exercia sobre mim! Considero-me um homem ajuizado e,

apesar disso, caminhava direto para o abismo. Aquela mulher tinha sobre

mim um poder sugestivo que não consigo lhe explicar; meteu-se em minha

cabeça a ideia de que era um anjo, sim, um anjo disfarçado, por assim

dizer, de máscara, para espantar os tolos, e nem todos os sábios do

mundo teriam arrancado de mim essa ideia. Mesmo agora, tenho-a aqui,

fixa e clara... Será delírio, aberração; mas a ideia está aqui dentro,

e meu maior desconsolo é que já não posso, por causa da morte, provar a

mim mesmo que ela é verdadeira...

“Porque eu queria prová-lo... e, acredite, teria conseguido.”

Na semana seguinte, Ballester saiu da farmácia de Samaniego, pois dona

Casta soube de suas relações, que lhe pareceram imorais, com a infame

que tão grosseiramente atacara Aurora, e não quis mais nada com ele.

Dona Lupe pediu-lhe várias vezes que fosse ver Maximiliano, que

continuava trancado no quarto e recebia a comida por uma claraboia. Nem

a senhora nem Papitos se atreviam a entrar, pois os uivos do infeliz

eram sinal de agitação insana e perigosa. Segismundo foi o primeiro a

penetrar no aposento, sem medo algum, e viu Maxi num canto, encolhido

como uma bola, com mais aparência de imbecilidade que de fúria, o rosto

desfigurado e as roupas em desalinho.

— Então? — disse-lhe o farmacêutico, inclinando-se e tentando erguê-lo.

— Isso está passando?... Como há alguns dias o senhor quis nos morder

quando lhe tiramos o revólver, dava dentadas e pontapés e queria matar

todo o gênero humano, tivemos de trancá-lo. Justo castigo pela tolice...

Então? Perdeu o uso da palavra? Olhe-me de frente e não faça caretas,

que fica muito feio. Não me reconhece? Sou Ballester, e tenho ali aquela

vara para endireitar crianças malcriadas.

— Ballester — disse Maxi, olhando-o fixamente como quem desperta de um

torpor.

— O próprio; e então?... Quer notícias do mundo? Pois prometa ter juízo.

— Juízo...? Eu já tenho, já tenho. Acaso perdi alguma vez sequer um

tantinho do juízo?

— Qual! Nada disso, graças a Deus. O senhor perder o juízo! Essa é boa...

— O fato é que dormi, amigo Ballester — disse Rubín com relativa

serenidade, levantando-se. — O que recordo agora é que estava ajuizado,

mais ajuizado que qualquer pessoa, e de repente fui tomado pelo frenesi

de matar. Por quê, por que foi?

— Isso, coce a cabecinha para ver se se lembra... foi porque somos

muito tolos. O senhor era o espelho dos filósofos e já caminhava para

santo quando, de repente, decidiu comprar um revólver...

— Ah!... Sim — disse, arregalando os olhos de espanto. — Foi porque

minha mulher me prometeu me amar com verdadeiro amor, amar-me com

delírio, está ouvindo?, como ela sabe amar.

— Essa é boa. E agora quer pôr a culpa na outra pobre.

— Ela, sim, foi ela. Arrebatou-me... e arrebatado estou. Tenho dentro

de mim o espírito do mal... e quase só me resta uma lembrança vaga

daquele estado de virtude em que me encontrava.

— Que pena, meu filho, que pena! Temos de voltar às duchas e ao brometo

de sódio. É o melhor para expulsar virtude e filosofia.

— Voltarei — disse Maxi com extrema gravidade — quando tiver cumprido

a promessa que fiz à minha mulher. Matarei, desfrutarei depois daquele

amor inefável, infinito, que nunca provei e que ela me ofereceu em troca

do sacrifício que lhe fiz de minha razão; depois, nós dois nos

consagraremos à penitência e a pedir a Deus perdão por nossa culpa.

— Belo programa, sim, senhor; belo contrato! Só que já não pode se

realizar, porque falta uma das partes.

— Que parte?

— A que fornecia o amor, esse amor tão sublime e... delirante.

Maxi não compreendia, e Ballester, decidido a lhe dar a notícia sem

rodeios nem atenuantes, concluiu:

— Sim, sua mulher já não existe. A pobrezinha morreu há exatamente oito

dias.

Ao dizê-lo, comoveu-se extraordinariamente, e a voz se lhe velou. Maxi

irrompeu numa risada desentoada.

— Outra vez a mesma comédia, outra vez... Mas agora, como antes, isso

não cola, senhor Ballester... Quer apostar que, com minha lógica, torno

a descobrir onde ela está? Ai, meu Deus! Já sinto a lógica invadir

minha cabeça com força admirável, e o talento volta... sim, está

voltando, aqui está, sinto-o entrar. Bendito seja Deus, bendito seja!

Dona Lupe, que escutava aquele colóquio do corredor, com o ouvido

colado à porta entreaberta, foi perdendo o medo ao ouvir a voz serena do

sobrinho e abriu-a um pouco, deixando ver seu rosto inteligente e

perscrutador.

— Entre, dona Lupe — disse-lhe Segismundo. — Ele está bem. O acesso

passou. Mas não quer acreditar que perdemos sua esposa. Claro, como o

enganamos da outra vez... Só que ele teve mais talento que nós.

— E agora também, e agora também — afirmou Rubín com insistência

maníaca. — Começarei imediatamente meus trabalhos de observação e

cálculo.

— Pois não precisará esquentar a cabeça, porque eu lhe provarei... eu

demonstrarei o que disse. Dona Lupe, faça o favor de trazer-lhe as

roupas, porque não fica bem sair à rua com essa aparência.

— Mas aonde o senhor vai levá-lo? — perguntou ela, alarmada.

— Deixe por minha conta, sinhá ministra. Eu me entendo. Tem medo de que

eu roube esta joia?

— Minhas roupas, tia, minhas roupas — disse Maxi, tão animado como em

seus melhores tempos e sem aparência alguma de perturbação mental.

Por fim, fez-se o que Ballester desejava; Maxi vestiu-se e os dois

saíram. No corredor, Segismundo comunicou seu plano a dona Lupe:

— Veja, senhora, tenho de ir ao cemitério para ver a lápide que mandei

colocar na sepultura daquela pobrezinha. Eu a paguei; quis ter essa

satisfação... Uma lápide preciosa, com o nome da falecida e uma coroa

de rosas...

— Coroa de rosas! — exclamou a dos Perus, que, com toda a sua

diplomacia, não soube disfarçar um leve tom de ironia.

— De rosas... e que lhe importa?... — disse ele, inflamando-se. —

Acaso é a senhora quem vai pagar?... Eu gostaria de tê-la feito de

mármore, mas não tenho recursos... É de pedra de Novelda; tributo

modesto e afetuoso de uma amizade pura... Ela era um anjo... Sim, não

volto atrás, ainda que a senhora ria.

— Não, eu não ri. Só faltava essa.

— Um anjo à sua maneira. Enfim, deixemos isso e vamos ao outro assunto.

Como convencer-se de que sua mulher não vive terá grande influência no

estado mental deste pobre rapaz, penso levá-lo... para que veja,

senhora, para que veja.

Dona Lupe aprovou, e os dois farmacêuticos saíram e tomaram um carro.

Pelo caminho, Maxi ia cabisbaixo, e a proximidade do cemitério o

intimidava, subjugando-lhe o ânimo com a gravidade que a ideia da morte

traz consigo.

— Em frente, menino — disse-lhe o amigo, tomando-o pelo braço e

levando-o para dentro do campo-santo.

Atravessaram um grande pátio cheio de mausoléus mais ou menos luxuosos,

depois outro pátio inteiramente ocupado por nichos; passaram a um

terceiro, onde havia sepulturas abertas, recém-ocupadas, e pararam diante

de uma em que os pedreiros ainda estavam, acabando de colocar uma

lápide e recolhendo as ferramentas.

— É aqui — disse Ballester, apontando a grande laje de cantaria de

Novelda, em cuja parte superior havia uma coroa de rosas, muito bem

esculpida; abaixo, o R.I.P. e, depois, um nome e a data do falecimento.

— O que está escrito aí?

Maximiliano ficou imóvel, com os olhos pregados na lápide... A inscrição

dizia com toda a clareza! E ao nome e sobrenome de sua mulher

acrescentava-se de Rubín. Ambos se calaram; mas a emoção de Maxi era

mais viva e difícil de dominar que a do amigo. Pouco depois, um pranto

tranquilo, expressão de dor verdadeira e sem esperança de remédio,

brotava de seus olhos numa torrente que parecia inesgotável.

— São as lágrimas de toda a minha vida — conseguiu dizer ao amigo —,

as que derramo agora... Todas as minhas dores estão saindo pelos olhos.

Ballester levou-o dali com dificuldade, porque ele ainda queria

permanecer mais tempo e chorar sem descanso. Quando saíam do cemitério,

entrava um enterro com acompanhamento numeroso.

Era o de dom Evaristo Feijoo. Mas os dois farmacêuticos não lhe deram

atenção. Dentro do carro, Maximiliano, com voz serena e dolorida,

expressou ao amigo estas ideias:

— Eu a amei com toda a alma. Fiz dela o objeto principal de minha vida,

e ela não correspondeu aos meus desejos. Não me amava... Olhemos as

coisas do alto: ela não podia me amar. Eu me enganei, e ela também se

enganou. Não fui o único enganado; ela também o foi. Nós dois nos

enganamos reciprocamente. Não contamos com a Natureza, que é a grande

mãe e mestra que corrige os erros dos filhos transviados. Cometemos mil

disparates, e a Natureza os corrige. Protestamos contra suas admiráveis

lições, que não entendemos; e, quando queremos que ela nos obedeça, ela

nos agarra e nos arrebenta, como o mar arrebenta aqueles que pretendem

governá-lo. Isso me diz minha razão, amigo Ballester, minha razão, que

hoje, graças a Deus, torna a me iluminar como um farol esplêndido. O

senhor não vê?... Mas não vê?... Porque quem sustentar agora que estou

louco é que está verdadeiramente louco; e, se alguém me disser isso na

cara, por Cristo, pela santíssima unha de Deus!, haverá de me pagar.

— Calma, calma, meu amigo — disse ele com bondade. — Ninguém o

contradiz.

— Porque agora vejo todos os conflitos, todos os problemas de minha

vida com uma clareza que só pode provir da razão... E, para que fique

registrado, juro diante de Deus e dos homens que perdoo de todo o

coração aquela desventurada a quem amei mais que à minha vida e que me

fez tanto mal; eu a perdoo, afasto de mim toda ideia rancorosa, limpo

meu espírito de todo mato e não quero ter pensamento algum que não seja

dirigido ao bem e à virtude... O mundo acabou para mim. Fui um mártir e

um louco. Que minha loucura, da qual com a ajuda de Deus me curei, seja

contada como martírio; pois meus desvarios, o que foram senão a

expressão exterior das horríveis agonias de minha alma? E, para que não

reste a ninguém o menor escrúpulo a respeito de meu estado de perfeita

lucidez, declaro que amo minha mulher como no dia em que a conheci;

adoro nela o ideal, o eterno, e a vejo não como era, mas tal como a

sonhei e a via em minha alma; vejo-a adornada com os mais belos

atributos da divindade, refletidos nela como num espelho; adoro-a porque

não teríamos meios de sentir o amor de Deus se Deus não o desse a

conhecer, fazendo-nos imaginar que seus atributos se transmitem a um

ser de nossa raça. Agora que não vive, contemplo-a livre das

transformações que o mundo e o contato com o mal lhe imprimiam; agora

não temo a infidelidade, que é um atrito com as forças da Natureza que

passam junto de nós; agora não temo as traições, que são projeções de

sombra por corpos opacos que se aproximam; agora tudo é liberdade e

luz; desapareceram as imundícies da realidade, e vivo com meu ídolo em

minha ideia, e nos adoramos com pureza e santidade sublimes no tálamo

incorruptível de meu pensamento.

— Era um anjo — murmurou Ballester, a quem, sem saber como, se

comunicava algo daquela exaltação.

— Era um anjo — gritou Maxi, dando um forte soco no joelho. — E o

miserável que me negar isso ou puser em dúvida haverá de se entender

comigo...!

— E comigo! — repetiu Segismundo com igual ardor. — Que pena de

mulher... Se vivesse!

— Não, meu amigo, viver, não. A vida é um pesadelo... Eu a amo mais

morta...

— E eu também — disse Ballester, percebendo que não devia contrariá-lo.

— Nós dois a amaremos como se amam os anjos. Felizes os que assim se

consolam!

— Felizes mil vezes, meu amigo! — exclamou Rubín com entusiasmo —,

aqueles que chegaram, como eu, a este grau de serenidade no pensamento.

O senhor ainda está preso às desrazões da vida; eu me libertei e vivo

na ideia pura. Felicite-me, amigo de minha alma, e dê-me um grande

abraço, assim, assim, mais apertado; mais, mais, porque me sinto muito

feliz, muito feliz.

Ao entrar em casa, a primeira coisa que disse a dona Lupe foi:

— Tia de minha alma, quero me retirar do mundo e entrar num convento

onde possa viver a sós com minhas ideias.

A senhora de Jáuregui viu o céu aberto ao ouvi-lo se expressar dessa

maneira e respondeu:

— Ai, meu filho, eu já tinha providenciado sua entrada num mosteiro

muito retirado e bonito que há aqui, perto de Madrid! Verá como ficará

bem. Há lá uns senhores monges muito simpáticos, que não fazem senão

pensar em Deus e nas coisas divinas. Como me alegro por ter tomado essa

decisão! Antecipando-me a seu desejo, já estava preparando as roupas

que levará.

Ballester apoiou a ideia que ocorrera ao amigo e passou o dia inteiro

falando-lhe daquilo, receoso de que ele voltasse atrás. Para aproveitar

aquela boa disposição, na manhã seguinte, bem cedo, ele próprio o levou

de carro ao sossegado retiro que lhe preparavam. Maxi ia contentíssimo

e não opôs resistência alguma. Mas, ao chegar, dizia em voz alta, como

se falasse com um ser invisível:

— Pensam esses tolos que me enganam! Isto é Leganés. Aceito, aceito e

me calo, como prova da submissão absoluta de minha vontade ao que o

mundo queira fazer de minha pessoa. Não encerrarão meu pensamento entre

muralhas. Resido nas estrelas. Ponham o chamado Maximiliano Rubín num

palácio ou num monturo... dá no mesmo.

Madrid. — Junho de 1887.

FIM DO ROMANCE

* * * * *

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