Capítulo 4 Meu Captiveiro entre os Selvagens do Brasil · Capítulo 4 de 53
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Capítulo 4

C

APITULO IV

De como eram as fortificações e de

como os Indios combatiam

A praça de Iguarassú era defendida apenas pela estacada de madeira circumdante. Para além desta defesa começava a floresta, onde os indigenas revoltados tinham construido dois reductos, feitos de grossos troncos; atraz delles se retiravam á noite, ou quando atacados.

Ao pé destes reductos haviam aberto trincheiras, dentro das quaes ficavam de dia, só sahindo para guerrilhar comnosco.

Quando atiravamos contra elles, deitavam-se todos, julgando assim livrarem-se das balas.

Os indios nos cercavam de todos os lados, de modo que ninguem podia entrar ou sahir da estacada sem ser flechado. Seu modo de guerra consistia em approximarem-se e lançar settas para cima, de modo que ao cahirem nos apanhassem pela cabeça e hombros. Tambem usavam flechas incendia

rias, preparadas com algodão embebido em cêra, que accendiam e lançavam sobre nossos tectos. E tanta certeza tinham da victoria, que já combinavam o modo de nos devorar a todos.

O sitio já durava uns dias, e como nos escasseasem provisões, sendo-nos impossivel arrancar mandioca nas roças vizinhas, todas em poder dos sitiantes, foi resolvido que sahissemos em dois barcos para Itamaracá afim de buscal-as.

Partimos, e encontramos o rio atravancado de grandes arvores derrubadas pelos selvagens. Comtudo, forçamos a passagem.

Vendo os sitiantes que por aquelle processo não podiam deter as embarcações, forcejavam por incendial-as com lenha accesa lançada entre os botes e a margem; depois deitaram ao fogo certas hervas e muita pimenta, para asphyxiar-nos com a fumaça.

Nada conseguiram porque a lenha não ardia a contento, e como durante os trabalhos crescesse a maré, pudemos com facilidade seguir para Itamaracá.

Alli nos provemos de tudo quanto era necessario e nos fizemos de volta.

Ao approximarmo-nos da colonia vimos que os sitiantes não tinham desistido da idéa de nos inter

ceptar o caminho. Novas arvores foram lançadas ao braço de mar e duas dellas, que cresciam á beira d'agua, estavam cortadas pelo pé e mantidas a prumo por meio de cipós, cujas pontas iam ter aos seus reductos. A intenção delles era deixal-as cahir sobre os botes, quando lhes passassemos ao alcance.

Apesar disso forçamos outra vez o passo; uma

das arvores cahiu para o lado delles e outra sobre a agua, um pouco atráz dos nossos barcos.

Depois tratamos de romper por entre a tranqueira de arvores que barravam as aguas, e, precisando para isso de auxilio, chamamos a altos brados nossos companheiros da colonia, a qual ficava perto, embora occulta por um capão de matto.

Os selvagens fizeram então uma grande atroada, de modo que nossos gritos se confundissem com os seus e não pudessem ser ouvidos da colonia.

Foi exactamente o que succedeu ; mas mesmo sem o soccorro pedido conseguimos varar a barreira e penetrar com as provisões de Itamaracá na estacada de Iguarassú.

Vendo isto, os selvagens desanimaram e pediram paz, retirando-se em seguida, após quasi um mez de cêrco.

Quando vimos tudo normalizado, deixamos a colonia, de regresso á nossa nau. Em Olinda tomámos agua, carregámos com farinha de mandioca e, depois de receber os agradecimentos do commandante Duarte Coelho, levantámos ferro.

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