Canto II A Confederação dos Tamoyos · Capítulo 3 de 12
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Canto II

Usos e costumes dos Tamoyos.— Seus principaes chefes: Aimbire, Pindobuçú, Parabuçú seu filho, Jagoanharo, Araray seu pai e irmão de Tibiriçá, Coaquira.— Conselho dos chefes.— Falla primeiro Jagoanharo como o mais moço.— Discurso de Aimbire.— Feitos mais importantes da sua vida.— Ataque da fortaleza de Villegagnon.— Como alli fôra Aimbire feito prisioneiro, e como se escapára da náo de Mem de Sá.— Anima os seus companheiros para a guerra; e manda Jagoanharo pedir a Tibiriçá seu tio que deixe a causa dos Portuguezes, e se ligue aos seus.— Todos o applaudem.

P’ra acabar co’os ataques reiterados

Dos Lusos, confederam-se os Tamoyos.

Bravos são os Tamoyos, e descendem

Da raça dos Tupís. Elles não erram

Sem tabas, nos sertões, como os terriveis

Feroces Aimorés, raça Tapuia.

Natural, inspirada poesia

De todos os distingue, os ennobrece,

E trataveis os torna, inda que altivos:

Crêm elles qu’esse dom, e as doces vozes,

Ás puras aguas devem do Carioca.

Vasta extensão occupam do terreno

Que banha o Guanabara. As suas tribos

Se estendem desde as longas serranias

Que um orgão fingem, donde o nome tiram,

Até o Cairuçú, terror dos nautas.

Um Deos adoram, que dispara o raio,

E que pelo trovão aos homens falla:

Tupan se elle nomeia; os seus ministros

São os Payés, entre elles venerados.

Leis escriptas não tem; mas não lhes faltam

As leis da Natureza e as dos costumes,

Herdadas de seus pais. O mais idoso

E o mais forte é por chefe respeitado. 1

Já todos os guerreiros se apercebem

De tacapes e maças de páo-ferro, 2

Arcos robustos, e emplumadas flechas.

Aimbire, o forte Aimbire, apregoado

Entre todos os fortes pela audacia

Com que se arroja ás feras e as sutfoca,

Aqui se mostra á frente dos Tamoyos,

Pelo voto geral primeiro chefe.

Aimbire desde a infancia se amestrára

A certeiro enviar co’a setta a morte;

Nem no rapido pulo lhe escapava

O jaguar mais ligeiro sobre a rocha;

Nem mesmo o gavião alto pairando,

Nem pequenino passaro burlavam

Da setta alada o infallivel tiro.

Fraldão tecido de encarnadas pennas,

Matizadas d’azul, que a arára imita,

A cintura lhe cinge. Do pescoço

Cahe o collar de dentes arrancados

Por suas mãos das boccas dos vencidos,

E tão amplo lhe cabe que o peito cobre.

Larga, escamosa, verdenegra pelle

De enorme jacaré, qu’elle matára,

As espadoas lhe veste. Tem na dextra

Uma de dentes de onça acha embutida,

Que de serra lhe serve e mortal arma.

C’roa-lhe a fronte um resplandor de pennas

Da côr do fulvo sol: obra apurada

De Iguassú, que lh’a dêo de amor em prenda,

Iguassú sua amante, e qu’elle espera

Tomar, finda esta guerra, por esposa.

Nem ao lado lhe falta grossa aljava,

Nem o arco robusto, que dous homens

Como nós a vergal-o suariam,

E em suas mãos porém facil se curva.

O ancião Pindobuçú de nobre aspecto

Sua taba conduz: elle se cobre

De negras plumas, que a tristeza exprimem

Pela morte do filho, qu’inda chora.

Parabuçú, de porte agigantado,

De pennas não se cobre; moço ainda

Quer espanto causar co’o horrido aspecto

Da figura: manchada, oncina pelle

Desde a cabeça, que no largo espaço

Das abertas mandibulas se enfia,

Até ao chão se estende: enorme casco

De tatú lhe defende o peito e o ventre;

De escudo outro lhe serve. Elle sobraça

A terrivel inúbia, que assignala 3

A hora da investida e retirada.

Tão medonho trajar mais lhe realça

O corpo colossal e musculoso.

Pindobuçú, seu pai, que muito o ama,

N’elle de Comorim tem viva a imagem,

E nelle cifra o orgulho dos seus annos.

O altivo Jagoanharo, que alimenta

No grande coração nobre desejo

De vingar dos parentes o opprobrio,

Jagoanharo não falta a esta empreza;

Que no peito lhe ferve o amor da guerra,

E na mente um fulgor de arguto engenho.

A par d’elle Araray, seu pai, se encosta

Sobre um feixe ligado de arco e flechas,

Com triste aspecto, e sobresenho horrivel.

De sua fronte as rugas denotavam

Um profundo pezar; a bocca firme

Por um riso feroz tremia ás vezes.

Fixos os olhos rubros rutilavam:

Ressumbrava em seu rosto o horror do inferno,

Amor ardente de vingar insultos,

E a dôr de ir combater irmão e amigos.

Era Araray irmão do convertido

Chefe Tibiriçá, á fé chamado,

P’ra ser nestes sertões seu firme apoio:

Tibiriçá, que as armas empunhando

Dos Lusos em favor, em São-Vicente

Seu proprio irmão e amigos aguardava.

Jagoanharo e Araray ambos aos hombros

Tem de tamanduás rajadas pelles.

Elles conduzem a guerreira tribu,

Tão agil e amestrada que se engrimpa

Pelas mais broncas, ingremes montanhas,

E vence na carreira a veloz ema.

Outros chefes iguaes, de quem a historia

Os nomes occultou, os campos enchem

Co’as emplumadas hostes sagittarias.

E tu, Coaquira, em cuja fronte ondeam

As cans da longa idade; e em cuja mente,

Dada ás cousas divinas, arde o fogo

Da inspirada poesia; tu que escutas

Os trovões de Tupan, e os interpretas;

Tu que das serpes o veneno anihilas,

Que das plantas conheces as virtudes,

Mostrado és tu aqui como um amigo

Dos homens e do céo; por tua bocca

Suas ordens supremas se revelam

Nunca té-li os homens destas plagas

Armas tomaram para igual empreza;

Nunca tantas familias se ligaram,

Tantos guerreiros em commum se uniram.

Grande é a empreza, duvidosa a sorte.

Segundo a usança em decisivos casos,

Um concilio propõe o ancião Coaquira,

Em que o plano da guerra se debata,

E o certo meio da victoria se ache.

Approvam todos o dizer do velho,

E inúbias soam, convocando os chefes,

Que em circulo se formam, começando

Desde Coaquira, que mais sóes contava,

Té o mais moço descendendo em annos.

Todos armados como em guerra estavam,

Que inseparaveis são das feras armas

Os barbaros: taes foram sempre os Francos,

Taes dos desertos d’Asia os cavalleiros,

Os Tartaros, que até montados iam

Em seus corceis ao Curultai armados, 4

Para as leis discutir de paz e guerra.

Rompe o silencio o joven Jagoanharo,

Que entre elles soem fallar primeiro os moços,

Em quem mais luz o engenho e o enthusiasmo,

Para depois se ouvir com mais proveito

Frios conselhos dos cabaes em annos.

Ufano por ser esta a vez primeira

Que tem de discorrer em grave assumpto,

Ar decisivo Jagoanharo ostenta:

« Vede esta pelle, que me cobre os hombros;

É de um tamanduá, animal fraco,

Que não ousa atacar, mas que manhoso

Deitado espera o aggressor incauto,

E abraçando-o lhe crava as curvas garras.

Quereis vós imital-o na fraqueza?

Humildes receber novos insultos?

Esperar e luctar como cobardes,

Que jamais se apresentam flecha á flecha,

E com meios de industria só combatem? »

Disse: e com ar altivo olhou em torno,

E na terra cravou a ponta do arco.

De alegria signaes os moços deram,

E seu pai Araray, um pouco alçando

A tenebrosa fronte, parecia

Mais serenado da profunda magoa;

Fugaz sorriso lhe roçou os labios;

Tanto digno de si seu filho achára,

No porte egregio, e no dizer soberbo.

Nenhum joven fallar ousou diverso:

Visos de impaciencia os velhos davam,

Signaes de opposta ideia, receiosos

Que os moços desta vez prevalecessem.

O terrível Aimbire percebia

Dos velhos o receio bem fundado;

E querendo accender n’elles a audacia,

E o furor roborar da juventude,

Começou a fallar d’esta maneira:

« Tupan lá do alto céo me escuta agora;

Elle vio o qu’eu vi, caso inaudito,

E de horror levantou ante seu rosto

Uma montanha enorme de átras nuvens,

Para a seus olhos esconder taes scenas.

Que tenho eu visto, e que soffrido tenho!

De vós, oh moços, o vigor conservo;

De vós, oh anciãos, tenho a experiencia

Colhida á custa de arduos sacrificios.

Porém mais que vós todos reunidos

Segredos aprendi de estranhas gentes:

Com ellas batalhei co’a setta e o raio,

E hoje o mysterio de Tupan conheço!

Tupan que se apresente, então veremos

Qual de nós dous melhor dispara o raio.

Eis o meu, não o escondo! » Isto dizendo

Tira do cinto uma pistola armada,

O braço estende, e para o céo dispara;

E a bala foi ferir uma ave negra,

Que no espaço mil gyros descrevendo,

Cahir veio a seus pés inda guinchando,

Quentes gottas de sangue sacudindo

Sobre a assombrada turma estupefacta.

Alvorota-se o campo; e quantos ouvem

O inopinado estrondo p’ra alli correm,

E em torno do concilio se amontoam,

Tendo todos os olhos sobre Aimbire.

Elle, immovel, co’o braço inda estendido,

Com ar vanglorioso a arma empunha

Porque do seu poder não se duvide.

Ninguem ousa fallar, até que Aimbire,

No cinto a arma guardando, assim prosegue:

« Inda a alma de meu pai, como um colibri

Em fria noite no seu ninho occulto,

Além não tinha das azues montanhas

Descido aos campos de eternaes deleites, 5

Quando o mar arrojou em nossas praias

Homens de branca pelle e longas barbas,

Que posto filhos d’agua parecessem,

Fogo traidor os perfidos traziam.

Nós innocentes, do prodigio absortos,

Incautos, não prevendo o mal futuro,

Nossas plumas lhes demos, nossos fructos,

Nossas redes, e até arcos e flechas.

Como pagaram elles taes favores?

Bem depressa senhores se fizeram;

Em nossos bosques foram-se estendendo

Sempre de fogo contra nós armados.

Suas victimas fomos, seus escravos!

Nossas mãos dos sertões levaram troncos,

Ergueram seus casaes; e até por elles

Mil vezes contra os nossos combateram!

Oh dura ingratidão! Morrer por elles,

Sermos em nossa terra seus escravos,

E em troco só affrontas recebermos!

Oh dura ingratidão! O Aimoré fero,

Que d’agua tem horror, e sangue bebe;

O Aimoré, que co’o tigre rivalisa,

E a quem só praz a guerra e o sangue nosso,

Tanto horror, tanta infamia não pratica.

O Aimoré tem a côr dos Emboabas!

Eu mesmo lhes servi na flôr da vida,

Minhas mãos calejei, mandando a flecha

Seu sustento buscar no ar, nos bosques.

Meu pai morreo sem honras de guerreiro,

Sem funeral. Eu mesmo abri-lhe a cova

No logar em que ao sol se elle aquecia,

Quando o duro senhor folgas lhe dava.

P’ra não deixar sózinho o triste velho,

Com elle supportei o captiveiro.

Morreo meu pai, e eu livre abri caminho

Pelo sertão, em busca das cabanas

Dos meus antepassados, resoluto

A vingar de meu pai a morte infame.

« Sem chefe os meus dispersos vagueavam:

Soou entre elles: – É chegado Aimbire!

E a milhares de bravos vi-me unido.

Contei-lhes tudo; e attentos e chorosos,

Ouvindo de meu pai o triste caso,

Todos quizeram ir buscar seus ossos,

E o sangue derramar do seu tyranno

Sobre o tumulo seu. Porém meu odio

Não se fartava com tão pouco sangue.

Eu queria vingar a minha terra,

E os restos de meu pai, e a mim, e a todos.

Queria de uma vez limpar p’ra sempre

Nossas florestas dessa raça espuria.

Não me faltava a audacia, mas a empreza,

Tão grande, superava ás nossas forças.

Que devia eu fazer? Minha vingança

Delongas não soffria… Nesse tempo

No Guanabara estava, n’um rochedo 6

A raça branca de cabellos louros,

E de olhos côr do céo, tão nossa amiga,

Para a entrada impedir d’essa outra raça

De olhos, e barbas, e cabellos negros.

Em canôas metti-me, e os meus guerreiros,

E fui-lhe offerecer os nossos braços.

Como amigo o seu chefe recebeo-me;

Chamou-me seu irmão; e nesse instante

Dêo-me uma arma, que fogo de si lança,

E o segredo do raio revelou-me.

E o que cuidais, oh chefes? que este raio

Sempre está prompto? Não: quando lhe falta

Este pó negro, polvora chamado,

Que o fogo accende, e como o raio estronda,

Esta arma inutil fica. (E assim dizendo,

Vai mostrando o que diz). Mas nós podemos

As aljavas pejar de novas settas.

Fabricadas por nós, em quanto o matto

Duras cannas brotar, e as aves pennas:

Porém quando faltar este pó negro,

Que só alguns d’entre elles fazer sabem

Com muito tempo e custo, sem defeza

Nossos tyrannos ficarão vencidos.

Podeis marchar contra elles arrojados:

Os seus trovões não são Tupaçunangas,

Nem os seus raios são Tupaberabas. 7

« Guerreiros, ante vós tendes Aimbire,

Que taes cousas conhece, e que não teme

O fogo e o raio de traidoras armas.

Aimbire vio de fogo o atroz combate,

E sem temor c’o a setta combatia

Contra os homens de fogo; e mais certeiro

Por entre o fumo a morte dardejava,

Em quanto cegos outros nada viam.

Valem mais nossas flechas que os seus raios.

« Guerreiros, escutai. Lá do rochedo

Que banha o Guanabara, onde abrigada

Estava a raça de celestes olhos,

Eu vi… como direi?… vi, não qual vemos

Co’os olhos descobertos; nada eu via,

Mas fizeram-me ver, oh que prodigio!

Ao travez d’um canudo, que apontado

Sobre as longinquas, invisiveis cousas,

As põe tão perto e tanto as engrandece,

Que cuidamos poder co’a mão tocal-as:

Por este modo eu vi na linha ao longe,

Onde se abaixa o céo e o mar se perde,

Uns vultos como passaros boiantes

De peito escuro, e longas, brancas azas.

– São portuguezas náos – gritaram todos:

Lá tremóla a bandeira portugueza!

Temos hoje combate. Ellas que venham,

Que não hão de voltar co’o mesmo vento.

E todos p’ra o combate se aprestavam.

« Entretanto as canôas monstruosas,

Cujas azas os ventos enfunavam,

P’ra nós se aproximavam, e nós todos

O combate esperavamos contentes.

« Era o tempo em que o sol abrasa tudo,

Em que as seccas florestas se incendiam,

E se extinguem as aguas das torrentes.

« Tendes ouvido como a serra ás vezes

Roncos medonhos solta do seu seio?

Como convulsos os penedos saltam

Do seu cume, e rolando se abalroam,

Troncos quebrando na arrojada queda?

Assim, oh chefes, foi o atroz combatte!

« De ambos os lados raios sobre raios

Disparados, no ar se emmaranhavam;

Trovões sobre trovões tão repetidos

Ribombavam, que o mar todo tremia,

E erriçado em montanhas se elevava

Sobre o penedo, em colera bramando:

Tremia o céo, de fumo só coberto!

E o echo horrendo d’estes duros montes,

Que ia medonho ao longe resoando,

Era igual ao estridor da trovoada.

« Qual de vós não dissera que esses homens,

Que tanto estrondo e horror alli causavam,

Eram filhos do céo, ou do sol filhos,

Outros tantos Tupans que guerreavam!

E eu os via cahir feitos pedaços!

« Que estrago! oh que não sei como vos conte!

Nunca vi tanto sangue derramado!

Todo o rochedo em sangue se inundava,

Mil regatos de sangue ao mar corriam;

E o mar vermelho estava! – Entre cadav’res,

Braços, pernas, cabeças mutiladas,

Tropeçavam os vivos!… Sobre as aguas

Muitos dos inimigos já feridos

Luctavam p’ra subir sobre as canôas,

Aos remos se agarravam, e uns e outros

Seguros mutua guerra se faziam.

Que confusão! que horror! que gritaria!

Tudo era fogo e fumo, e sangue e raiva !

« Uma chuva de ardentes, grossas balas,

Entre fuzis e turbilhões de fumo,

Do mar erguida, sobre nós cahindo,

As fileiras rompeo dos meus guerreiros;

Muitos corpos rolaram sem cabeças,

Muitos braços voaram pelos ares.

Cuidei alli ficar vivo enterrado

Entre montões de mortos e feridos.

« Duas vezes o sol surgio dos montes,

E com gritos de guerra foi saudado;

Duas vezes nas aguas mergulhou-se,

E incertos nos deixou no atroz conflicto,

Só sangue, e fumo, e fogo respirando.

Appareceo em fim o sol terceiro,

E já sobre o rochedo os Portuguezes

Braço a braço o terreno disputavam.

Ah quão feros são elles! Só Tamoyos

Em copia igual vencel-os poderiam.

« Qual foi o meu espanto ao ver com elles

Tupís e Carijós de setta armados,

E o bravo Cayoby á sua frente!

Cayoby! Cayoby! quem tal diria?

Então cego de colera investi-os,

E a morte semeei sobre essa raça,

Que deshonrava assim nossas florestas.

Minhas flechas além já se perdiam,

Tão perto elles estavam: dando um pulo,

Que a onça me invejára, puz-me entre elles,

E mais veloz que a onça abri caminbo

Co’uma pesada maça, derrubando

Quantos se me antepunham: n’um momento

Junquei o chão de mortos e feridos.

Não sei quantos cahiram. Já fugiam,

Quando Tibiriçá, vestido e armado

Á maneira do barbaro inimigo,

E dos nossos irmãos sangue escorrendo,

Oh vergonha e horror! se apresentou-me,

Chamando por meu nome e o seu dizendo!

Só por essa arrogancia conheci-o,

Tão estranho e hediondo se mostrava!

– Oh perfido, bradei, do imigo as vestes

Não te cobrem da infamia ! – Ia matal-o;

Oh desesperação!… Que não morresse!

Eis que uma grossa bala arrebatou-me

A maça, que esta mão tanto apertava,

Que um subito tremor tolheo-me o braço,

O corpo vacillou, o pé faltou-me,

E n’um lago de sangue revolvi-me.

« Ergui-me, mas fui preso; e como chefe

Não me fizeram mal, talvez cuidando

Qu’inda eu os serviria: e me levaram

Para uma das canôas monstruosas,

Onde depois entrou victorioso

Mem de Sá, cuja voz tudo ordenava.

« De longe eu vi a ensanguentada rocha,

Que testemunha fôra de meu brio,

E já nenhum dos meus a defendia,

Nem os amigos brancos, que invenciveis

Em seus muros de pedra se julgavam.

E eu chorei vendo-a assim, vendo-me preso.

Apezar da victoria, os Portuguezes

Da lucta porfiosa afadigados,

E irritados co’o sol, que os abrasava,

Repouso procuravam. Veio a noite,

E exceptuando alguns que vigiavam,

De um lado e d’outro armados passeando,

Os mais dormiam. Eu deitado estava,

Co’as mãos atadas para traz com cordas,

E olhando para o mar. Mais do que o corpo

Pesava-me a cabeça. Eu não podia

Por mais que me voltasse achar repouso.

Lavado de suor, tinto de sangue,

Furioso por me ver entre inimigos,

Sem saber qual seria o meu destino,

Resolvi-me a morrer, ou a salvar-me.

O guarda, que a meu lado passeava,

Parecia do somno ameaçado;

Bocejava a miudo, e a cada passo

Olhava para mim, como si eu fosse

Quem vigilante o somno lhe impedisse.

Não movi-me; e elle logo se encostando

N’um grosso tronco, que o trovão vomita,

Depressa adormeceo. De leve ergui-me;

Facil foi-me o passar p’ra adiante os braços,

E os fortes laços desatar co’os dentes.

Tomei-lhe esta arma, que a seu lado estava;

Já quasi acordando, ao mar lancei-o;

E eu após, p’ra evitar maior ruído,

Descí por uma corda, cahi n’agua,

E nadei p’ra o rochedo mais visinho.

Fui visto, e inuteis raios dispararam

Contra mim. No rochedo descançando,

De novo pelo mar abri caminho;

De rochedo em rochedo, e já sem forças,

Quando do mar o sol se levantava,

Tambem sahi do mar, e tomei terra.

« Como me achei então? Sem arco e flechas,

Devorado de fome e somnolento,

A meu pezar dormi. Ao despertar-me;

Lembrei-me do passado, e que não ’stava

Salvo de todo. Ergui-me, e caminhando

De fructos da floresta alimentei-me.

E logo quiz Tupan qu’eu me encontrasse

Com alguns escapados do rochedo,

Francezes e Tamoyos. Uns e outros

Com pasmo me abraçaram, perguntando

Como o perigo e o mar tinha eu vencido.

Contei-lhes tudo; e como esta arma inutil

Eu trazia no cinto, um dos Francezes

Da polvora que tinha um chifre dêo-me.

« Alli guerra jurámos, guerra eterna

A esses por quem nós tanto soffremos

Sobre o mar, sobre a terra: sangue, sangue,

Guerra, guerra, as florestas repetiram!

De paz não mais se falle ! Guerra, guerra,

Commigo repeti, bravos Tamoyos!

Não ouvis os clamores de vingança

De nossos pais e irmãos qu’elles mataram?

Não ouvis que esta terra está pedindo

Que a livremos dos pés dos Portuguezes?

Quereis que um dia nossos filhos digam:

– Nossos pais foram vis, cobardes foram,

Defender não souberam nossas tabas,

Opprobrio e escravidão delles herdamos!? –

Não, não; tal não dirão: antes primeiro

Morramos todos nós; sim, antes morram

Velhos, moços, crianças e mulheres,

E os filhos qu’inda as mãis no ventre aquecem:

Todos morramos, sim, porém mostremos

Que sabemos morrer como Tamoyos,

Defendendo o que é nosso e a liberdade,

Que antepomos a tudo, e á propria vida.

« Eia, Tamoyos meus, antes que as aves

Amanhã se levantem de seus ninhos,

Nós devemos marchar; e ao mesmo tempo

Do inimigo arredar cautos tentemos

O opoio mais terrivel. Jagoanharo

Vá ver Tibiriçá; vá declarar-lhe

Que Araray seu irmão, a nós unido,

Em nome de seu pai lhe diz e pede

Que elle não deixe os seus pelos estranhos.

Que a terra e a liberdade nos roubaram.

Vai, Jagoanharo, vai: dize a teu tio

Que se arrependa, e venha honrar os ossos

Da mãi, que tanto o amava, e que chorára

Si o vira contra o irmão entre o inimigo:

Si a tão caras memorias e ao sobrinho

Tibiriçá resiste, Jagoanharo,

Dize-lhe emfim que nós nada tememos;

Que te mandámos lá por amor delle,

Por amor de Araray, não por fraqueza;

Que p’ra cobrir o mar temos canôas

Tantas, que vendo-as tremerá de espanto;

E tantos homens temos bem armados

Que podemos encher todo o seu campo,

E o ar escurecer co’as nossas flechas,

Como uma cerração pesada e negra. »

Calou-se e respirou, vibrando os olhos,

Que dous carvões accesos pareciam:

E todos com mil gritos applaudiram

Tão sabio parecer, tão grandes feitos

Do chefe sem igual, do heroe Tamoyo.

Em signal de alegria dispararam

Mil settas para o ar; e vozeando,

Os sons interrompiam n'um trinado,

Sobre as boccas batendo co’as mãos ambas.

Nem mais aos anciãos ouvir quizeram;

Nem elles em contrario votos tinham.

Coaquira, o mais idoso, era o primeiro

Que plena approvação a tudo dava.

Qual nas plagas felizes do Janeiro,

Por entre os corucheos das serranias,

Quando ás vezes o sol mais resplandece,

E os passarinhos ledos esvoaçam,

Se eleva o furacão inesperado,

Que vai comsigo arripiando as nuvens,

E esbarra contra os pincaros, bramando

Co’o medonho estridor da trovoada;

Tal foi a vozeria dos Tamoyos,

Quando Aimbire poz termo ao seu discurso.

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