Capítulo III A Relíquia · Capítulo 4 de 6
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Capítulo III

Havia certamente duas horas que assim dormia, denso e estirado no catre, quando me pareceu que uma claridade trêmula, como a de uma tocha fumegante, penetrava na tenda--e através de ela uma voz me chamava, lamentosa e dolente:

--Teodorico, Teodorico, ergue-te, e parte para Jerusalem!

Arrojei a manta, assustado:--e vi o doutissimo Topsius, que, á luz mortal de uma vela, bruxoleando sobre a mesa onde jaziam as garrafas de Champagne, afivelava no pé rapidamente uma velha espora de ferro. Era ele que me despertava, açodado, fervoroso:

--A pé, Teodorico, a pé! As egoas estão seladas! Amanhã é Paschoa! Ao alvorecer devemos chegar ás portas de Jerusalem!

Arredando os cabelos, considerei com pasmo o sisudo, ponderado Doutor:

--Oh Topsius! Pois nós partimos assim, bruscamente, sem os nossos alforges, e deixando as tendas adormecidas, como quem foge espavorido?

O erudito homem alçou os seus óculos de ouro que resplandeciam com uma desusada, irresistivel intelectualidade. Uma capa branca, que eu nunca lhe vira, envolvia-lhe a douta magreza em prégas graves e puras de toga latina: e lento, esguio, abrindo os braços, disse, com lábios que pareciam clássicos e de mármore:

--D. Raposo! Esta aurora que vai nascer, e em pouco tocar os cimos do Hebron, é a de 15 do mez de Nizam; e não houve em toda a historia de Israel, desde que as tribus voltaram de Babylonia, nem haverá, até que Tito venha pôr o último cêrco ao Templo, um dia mais interessante! Eu preciso estar em Jerusalem para vêr, viva e rumorejando, esta pagina do Evangelho! Vamos pois fazer a santa Paschoa a casa de Gamaliel, que é um amigo de Hillel, e um amigo meu, um conhecedor das letras gregas, patriota forte e membro do Sanhedrin. Foi ele que disse: «para te livrares do tormento da dúvida, impõe-te uma autoridade.» Portanto, a pé, D. Raposo!

Assim murmurou o meu amigo, erecto e lento. E eu, submissamente, como perante um mandamento celeste, comecei a enfiar em silencio as minhas grossas botas de montar. Depois, apenas me agasalhei no albornoz, ele empurrou-me com impaciência para fora da tenda--sem mesmo me deixar recolher o relógio e a faca sevilhana, que todas as noites, cauteloso, eu guardava debaixo do travesseiro. A luz da vela esmorecia, fumarenta e vermelha...

Devia ser meia noite. Dois cães ladravam ao longe, surdamente, como entre frondosos muros de quintas. O ar macio e ermo cheirava a rosas de vergel e á flôr da laranjeira. O céu de Israel faiscava com desacostumado esplendor: e em cima do monte Nebo, um belo astro mais branco, de uma refulgencia divina, olhava para mim, palpitando anciosamente, como se procurasse, cativo na sua mudez, dizer um segredo á minha alma!

As egoas esperavam, imóveis sob as longas clinas. Montei. E então, enquanto Topsius arranjava laboriosamente os loros, avistei para os lados da fonte de Elyseo--uma fórma maravilhosa que me arripiou de terror transcendente.

Era, ao clarão diamantino das estrelas da Syria, como a branca muralha de uma cidade nova! Frontões de templos alvejavam palidamente entre a espessura de bosques sagrados; para as colinas distantes fugiam esbatidos os arcos ligeiros de um aqueduto. Uma chama fumegava no alto de uma torre; mais baixo, movendo-se, faiscavam pontas de lanças; um som longo de bozina morria na sombra... E abrigada junto aos bastiões uma aldêa dormia entre palmeiras.

Topsius, na sela, pronto a marchar, embrulhara a mão nas clinas da egoa.

--Aquilo, branco, além? murmurei, sufocado.

Ele disse simplesmente:

--Jericó.

Rompeu, galopando. Não sei quanto tempo segui, emudecido, o nobre historiador dos Herodos: era por uma estrada direita, feita de lages negras de basalto. Ah! que diferente do áspero caminho por onde tinhamos descido a Canaan, faiscante e cor de cal, através de colinas onde o tojo escasso semelhava, na irradiação da luz, um bolor de velhice e de abandono! E tudo em redor me parecia diferente também, a fórma das rochas, o cheiro da terra quente, até a palpitação das estrelas... Que mudança se fizera em mim, que mudança se fizera no Universo? Por vezes uma faísca dura saltava das ferraduras das egoas. E sem descontinuar Topsius galopava, agarrado ás clinas, com as duas bandas da capa branca batendo como os dois panos de uma bandeira...

Mas subitamente parou. Era junto de uma casa quadrada, entre árvores, toda apagada e muda, tendo no tôpo uma haste sobre que pousava estranhamente, como recortada em uma lamina de ferro, a figura de uma cegonha. Á entrada esmorecia uma fogueira: remexi as achas: e á curta chama que resaltou compreendi que era uma antiga estalagem á beira de uma antiga estrada. Por baixo da cegonha, encimando a porta estreita e erriçada de pregos, brilhava em negro, em uma lapide branca, a taboleta latina--Ad Gruem Majorem: e ao lado, enchendo parte da fachada, desenrolava-se uma inscripção rudemente entalhada na pedra, que eu decifrei a custo, e em que Apolo prometia a saúde ao hospede, e Septimanus, o hospedeiro, lhe garantia risonha acolhida, o banho reparador, vinho forte da Campania, frescos palhetes de Engaddi, e «todas as comodidades á maneira de Roma.»

Murmurei, desconfiado:

--Á maneira de Roma!

Que estranhos caminhos ia eu então trilhando? Que outros homens, dissemelhantes de mim, no falar e no traje, bebiam ali, sob a proteção de outros deuses, o vinho em amphoras do tempo de Horacio?...

Mas de novo Topsius marchou, esguio e vago na noite. Agora findara a estrada de basalto sonoro: e subiamos a passo um brusco caminho, cavado entre rochas, onde grossos pedregulhos resoavam, rolavam sob as patas das egoas, como no leito de uma torrente que um lento Agosto secou. O erudito Doutor, sacudido na sela, praguejava roucamente contra o Sanhedrin, contra a hirta Lei judaica, oposta indobravelmente a toda a obra culta que quer fazer o Proconsul... Sempre o Fariseu via com rancor o aqueduto romano que lhe trazia a água, a estrada romana que o levava ás cidades, a terma romana que lhe curava as pústulas...

--Maldito seja o Fariseu!

Somnolento, rememorando velhas imprecações do Evangelho, eu rosnava, encolhido no meu albornoz:

--Fariseu, sepulchro caiado... Maldito seja!

Era a hora calada em que os lobos dos montes vão beber. Cerrei os olhos; as estrelas desmaiavam.

Breves faz o Senhor as noites macias do mez de Nizam, quando se come em Jerusalem o anho branco de Paschoa: e bem cedo o céo se vestiu de alvo do lado do paiz de Moab.

Despertei. Já os gados balavam nos cerros. O ar fresco cheirava a rosmaninho.

E então avistei, errando por cima dos penedos sobranceiros ao caminho, um homem estranho, bravio, coberto com uma pele de carneiro, que me recordou Elias e todas as cóleras da Escritura; o peito, as pernas pareciam de granito vermelho; por entre a grenha e a barba, rudes, emaranhadas, fazendo-lhe como uma juba feroz, os olhos refulgiam-lhe desvairadamente... Descobriu-nos; e logo, sacudindo os braços como quem arremessa pedras, despediu sobre nós todas as maldições do Senhor! Chamou-nos «pagãos», chamou-nos «cães»: gritava «malditas sejam as vossas mães, secos sejam os peitos que vos crearam!» Crueis e cheios de preságios cahiam os seus brados do alto das rochas: e, retardado pelos passos lentos da egoa, Topsius encolhia-se na capa como sob uma saraiva inclemente. Até que me enfureci; voltei-me na anca da cavalgadura, chamei-lhe bêbedo, atirei-lhe obscenidades; e via no emtanto, sob a chama selvagem dos seus olhos, a boca clamorosa e negra torcer-se-lhe, babar-se de furor devoto...

Mas, desembocando da ravina, encontrámos, larga e lageada, a estrada romana que vai a Sichem: e trotando por ela, sentiamos o alivio de penetrar emfim em uma região culta, piedosa, humana e legal. A água abundava: sobre as colinas erguiam-se fortalezas novas: pedras sagradas delimitavam os campos. Nas eiras brancas, os bois enfeitados de anemonas pisavam o trigo da colheita de Paschoa; e em vergeis onde a figueira já tinha enfolhado, o servo na sua torre caiada, cantando com uma vara na mão, afugentava os pombos bravos. Por vezes avistavamos um homem, de pé, junto da sua vinha, ou á beira dos canais de rega, direito, com a ponta do manto atirada por cima da cabeça, e os olhos baixos, dizendo a santa oração do Schema. Um oleiro, que espicaçava o seu burro, carregado de cântaros de barro amarelo, gritou-nos: «Bemditas sejam as vossas mães, boa vos seja a Paschoa!» E um leproso, que descançava á sombra, nos olivedos, perguntou-nos, gemendo e mostrando as chagas, qual era em Jerusalem o Rabbi que curava, e aonde se apanhava a raiz do baraz.

Já nos aproximavamos de Betânia. Para dar de beber ás egoas páramos em uma linda fonte que um cedro assombreava. E o douto Topsius, arranjando um loro, admirava-se de não termos encontrado a caravana que vem de Galilêa celebrar a Paschoa a Jerusalem--quando soou, adiante, na estrada, um rumor lento de armas em marcha... E eu vi, assombrado, aparecerem soldados romanos, de esses que tantas vezes amaldiçoara em estampas da Paixão!

Barbudos, tostados pelo sol da Syria, marchavam solidamente, em cadencia, com um passo bovino, fazendo resoar sobre as lages as sandálias ferradas: todos traziam ás costas os escudos envoltos em sacos de lona: e cada um erguia ao hombro uma alta forquilha, de onde pendiam trouxas encordelada, pratos de bronze, ferramentas e cachos de tâmaras. Algumas filas, descobertas, seguravam o capacete como um balde: outras, nas mãos cabeludas balançavam um dardo curto. O Decurião gordo e loiro, seguido de uma gazela familiar, enfeitada com corais, dormitava, ao passo miúdo da egoa, embrulhado em um manto escarlate. E atraz, ao lado das mulas carregadas de sacos de trigo e molhos de lenha, os arrieiros cantavam ao som de uma flauta de barro, tocada por um negro quase nú que tinha no peito, em traços vermelhos, o numero da Legião.

Eu recuara para o escuro do cedro. Mas Topsius, logo, como um Germano servil, desmontara, ajoelhando quase no pó, ante as Armas de Roma: e não se conteve, berrou, agitando os braços e a capa:

--Longa vida a Caio Tibério, três vezes Consul, Illyrico, Panonico, Germanico, Imperador, Pacificador e Augusto!...

Alguns legionários riram, crassamente. E passaram, cerrados, com um rumor do ferro--enquanto um pegureiro, ao longe, arrebanhando as cabras aos brados, fugia para o cimo dos cêrros.

De novo galopámos. A estrada de basalto findou; e penetrámos entre arvoredos, em um aroma de pomares, através de abundancia e frescura.

Oh, que diferentes se mostravam estes caminhos, estas colinas, que eu vira dias antes, em torno á Cidade Santa, deseccadas por um vento de abstracção, e brancas, da cor das ossadas... Agora tudo era verde, regado, murmuroso, e com sombras. A mesma luz perdera o tom magoado, a cor dorida, com que eu sempre a vira, cobrindo Jerusalem: as folhas dos ramos de abril desabrochavam em um azul, moço, tenro, cheio de esperança como elas. E a cada instante se me iam os olhos longamente em esses vergeis da Escritura, que são feitos da oliveira, da figueira e da vinha, e onde crescem silvestres, e mais esplendidos que o rei Salomão, os lírios vermelhos dos campos!

Enlevado e cantarolando, eu trotava ao comprido de uma sebe toda entrelaçada de rosas. Mas Topsius deteve-me, mostrou-me no alto de um outeiro, sobre um fundo sombrio de ciprestes e cedros, uma casa abrindo para o lado do oriente e da luz o seu pórtico branco. Pertencia, disse ele, a um romano, parente de Valerius Gratus, antigo Legado imperial da Syria: e tudo ali parecia penetrado de paz amável e de graça latina. Um tapete viçoso de relva bem lisa estendia-se em declive até a uma aléa de alfazema, tendo ao meio, sobre o verde, desenhadas com linhas de flôres escarlates, as iniciais de Valerius Gratus: em redor, entre canteiros de rosas, de açucenas, orlados de mirto, resplandeciam nobres vasos de mármore carynthico, onde se enrolavam folhas de acanto: um servo, de capuz cinzento, talhava um teixo em fórma de urna, ao lado de um buxo alto já talhado sabiamente em feitio de lira; aves domesticas picavam o chão, coberto de área escarlate, em uma rua de plátanos onde os braços de hera faziam de tronco a tronco festões como os que ornam um templo: a rama dos loureiros velava de sombras a nudez das estatuas. E sob um caramanchão de vinha, ao rumor de água lenta cantando em uma bacia de bronze, um velho de toga, sereno, risonho, ditoso, lia junto a uma imagem de Esculapio um longo rôlo de papiro--enquanto uma rapariga, com uma flecha de ouro nas tranças, toda vestida de linho alvo, fazia uma grinalda com as flôres que lhe enchiam o regaço... Ao passo dos nossos cavalos ela ergueu os olhos claros. Topsius gritou--O, salvè, pulcherrima! Eu gritei--Viva la gracia! Os melros cantavam nas romanzeiras em flôr.

Mas adiante o facundo Topsius deteve-me ainda, apontando-me outra vivenda de campo, escura e severa entre ciprestes: e disse-me baixo que era de Osanias, um rico sadduceu de Jerusalem, da família pontifical de Boethos, e membro do Sanhedrin. Nenhum ornato pagão lhe profanava os muros. Quadrada, fechada, hirta, ela reproduzia a austeridade da Lei. Mas os largos celeiros, cobertos de colmo, os lagares, os vinhedos, diziam as riquezas feitas de duros tributos: no pátio dez escravos não bastavam a guardar os sacos de trigo, ôdres, carneiros marcados de vermelho, recolhidos em pagamento do dizimo em esse dia de Paschoa. Junto á estrada, com uma piedade ostentosa, caiada de fresco, reluzia, ao sol, entre roseiras, a sepultura domestica.

Assim caminhando chegámos aos palmares onde se aninha Betphagé. E por um atalho virente que Topsius conhecia, começámos a subir o Monte das Oliveiras, até o Lagar da Moabita--que é uma paragem de caravanas em essa infinita, vetusta Via Real que vem do Egypto, seguindo até Damasco a bem-regada.

E foi como um deslumbramento, ao encontrarmos sobre todo o Monte, por entre os olivedos da encosta até ao Cedron, por entre os pomares do Vale até Siloeh, em meio dos túmulos novos dos Sacrificadores, e mesmo para os lados onde se empoeira a estrada de Hebron--o despertar rumoroso de todo um povo acampado! Tendas negras do deserto, feitas de peles de carneiro e rodeadas de pedras: barracas de lona, da gente da Idumêa, alvejando ao sol entre as verduras; cabanas armadas com ramos, onde se abrigam os pastores de Ascalon; toldos de tapetes que os peregrinos de Nephtali suspendem em varas de cedro;--era toda a Judêa, ás portas de Jerusalem, a celebrar a Paschoa Sagrada! E havia ainda, em volta ao casal onde velava um posto de Legionarios, os mercadores gregos da Decapola, tecelões fenícios de Tiberiade, e a gente pagã que, através da Samaria, vem dos lados de Cesarêa e do mar.

Fomos marchando, lentos e cautelosos. Á sombra das oliveiras os camelôs descarregados ruminavam placidamente; e as egoas da Perea, com as patas entravadas, pendiam a cabeça sob a espessura das longas clinas. Junto ás tendas, cujos panos meio levantados nos deixavam entrevêr brilhos de armas penduradas ou o esmalte de um grande prato, raparigas, com os braços reluzindo de braceletes, pisavam entre duas pedras o grão do centeio; outras, mugiam as cabras; por toda a parte se acendiam fogos claros; e com os filhos pela mão, o cântaro esguio ao hombro, uma fila de mulheres descia cantando para a fonte de Siloeh.

As patas dos nossos cavalos prendiam-se nas cordas retesadas das barracas dos Idumeus. Depois estacavamos diante de tapetes alastrados, onde um mercador de Cesarêa, com um manto á carthagineza, vistoso e bordado de flôres, expunha peças de linho do Egypto, estendia sedas de Cós, fazia reluzir armas marchetadas; ou com um frasco na palma de cada mão, celebrava as perfeições do nardo da Assyria e dos óleos dôces da Parthia... Os homens em redor, arredando-se, demoravam em nós os seus olhos languidos e altivos; por vezes murmuravam uma injúria surda; ou por causa dos óculos do douto Topsius, um riso de escárnio mostrava dentes agudos de fera, entre rudes barbas negras.

Sob as árvores, encostados aos muros, filas de mendidos ganiam, mostrando o caco com que rapavam as chagas. Diante de uma cabana feita de ramos de loureiro, um velho obeso, rubro como um Sileno, apregoava o vinho fresco de Sichem, as favas novas de abril. Os homens fuscos do deserto apinhavam-se em torno dos gigos de fruta. Um pastor de Ascalon, em andas, no meio de um rebanho de cordeiros brancos, tocava bozina, chamando os devotos a comprar o anho puro da Paschoa. E por entre a multidão onde constantemente se erguiam paus, em rixas bruscas, soldados romanos rondavam aos pares com um ramo de oliveira no capacete, benignos e paternais.

Assim chegámos junto de dois altos, frondosos cedros,--tão cobertos de pombas brancas voando, que eram como duas grandes macieiras, na primavera, que um vento estivesse destoucando das flôres. Subitamente, Topsius parara, abria os braços; eu também: e com o coração suspenso ali ficámos imóveis, deslumbrados, vendo lá em baixo, na luz, resplandecer Jerusalem.

O sol banhava-a, sumptuosamente! Uma severa, altiva muralha, guarnecida de torres novas, com portas onde as cantarias se entremeavam de lavores de ouro, erguia-se sobre a ribanceira escarpada do Cedron, já seco pelos calores de Nizam, e ia correndo, cingindo Sião, para o lado do Hinnon e até aos cerros de Gareb. E, dentro, em face aos cedros que nos assombreavam, o Templo, sobre os seus alicerces eternos, parecia dominar toda a Judêa, soberbo em esplendor, murado de granitos polidos, armado de bastiões de mármore, como a refulgente cidadela de um Deus!...

Debruçado sobre as clinas, o sapiente Topsius apontava-me o adro primordial, chamado «o Pátio dos Gentilicos», vasto bastante para receber todas as multidões de Israel, todas as da terra pagã: o chão liso rebrilhava como a água límpida de uma piscina: e as columnas de mármore de Paros que o ladeavam, formando os Porticos de Salomão, profundos e cheios de frescura, eram mais bastas que os troncos nos cerrados palmares de Jerichó. Em meio de esta área, cheia de ar e de luz, elevava-se, em escadarias lustrosas como se fossem de alabastro, com portas chapeadas de prata, arcarias, torreões de onde voavam pombas, um nobre terraço, só acessível aos fieis da Lei, ao Povo eleito de Deus, o orgulhoso «Adro de Israel». de aí erguia-se ainda, com outras claras escadarias, outro branco terraço, o «Atrio dos Sacerdotes»: no brilho difuso que o enchia negrejava um enorme altar de pedras brutas, enristando a cada angulo um sombrio corno de bronze: aos lados dois longos fumos direitos, subiam devagar, mergulhavam no azul com a serenidade de uma prece perenal. E ao fundo, mais alto, ofuscante, com os seus recamos de ouro sobre a alvura dos mármores, níveo e fulvo, como feito de ouro puro e neve pura, refulgia maravilhosamente, lançando o seu clarão aos montes em redor, o Hieron, o Santuario dos Santuarios, a morada de Jehovah: sobre a porta pendia o Véu Mystico, tecido em Babylonia, cor do Fogo e cor dos Mares: pelas paredes trepava a folhagem de uma vinha de esmeralda com cachos de outras pedrarias: da cúpula irradiavam longas lanças de ouro que o aureolavam de raios como um sol: e assim, resplandecente, triunfante, augusto, precioso, ele elevava-se para aquele céo de festa Paschal, ofertando-se todo, como o dom mais belo, o dom mais raro da Terra!

Mas ao lado do Templo, mais alto que ele, dominando-o com a severidade de um amo orgulhoso, Topsius mostrou-me a Torre Antonia, negra, macissa, impenetrável, cidadela de forças romanas... Na plataforma, entre as ameias, movia-se gente armada: sobre um bastião, uma figura forte, envolta em um manto vermelho de Centurião, estendia o braço; e toques lentos de bozina pareciam falar, dar ordens, para outras torres que ao longe se azulavam no ar límpido, algemando a Cidade Santa. Cesar pareceu-me mais forte que Jehovah!

E mostrou-me ainda, para além da Antonia, o velho burgo de David. Era um tropel de casas cerradas, caiadas de fresco sobre o azul, descendo como um rebanho de cabras brancas para um Vale ainda em sombra, onde uma praça monumental se abria entre arcarias: depois trepava, fendido em ruas tortuosas, a espalhar-se sobre a colina fronteira de Acra, rica, com palácios, e cisternas redondas que luziam á luz semelhantes a broqueis de aço. Mais longe ainda, para além de velhos muros derrocados era o bairro novo de Bezetha, em construcção; o Circo de Herodes arredondava aí as suas arcarias; e os jardins de Antipas estiravam-se por um último outeiro, até junto ao tumulo de Helena, assoalhados, frescos, regados pelas águas dôces de Enrogel.

--Ah Topsius, que cidade! murmurei maravilhado.

--Rabbi Eliezer diz que não viu jamais cidade bela quem não viu Jerusalem!

Mas ao nosso lado passava gente alegre, correndo, para os lados da verde estrada que sobe de Betânia: e um velho que puxava á pressa a arreata do seu burro, carregado de molhos de palmas, gritou-nos que se avistara e vinha chegando a caravana da Galilêa! Então, curiosos, trotámos até um comoro, junto a uma sebe de cactos, onde já se apinhavam mulheres com os filhos ao colo, sacudindo véos claros, soltando palavras de benção e de boa acolhida:--e logo vimos, em uma poeirada lenta que o sol dourava, a densa fila dos peregrinos que são os derradeiros a chegar a Jerusalem, vindos de longe, da alta Galilêa, desde Gescala e dos montes. Um rumor de cânticos enchia a estrada festiva: em torno a um estandarte verde agitavam-se palmas e ramos floridos de amendoeira; e os grandes fardos, carregando o dorso dos camelôs, balanceavam em cadencia por entre os turbantes brancos cerrados e movendo-se em marcha.

Seis cavaleiros da guarda Babylonica de Antipas Herodes, tetrarca de Galilêa, escoltavam a caravana desde Tiberiade: traziam mitras de felpo, as longas barbas separadas em tranças, as pernas ligadas em tiras de couro amarelo: e caracolavam á frente, fazendo estalar em uma das mãos açoites de corda, com a outra atirando ao ar e aparando alfanges que faiscavam. Logo atraz era uma colegiada de Levitas, em coro, a passos largos, apoiados a bordões enfeitados de flôres, com os rôlos da Lei apertados sobre o peito, psalmodiando rijo os louvores de Sião. E em torno moços robustos, com as faces infladas e rubras, sopravam para o céo furiosamente em trompas recurvas de bronze.

Mas, de entre a gente apertada á beira da estrada, rompeu uma aclamação. Era um velho, sem turbante, de cabelos soltos, recuando e dançando freneticamente: das mãos cabeludas que ele agitava no ar saia um repique de castanholas: ora arremessava uma perna, ora outra: e toda a sua face barbuda de Rei David ardia com um fulgôr inspirado. Atraz de ele, raparigas, pulando compassadamente sobre a ponta ligeira das sandálias, feriam com dolência harpas leves; outras, rodando sobre si, batiam de alto os tamborinos--e as suas manilhas de prata brilhavam no pó que os seus pés levantavam, sob a roda das túnicas enfunadas... Então, arrebatada, a turba entoou o velho canto das jornadas rituais e os psalmos de Peregrinação.

--Meus passos vão todos para ti, ó Jerusalem! Tu és perfeita! Quem te ama conhece a abundancia!

E eu bradava também, transportado:

--Tu és o palácio do Senhor, ó Jerusalem, e o repouso do meu coração!

Lenta e rumorosa a caravana passava. As mulheres dos levitas, em burros, veladas e rebuçadas, semelhavam grandes sacos moles: as mais pobres, a pé, traziam nas pontas dobradas do manto frutas e o grão da aveia. Os previdentes, já com a sua offrenda ao Senhor, arrastavam preso do cinto um cordeiro branco; os mais fortes seguravam ás costas, presos pelos braços, os doentes--cujos olhos dilatados, nas faces maceradas, procuravam anciosamente as muralhas da Cidade Santa, onde todo o mal se cura.

Entre os peregrinos e a alegre multidão que os acolhia, as bençãos cruzavam-se, ruidosas e ardentes; alguns perguntavam pelos visinhos, pelas searas ou pelos avós que tinham ficado na aldêa á sombra da sua vinha: e ouvindo que lhe fora roubada a pedra do seu moinho, um velho, ao meu lado, com as barbas de um Abrahão, arremessou-se a terra a arrepelar-se e a esfarrapar a túnica. Mas já, fechando a marcha, passavam as mulas com guisos carregadas de lenha e de ôdres de azeite: e atraz uma turba de fanáticos que nos arredores, em Betphagé e em Rephrain, se tinham juntado á caravana, apareceu, atirando para os lados cabaças de vinho já vazias, brandindo facas, pedindo a morte dos Samaritanos e ameaçando a gente pagã...

Então seguindo Topsius trotei de novo através do monte para junto dos cedros cobertos do vôo alvo das pombas: e em esse instante também os peregrinos, emergindo da estrada, avistavam emfim Jerusalem que resplandecia lá em baixo formosa, toda branca na luz... Então foi um santo, tumultuoso, inflamado delírio! Prostrada, a turba batia as faces na terra dura: um clamor de orações subia ao céo puro por entre o estridor das tubas: as mulheres erguiam os filhos nos braços ofertando-os arrebatadamente ao Senhor! Alguns permaneciam imóveis, como assombrados, ante os esplendores de Sião: e quentes lagrimas de fé, de amor piedoso, rolavam sobre barbas incultas e feras. Os velhos mostravam com o dedo os terraços do Templo, as ruas antigas, os sacros lugares da historia de Israel: «ali é a porta de Efraim, acolá era a torre das Fornalhas; aquelas pedras brancas, além, são do tumulo de Rachel...» E os que escutavam em redor, apinhados, batiam as mãos, gritavam: «Bendita sejas, Sião!» Outros, estonteados, com o cinto desapertado, corriam tropeçando nas cordas das tendas, nos gigos de fruta, a trocar a moeda romana, a comprar o anho da oferta. Por vezes, de entre as árvores, um canto subia, claro, fino, cândido, e que ficava tremendo no ar: a terra um momento parecia escutar, como o céo: serenamente, Sião rebrilhava, do Templo os dois fumos lentos ascendiam, com uma continuidade de prece eterna... Depois o canto morria: de novo as bençãos rompiam, clamorosas: a alma inteira de Judá abismava-se no resplendor do santuário: e braços magros erguiam-se freneticamente para estreitar Jehovah.

De repente Topsius colheu-me as rédeas da egoa: e quase ao meu lado um homem com uma túnica cor de açafrão, surgindo esgazeado de traz de uma oliveira e brandindo uma espada, saltou para cima de uma pedra e gritou desesperadamente:

--Homens de Galilêa, acudi, e vós, homens de Nephtali!...

Peregrinos correram, erguendo os bastões: e as mulheres saiam das tendas, pálidas, apertando os filhos ao colo. O homem fazia tremer a espada no ar, todo ele tremia também: e outra vez bradou, desoladamente:

--Homens de Galilêa, Rabbi Jeschoua foi preso! Rabbi Jeschoua foi levado a casa de Hannan, homens de Nephtali!

--D. Raposo, disse Topsius então, com os olhos faiscantes, o Homem foi preso, e compareceu já diante do Sanhedrin!... Depressa, depressa, amigo, a Jerusalem, a casa de Gamaliel!

* * * * *

E á hora em que no Templo se fazia a oferta do Perfume, quando o sol já ia alto sobre o Hebron, Topsius e eu penetrámos, pela porta do Pescado, a passo, em uma rua da antiga Jerusalem. Era íngreme, tortuosa, poeirenta, com casas baixas e pobres de tijolo; sobre as portas, fechadas por uma corrêa, sobre as janelas esguias como fendas gradeadas, havia verduras e palmas entretecidas, fazendo ornatos de Paschoa. Nos terraços, rodeados de balaustradas, mulheres diligentes sacudiam os tapetes, joeiravam o trigo; outras, chalrando, penduravam lampadas de barro em festões para as iluminações rituais.

Ao nosso lado ia marchando fatigado um harpista egípcio, com uma pluma escarlate presa na peruca frisada, um pano branco envolvendo-lhe a cinta fina, os braços pesados de braceletes, e a harpa ás costas, recurva como uma foice e lavrada em flôres de lótus. Topsius perguntou-lhe se ele vinha de Alexandria. E ainda se cantavam nas tabernas do Eunotos as cantigas da batalha de Accio? O homem logo, mostrando em um riso triste os dentes longos, pousou a harpa, ia ferir os bordões... Picámos as egoas: e assustámos duas mulheres cobertas de véos amarelos, com casais de pombas enroladas na ponta do manto, que se apressavam decerto para o Templo, airosas, ligeiras, fazendo retinir os guisos das suas sandálias.

Aqui e além um lume caseiro ardia no meio da rua, com trempes, caçarolas, de onde saia um cheiro acre de alho: crianças de ventre enorme que rolavam núas pela poeira, roendo vorazmente cascas de abobora crua, ficavam pasmadas para nós, com grandes olhos ramelosos onde fervilhavam moscas. Diante de uma forja um bando hirsuto de pastores de Moab esperavam enquanto dentro, martelando em um nimbo de chispas, os ferreiros lhes batiam ferros novos para as lanças. Um negro, com um pente em fórma de sol toucando-lhe a carapinha, apregoava, em um grito lúgubre, bolos de centeio de feitios obscenos.

Calados, atravessámos uma praça, clara e lageada, que andava em obras. Ao fundo uma casa de banhos, moderna, uma Therma romana, estendia com ar de luxo e de ociosidade a longa arcada do seu pórtico de granito: no pátio interior, por entre os plátanos que o refrescavam, cujos ramos suspendiam velários de linho alvo, corriam escravos nús, reluzentes de suor, levando vasos de essências e braçadas de flôres; das aberturas gradeadas, ao rez das lages, saia um bafo mole de estufa que cheirava a rosa. E sob uma das columnas vestibulares, onde uma lapide de ônix indicava a entrada das mulheres, estava de pé, imóvel, ofertando-se aos votos como um ídolo, uma creatura maravilhosa: sobre a sua face redonda, de uma brancura de lua cheia, com lábios grossos, rubros de sangue, erguia-se a mitra amarela das prostitutas de Babylonia; dos hombros fortes, por cima da túmida rijeza dos seios direitos, caía em pregas duras de brocado uma dalmática negra radiantemente recamada de ramagens cor de ouro. Na mão tinha uma flôr de cactus; e as suas pálpebras pesadas, as pestanas densas, abriam-se e fechavam-se em ritmo, ao mover onduloso de um leque que uma escrava preta, agachada a seus pés, balançava cantando. Quando os seus olhos se cerravam, tudo em redor parecia escurecer; e quando se levantava a negra cortina das suas pestanas, vinha de essa larga pupila um clarão, uma influencia, como a do sol do meio dia no deserto que abraza e vagamente entristece. E assim se ofertava, magnifica, com os seus grandes membros de mármore, a sua mitra fulva, lembrando os ritos de Astarté e de Adonis, lasciva e pontifical...

Toquei no braço de Topsius, murmurei, pálido:

--Caramba! Vou aos banhos!

Seco, impertigado na sua capa branca, ele volveu asperamente:

--Espera-nos Gamaliel, filho de Simeon. E a sabedoria dos Rabbis lá disse que a mulher é o caminho da iniquidade!

E bruscamente penetrou em uma lobrega viela, toda abobadada: as patas das egoas, ferindo as lages, acirraram contra nós uivos de cães, maldições de mendigos, amontoados juntos no escuro. Depois saltámos por uma brecha da antiga muralha de Ezekiah, passámos uma velha cisterna seca onde os lagartos dormiam: e trotando pela poeira solta de uma longa rua, entre muros caiados que reluziam e portas besuntadas de alcatrão, páramos no alto diante de uma entrada mais nobre, em arco, com uma grade baixa de arame que a defendia dos escorpiões. Era a casa de Gamaliel.

No meio de um vasto pátio ladrilhado, escaldando ao sol, um limoeiro toldava a água clara de um tanque. Em volta, sobre pilastras de mármore verde, corria uma varanda, silenciosa e fresca, de onde pendia aqui e além um tapete da Assyria com flôres bordadas. Um puro azul brilhava no alto;--e ao canto, sob um alpendre, um negro atrelado por cordas como uma alimaria a uma barra de pau, calçado de ferraduras, vincado de cicatrizes, ia fazendo gemer e girar lentamente a grande mó de pedra do moinho domestico.

No escuro de uma porta apareceu um homem obeso, sem barba, quase tão amarelo como a túnica lassa que o envolvia todo: tinha na mão uma vara de marfim e mal podia erguer as pálpebras moles.

--Teu amo? gritou-lhe Topsius, desmontando.

--Entra, disse o homem em uma voz fugidia e fina como um silvo de cobra.

Por uma escadaria rica de granito negro chegámos a um patamar--onde pousavam dois candelabros, espigados como os arbustos de que reproduziam, em bronze, o tronco sem folhas: e entre eles estava de pé, diante de nós, Gamaliel, filho de Simeon. Era muito alto, muito magro; e a barba solta, lustrosa, perfumada, enchia-lhe o peito, onde brilhava um sinete de coral pendurado de uma fita escarlate. O seu turbante branco, entremeado de fios de perolas, descobria uma tira de pergaminho colada sobre a testa e cheia de textos sagrados: sob aquela alvura, os seus olhos encovados tinham um fulgor frio e duro. Uma longa túnica azul cobria-o até ás sandálias, orlada de compridas franjas que arrastavam: e cosidas ás mangas, enroladas nos pulsos, tinha ainda outras tiras de pergaminho onde negrejavam outras escripturas rituais.

Topsius saudou-o á moda do Egypto, deixando cahir lentamente a mão até á joelheira da sua calça de lustrina. Gamaliel alargou os braços e murmurou, como psalmodiando:

--Entrai, sede bem vindos, comei e regosijai-vos...

E atraz de Gamaliel, pisando um chão sonoro de mosaico, penetrámos em uma sala onde se achavam três homens. Um, que se afastou da janela para nos acolher, era magnificamente belo, com longos cabelos castanhos, pendendo em anéis dôces em torno de um pescoço forte, macio e branco como um mármore coríntio: na faxa negra que lhe apertava a túnica brilhava, com pedrarias, o punho de ouro de uma espada curta. O outro, calvo, gordo, com uma face balofa sem sobrancelhas, e tão livida que parecia coberta de farinha, ficara encruzado, embrulhado no seu manto cor de vinho, sobre um divan feito de correias--tendo uma almofada de purpura debaixo de cada braço; e o seu gesto de acolhida foi mais distrahido e desdenhoso, do que a esmola que se atira ao estrangeiro. Mas Topsius quase se prostrara, a beijar os seus sapatos redondos de couro amarelo, atados por fios de ouro--porque aquele era o venerando Osanias, da família pontifical de Beothos, ainda do sangue real de Aristobolus! O outro homem não o saudámos, nem ele também nos viu; estava agachado a um canto, com a face sumida no capuz de uma túnica de linho mais alvo que a neve fresca, como mergulhado em uma oração: e só de vez em quando se movia, para limpar as mãos lentamente a uma toalha da fina brancura da túnica, que lhe pendia de uma corda, apertada á cintura, grossa e cheia de nós, como as que cingem os monges.

No emtanto, descalçando as luvas, eu examinava o tecto da sala, todo de cedro, com lavores retocados de escarlate. O azul liso e lustroso das paredes era como a continuação de aquele céo de Oriente, quente e puro, que resplandecia através da janela, onde se destacava, pendido do muro, na plena luz, um ramo solitário de madresilva. Sobre uma tripeça, incrustada de nácar, em um incensador de bronze, fumegava uma resina aromática.

Mas Gamaliel aproximara-se--e depois de ter olhado duramente as minhas botas de montar disse com lentidão:

--A jornada do Jordão é longa, deveis vir esfomeados...

Murmurei polidamente uma recusa... E ele, grave como se recitasse um texto:

--A hora do meio dia é a mais grata ao Senhor. Joseph disse a Benjamim: «tu comerás comigo ao meio dia.» Mas a alegria do hospede é também doce ao Muito-Alto, ao Muito-Forte... Estaes fracos, ides comer, para que a vossa alma me abençôe.

Bateu as palmas--um servo, com os cabelos apertados em um diadema de metal, entrou trazendo um jarro cheio de água tépida que cheirava a rosa, onde eu purifiquei as mãos; outro ofereceu bolos de mel sobre viçosas folhas de parra; outro verteu em taças de louça brilhante um vinho forte e negro de Emaús. E para que o hospede não comesse só, Gamaliel partiu um gomo de romã, e com as pálpebras cerradas levou á beira dos lábios uma malga, onde boiavam pedaços de gêlo entre flôres de laranjeira.

--Pois agora, disse eu lambendo os dedos, tenho lastro até ao meio dia...

--Que a tua alma se regosije!

Acendi um cigarro, debrucei-me na janela. A casa de Gamaliel ficava em um alto, decerto por traz do Templo, sobre a colina de Ophel: ali o ar era tão dôce e macio, que só o sentir a sua caricia enchia de paz o coração. Por baixo corria a muralha nova erguida por Herodes o Grande; e para além floriam jardins e pomares dando sombra ao Vale da Fonte, e subindo até á colina, em que branquejava, calada e fresca, a aldeia de Siloé. Por uma fenda, entre o monte do Escândalo e a colina dos Tumulos, eu via resplandecer o mar Morto como uma chapa de prata: as montanhas de Moab ondulavam depois, suaves, de um azul apenas mais denso que o do céo: e uma fórma branca, que parecia tremer na vibração da luz, devia ser a cidadela de Makeros sobre o seu rochedo, nos confins da Idumêa. No terraço relvoso de uma casa, ao pé das muralhas, uma figura imóvel, abrigada sob um alto guarda-sol franjado de guisos, olhava como eu para esses longes da Arabia: e ao lado uma rapariga, ligeira e delgada, com os braços nús erguidos, chamava um bando de pombas que esvoaçavam em redor. A túnica aberta descobria-lhe o seiosinho cheio de seiva: e era tão linda, morena e dourada pelo sol, que eu ia, no silencio do ar, atirar-lhe um beijo... Mas recolhi, ouvindo Gamaliel que dizia, como o homem do manto cor de açafrão no Monte das Oliveiras: «Sim, esta noite, em Betânia, Rabbi Jeschoua foi preso...»

Depois ajuntou, lento, com os olhos semi-cerrados, erguendo por entre os dedos os longos fios da barba:

--Mas Poncius teve um escrúpulo... Não quis julgar um homem de Galilêa que é súbdito de Antipas Herodes... E como o Tetrarcha veio á Paschoa a Jerusalem, Poncius mandou o Rabbi á sua morada, a Bezetha...

Os doutos óculos de Topsius rebrilharam de espanto.

--Coisa estranha! exclamou, abrindo os braços magros. Poncius escrupuloso, Poncius formalista! E desde quando respeita Poncius a judicatura do Tetrarcha? Quantos pobres galileus não fez ele matar sem licença do Tetrarcha, quando foi da revolta do aqueduto, quando espadas romanas, por ordem de Poncius, misturaram nos páteos do Templo o sangue dos homens de Nephtali ao sangue dos bois do Sacrifício!

Gamaliel murmurou sombriamente:

--O Romano é cruel, mas escravo da legalidade.

Então Osanias, filho de Beothos, disse com um sorriso mole e sem dentes, agitando de leve, sobre a purpura das almofadas, as mãos resplandecentes de anéis:

--Ou talvez seja que a mulher de Poncius proteja o Rabbi.

Gamaliel, surdamente, amaldiçoou o impudor da Romana. E como os óculos de Topsius interrogavam o venerando Osanias ele admirou-se que o Doutor ignorasse coisas tão conversadas no Templo, até pelos pastores que vem da Idumêa vender os cordeiros da Offrenda. Sempre que o Rabbi prégava no Portico de Salomão, do lado da porta de Suza, Claudia vinha vêl-o do alto do terraço da Torre Antonia, só, envolta em um véu negro... Menahem, que guardava no mez de Tebeth a escadaria dos Gentis, vira a mulher de Poncius acenar com o véu ao Rabbi. E talvez Claudia, saciada de Capreia, de todos os cocheiros do Circo, de todos os histriões de Suburra, e dos brinquedos de Atalanta que fizeram perder a voz ao cantor Accius, quizesse provar, vindo á Syria, a que sabiam os beijos de um profeta de Galilêa...

O homem vestido de linho alvo ergueu bruscamente a face, sacudindo o capuz de sobre os cabelos revoltos: o seu largo olhar azul fulgurou por toda a sala, em um relâmpago, e apagou-se logo, sob a humildade grave das pestanas que se baixaram... Depois murmurou, lento e severo:

--Osanias, o Rabbi é casto!

O velho riu, pesadamente. Casto, o Rabbi! E então essa galilêa de Magdala, que vivera no bairro de Bezetha, e nas festas do Prurim se misturava com as prostitutas gregas ás portas do teatro de Herodes?... E Joana, a mulher de Khosna, um dos cozinheiros de Antipas? E outra de Efraim, Suzana, que uma noite, a um gesto do Rabbi, a um aceno do seu desejo, deixara o tear, deixara os filhos, e com o pecúlio domestico, escondido na ponta do manto, o seguira até Cesarêa...?

--Oh Osanias! gritou, batendo palmas folgazãs, o homem formoso que tinha uma espada com pedrarias. Oh filho de Beothos, como tu conheces, uma a uma, as incontinencias de um Rabbi galileu, filho das hervas do chão e mais miserável que elas! Nem que se tratasse de Elius Lamma, nosso Legado Imperial, que o Senhor cubra de males!

Os olhos de Osanias, miudinhos como duas contas de vidro negro, reluziram de agudeza e malicia.

--Oh Manassés! É para que vós outros, os patriotas, os puros herdeiros de Judas de Galaunitida, não nos acuseis sempre, a nós sadduceus, de saber só o que se passa no Atrio dos Sacerdotes e nos eirados da casa de Hannan...

Uma tosse rouca reteve-o um espaço, sufocando, sob a ponta do manto em que vivamente se embuçara. Depois, mais quebrado, com laivos rôxos na face farinhenta:

--Que em verdade foi justamente na casa de Hannan que ouvimos isto a Menahem, passeando todos debaixo da vinha... E mesmo nos contou ele que esse Rabbi de Galilêa chegava, no seu impudor, a tocar fêmeas pagãs, e outras mais impuras que o porco... Um levita viu-o, na estrada de Sichem, erguer-se afogueado, de traz da borda de um poço, com uma mulher da Samaria!

O homem coberto de alvo linho ergueu-se de um salto, todo direito e tremulo; e no grito que lhe escapou havia o horror de quem surprehende a profanação de um altar!

Mas Gamaliel, com uma seca autoridade, cravou em ele os olhos duros:

--Oh Gad, aos trinta anos o Rabbi não é casado! Qual é o seu trabalho? Onde está o campo que lavra? Alguém jamais conheceu a sua vinha? Vagabundeia pelos caminhos, e vive do que lhe ofertam essas mulheres dissolutas! E que outra coisa fazem esses moços sem barba de Sybaris e de Lesbos, que passeiam todo o dia na via Judiciaria, e que vós outros, Essenios, abominais de tal sorte, que correis a lavar as vestes em uma cisterna se um de eles roça por vós?... Tu ouviste Osanias, filho de Beothos... Só Jehovah é grande! e em verdade te digo que quando Rabbi Jeschoua, desprezando a Lei, dá á mulher adultera um perdão que tanto captiva os simples, cede á frouxidão da sua moral e não á abundancia da sua misericórdia!

Com a face abrazada, e atirando os braços ao ar, Gad bradou:

--Mas o Rabbi faz milagres!

E foi o formoso Manassés, com um sereno desdem, que respondeu ao Essenio:

--Sossega, Gad, outros têm feito milagres! Simão de Samaria fez milagres. Fêl-os Apollonius, e fêl-os Gabienus... E que são os prodígios do teu galileu comparados aos das filhas do Grão Sacerdote Anius, e aos do sábio Rabbi Chekiná?

E Osanias escarnecia a simplez de Gad:

--Em verdade, que aprendeis vós outros, Essenios, no vosso oásis de Engaddi? Milagres! Milagres até os pagãos os fazem! Vai a Alexandria, ao porto do Eunotos, para a direita, onde estão as fabricas de papiros, e vês lá Magos fazendo milagres por um drachma, que é o preço de um dia de trabalho. Se o milagre prova a divindade, então é divino o peixe Oannes, que tem barbatanas de nácar e préga nas margens do Eufrates, em noites de lua cheia!

Gad sorria com altivez e doçura. A sua indignação expirara sob a imensidão do seu desdem. Deu um passo vagaroso, depois outro,--e considerando, apiedadamente, aqueles homens enfatuados, endurecidos e cheios de irrisão:

--Vós dizeis, vós dizeis, vãos á maneira de moscardos que zumbem! Vós dizeis, e vós não o ouvistes! Em Galilêa, que é bem fértil, bem verde, quando ele falava era como se corresse uma fonte de leite em terra de fome e secura: até a luz parecia um bem maior! As águas, no lago de Tiberiade, amansavam para o escutar; e aos olhos das crianças que o rodeavam subia a gravidade de uma fé já madura... Ele falava: e como pombas que desdobram as azas e vôam da porta de um santuário, nós viamos desprender-se dos seus lábios, irem voar por sobre as nações do mundo toda a sorte de coisas nobres e santas, a Caridade, a Fraternidade, a Justiça, a Misericórdia, e as formas novas, belas, divinamente belas, do Amor!

A sua face resplandecia, enlevada para os céus, como seguindo o vôo de essas novas divinas. Mas já do lado, Gamaliel, Doutor da Lei, o rebatia com uma dura autoridade:

--Que ha de original e de individual em todas essas idéas, homem? Pensas que o Rabbi as tirou da abundancia do seu coração? Está cheia de elas a nossa doutrina!... Queres ouvir falar de Amor, de Caridade, de Igualdade? Lê o livro de Jesus, filho de Sidrah... Tudo isso o prégou Hillel, tudo isso o disse Schemaia! Coisas tão justas se encontram nos livros pagãos, que são, ao pé dos nossos, como o lôdo ao pé da água pura de Siloeh!... Vós mesmos os Essenios tendes preceitos melhores!... Os Rabbis de Babylonia, de Alexandria, ensinaram sempre leis puras de Justiça e de Igualdade! E ensinou-as o teu amigo Iokanan, a quem chamais o Batista, que lá acabou tão miseravelmente em um ergastulo de Makeros...

--Iokanan! exclamou Gad, estremecendo, como rudemente acordado da suavidade de um sonho.

Os seus olhos brilhantes humedeceram. Três vezes, curvado para o chão, com os braços abertos, repetiu o nome de Iokanan, como chamando alguém de entre os mortos. Depois, com duas lagrimas rolando pela barba, murmurou muito baixo, em uma confidencia que o enchia de terror e de fé:

--Fui eu que subi a Makeros a buscar a cabeça do Batista! E quando descia o caminho, com ela embrulhada no meu manto, ainda a outra, Herodiade, estirada por sobre a muralha como a fêmea lasciva do tigre, rugia e me gritava injúrias!... Três dias e três noites segui pelas estradas de Galilêa, levando a cabeça do justo pendurada pelos cabelos... Ás vezes, detrás de um rochedo, um anjo surgia todo coberto de negro, abria as azas e punha-se a caminhar ao meu lado...

De novo a cabeça lhe pendeu, os seus duros joelhos resoaram nas lages: e ficou prostrado, orando anciosamente, com os braços estendidos em cruz.

Então Gamaliel adiantou-se para o sábio Topsius; e, mais direito que uma coluna do Templo, com os cotovêlos colados á cinta, as mãos magras espalmadas para fora:

--Nós temos uma Lei, a nossa Lei é clara. Ela é a palavra do Senhor; e o Senhor disse: «Eu sou Jehovah, o eterno, o primeiro e o último, o que não transmite a outros nem o seu nome, nem a sua gloria: antes de mim não houve Deus algum, não existe Deus algum ao meu lado, não haverá Deus algum depois de mim...» Esta é a voz do Senhor. E o Senhor disse ainda: «Se pois entre vós aparecer um profeta, um visionário que faça milagres e queira introdizir outro Deus e chame os simples ao culto de esse Deus,--esse profeta e visionário morrerá!» Esta é a Lei, esta é a voz do Senhor. Ora o Rabbi de Nazaré proclamou-se Deus em Galilêa, nas sinagogas, nas ruas de Jerusalem, nos páteos santos do Templo... O Rabbi deve morrer.

Mas o formoso Manassés, cujo languido olhar entenebrecia como um céo onde vai trovejar, interpoz-se entre o Doutor da Lei e o historiador dos Herodes. E nobremente repeliu a letra cruel da Doutrina:

--Não, não! Que importa que a lampada de um sepulchro diga que é o sol? Que importa que um homem abra os braços e grite que é um Deus? As nossas leis são suaves: por tão pouco não se vai buscar o carrasco ao seu covil a Gareb...

Eu, caridosso, ia louvar Manassés. Mas já ele bradava com violência e fervor:

--Todavia esse Rabbi de Galilêa deve decerto morrer, porque é um mau cidadão e um mau judeu! Não o ouvimos nós aconselhar que se pague o tributo a Cesar? O Rabbi estende a mão a Roma, o romano não é o seu inimigo. Ha três anos que préga, e ninguém jamais lhe ouviu proclamar a necessidade santa de expulsar o Estrangeiro. Nós esperamos um Messias que traga uma espada e liberte Israel, e este, néscio e verboso, declara que traz só o pão da verdade! Quando ha um pretor romano em Jerusalem, quando são lanças romanas que velam ás portas do nosso Deus, a que vem esse visionário falar do pão do céo e do vinho da verdade? A única verdade útil é que não deve haver romanos em Jerusalem!...

Osanias, inquieto, olhou a janela cheia de luz, por onde as ameaças de Manassés se evolavam, vibrantes e livres. Gamaliel sorria friamente. E o discípulo ardente de Judas de Gamala clamava, arrebatado na sua paixão:

--Oh! Em verdade vos digo, embalar as almas na esperança do reino do céo é fazer-lhes esquecer o dever forte para com o reino da terra, para esta terra de Israel que está em ferros, e chora e não quer ser consolada! O Rabbi é traidor á pátria! O Rabbi deve morrer!

Tremulo, agarrara a espada: e o seu olhar alargava-se, com uma fulguração de revolta, como chamando avidamente os combates e a gloria dos suplícios.

Então Osanias ergueu-se apoiado a um bastão que rematava em uma pinha de ouro. Um penoso cuidado parecia agora anuvear a sua velhice leviana. E começou a dizer, de manso e tristemente, como quem através do Entusiasmo e da Doutrina aponta o mandado inilludivel da Necessidade:

--Decerto, decerto, pouco importa que um visionário se diga Messias e filho de Deus, ameace destruir a Lei e destruir o Templo. O Templo e a Lei podem bem sorrir e perdoar, certos da sua eternidade... Mas, oh Manassés, as nossas leis são suaves; e não creio que se deva ir acordar o carrasco a Gareb, porque um Rabbi de Galilêa, que se lembra dos filhos de Judas de Gamala pregados na cruz, aconselha prudencia e malicia nas relações com o romano! Ó Manassés, robustas são as tuas mãos: mas podes tu com elas desviar a corrente do Jordão da terra de Canaan para a terra da Trakaunitida? Não. Nem podes também impedir que as legiões de Cesar, que cobriram as cidades da Grecia, venham cobrir o paiz de Judá! Sabio e forte era Judas Macchabeo, e fez amizade com Roma... Porque Roma é sobre a terra como um grande vento da natureza; quando ele vem, o insensato oferece-lhe o peito e é derrubado; mas o homem prudente recolhe á sua morada e está quieto. Indomavel era a Galacia; Filipe e Perseu tinham exércitos na planície; Antiochus o Grande comandava cento e vinte elefantes e carros de guerra inumeráveis... Roma passou; de eles que resta? Escravos, pagando tributos...

Curvára-se, pesadamente, como um boi sob o jugo. Depois, fixando sobre nós os olhos miúdos que dardejavam um brilho inexorável e frio, prosseguiu, sempre de manso e subtil:

--Mas em verdade vos digo, que esse Rabbi de Galilêa deve morrer! Porque é o dever do homem que tem bens na terra e searas apagar depressa com a sandália, sobre as lages da eira, a fagulha que ameaça inflamar-lhe a mêda... Com o romano em Jerusalem, todo aquele que venha e se proclame Messias, como o de Galilêa, é nocivo e perigoso para Israel. O romano não comprehende o Reino do céo que ele promete: mas vê que essas prédicas, essas exaltações divinas agitam sombriamente o povo dentro dos pórticos do Templo... E então diz: «na verdade este Templo, com o seu ouro, as suas multidões, e tanto zelo, é um perigo para a autoridade de Cesar na Judêa...» E logo, lentamente, anula a força do Templo diminuindo a riqueza, os privilégios do seu sacerdócio. Já para nossa humilhação, as vestes pontificais são guardadas no erário da Torre Antonia: amanhã será o Candelabro de ouro! Já o Pretor usou, para nos empobrecer, o dinheiro do Corban! Amanhã os dízimos da colheita, o dos gados, o dinheiro da offrenda, o óbolo das trombetas, os tributos rituais, todos os haveres do sacerdócio, até as viandas dos sacrifícios, nada será nosso, tudo será do romano! E só nos ficará o bordão para irmos mendigar nas estradas de Samaria, á espera dos mercadores ricos da Decapola... Em verdade vos digo, se quizermos conservar as honras e os tesouros, que são nossos pela antiga Lei, e que fazem o esplendor de Israel, devemos mostrar ao romano, que nos vigia, um Templo quieto, policiado, submisso, contente, sem fervores e sem Messias!... O Rabbi deve morrer!

Assim diante de mim falou Osanias, filho de Beothos, e membro do Sanhedrin.

Então o magro historiador dos Herodes, cruzando com reverencia as mãos sobre o peito, saudou três vezes aqueles homens facundos. Gad, imóvel, orava. No azul da janela uma abelha cor de ouro zumbia em torno da flôr de madresilva. E Topsius dizia com pompa:

--Homens que me haveis acolhido, a verdade abunda nos vossos espíritos como a uva abunda nas videiras! Vós sois três torres que guardais Israel entre as nações: uma defende a unidade da Religião, outra mantem o entusiasmo da Patria: e a terceira, que és tu, venerando filho de Beothos, cauto e ondeante como a serpente que amava Salomão, protege uma coisa mais preciosa que é a Ordem!... Vós sois três torres: e contra cada uma o Rabbi de Galilêa ergue o braço e lança a primeira pedrada! Mas vós guardais Israel e o seu Deus e os seus bens, e não vos deveis deixar derrocar!... Em verdade, agora o reconheço, Jesus e o Judaismo nunca poderiam viver juntos.

E Gamaliel, com o gesto de quem quebra uma vara frágil, disse, mostrando os dentes brancos:

--Por isso o crucificamos!

Foi como uma faca acerada que, lampejando e silvando, se viesse cravar no meu peito! Arrebatei, sufocado, a manga do douto historiador:

--Topsius! Thopsius! quem é esse Rabbi que prégava em Galilêa, e faz milagres e vai ser crucificado?

O sábio doutor arregalou os olhos com tanto pasmo, como se eu lhe perguntasse qual era o astro que de além dos montes traz a luz da manhã. Depois, secamente:

--Rabbi Jeschoua bar Joseph, que veio de Nazaré em Galilêa, a quem alguns chamam Jesus e outros também chamam o Cristo.

--O nosso! gritei, vacilando, como um homem atordoado.

E os meus joelhos católicos quase bateram as lages, em um impulso de ficar ali caído, enrodilhado no meu pavor, rezando desesperadamente e para sempre. Mas logo como uma labareda chamejou por todo o meu sêr o desejo de correr ao seu encontro e pôr os meus olhos mortais no corpo do meu Senhor, no seu corpo humano e real, vestido do linho de que os homens se vestem, coberto com o pó que levantam os caminhos humanos!... E ao mesmo tempo, mais do que treme a folha em um áspero vento, tremia a minha alma em um terror sombrio:--o terror do servo negligente diante do amo justo! Estava eu bastante purificado com jejuns e terços para afrontar a face fulgurante do meu Deus? Não! Oh mesquinha e amarga deficiência da minha devoção! Eu não beijara jamais, com suficiente amor, o seu pé dorido e rôxo na sua igreja da Graça! Ai de mim! Quantos domingos, em esses tempos carnais em que a Adelia, sol da minha vida, me esperava na travessa dos Caldas, fumando e em camisa--não maldissera eu a lentidão das Missas e a monotonia dos Septenarios! E sendo assim do craneo á sola dos pés uma crosta de pecado, como poderia meu corpo não tombar, já réprobo, já tisnado, quando os dois globos dos olhos do Senhor, como duas metades do céo, se voltassem vagarosamente para mim?

Mas vêr Jesus! Vêr como eram os seus cabelos, que pregas fazia a sua túnica, e o que acontecia na terra quando os seus lábios se abriam!... Para além de esses eirados onde as mulheres atiravam grão ás pombas; em uma de essas ruas de onde me chegava claro e cantado o pregão dos vendedores de pães ázimos--ia passando talvez em esse temeroso instante, entre barbudos, graves soldados romanos, Jesus, meu Salvador, com uma corda amarrada nas mãos. A lenta aragem que balançava na janela o ramo de madresilva, e lhe avivava o aroma, acabava talvez de roçar a fronte do meu Deus, já ensanguentada de espinhos! Era só empurrar aquela porta de cedro, atravessar o pátio onde gemia a mó do moinho domestico,--e logo, na rua, eu poderia vêr presente e corpóreo o meu Senhor Jesus tão realmente e tão bem como o viram S. João e S. Mateus. Seguiria a sua sacra sombra no muro branco--onde cahiria também a minha sombra. Na mesma poeira que as minhas solas pisassem--beijaria a pégada ainda quente dos seus pés! E abafando com ambas as mãos o barulho do meu coração,--eu poderia surprehender, saído da sua boca inefável, um ai, um soluço, um queixume, uma promessa! Eu saberia então uma palavra nova do Cristo, não escripta no Evangelho;--e só eu teria o direito pontifical de a repetir ás multidões prostradas. A minha autoridade surgia, na Igreja, como a de um Testamento novissimo. Eu era uma testemunha inedita da Paixão. Tornava-me S. Teodorico Evangelista!

Então, com uma desesperada ansiedade que espantou aqueles Orientaes de maneiras mesuradas, eu gritei:

--Onde o posso vêr? Onde está Jesus de Nazaré, meu Senhor?

em esse momento um escravo, correndo na ponta leve das sandálias, veio cahir de bruços nas lages, diante de Gamaliel; beijava-lhe as franjas da túnica, as suas costelas magras arquejavam; por fim murmurou, exhausto:

--Amo, o Rabbi está no Pretorio!

Gad emergiu da sua oração com um salto de fera, apertou em tôrno dos rins a corda de nós, e correu arrebatadamente, com o capuz solto, espalhando em redor o sulco louro dos seus cabelos revoltos. Topsius traçara a sua capa branca, com essas pregas de toga latina que lhe davam a solemnidade de um mármore; e tendo comparado a hospitalidade de Gamaliel á de Abrahão, bradou-me triunfantemente:

--Ao Pretorio!

* * * * *

Muito tempo segui Topsius através da antiga Jerusalem, em uma caminhada ofegante, todo perdido no tumulto dos meus pensamentos. Passámos junto a um jardim de rosas, do tempo dos Prophetas, esplendido e silencioso, que dois levitas guardavam com lanças douradas. Depois foi uma rua fresca, toda aromatisada pelas lojas dos perfumistas, ornadas de taboletas em fórma de flôres e de almofarizes: um toldo de esteiras finas assombreava as portas, o chão estava regado e juncado de herva dôce e de folhas de anemonas: e pela sombra preguiçavam moços languidos, de cabelos frisados em cachos, de olheiras pintadas, mal podendo erguer, nas mãos pesadas de anéis, as sedas roçagantes das túnicas cor de cereja e cor de ouro. Além de essa rua indolente abria-se uma praça, que escaldava ao sol, com uma poeira grossa e branca, onde os pés se enterravam: solitária, no meio, uma vetusta palmeira arqueava o seu penacho, imóvel e como de bronze: e ao fundo, negrejavam na luz as columnatas de granito do velho palácio de Herodes. Aí era o Pretorio.

Defronte do arco de entrada, onde rondavam, com plumas pretas no elmo reluzente, dois legionários da Syria--um bando de raparigas, tendo detrás da orelha uma rosa e no regaço coifas de esparto, apregoavam os pães ázimos. Sob um enorme guardasol de penas, cravado no chão, homens de mitra de feltro, com taboas sobre os joelhos e balanças trocavam a moeda romana. E os vendedores de água, com os seus ôdres felpudos, lançavam um grito tremulo. Entrámos: e logo um terror me envolveu.

Era um claro pátio, aberto sob o azul, ladeado de mármore, tendo de cada lado uma arcada, elevada em terraço, com parapeito, fresca e sonora como um claustro de mosteiro. Da arcaria ao fundo, encimada pela frontaria austera do Palácio, estendia-se um velário, de um estofo escarlate franjado de ouro, fazendo uma sombra quadrada e dura: dois mastros de pau de sicômoro sustentavam-em o, rematados por uma flôr de lótus.

Aí apertava-se um magote de gente--onde se confundiam as túnicas dos Fariseus orladas de azul, o rude saião de estamenha dos obreiros apertado com um cinto de couro, os vastos albornozes listrados de cinzento e branco dos homens de Galilêa, e a capa carmezim de grande capuz dos mercadores de Tiberiade; algumas mulheres já fora do abrigo do velário, alçavam-se na ponta das chinelas amarelas, estendendo por cima do rosto contra o sol, uma dobra do manto ligeiro: e de aquela multidão saia um cheiro morno de suor e de mirra. Para além, por cima dos turbantes alvos apinhados, brilhavam pontas de lança. E ao fundo, sobre um sólio, um homem, um magistrado, envolto nas pregas nobres de uma toga pretexta, e mais imóvel que um mármore, apoiava sobre o punho forte a barba densa e grisalha: os seus olhos encovados pareciam indolentemente adormecidos: uma fita escarlate prendia-lhe os cabelos: e por traz, sobre um pedestal que fazia espaldar á sua cadeira curul, a figura de bronze da Loba Romana abria de travez a guela voraz. Perguntei a Topsius quem era aquele magistrado melancólico.

--Um certo Poncius, chamado Pilatus, que foi Prefeito em Batavia.

Lentamente caminhei pelo pátio, procurando, como em um templo, fazer mais subtil e respeitoso o ruido das minhas solas. Um grave silencio caía do céo rutilante: só, por vezes, rompia do lado dos jardins, áspero e triste, o gritar dos pavões. Estendidos no chão, junto á balaustrada do claustro, negros dormitavam com a barriga ao sol. Uma velha contava moedas de cobre, acocorada diante do seu gigo de fruta. Em andaimes, postos contra uma coluna, havia trabalhadores compondo o telhado. E crianças, a um canto, jogavam com discos de ferro que tiniam de leve nas lages.

Subitamente, alguém familiar tocou no hombro do historiador dos Herodes. Era o formoso Manassés; e com ele vinha um velho magnifico, de uma nobreza de Pontifice, a quem Topsius beijou filialmente a manga da simarra branca, bordada de verdes folhas de parra. Uma barba de neve, lustrosa de óleo, caía-lhe até á faxa que o cingia; e os hombros largos desapareciam sob a esparsa abundancia dos cabelos alvos, saindo do turbante como uma pura romeira de arminhos reais. Uma das mãos, cheia de anéis, apoiava-se a um forte bastão de marfim; e a outra conduzia uma criança pálida, que tinha os olhos mais belos que estrelas, e semelhava junto ao ancião um lírio á sombra de um cedro.

--Subi á galeria, disse-nos Manassés. Tereis lá repouso e frescura...

Seguimos o Patriota; e eu perguntei cautelosamente a Topsius quem era o outro tão velho, tão augusto.

--Rabbi Robam, murmurou com veneração o meu douto amigo. Uma luz do Sanhedrin, facundo e subtil entre todos, e confidente de Kaipha...

Reverente, saudei três vezes Rabbi Robam--que se sentara em um banco de mármore, pensativo, aconchegando sobre o seu vasto peito ancestral a cabeça da criança mais loura que os milhos de Jopé. Depois continuámos devagar pela galeria sonora e clara: na sua extremidade brilhava uma porta sumptuosa de cedro com chapas de prata lavradas: um Pretoriano de Cesarêa guardava-a, somnolento, encostado ao seu alto escudo de vime. Aí, comovido, caminhei para o parapeito: e logo meus olhos mortais encontraram lá em baixo--a fórma encarnada do meu Deus!

Mas, oh rara surpreza da alma variável, não senti extasis nem terror! Era como se de repente me tivessem fugido da memoria longos, laboriosos séculos de Historia e de Religião. Nem pensei que aquele homem seco e moreno fosse o Remidor da Humanidade... Achei-me inexplicavelmente anterior nos tempos. Eu já não era Teodorico Raposo, christão e bacharel: a minha individualidade como que a perdera, á maneira de um manto que escorrega, em essa carreira ansiosa desde a casa de Gamaliel. Toda a antiguidade das coisas ambientes me penetrara, me refizera um sêr; eu era também um antigo. Era Theodoricus, um Lusitano, que viera em uma galera das praias resoantes do Promontorio Magno, e viajava, sendo Tibério imperador, em terras tributarias de Roma. E aquele homem não era Jesus, nem Cristo, nem Messias,--mas apenas um moço de Galilêa que, cheio de um grande sonho, desce da sua verde aldeia para transfigurar todo um mundo e renovar todo um céo, e encontra a uma esquina um Nethenim do Templo que o amarra e o traz ao Pretor, em uma manhã de audiência, entre um ladrão que roubara na estrada de Sichem e outro que atirara facadas em uma rixa em Emath!

em um espaço ladrilhado de mosaico, em face do sólio onde se erguia o assento curul do Pretor sob a Loba Romana--Jesus estava de pé, com as mãos cruzadas e frouxamente ligadas por uma corda que rojava no chão. Um largo albornoz de lã grossa, em riscas pardas, orlado de franjas azuis, cobria-o até aos pés, calçados de sandálias já gastas pelos caminhos do deserto e atadas com correias. Não lhe ensanguentava a cabeça essa corôa inhumana de espinhos, de que eu lera nos Evangelhos; tinha um turbante branco, feito de uma longa faxa de linho enrolada, cujas pontas lhe pendiam de cada lado sobre os hombros; um cordel amarrava-lh'o por baixo da barba encaracolada e aguda. Os cabelos secos, passados por traz das orelhas, cahiam-lhe em anéis pelas costas; e no rosto magro, requeimado, sob sobrancelhas densas, unidas em um só traço, negrejava com uma profundidade infinita o resplendor dos seus olhos. Não se movia, forte e sereno diante do Pretor. Só algum estremecimento das mãos presas trahia o tumulto do seu coração; e ás vezes respirava longamente, como se o seu peito, acostumado aos livres e claros ares dos montes e dos lagos de Galilêa, sufocasse entre aqueles mármores, sob o pesado velário romano, na estreiteza formalista da Lei.

A um lado, Sarêas, o vogal do Sanhedrin, tendo deposto no chão o seu manto e o seu baculo dourado, ia desenrolando e lendo uma tira escura de pergaminho, em um murmurio cantado e dormente. Sentado em um escabelo, o Assessor romano, sufocado pelo calor já áspero do mez de Nizam, refrescava com um leque de folhas de heras secas a face rapada e branca como um gesso: um escriba, velho e nédio, em uma mesa de pedra cheia de tabulários e de regras de chumbo, aguçava miudamente os seus calamos: e entre ambos o interprete, um fenício imberbe, sorria com a face no ar, com as mãos na cinta, arqueando o peito onde trazia pintado sobre a jaqueta de linho um papagaio vermelho. Em torno ao velário, constantemente voavam pombas. E foi assim que eu vi Jesus de Galilêa preso, diante do Pretor de Roma...

No emtanto Sarêas, tendo enrolado em torno á haste de ferro o pergaminho escuro, saudou Pilatos, beijou um sinete sobre o dedo para marcar nos seus lábios o selo da verdade,--e imediatamente encetou uma arenga em grego, com textos, verbosa e aduladora. Falava do Tetrarca de Galilêa, o nobre Antipas; louvava a sua prudencia; celebrava seu pai Herodes o Grande, restaurador do Templo... A gloria de Herodes enchia a terra; fora terrível, sempre fiel aos Cesares; seu filho Antipas era engenhoso e forte!... Mas reconhecendo a sua sabedoria ele estranhava que o Tetrarca se recusasse a confirmar a sentença do Sanhedrin que condemnava Jesus á morte... Não fora essa sentença fundada nas Leis que dera o Senhor? O justo Hanan interrogara o Rabbi, que emudecera, em um silencio ultrajante. Era essa a maneira de responder ao sábio, ao puro, ao piedoso Hanan? Por isso um zeloso, sem se conter, atirara a mão violenta á face do Rabbi... Onde estava o respeito dos antigos tempos, e a veneração do Pontificado?

A sua voz cava e larga rolava, infindavelmente. Eu, cansado, bocejava. Por baixo de nós dois homens encruzados nas lages comiam tâmaras de Bethabara que traziam no saião, bebendo de uma cabaça. Pilatos, com o punho sob a barba, olhava somnolentamente os seus borzeguins escarlates picados de estrelas de ouro.

E Sarêas agora proclamava os direitos do Templo. Ele era o orgulho da nação, a morada eleita do Senhor! Cesar Augusto ofertara-lhe escudos e vasos de ouro... E esse Templo, como o respeitara o Rabbi? Ameaçando destruil-o! «Eu derrocarei o templo de Jehovah e edifical-o-hei em três dias!» Testemunhas puras ouvindo esta rude impiedade tinham coberto a cabeça de cinza para afastar a cólera do Senhor... Ora a blasfêmia atirada ao santuário resaltava até ao seio de Deus!...

Sob o velário, os Fariseus, os Escribas, os Nethenins do Templo, escravos sórdidos, susurravam como arbustos agrestes que um vento começa a agitar. E Jesus permanecia imóvel, abstrahidamente indiferente, com os olhos cerrados, como para isolar melhor o seu sonho contínuo e formoso, longe das coisas duras e vãs que o maculavam. Então o Assessor romano ergueu-se, depôz no escabelo o seu leque de folhas, traçou com arte o manto forense, orlado de azul, saudou três vezes o Pretor,--e a sua mão delicada começou a ondear no ar, fazendo cintilar uma joia.

--Que diz ele?...

--Coisas infinitamente habeis, murmurou Topsius. É um pedante, mas tem razão. Diz que o Pretor não é um judeu; que nada sabe de Jehovah, nem lhe importam os profetas que se erguem contra Jehovah; e que a espada de Cesar não vinga deuses que não protegem Cesar!... O romano é engenhoso!

Offegando, o Assessor recahiu languidamente no escabelo. E logo Sarêas volveu a arengar, sacudindo os braços para a multidão dos Fariseus, como a evocar os seus protestos, e refugiando-se na sua força. Agora, mais retumbante, acusava Jesus, não da sua revolta contra Jehovah e o Templo, mas das suas pretenções como príncipe da casa de David! Toda a gente em Jerusalem o tinha visto, havia quatro dias, entrar pela Porta de Ouro, em um falso triunfo, entre palmas verdes, cercado de uma multidão de galileus, que gritavam--«Hossana ao filho de David, Hossana ao rei de Israel!...»

--Ele é o filho de David, que vem para nos tornar melhores! gritou ao longe a voz de Gad, cheia de persuasão e de amor.

Mas de repente Sarêas colou ao corpo as mangas franjadas, mudo e mais teso que um conto de lança: o escriba romano, de pé, com os punhos fincados na mesa, vergava o cachaço reverente e nédio: o Assessor sorria, atento. Era o Pretor que ia interrogar o Rabbi: e eu, tremendo, vi um Legionario empurrar Jesus que ergueu a face...

Debruçado de leve para o Rabbi, com as mãos abertas que pareciam soltar, deixar cahir todo o interesse por esse pleito ritual de sectários arguciosos, Poncius murmurou, enfastiado e incerto:

--És tu então o rei dos judeus?... Os da tua nação trazem-te aqui!... Que fizeste tu?... Onde é o teu reino?

O interprete, enfatuado, perfilado junto ao sólio de mármore, repetiu muito alto estas coisas na antiga língua hebraica dos Livros Santos: e, como o Rabbi permanecia silencioso, gritou-as na fala chaldaica que se usa em Galilêa.

Então Jesus deu um passo. Eu ouvi a sua voz. Era clara, segura, dominadora e serena:

--O meu reino não é de aqui! Se por vontade de meu Pai eu fosse rei de Israel, não estaria diante de ti com esta corda nas mãos... Mas o meu reino não é de este mundo!

Um grito estrugiu, desesperado:

--Tirai-o então de este mundo!

E logo, como lenha preparada que uma faísca inflama, o furor dos Fariseus e dos serventes do Templo irrompeu, crepitando, em clamores impacientes:

--Crucificai-o! crucificai-o!

Pomposamente o interprete redizia em grego ao Pretor os brados tumultuosos, lançados na língua siríaca que fala o povo em Judêa... Poncius bateu o borzeguim sobre o mármore. Os dois lictores ergueram ao ar as varas rematadas em uma figura de aguia: o escriba gritou o nome de Caio Tibério: e logo os braços frementes se abaixaram, e foi como um terror diante da majestade do Povo Romano.

De novo Poncius falou, lento e vago:

--Dizes então que és rei... E que vens tu fazer aqui?

Jesus deu outro passo para o Pretor. A sua sandália pousou fortemente sobre as lages como se tomasse posse suprema da terra. E o que saiu dos seus lábios trêmulos pareceu-me fulgurar, vivo no ar, como o resplendor que dos seus olhos negros saiu.

--Eu vim a este mundo testemunhar a verdade! Quem desejar a verdade, quem quiser pertencer á verdade tem de escutar a minha voz!

Pilatos considerou-o um momento, pensativo; depois encolhendo os hombros:

--Mas, homem, o que é a verdade?

Jesus de Nazaré emudeceu--e no Pretorio espalhou-se um silencio como se todos os corações tivessem parado, cheios subitamente de incerteza...

Então, apanhando devagar a sua vasta toga, Pilatos desceu os quatro degraus de bronze;--e precedido dos lictores, seguido do Assessor, penetrou no Palácio, por entre, o rumor de armas dos legionários que o saudavam batendo o ferro das lanças sobre o bronze dos escudos.

Imediatamente elevou-se por todo o pátio um áspero e ardente susurro como de abelhas irritadas. Sarêas perorava, brandindo o baculo, entre os Fariseus que apertavam as mãos em um terror. Outros, afastados, cochichavam sombriamente. Um grande velho, com um manto negro que esvoaçava, corria em uma ânsia o Pretorio, por entre os que dormiam, ao sol, por entre os vendedores de pães ázimos, gritando: «Israel está perdido!» E eu vi Levitas fanáticos arrancarem as borlas das túnicas, como em uma calamidade publica.

Gad surgiu diante de nós, erguendo os braços triunfantes:

--O Pretor é justo e liberta o Rabbi!...

E, com a face cheia de brilho, revelava-nos a doçura da sua esperança! O Rabbi, apenas solto, deixaria Jerusalem--onde as pedras eram menos duras que os corações. Os seus amigos armados esperavam-no em Betânia: e partiriam ao romper da lua para o oásis de Engaddi! Lá estavam aqueles que o amavam. Não era Jesus o irmão dos Essenios? Como eles o Rabbi prégava o desprezo dos bens terrestres, a ternura pelos que são pobres, a incomparável beleza do reino de Deus...

Eu, crédulo, regosijava-me--quando um tumulto invadiu a galeria que um escravo viera regar. Era o bando escuro dos Fariseus, em marcha para o banco de pedra, onde Rabbi Robam conversava com Manassés, enrolando dôcemente nos dedos os cabelos da criança, mais louros que os minhos. Topsius e eu corremos para a turba intolerante. Já Sarêas, no meio, curvado, mas com a firmeza de quem íntima, dizia:

--Rabbi Robam, é necessário que vás falar ao Pretor e salvar a nossa lei!

E logo, de todos os lados, foi um suplicar ancioso:

--Rabbi, fala ao Pretor! Rabbi, salva Israel!

Lentamente o velho erguia-se, majestoso como um grande Moysés. E diante de ele um Levita, muito pálido, vergava os joelhos, murmurava a tremer:

--Rabbi, tu és justo, sábio, perfeito e forte diante do Senhor!

Rabbi Robam levantou as duas mãos abertas para o céo: e todos se curvaram como se o espirito de Jehovah, obedecendo á muda invocação, tivesse descido para encher aquele coração justo. Depois, com a mão da criança na sua, pôs-se a caminhar em silencio; atraz a turba fazia um rumor de sandálias lassas sobre as lages de mármore.

Parámos, amontoados, diante da porta de cedro--onde o pretoriano cruzara a lança, depois de bater as argolas de prata. Os pesados gonzos rangeram; um tribuno do Palácio acudiu tendo na mão um longo galho de vide. Dentro era uma fria sala, mal alumiada, severa, com os muros forrados de estuques escuros. Ao centro erguia-se palidamente uma estatua de Augusto, com o pedestal juncado de corôas de louro e de ramos votivos: dois grandes tocheiros de bronze dourado reluziam aos cantos, na sombra.

Nenhum dos judeus entrou--porque pisar em dia paschal um sólo pagão era coisa impura diante do Senhor. Sarêas anunciou altivamente ao Tribuno que «alguns da nação de Israel, á porta do Palácio de seus pais, estavam esperando o Pretor.» Depois pesou um silencio, cheio de ansiedade...

Mas dois lictores avançaram: e logo atraz, caminhando a passos largos, com a vasta toga apanhada contra o peito, Pilatos apareceu.

Todos os turbantes se curvaram, saudando o Procurador da Judêa. Ele parara junto á estatua de Augusto. E, como repetindo o gesto nobre da figura de mármore, estendeu a mão que segurava um pergaminho enrolado, e disse:

--Que a paz seja comvosco e com as vossas palavras... Falai!

Sarêas, vogal do Sanhedrin, adiantando-se, declarou que os seus corações vinham em verdade cheios de paz... Mas, tendo o Pretor deixado o Pretorio sem confirmar nem anular a sentença do Sanhedrin que condemnava Jesus-ben-José--eles se achavam como o homem que vê a uva na vinha, suspensa, sem secar e sem amadurecer!

Poncius pareceu-me penetrado de equidade e clemencia.

--Eu interroguei o vosso preso, disse ele; e não lhe achei culpa que deva punir o Procurador da Judêa... Antipas Herodes, que é prudente e forte, que prática a vossa Lei e ora no vosso Templo, interrogou-o também e nenhuma culpa em ele encontrou... Esse homem diz apenas coisas incoherentes como os que falam em sonhos... Mas as suas mãos estão puras de sangue; nem ouvi que ele escalasse o muro do seu visinho... Cesar não é um amo inexorável... Esse homem é apenas um visionário.

Então, com um sombrio murmurio, todos recuaram, deixando Rabbi Robam só no limiar da sala romana. Um brilho de joia tremia na ponta da sua tiara: as suas cans caindo sobre os vastos hombros coroavam-no de majestade como a neve faz aos montes: as franjas azuis do seu manto solto rojavam nas lages, em redor. Devagar, sereno, como se explicasse a Lei aos seus discípulos, ergueu a mão e disse:

--Official de Cesar, Poncius, muito justo e muito sábio! O homem que tu chamas visionário, ha anos que ofende todas as nossas leis e blasfema o nosso Deus. Mas quando o prendemos nós, quando to trouxemos nós? Somente quando o vimos entrar em triunfo pela Porta de Ouro, aclamado como rei da Judêa. Porque a Judêa não tem outro rei senão Tibério: e apenas um sedicioso se proclama em revolta contra Cesar, apressamo-nos a castigal-o. Assim fazemos nós, que não temos mandado de Cesar, nem cobramos do seu erário: e tu, oficial de Cesar, não queres que seja castigado o rebelde a teu amo?...

A face larga de Poncius, que uma somnolencia amolecia, relampeou, raiada vivamente de sangue. Aquela tortuosidade de judeus que, execrando Roma, apregoavam agora um zelo ruidoso por Cesar para poderem, em nome da sua autoridade, saciar um ódio sacerdotal--revoltou a rectidão do Romano: e a audaciosa admoestação foi intolerável ao seu orgulho. Desabridamente exclamou, com um gesto que os sacudia:

--Cessai! Os procuradores de Cesar não vêm aprender a uma colonia barbara da Asia os seus deveres para com Cesar!

Manassés que ao meu lado, já impaciente, puxava a barba, afastou-se com indignação. Eu tremi. Mas o soberbo Rabbi prosseguiu, mais indiferente á ira de Poncius do que ao balar de um anho que arrastasse ás aras:

--Que faria o procurador de Cesar em Alexandria se um visionário descesse de Bubastes proclamando-se rei do Egypto? O que tu não queres fazer em esta terra barbara da Asia! Teu amo dá-te a guardar uma vinha, e tu deixas que entrem em ela e que a vindimem? Para que estás então na Judêa, para que está a sexta legião na torre Antonia? Mas o nosso espirito é claro, e a nossa voz é clara e alta bastante, Poncius, para que Cesar a ouça!...

Poncius deu um passo lento para a porta. E com os olhos faiscantes, cravados em aqueles judeus que astutamente o iam enlaçando na trama subtil dos seus rancores religiosos:

--Eu não receio as vossas intrigas! murmurou surdamente. Elius Lamma é meu amigo!... E Cesar conhece-me bem!

--Tu vês o que não está nos nossos corações! disse Rabbi Robam, calmo como se conversasse á sombra do seu vergel. Mas nós vemos bem o que está no teu, Poncius! Que te importa a ti a vida ou a morte de um vagabundo de Galilêa?... Se tu não queres, como dizes, vingar deuses cuja divindade não respeitas, como podes querer salvar um profeta cujas profecias não crês?... A tua malicia é outra, romano! Tu queres a destruição de Judá!

Um estremecimento de cólera, de paixão devota, passou entre os Fariseus: alguns palpavam o seio da túnica como procurando uma arma. E Rabbi Robam continuava, denunciando o Pretor, com serenidade e lentidão:

--Tu queres deixar impune o homem que prégou a insurreição, declarando-se rei em uma província de Cesar, para tentar, pela impunidade, outras ambições mais fortes e levar outro Judas de Gamala a atacar as guarnições de Samaria! Assim preparas um pretexto para abater sobre nós a espada imperial, e inteiramente apagar a vida nacional da Judêa. Tu queres uma revolta para a afogares em sangue, e apresentar-te depois a Cesar como soldado victorioso, administrador sábio, digno de um proconsulado ou de um governo na Itália! É a isso que chamais a fé romana? Eu não estive em Roma, mas sei que a isso se chama lá a fé púnica... Não nos suponhas porém tão simples como um pastor de Idumêa! Nós estamos em paz com Cesar, e cumprimos o nosso dever condemnando o homem que se revoltou contra Cesar... Tu não queres cumprir o teu, confirmando essa condemnação? Bem! Mandaremos emissários a Roma, levando a nossa sentença e a tua recusa, e tendo salvaguardado perante Cesar a nossa responsabilidade, mostraremos a Cesar como procede na Judêa aquele que representa a lei do Império!... E agora, Pretor, podes voltar ao Pretorio.

--E lembra-te dos Escudos Votivos, gritou Sarêas. Talvez novamente vejas a quem Cesar dá razão!

Poncius baixara a face, perturbado. Decerto imaginava já vêr além, em um claro terraço junto ao mar de Capreia, Sejanus, Cesonius, todos os seus inimigos, falando ao ouvido de Tibério e mostrando-lhe os emissários do Templo... Cesar, desconfiado e sempre inquieto, suspeitaria logo um pacto de ele com esse «rei dos Judeus» para sublevarem uma rica província imperial... E assim a sua justiça e o orgulho em a manter podiam custar-lhe o proconsulado da Judêa! Orgulho e justiça foram então na sua alma frouxa como ondas um momento altas que uma sobre outra se abatem, se desfazem. Veio até ao limiar da porta, devagar, abrindo os braços, como trazido por um impulso magnânimo de conciliação--e começou a dizer, mais branco que a sua toga:

--Ha sete anos que governo a Judêa. Encontrastes-me jamais injusto, ou infiel ás promessas juradas?... Decerto as vossas ameaças não me movem... Cesar conhece-me bem... Mas entre nós, para proveito de Cesar, não deve haver desacordo. Sempre vos fiz concessões! Mais que nenhum outro Procurador desde Coponius tenho respeitado as vossas leis... Quando vieram os dois homens de Samaria poluir o vosso Templo, não os fiz eu supliciar? Entre nós não deve haver dissenções, nem palavras amargas...

Um momento hesitou; depois, esfregando lentamente as mãos, e sacudindo-as, como molhadas em uma água impura:

--Quereis a vida de esse visionário? Que me importa? Tomai-a... Não vos basta a flagelação? Quereis a cruz? Crucificai-o... Mas não sou eu que derramo esse sangue!

O levita macilento bradou com paixão:

--Somos nós, e que esse sangue caiã sobre as nossas cabeças!

E alguns estremeceram--crentes de que todas as palavras têm um poder sobrenatural e tornam vivas as coisas pensadas.

Poncius deixara a sala: o Decurião, saudando, cerrou a porta de cedro. Então Rabbi Robam voltou-se, sereno, resplandecente como um justo: e adiantando-se por entre os Fariseus, que se baixavam a beijar-lhe as franjas da túnica--murmurava com uma grave doçura:

--Antes sofra um só homem do que sofra um povo inteiro!

Limpando as bagas de suor de que a emoção me alagara a testa, cahi, tremulo, sobre um banco. E, através da minha lassidão, confusamente distinguia no Pretorio dois legionários, de cinturão desapertado, bebendo em uma grande malga de ferro que um negro ia enchendo com o ôdre suspenso aos hombros; adiante uma mulher bela e forte, sentada ao sol, com os filhos pendurados dos dois peitos nús; mais longe um pegureiro envolto em peles, rindo e mostrando o braço manchado de sangue. Depois cerrei os olhos; um momento pensei na vela que deixara na tenda, ardendo junto ao meu catre, fumarenta e vermelha; por fim roçou-me um sono ligeiro... Quando despertei a cadeira curul permanecia vazia--com a almofada de purpura em frente, sobre o mármore, gasta, cavada pelos pés do Pretor; e uma multidão mais densa enchia, em um longo rumor de arraial, o velho átrio de Herodes. Eram homens rudes, com capas curtas de estamenha, sujas de pó, como se tivessem servido de tapetes sobre as lages de uma praça. Alguns traziam balanças na mão, gaiolas de rolas; e as mulheres que os seguiam, sórdidas e macilentas, atiravam de longe com o braço fremente maldições ao Rabbi. Outros no emtanto, caminhando na ponta das sandálias, apregoavam baixo coisas ínfimas e ricas, metidas no seio entre as dobras dos saiões--grãos de aveia torrada, potes de unguentos, corais, braceletes de filigrana de Sidon. Interroguei Topsius: e o meu douto amigo, limpando os óculos, explicou-me que eram decerto os mercadores contra quem Jesus, na véspera de Paschoa, erguendo um bastão, reclamara a estreita aplicação da Lei que interdiz tráficos profanos no Templo, fora dos pórticos de Salomão...

--Outra imprudencia do Rabbi, D. Raposo! murmurou com ironia o fino historiador.

Entretanto, como cahira a sexta hora judaica e findara o trabalho, vinham entrando obreiros das tinturarias vizinhas, enodoados de escarlate ou azul; escribas das sinagogas apertando debaixo dos braços os seus tabulários; jardineiros com a fouce a tiracolo, o ramo de murta no turbante; alfaiates com uma longa agulha de ferro pendendo da orelha... Tocadores fenícios a um canto afinavam as harpas, tiravam suspiros das flautas de barro: e diante de nós rondavam duas prostitutas gregas de Tiberiade, com perucas amarelas, mostrando a ponta da língua e sacudindo a roda da túnica de onde voava um cheiro de mangerona. Os legionários, com as lanças atravessadas no peito, apertavam uma cercadura de ferro em torno de Jesus: e eu, agora, mal podia distinguir o Rabbi através de essa multidão susurrante, em que as consoantes ásperas de Moab e do deserto se chocavam por sobre a moleza grave da fala chaldaica...

Por baixo da galeria veio tilintando uma sineta triste. Era um hortelão que oferecia em um cabaz de esparto, acamados sobre folhas de parra, figos rachados de Bephtagé. Debilitado pelas emoções, perguntei-lhe, debruçado no parapeito, o preço de aquele mimo dos vergeis que os Evangelhos tanto louvam. E o homem, rindo, alargou os braços como se encontrasse o esperado do seu coração:

--Entre mim e ti, ó creatura de abundancia que vens de além do mar, que são estes poucos figos? Jehovah manda que os irmãos troquem presentes e bençãos! Estes fructos colhi-os no horto, um a um, á hora em que o dia nasce no Hebron; são suculentos e consoladores; poderiam ser postos na mesa de Hannan!... Mas que valem vãs palavras entre mim e ti se os nossos peitos se entendem? Toma estes figos, os melhores da Syria, e que o Senhor cubra de bens aquela que te criou!

Eu sabia que esta oferta era uma cortesia consagrada, em compras e vendas, desde o tempo dos Patriarchas. Cumpri também o ceremonial: declarei que Jehovah, o muito forte, me ordenava que com o dinheiro cunhado pelos Principes eu pagasse os fructos da Terra... Então o hortelão abaixou a cabeça, cedeu ao mandamento divino; e pousando o cesto nas lages, tomando um figo em cada uma das mãos negras e cheias de terra:

--Em verdade, exclamou, Jehovah é o mais forte! Se ele o manda, eu devo pôr um preço a estes fructos da sua bondade, mais dôces que os lábios da esposa! Justo é pois, ó homem abundante, que por estes dois que me enchem as palmas, tão perfumados e frescos, tu me dês um bom traphik.

Oh Deus magnifico de Judá! O facundo hebreu reclamava por cada figo um tostão da moeda real da minha pátria! Bradei-lhe:--«Irra, ladrão!» Depois, guloso e tentado, ofereci-lhe um drachma por todos os figos que coubessem no forro largo de um turbante. O homem levou as mãos ao seio da túnica, para a despedaçar na imensidade da sua humilhação. E ia invocar Jehovah, Elias, todos os Prophetas seus patronos--quando o sapiente Topsius, enojado, interveio secamente, mostrando-lhe uma miúda rodela de ferro que tinha por cunho um lírio aberto:

--Na verdade Jehovah é grande! E tu és ruidoso e vazio como o ôdre cheio de vento! Pois pelos figos do cesto inteiro te dou eu este meah. E se não queres, conheço o caminho dos hortos tão bem como o do Templo, e sei onde as águas dôces de Enrogel banham os melhores pomares... Vai-te!

O homem logo, trepando anciosamente até ao parapeito de mármore, atulhou de figos a ponta do albornoz que eu lhe estendera, carrancudo e digno. Depois, descobrindo os dentes brancos, murmurou risonhamente que nós eramos mais benéficos que o orvalho do Carmelo!

Saborosa e rara me parecia aquela merenda de figos de Bephtagé, no palácio de Herodes. Mas apenas nos acomodáramos com a fruta no regaço, reparei em baixo em um velhito magro, que cravava em nós humildemente uns olhos enevoados, queixosos, cheios de cansaço. Compadecido ia arremessar-lhe figos e uma moeda de prata dos Ptolomeus--quando ele, mergulhando a mão tremula nos farrapos que mal lhe velavam o peito cabeludo, estendeu-me, com um sorriso macerado, uma pedra que reluzia. Era uma placa oval de alabastro tendo gravada uma imagem do Templo. E enquanto Topsius doutamente a examinava, o velho foi tirando do seio outras pedras de mármore, de ônix, de jaspe, com representações do Tabernaculo no deserto, os nomes das tribus entalhados, e figuras confusas em relevo simulando as batalhas dos Machabeus... Depois ficou com os braços cruzados; e no seu pobre rosto escavado pelos cuidados luzia uma ansiedade, como se de nós somente esperasse misericórdia e descanso.

Topsius deduziu que ele era um de esses Guebros, adoradores do fogo e habeis nas artes, que vão descalços até ao Egypto, com fachos acesos, salpicar sobre a Esfinge o sangue de um galo negro. Mas o velho negou, horrorisado--e tristemente murmurou a sua historia. Era um pedreiro de Naim, que trabalhara no Templo e nas construcções que Antipas Herodes erguia em Bezetha. O açoite dos intendentes rasgara-lhe a carne; depois a doença levara-lhe a força como a geada seca a macieira. E agora, sem trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava pedras raras nos montes--e gravava em elas nomes santos, sítios santos, para as vender no Templo aos fieis. Em véspera de Paschoa, porém, viera um Rabbi de Galilêa cheio de cólera que lhe arrancara o seu pão!...

--Aquele! balbuciou sufocado, sacudindo a mão para o lado de Jesus.

Eu protestei. Como lhe poderia ter vindo a injustiça e a dor de esse Rabbi, de coração divino, que era o melhor amigo dos pobres?

--Então vendias no Templo? perguntou o terso historiador dos Herodes.

--Sim, suspirou o velho, era lá, pelas festas, que eu ganhava o pão do longo ano! em esses dias subia ao Templo, ofertava a minha prece ao Senhor, e junto á porta de Suza, diante do Portico do Rei, estendia a minha esteira e dispunha as minhas pedras que brilhavam ao sol... Decerto, eu não tinha direito de pôr ali tenda: mas como poderia eu pagar ao Templo o aluguer de um covado de lagedo para vender o trabalho das minhas mãos! Todos os que apregôam á sombra, debaixo do pórtico, sobre taboleiros de cedro, são mercadores ricos que podem satisfazer a licença: alguns pagam um siclo de ouro. Eu não podia com crianças em casa sem pão... Por isso ficava a um canto, fora do pórtico, no peor sitio. Ali estava bem encolhido, bem calado; nem mesmo me queixava quando homens duros me empurravam ou me davam com os bastões na cabeça. E ao pé de mim havia outros, pobres como eu: Eboim, de Jopé, que oferecia um óleo para fazer crescer os cabelos, e Osêas, de Ramah, que vendia flautas de barro... Os soldados da Torre Antonia que fazem a ronda passavam por nós e desviavam os olhos. Até Menahem, que estava quase sempre de guarda pela Paschoa, nos dizia:--«está bem, ficai, comtanto que não apregoeis alto.» Porque todos sabiam que eramos pobres, não podiamos pagar o covado de lage, e tinhamos nas nossas moradas crianças com fome... Na Paschoa e nos Tabernaculos vêm da terra distante peregrinos a Jerusalem; e todos me compravam uma imagem do Templo para mostrar na sua aldeia, ou uma das pedras da lua que afugentam o demônio... Ás vezes, ao fim do dia, tinha feito três drachmas; enchia o saião de lentilha e descia ao meu casebre, alegre, cantando os louvores do Senhor!...

Eu, de enternecido, esquecera a merenda. E o velho desafogava o seu longo queixume:

--Mas eis que ha dias esse Rabbi de Galilêa aparece no Templo, cheio de palavras de cólera, ergue o bastão e arremessa-se sobre nós, bradando que aquela «era a casa de seu pai, e que nós a polluiamos!...» E dispersou todas as minhas pedras, que nunca mais vi, que eram o meu pão! Quebrou nas lages os vasos de óleo de Eboim, de Jopé, que nem gritava, espantado. Acudiram os guardas do Templo. Menahem acudiu também; até, indignado, disse ao Rabbi:--«És bem duro com os pobres. Que autoridade tens tu?» E o Rabbi falou «de seu pai», e reclamou contra nós a lei severa do Templo. Menahem baixou a cabeça... E nós tivemos de fugir, apupados pelos mercadores ricos, que bem encruzados nos seus tapetes de Babylonia, e com o seu lagedo bem pago, batiam palmas ao Rabbi... Ah! contra esses o Rabbi nada podia dizer: eram ricos, tinham pago!... E agora aqui ando! Minha filha, viúva e doente, não póde trabalhar, embrulhada a um canto nos seus trapos: e os filhos de minha filha, pequeninos, têm fome, olham para mim, veem-me tão triste e nem choram. E que fiz eu? Sempre fui humilde, cumpro o Sabbat, vou á sinagoga de Naim que é a minha, e as raras migalhas que sobravam do meu pão juntava-as para aqueles que nem migalhas têm na terra... Que mal fazia eu vendendo? Em que ofendia o Senhor? Sempre, antes de estender a esteira, beijava as lages do Templo: cada pedra era purificada pelas águas lustrais... Em verdade Jehovah é grande, e sabe... Mas eu fui expulso pelo Rabbi, somente porque sou pobre!

Calou-se--e as suas mãos magras, tatuadas de linhas magicas, tremiam, limpando as longas lagrimas que o alagavam.

Bati no peito, desesperado. E a minha angustia toda era por Jesus ignorar esta desgraça, que, na violência do seu espiritualismo, suas mãos misericordiosas tinham involuntariamente creado, como a chuva benéfica por vezes, fazendo nascer a sementeira, quebra e mata uma flôr isolada. Então para que não houvesse nada imperfeito na sua vida, nem de ela ficasse uma queixa na terra--paguei a divida de Jesus (assim seu Pai perdoe a minha!) atirando para o saião do velho moedas consideraveis, drachmas, crisos gregos de Philippe, áureos romanos de Augusto, até uma grossa peça da Cyrenaica que eu estimava por ter uma cabeça de Zeus Amnon que parecia a minha imagem. Topsius juntou a este tesouro um lepta de cobre--que tem em Judêa o valor de um grão de milho...

O velho pedreiro de Naim empalidecia, sufocado. Depois, com o dinheiro em uma dobra do saião, bem apertado contra o peito, murmurou tímida e religiosamente, erguendo os olhos ainda molhados para as alturas:

--Pai, que estás nos céus, lembra-te da face de este homem, que me deu o pão de longos dias!...

E soluçando sumiu-se entre a turba--que agora de todo o átrio rumorosamente affluia, se apinhava em torno aos mastros altos do velário. O escriba aparecera, mais vermelho e limpando os beiços. Ao lado do Rabbi e dos guardas do Templo, Sarêas viera perfilar-se encostado ao seu baculo. Depois, entre um brilho de armas, surgiram as varas brancas dos lictores: e novamente Poncius, pálido e pesado, na sua vasta toga, subiu os degraus de bronze, retomou o o Assento Curul.

Um silencio cahiu, tão atento, que se ouviam as bozinas tocando ao longe na Torre Mariana. Sarêas desenrolou o seu escuro pergaminho, estendeu-o sobre a mesa de pedra entre os tabulários: e eu vi as mãos gordas e morosas do escriba traçarem uma rubrica, estamparem um selo sob as linhas vermelhas que condemnavam á morte Jesus de Galilêa, meu Senhor... Depois Poncius Pilatus, com uma dignidade indolente, erguendo apenas de leve o braço nú, confirmou em nome de Cesar a «sentença do Sanhedrin, que julga em Jerusalem...»

Imediatamente Sarêas atirou sobre o turbante uma ponta do manto, ficou orando, com as mãos abertas para o céo. E os Fariseus triumphavam: junto a nós, dois muito velhos beijavam-se em silencio nas barbas brancas: outros sacudiam no ar os bastões, ou lançavam sarcasticamente a aclamação forense dos romanos: «Bene et belê! Non potest melius!»

Mas de súbito o Interprete apareceu em cima de um escabelo, alteando sobre o peito o seu papagaio flamante. A turba emudecera, surprehendida. E o fenício, depois de ter consultado com o escriba, sorriu, gritou em chaldaico, alargando os braços cercados de manilhas de coral:

--Escutai! em esta vossa festa de Paschoa, o Pretor de Jerusalem costuma, desde que Valerius Gratus assim o determinou, e com assenso de Cesar, perdoar a um criminoso... O Pretor propõe-vos o perdão de este... Escutai ainda! Vós tendes também o direito de escolher, vós mesmos, entre os condemnados... O Pretor tem em seu poder, nos ergástulos de Herodes, outro sentenciado á morte...

Hesitou,--e debruçado do escabelo interrogava de novo o escriba que remexia em uma atarantação os papiros e os tabulários. Sarêas, sacudindo a ponta do manto que escondia a sua oração, ficara assombrado para o Pretor, com as mãos abertas no ar. Mas já o Interprete bradava, erguendo mais a face risonha:

--Um dos condemnados é Rabbi Jeschoua, que aí tendes, e que se disse filho de David... É esse que propõe o Pretor. O outro, endurecido no mal, foi preso por ter morto um legionário traiçoeiramente, em uma rixa, ao pé do Xistus. O seu nome é Bar-Abbás... Escolhei!

Um grito brusco e roufenho partiu de entre os Fariseus:

--Bar-Abbás!

Aqui e além, pelo átrio, confusamente resoou o nome de Bar-Abbás. E um escravo do Templo, de saião amarelo, pulando até aos degraus do sólio, rompeu a berrar, em face de Poncius, com palmadas furiosas nas côxas:

--Bar-Abbás! Ouve bem! Bar-Abbás! O povo só quer Bar-Abbás!

A haste de um legionário fel-o rolar nas lages. Mas já toda a multidão, mais leve e fácil de inflamar do que a palha na meda, clamava por Bar-Abbás: uns com furor, batendo as sandálias e os cajados ferrados como para aluir o Pretorio; outros de longe, encruzados ao sol, indolentes e erguendo um dedo. Os vendilhões do Templo, rancorosos, sacudindo as balanças de ferro e repicando sinetas, berravam, por entre maldições ao Rabbi: «Bar-Abbás é o melhor!» E até as prostitutas de Tiberiade, pintadas de vermelhão como ídolos, feriam o ar de gritos silvantes:

--Bar-Abbás! Bar-Abbás!

Raros ali conheciam Bar-Abbás; muitos, de certo, não odiavam o Rabbi--mas todos engrossavam o tumulto promptamente, sentindo, em essa reclamação do preso que atacara Legionarios, um ultraje ao Pretor romano, togado e augusto no seu tribunal. Poncius no entanto, indiferente, traçava letras em uma vasta lauda de pergaminho pousada sobre os joelhos. E em torno os clamores disciplinados retumbavam em cadencia, como malhos em uma eira:

--Bar-Abbás! Bar-Abbás! Bar-Abbás!

Então Jesus, vagarosamente, voltou-se para aquele mundo duro e revoltoso que o condemnava: e nos seus refulgentes olhos humedecidos, no fugitivo tremor dos seus lábios, só transpareceu em esse instante uma mágua misericordiosa pela opaca inconsciencia dos homens, que assim empurravam para a morte o melhor amigo dos homens... Com os pulsos presos, limpou uma gota de suor: depois ficou diante do Pretor, tão imperturbado e quêdo, como se já não pertencesse á terra.

O escriba, batendo com uma regra de ferro na pedra da mesa, três vezes bradara o nome de Cesar. O tumulto ardente esmorecia. Poncius ergueu-se: e grave, sem trahir impaciência ou cólera, lançou, sacudindo a mão, o mandado final:

--Ide e crucificai-o!

Desceu o estrado; a turba batia ferozmente as palmas.

Oito soldados da cohorte Syriaca apareceram, apetrechados em marcha, com os escudos revestidos de lona, as ferramentas entrouxadas, e o largo cantil da posca. Sarêas, vogal do Sanhedrin, tocando no hombro de Jesus, entregou-o ao decurião: um soldado desapertou-lhe as cordas, outro tirou-lhe o albornoz de lã: e eu vi o dôce Rabbi de Galilêa dar o seu primeiro passo para a morte.

Apressados, enrolando o cigarro, deixámos logo o palácio de Herodes por uma passagem que o douto Topsius conhecia, lobrega e humida, com fendas gradeadas de onde vinha um canto triste de escravos encarcerados... Sahimos a um terreiro, abrigado pelo muro de um jardim todo plantado de ciprestes. Dois dromedários deitados no pó ruminavam, junto de um montão de hervas cortadas. E o alto historiador tomava já o caminho do Templo, quando, sob as ruínas de um arco que a hera cobria, vimos povo apinhado em torno de um Essenio, cujas mangas de alvo linho batiam o ar como as azas de um pássaro irritado.

Era Gad, rouco de indignação, clamando contra um homem esgrouviado, de barba rala e ruiva, com grossas argolas de ouro nas orelhas, que tremia e balbuciava:

--Não fui eu, não fui eu...

--Foste tu! bradava o Essenio, estampando a sandália na terra. Conheço-te bem. Tua mãe é cardadeira em Capárnaum, e maldita seja pelo leite que te deu!...

O homem recuava, baixando a cabeça, como um animal encurralado á força:

--Não fui eu! Eu sou Rephrahim, filho de Eliesar, de Ramah! Sempre todos me conheceram são e forte como a palmeira nova!

--Torto e inutil eras tu como um sarmento velho de vide, cão e filho de um cão! gritou Gad. Vi-te bem... Foi em Capárnaum, na viela onde está a fonte, ao pé da Synagoga, que tu apareceste a Jesus, Rabbi de Nazaré! Beijavas-lhe as sandálias, dizias «Rabbi, cura-me! Rabbi, vê esta mão que não póde trabalhar!» E mostravas-lhe a mão, essa, a direita, seca, mirrada e negra, como o ramo que definhou sobre o tronco! Era no Sabbath: estavam os três chefes da Synagoga, e Elzear, e Simeon. E todos olhavam Jesus para vêr se ele ousaria curar no dia do Senhor... Tu choravas, de rojo no chão. E por acaso o Rabbi repeliu-te? Mandou-te procurar a raiz do baraz? Ah cão, filho de um cão! O Rabbi, indiferente ás acusações da Synagoga, e só escutando a sua misericórdia, disse-te: «estende a mão!» Tocou-a, e ela reverdeceu logo como a planta regada pelo orvalho do céo! Estava sã, forte, firme; e tu movias ora um dedo, ora outro, espantado e tremendo.

Um murmurio de enlevo correu entre a multidão, maravilhada pelo dôce milagre. E o Essenio exclamava, com os braços trêmulos no ar:

--Assim foi a caridade do Rabbi! E estendeu-te ele a ponta do manto, como fazem os Rabbis de Jerusalem, para que lhe deitasses dentro um siclo de prata? Não. Disse aos seus amigos que te dessem da provisão de lentilha... E tu largaste a correr pelo caminho, refeito e ágil, gritando para o lado da tua casa: «Oh mãe, oh mãe, estou curado!...» E foste tu, porco e filho de porco, que ha pouco no Pretorio pedias a cruz para o Rabbi e gritavas por Bar-Abbás! Não negues, boca imunda; eu ouvi-te; estava por traz de ti, e via incharem-te as cordoveias do pescoço com o furor da tua ingratidão!

Alguns, escandalisados, gritavam: «maldito! maldito!» Um velho, com justiceira gravidade, apanhara duas grossas pedras. E o homem de Capárnaum, encolhido, esmagado, ainda rosnou surdamente:

--Não fui eu, não fui eu... Eu sou de Ramah!

Gad, furioso, agarrou-o pelas barbas:

--em esse braço, quando o arregaçaste diante do Rabbi, todos te viram duas cicatrizes curvas como de dois golpes de foice!... E tu vais mostral-as agora, cão e filho de um cão!

Despedaçou-lhe a manga da túnica nova; arrastou-o em redor, apertado nas suas mãos de bronze, como um bode teimoso; mostrou bem as duas cicatrizes, lividas no pelo ruivo; e assim o arremessou desprezivelmente para entre o povo--que, levantando o pó do caminho, perseguiu o homem de Capárnaum com apupos e com pedradas...

Acercamo-nos de Gad sorrindo, louvando a sua fidelidade a Jesus. Ele, acalmado, estendera as mãos a um vendedor de água, que lhas purificava com um largo jorro do seu ôdre felpudo: depois limpando-as á toalha de linho que lhe pendia do cinto:

--Escutai! José de Ramatha reclamou o corpo do Rabbi, o Pretor concedeu-lh'o... Esperai-me á nona hora romana no pátio de Gamaliel... Onde ides?

Topsius confessou que íamos ao Templo, por motivos intelectuais de arte, de archeologia...

--Vão é aquele que admira pedras! rosnou o altivo idealista.

E afastou-se puxando o capuz sobre a face, por entre as bençãos do povo que crê e ama os Essenios.

* * * * *

Para poupar, até ao Templo, a rude caminhada pelo Tyropêo e pela ponte do Xistus, tomámos duas liteiras--das que um liberto de Poncius ultimamente alugava, junto ao Pretorio, «á moda de Roma».

Cançado, estirei-me, com as mãos sob a nuca, no colchão de folhas secas que cheirava a murta: e lentamente começou a invadir-me a alma uma inquietação estranha, temerosa, que já no Pretorio me roçara de leve como a aza arripiada de uma ave agourenta... Ia eu ficar para sempre em esta cidade forte dos Judeus? Perdera eu irremediavelmente a minha individualidade de Raposo, de católico, de bacharel, contemporâneo do Times e do Gaz--para me tornar um homem da Antiguidade clássica, coevo de Tibério? E, dado este mirifico retrogresso nos tempos, se voltasse á minha pátria, que iria eu encontrar á beira do rio claro?...

Decerto encontraria uma colonia romana: na encosta da colina mais fresca uma edificação de pedra onde vive o proconsul; ao lado um templo pequeno de Apolo ou de Marte coberto de lousa; nos altos um campo entrincheirado onde estão os legionários; e em redor a vila lusitana, esparsa, com os seus caminhos agrestes, cabanas de pedra solta, alpendres para recolher o gado, e estacadas no lodo onde se amarram jangadas... Assim encontraria a minha pátria. E que faria lá, pobre, solitário? Seria pastor nos montes? Varreria as escadarias do Templo, racharia a lenha das cohortes para ganhar um salario romano?... Miseria incomparável!

Mas se ficasse em Jerusalem? Que carreira tomaria em esta sombria, devota cidade da Asia? Tornar-me-hia um Judeu, resando o Schema, cumprindo o Sabbath, perfumando a barba de nardo, indo preguiçar nos átrios do Templo, seguindo as lições de um Rabbi, e passeando ás tardes, com um bastão dourado, nos jardins de Gareb entre os túmulos?... E esta existência igualmente me parecia pavorosa!... Não! a ficar encarcerado no mundo antigo com o doutissimo Topsius, então deveriamos galopar em essa mesma noite, ao erguer da lua, para Jopé; de lá embarcar em qualquer trirema fenícia que partisse para Itália; e ir habitar Roma, ainda que fosse em uma das escuras vielas do Velabro, em uma de essas altas, fumarentas trapeiras, com duzentas escadas a subir, empestadas pelos guisados de alho e tripa, que escassamente atravessam duas calendas sem desabar ou arder.

Assim me inquietava quando a liteira parou; descerrei as cortinas; vi ante mim os vastos granitos da muralha do Templo. Penetrámos sob a abobada da porta de Huldah; e fômos logo detidos enquanto os guardas do Templo arrancavam a um pegureiro, teimoso e rude, a clava armada de prégos com que ele queria atravessar o Santuario. O rolante rumor que vinha de longe, dos Atrios, já me atemorisava, semelhante ao de uma selva ou de um grande mar irritado...

E ao emergir emfim da abobada estreita agarrei o braço magro do Historiador dos Herodes, no deslumbramento que me tornou, intenso e repassado de terror! Um brilho de neve e ouro vibrava profusamente no ar mole, irradiado dos claros mármores, dos granitos brunidos, dos recamos preciosos banhados pelo divino sol de Nizam. Os lisos páteos que eu de manhã vira desertos, alvejando como a água quieta de um lago, desapareciam agora sob o povo que os atulhava, adornado e festivo. Os cheiros estonteavam, acres, emanados dos estofos tingidos, das resinas aromáticas, da gordura frigindo em brazas. Sobre o denso ruido passavam roucos mugidos de bois. E perenemente os fumos votivos se sumiam na refulgencia do céo...

--Caramba! murmurei, enfiado. Isto são magnificências de entupir!

Fômos penetrando sob os Porticos de Salomão, onde resoava o profano tumulto de um mercado. Por traz de grossas caixas gradeadas encruzavam-se os Cambistas, com uma moeda de ouro pendente da orelha entre as melenas sórdidas, trocando o dinheiro sacerdotal do Templo pelas moedas pagãs de todas as regiões, de todas as idades, desde as macissas rodelas do velho Lacio mais pesadas que broqueis, até aos tijolos gravados que circulam, como «notas» nas feiras da Assyria. Adiante, brilhava a frescura e abundancia de um pomar: as romãs, estaladas de maduras, trasbordavam dos gigos: hortelões com um ramo de amendoeira preso ao carapuço apregoavam grinaldas de anemonas ou hervas amargas de Paschoa: jarras de leite puro pousavam sobre sacos de lentilha; e os cordeiros, deitados nas lages, amarrados pelas patas ás columnas, balavam tristemente de sede.

Mas a multidão sobretudo apinhava-se, com suspiros de cúbica, em torno aos tecidos e ás joias. Mercadores das colonias fenícias, das Ilhas gregas, de Tardis, da Mesopotamia, de Tadmor, uns com soberbas simarras de lã bordada, outros com toscos tabardos de couro pintado, desdobravam os panos azuis de Tyro que reproduzem o brilho ardente dos céus do Oriente, as sedas impudicas de Sheba de uma transparência verde que vôa na aragem, e esses estofos solemnes de Babylonia que sempre me extasiavam, negros com largas flôres cor de sangue... Dentro de cofres de cedro, espalhados sobre tapetes da Galacia, reluziam espelhos de prata simulando a lua e os seus raios, sinetes de turmalina que os hebreus usam ao peito, manilhas de pedrarias enfiadas em cornos de antílopes, diademas de sal-gema com que se enfeitam os noivos; e, resguardadas mais preciosamente, talismans e amuletos que me pareciam pueris, pedaços de raízes, pedregulhos negros, couros tisnados e ossos com letras.

Topsius ainda parou entre as tendas dos perfumistas apreçando um esplendido bastão de Tylos, de uma rara madeira mosqueada como a pele do tigre, mas logo fugimos ao ardente cheiro que ali sufocava, vindo das resinas, das gomas dos paizes dos Negros, dos molhos de plumas de abestruz, da mirra de Oronte, das ceras de Cirenaica, dos óleos rosados de Cysico, e das grandes coifas de pele de hipopótamo cheias de violetas secas e de folhas de bácaris...

Entrámos então na galeria chamada Real, toda votada á Doutrina e á Lei. Aí, cada dia, tumultuam rancorosamente as controvérsias entre Sadduceus, Escribas, Sophorins, Fariseus, sectários de Schemaia, sectários de Hillel, Juristas, Grammaticos, fanáticos de toda a terra judaica. Junto ás columnas de mármore instalavam-se os Mestres da Lei, sobre altos escabelos, tendo ao lado um prato de metal onde cahiam os óbolos dos fieis: e em torno, encruzados no chão, com as sandálias ao pescoço, as pelicas cobertas de letras vermelhas desdobradas nos joelhos, os discípulos, imberbes ou decrépitos, resmoneavam os dictames balançando os hombros lentos. Aqui e além, no meio de devotos embebidos, dois doutores disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos pontos da Doutrina. «Póde-se comer um ovo de galinha posto no dia de Sabbath? Por que osso da espinha dorsal começa a Resurreição?» O filosófico Topsius ria, disfarçado em uma préga da capa: mas eu tremia quando os doutores, escaveirados e barbudos, se ameaçavam, gritavam raca! raca! mergulhando a mão no seio da túnica á procura de um ferro escondido.

A cada momento cruzavamos esses Fariseus, resoantes e vazios como tambores, que vêm ao Templo assoalhar a sua piedade--uns com as costas vergadas, esmagadas pela vastidão do pecado humano; outros, tropeçando e apalpando o ar, de olhos fechados, para não vêr as formas impuras das mulheres; alguns mascarrados de cinza, gemendo, com as mãos apertadas sobre o estomago--em testemunho dos seus duros jejuns! Depois Topsius mostrou-me um Rabbi, interpretador de sonhos: em um carão livido e chupado os seus olhos fundos luziam com a tristeza de lampadas de sepulchro: e, sentado sobre sacos de lã, estendia por cima de cada devoto, que vinha ajoelhar aos seus pés nús, a ponta de um vasto manto negro com signos brancos pintados. Eu, curioso, pensava em o consultar--quando de repente gritos afflictos resoaram no átrio. Corremos. Eram levitas, com cordas e vergas, chibatando furiosamente um leproso que, em estado de impureza, penetrara no pátio de Israel. O sangue salpicava as lages. Em torno crianças riam.

Ia caindo a sexta hora judaica, a mais grata ao Senhor, quando o sol, na sua marcha para o mar, para sobre Jerusalem a contemplal-a com paixão: e, para nos acercarmos do «átrio de Israel», fomos penosamente fendendo a multidão que ali remoinhava vinda de toda a terra culta e barbara... O rude saião de peles dos pegureiros das Idumêas roçava a chlamyde curta dos gregos de face rapada e mais brancos que mármores. Havia homens solemnes da planície de Babylonia, com as barbas metidas dentro de sacos azuis que uma corrente de prata lhes prendia ás mitras de couro pintado: e havia gaulezes ruivos, de bigodes pendentes como as hervas das suas lagôas, que riam e parolavam, devorando com a casca os limões dôces da Syria. Por vezes um romano togado passava, tão grave como se descesse de um pedestal. Gente da Dacia e da Mysia, com as pernas enfeixadas em ligaduras de feltro, tropeçava deslumbrada pelo claro esplendor dos mármores. E não era menos estranho ir eu, Teodorico Raposo, arrastando ali as minhas botas de montar, atraz de um Sacerdote de Moloch, enorme e sensual na sua simarra de purpura, que, em meio de um bando de mercadores de Serepta, desdenhava de aquele templo sem imagens, sem bosques, e mais ruidoso que uma feira fenícia.

Assim lentamente nos fomos chegando á porta chamada «A Bela», que dava acesso para o Atrio sagrado de Israel. Bela em verdade, preciosa e triunfal, sobre os quatorze degraus de mármore verde de Numidia, mosqueado de amarelo: os seus largos batentes, revestidos de chapas de prata, faiscavam como os de um reliquario: e os dois humbraes, semelhantes a grossos molhos de palmas, sustentavam uma torre, redonda e branca, guarnecida de escudos tomados aos inimigos de Judá, brilhantes no sol como um colar de gloria sobre o pescoço forte de um herói! Mas diante de este adito maravilhoso erguia-se severamente um pilar, encimado por uma placa negra com letras de ouro, onde se desenrolava esta ameaça em grego, em latim, em aramaico, em chaldaico: que nenhum Estrangeiro aqui penetre sob pena de morrer!

Fortunadamente avistámos o magro Gamaliel que se encaminhava ao Santo Pátio, descalço, apertando ao peito um molho de espigas votivas: com ele vinha um homem nédio e risonho, de face cor de papoula, coroado por uma enorme mitra de lã negra enfeitada de fios de coral... Curvados até ás lages, saudámos o austero Doutor da Lei. Ele psalmodiou logo, de pálpebras cerradas:

--Sede bemvindos... Esta é a hora melhor para receber a benção do Senhor. O Senhor disse: «sai das vossas habitações, vinde a mim com as primícias dos vossos fructos, eu vos abençoarei em todas as obras das vossas mãos...» Vós hoje pertenceis miraculosamente a Israel. Subi á morada do Eterno! Este que vem a meu lado é Eliezer de Silo, benéfico e sábio entre todos nas coisas da natureza.

Deu-nos duas espigas de milho: e atraz de ele pisámos com as nossas solas gentílicas o Adro interdicto de Judá.

Caminhando ao meu lado, Eliezer de Silo, cortez e suave, perguntou-me se era remota a minha pátria e perigosos os seus caminhos...

Eu rosnei, vaga e recatadamente:

--Sim... Chegamos de Jerichó.

--Boa, por lá, a colheita do balsamo?

--Rica! afiancei, com calor. Louvado seja o Eterno, que em este seu ano de graça estamos lá abarrotadinhos de balsamo!

Ele pareceu regosijado. E revelou-me então que era um dos Medicos que residem no Templo--onde os Sacerdotes e os Sacrificadores sofrem perenemente «dissabores intestinais», por pisarem suados e descalços as lages frias dos Adros.

--Por isso, murmurou ele com uma faísca alegre no olho benigno, o povo em Sião nos chama Doutores da Tripa!

Torci-me de riso, de gozo, com aquela jocosidade assim susurrada na austera morada do Eterno... Depois, recordando os meus dissabores intestinais em Jerichó, por muito amar os divinos e pérfidos melões da Syria--perguntei ao amável Físico se em essas ocorrências ele preconisava o bismuto...

O homem magistral abanou cautamente a sua mitra bojuda. Depois, espetando um dedo no ar, segredou-me esta receita incomparável:

--Tomai goma de Alexandria, açafrão de jardim, uma cebola da Persia e vinho negro de Emmaus... Misturai, cozei... Deixai esfriar em um vaso de prata... Collocai-vos em uma encruzilhada, ao nascer do sol...

Mas emudeceu subitamente, com os braços abertos e a face pendida para as lages. Penetráramos no soberbo adro, chamado «Pátio das Mulheres»: e em esse instante terminavam as Bençãos que á sexta hora um sacerdote vem ali derramar do alto da porta de Nicanor.

Severa, toda de bronze--ela deixava entrevêr, lá ao fundo, os ouros, a neve, as pedrarias do Santuario refulgindo com serenidade... Nos largos degraus, mais lustrosos que alabastro, desenrolavam-se duas colegiadas de levitas, ajoelhados e vestidos de branco--uns com uma trompa recurva, outros pousando os dedos sobre as cordas mudas de liras. E, por entre estas alas de homens prostrados, um grande velho emaciado vinha descendo devagar os degraus, com um incensador de ouro na mão...

A sua túnica justa de byssus tinha a fimbria orlada de pinhas de esmeralda, alternando com guizos que tiniam finamente; os pés sem sandálias e tingidos de heneh pareciam de coral; e ao meio da facha que lhe cingia as costelas magras brilhava, bordado a ouro, um grande sol. Os fieis ajoelhados, quedos, sem um murmurio, quase pousavam nas lages a cabeça escondida sob os mantos e sob os véos: e com as cores festivas, onde dominava o vermelho da anemona e o verde da figueira, era como se o adro estivesse juncado de flôres e folhagens, em uma manhã de triunfo, para passar Salomão!

Com a barba aguda e dura levantada aos céus--o velho incensou o lado do Oriente e das areias, depois o lado do Ocidente e dos mares; e o recolhimento era tão enlevado que se ouviam no fundo do Santuario os mugidos lentos dos bois. Desceu ainda, alçou mais a mitra salpicada de joias, atirou o incensador que rangeu faiscando ao sol--e com o fumo branco veio rolando tênue e cheirosa, sobre Israel, a benção do Muito-Forte. Então os levitas, unisonamente, feriram as cordas das liras: das trombetas curvas subiu um grito de bronze: e todo o povo erguido, com os braços ao céo, entoou um psalmo celebrando a eternidade de Judá... E subitamente tudo cessou: os Levitas recolhiam pela escadaria de mármore sem um rumor dos pés nús: Eliezer de Silo e o rígido Gamaliel tinham desaparecido sob os Porticos: e o claro pátio em redor resplandecia sumptuoso e cheio de mulheres.

Os revestimentos de alabastro eram tão lustrosos que Topsius mirava em eles como em um espelho as pregas nobres da sua capa: todos os fructos da Asia e as flôres dos vergeis se entrelaçavam, em copiosos lavores de prata, nas portas das câmaras rituais onde se perfuma o óleo, se consagra a lenha, se purifica a lepra: entre as columnas pendiam em festões fios grossos de perolas e de contas de ônix, mais numerosos que no peito de uma noiva: e nos mealheiros de bronze, semelhantes a trombetas de guerra colossais, pousadas nas lages, enrolavam-se, cintilando e reclamando as dadivas, inscripções em relevo de ouro, graciosas como versos de cânticos--Queimai Incensos e Nardos, Offertai Pombas e Rôlas...

Mas o santo adro resplandecia de mulheres: e meus olhos bem depressa deixaram metais e mármores, para captivadamente se prenderem àquelas filhas de Jerusalem, cheias de graça e morenas como as tendas do Cedar! Todas traziam no Templo o rosto descoberto: ou apenas um fôfo véu, de uma musselina leve como o ar, á moda romana, enrodilhado finamente no turbante, punha em torno das faces uma alvura de espuma, onde os olhos negros tomavam um quebranto mais humido, enlanguecidos pelas densas pestanas, alongados pela tintura de cypro. A abundancia barbara dos ouros, das pedrarias, envolvia-as em uma radiância tremula desde os peitos fortes até aos cabelos mais crespos que a lã das cabras de Galaad. As sandálias, ornadas de guizos e de correntes, arrastavam sobre as lages uma melodia argentina, tanta era a graça concertada dos seus movimentos ondulados e graves: e os tecidos bordados, os algodões de Galacia, os finos linhos de cores que as cingiam, ensopados nas escencias ardentes de âmbar, de malóbatro e de bácaris, enchiam o ar de fragancia e de moleza a alma dos homens. As mais ricas caminhavam solenemente entre escravas vestidas de panos amarelos, que lhes traziam o párasol de penas de pavão, os rolos devotos em que está escripta a Lei, sacos de tâmaras dôces, espelhos ligeiros de prata. As mais pobres, com uma simples camisa de algodão de riscadinho multicôr, e sem mais joias que um rude talisman de coral, corriam, chalravam, mostrando nús os braços e o colo cor de medronho mal maduro... E sobre todas o meu desejo zumbia--como uma abelha que hesita entre flôres de igual doçura!

--Ai Topsius, Topsius! rosnava eu. Que mulheres! Que mulheres! Eu estoiro, esclarecido amigo!

O sábio afirmava com desdem que elas não tinham mais intelectualidade que os pavões dos jardins de Antipas; e que nenhuma decerto ali lera Aristóteles ou Sophocles!... Eu encolhia os hombros. Oh esplendor dos céus! por qual de estas mulheres que não lera Sophocles não daria eu, se fosse Cesar, uma cidade de Itália e toda a Iberia! Umas entonteciam-me pela sua graça dolente e macerada de virgens de devoção, vivendo na penumbra constante dos quartos de cedro, com o corpo saturado de perfumes, a alma esmagada de orações. Outras deslumbravam-me pela sumptuosidade solida e suculenta da sua beleza. Que largos, escuros olhos de ídolos! Que claros, macios membros de mármore! Que sombria moleza! Que nudezes magnificas, quando á beira do leito baixo se lhes desenrolassem os cabelos pesados, e fossem dôcemente escorregando os véos e os linhos de Galacia!...

Foi necessário que Topsius me arrastasse pelo albornoz para a escadaria de Nicanor. E ainda estacava a cada degrau, alongando para traz os olhos esbrazeados, resfolgando como um touro em maio nas lezírias.

--Ai, filhinhas de Sião! Que sois de vos deixar aqui os miolos!

Ao voltar-me, puxado pelo douto Historiador, bati no focinho de um cordeiro branco que um velho conduzia ás costas, amarrado pelas patas e enfeitado de rosas. Em frente corria uma longa balaustrada de cédro lavrado--onde uma cancela toda de prata, aberta e lassa nos seus gonzos, se movia em silencio, faiscando.

--É aqui, disse o erudito Topsius, que se dão a beber as águas amargas ás mulheres adulteras... E agora, D. Raposo, aí tem Israel adorando o seu Deus.

Era emfim o Adro Sacerdotal! E eu estremeci diante de aquele Santuario entre todos monstruoso e deslumbrante. Ao meio do vasto e claro terrado erguia-se, feito de enormes pedras negras, o altar dos Holocaustos: aos seus cantos enristavam-se quatro cornos de bronze; de um pendiam grinaldas de lírios; de outros fios de corais; o outro pingava sangue. Da imensa grelha do altar subia uma fumaça avermelhada e lenta: e em redor apinhavam-se os Sacrificadores, descalços, todos de branco--com forquilhas de bronze nas mãos pálidas, espetos de prata, facas passadas nos cintos cor de céo... No afanoso, severo rumôr do ceremonial sacrosanto confundia-se o balar de cordeiros, o som argentino de pratos, o crepitar das lenhas, as pancadas surdas de malho, o cantar lento da água em bacias de mármore, e o estridor das bozinas. Apesar dos aromáticos que ardiam em caçoulas, das longas ventarolas de folhas de palmeira com que os serventes agitavam o ar, eu pus o lenço na face, enjoado com esse cheiro mole de carne crua, de sangue, de gordura frita e de açafrão, que o Senhor reclamou a Moysés como o dom melhor a receber da Terra...

Ao fundo, bois enfeitados de flôres, vitelas brancas com os cornos dourados, sacudiam, mugindo e marrando, as cordas que os prendiam a fortes argolas de bronze: mais longe, sobre mesas de mármore, entre pedaços de gêlo, pousavam, vermelhas e sangrentas, grossas peças de carne, sobre que os levitas balançavam leques de penas para afugentar os moscardos. De columnas rematadas por faiscantes globos de cristal, pendiam cordeiros mortos, que os Netenins, resguardados por aventais de couro cobertos de textos sagrados, esfolavam com cutelos de prata: enquanto os victimarios de saião azul, retesando os braços, conduziam baldes de onde trasbordavam e iam arrastando entranhas. Coroados por uma mitra redonda de metal, escravos idumeos constantemente limpavam as lages com esponjas: alguns vergavam sob molhos de lenha; outros, agachados, sopravam fogareiros de pedra.

A cada momento algum velho Sacrificador, descalço, marchava para o altar, trazendo ao colo um anho tenro que não balava, contente e quente entre os dois braços nús: um tocador de lira precedia-o: levitas atraz transportavam os jarros de óleos aromáticos. Em frente á ara, rodeado de Acolytos, o Sacrificador lançava sobre o cordeiro um punhado de sal; depois, psalmodiando, cortava-lhe uma pouca de lã entre os cornos. As bozinas resoavam; um grito de animal ferido perdia-se no tumulto sacro; por cima das tiáras brancas duas mãos vermelhas erguiam-se ao ar sacudindo sangue; da grelha do altar resaltava, avivada pelos óleos e pela gordura, uma chama de alegria e de oferta; e o fumo avermelhado e lento ascendia serenamente ao azul, levando nos seus rolos o cheiro que deleita o Eterno.

--É um talho! murmurei eu, aturdido. É um talho! Topsius, doutor, vamos outra vez lá baixo ás mulherinhas...

O sábio olhou para o sol. Depois, gravemente, pousando-me no hombro a mão amiga:

--É quase a nona hora, D. Raposo!... E temos de ir fora da Porta Judiciaria, para além do Gareb, a um sitio agreste que se chama o Calvário.

Empallideci. E pareceu-me que nenhuma vantagem espiritual obteria minha alma, nenhuma inesperada acquisição enriqueceria o saber de Topsius--por irmos contemplar no alto de um morro, entre urzes, Jesus atado a um madeiro e sofrendo: era apenas um tormento para a nossa sensibilidade! Mas, submisso, segui o meu sapiente amigo pela escadaria das Aguas, que leva ao largo lageado de basalto onde começam as primeiras casas de Acra. Vizinhas do Santuario, habitadas por Sacerdotes, elas ostentavam uma profusa devoção Paschal, em palmas, lampadas, alcatifas penduradas dos eirados: e algumas tinham os hombraes salpicados com o sangue fresco de um anho.

Antes de penetrar em uma sórdida, andrajosa rua que se ia torcendo sob velhos toldes de esparto, voltei-me para o Templo: agora só via a imensa muralha de granito, com bastiões no alto, sombria e inderrubável: e a arrogância da sua força e da sua eternidade encheu de cólera o meu coração. Enquanto sobre uma colina de morte, destinada aos escravos, o homem de Galilêa, incomparável amigo dos homens, arrefecia na sua cruz, e para sempre se apagava aquela pura voz de amor e de espiritualidade--ali ficava o Templo que o matava, rutilante e triunfal, com o balar dos seus gados, o estridor dos seus sofismas, a usura sob os Porticos, o sangue sobre as Aras, a iniquidade do seu duro orgulho, a importunidade do seu perene incenso... Então, com os dentes cerrados, mostrei o punho a Jehovah e á sua cidadela, e bradei:

--Arrasados sejais!

* * * * *

Não descerrei mais os lábios secos até chegarmos á estreita porta nas muralhas de Ezekiah, que os Romanos denominavam a Judiciaria. E logo aí estremeci, vendo colado em um pilar de pedra um pergaminho com três sentenças transcriptas--«a de um ladrão de Bettebara, a de um assassino de Emath, e a de Jesus de Galilêa!» O escriba do Sanhedrin, que conforme á Lei ali vigiara para recolher, até que os condemnados passassem, algum inesperado testemunho de inculpabilidade, ia partir, com os seus tabulários debaixo do braço, depois de traçar sobre cada sentença um grosso risco vermelho. E aquele córte final, cor de sangue, passado á pressa por um escripturario que recolhia contente á sua morada, a comer o seu anho, comoveu-me mais que a melancolia dos Livros Santos.

Sebes de cactos em flôr bordavam a estrada; e para além eram verdes outeiros onde os muros baixos de pedra solta, vestidos de rosas bravas, delimitavam os hortos. Tudo ali resplandecia, festivo e pacifico. Á sombra das figueiras, debaixo dos pilares das parreiras, as mulheres, encruzadas em tapetes, fiavam o linho ou atavam os ramos de alfazema e manjerona que se oferecem na Paschoa: e crianças em redor, com o pescoço carregado de amuletos de coral, balouçavam-se em cordas, atiravam á seta... Pela estrada descia uma fila de lentos dromedários levando mercadorias para Jopé: dois homens robustos recolhiam da caça, com altos coturnos vermelhos cobertos de pó, a aljava batendo-lhe a côxa, uma rede atirada para as costas, e os braços carregados de perdizes e de abutres amarrados pelas patas: e diante de nós caminhava devagar, apoiado ao hombro de uma criança que o conduzia, um velho pobre, de longas barbas, trazendo presa ao cinto como um bardo a lira grega de cinco cordas, e sobre a fronte uma corôa de louro...

Ao fundo de um muro, coberto de ramos de amendoeiras, diante de uma cancela pintada de vermelho, dois servos esperavam, sentados em um tronco caído, com os olhos baixos e as mãos sobre os joelhos. Topsius parou, puxou-me o albornoz:

--É este o horto de José de Ramatha, um amigo de Jesus, membro do Sanhedrin, homem de espirito inquieto, que se inclina para os Essenios... E justamente, aí vem Gad!

Do fundo do horto, com efeito, por uma rua de murta e rosas, Gad descia correndo com uma trouxa de linho e um cabaz de vime enfiados em um pau. Parámos.

--O Rabbi? gritou-lhe o alto Historiador, transpondo a cancela.

O Essenio entregou a um dos escravos a trouxa, e o cesto que estava cheio de mirra e de hervas aromáticas; e ficou diante de nós um momento, tremulo, sufocado, com a mão fortemente pousada sobre o coração para lhe serenar a ansiedade.

--Soffreu muito! murmurou, por fim. Soffreu quando lhe trespassaram as mãos... Mais ainda ao erguer da cruz... E repeliu primeiro o vinho de Misericórdia, que lhe daria a inconsciencia... O Rabbi queria entrar com a alma clara na morte por que chamara!... Mas José de Ramatha, Nicodemus, estavam lá vigiando. Ambos lhe lembraram as coisas prometidas uma noite em Betânia... O Rabbi então tomou a malga das mãos da mulher de Rosmophin, e bebeu.

E o Essenio, pregados em Topsius os olhos reluzentes, como para cravar bem seguramente na sua alma uma recomendação suprema, recuou um passo e disse com uma grave lentidão:

--Á noite, depois da ceia, no eirado de Gamaliel...

E outra vez desapareceu na rua fresca do horto, entre a murta e as roseiras. Topsius deixou logo a estrada de Jopé: e estugando o passo por um atalho agreste, onde o meu largo albornoz se prendia aos espinhos das piteiras, explicava-me que a bebida de Misericórdia--era um vinho forte de Tharses, com suco de papoulas e especiarias, fornecido por uma confraria de mulheres devotas para insensibilizar os supliciados... Mas eu mal escutava aquele copioso espirito. No alto de um áspero outeiro, todo de rocha e urze, avistara, destacando duramente no claro azul do céo liso, um montão de gente parada: e em meio de ela sobrelevavam-se três pontas grossas de madeiros e moviam-se, faiscando ao sol, elmos polidos de Legionarios. Turbado, encostei-me á beira do caminho, em um penedo branco que escaldava. Mas vendo Topsius marchar, com a sabia serenidade de quem considera a Morte uma purificadora libertação das formas imperfeitas--não quis ser menos forte, nem menos espiritual: arranquei o albornoz que me abafava, galguei intrepidamente a colina temerosa.

de um lado cavava-se o Vale de Hinom, abrazado e livido, sem uma herva, sem uma sombra, juncado de ossos, de carcassas, de cinzas. E diante de nós o môrro ascendia, com manchas leprosas de tojo negro, e a espaços furado por uma ponta de rocha polida e branca como um osso. O córrego, onde os nossos passos espantavam os lagartos, ia perder-se entre as ruínas de um casebre de adobe: duas amendoeiras, mais tristes que plantas crescidas na fenda de um sepulchro, erguiam ao lado a sua rama rala e sem flôr, onde cantavam asperamente cigarras. E na sombra tênue, quatro mulheres descalças, desgrenhadas, com rasgões de luto nas túnicas pobres, choravam como em um funeral.

Uma, sem se mover, hirta contra um tronco, gemia surdamente sob a ponta do manto negro: outra, exhausta de lagrimas, jazia em uma pedra, com a cabeça cahida nos joelhos, e os esplendidos cabelos louros desmanchados, alastrados até ao chão. Mas as outras duas deliravam, arranhadas, ensanguentadas, batendo desesperadamente nos peitos, cobrindo a face de terra; depois, lançando ao céo os braços nús, abalavam o môrro com gritos--«oh meu encanto, oh meu tesouro, oh meu sol!» E um cão, que farejava entre as ruínas, abria a guela, uivava também, sinistramente.

Espavorido, puxei a capa do douto Topsius--e cortámos pelas urzes até ao alto, onde se apinhavam, olhando e galrando, obreiros das oficinas de Gareb, serventes do Templo, vendilhões, e alguns de esses sacerdotes miseráveis e em farrapos, que vivem de negromancia e de esmolas. Diante da branca capa em que Topsius se togava, dois cambistas, com moedas de ouro pendentes das orelhas, arredaram-se, murmurando bençãos servis. Uma corda de esparto deteve-nos, presa a postes cravados no chão para isolar o alto do môrro, e, no sitio em que ficáramos, enrolada a uma velha oliveira que tinha pendurados dos ramos escudos de Legionarios e um manto vermelho.

Então, ancioso, ergui os olhos... Ergui os olhos para a cruz mais alta, cravada com cunhas em uma fenda de rocha. O Rabbi agonisava. E aquele corpo que não era de marfim nem de prata, e que arquejava, vivo, quente, atado e pregado a um madeiro, com um pano velho na cinta, um travessão passado entre as pernas--encheu-me de terror e de espanto... O sangue que manchara a madeira nova, enegrecia-lhe as mãos, coalhado em torno aos cravos: os pés quase tocavam o chão, amarrados em uma grossa corda, rôxos e torcidos de dor. A cabeça, ora escurecida por uma onda de sangue, ora mais livida que um mármore, rolava de um hombro a outro dôcemente; e por entre os cabelos emaranhados, que o suor empastara, os olhos esmoreciam, sumidos, apagados--parecendo levar com a sua luz para sempre toda a luz e toda a esperança da terra...

O centurião, sem manto, com os braços cruzados sobre a couraça de escamas, rondava gravemente junto á cruz do Rabbi, cravando por vezes os olhos duros na gente do Templo, cheia de rumores e de risos. E Topsius mostrou-me defronte, rente á corda, um homem cuja face amarela e triste quase desaparecia entre as duas longas mechas negras de cabelo que lhe desciam sobre o peito--e que abria e enrolava com impaciência um pergaminho, ora espiando a marcha lenta do sol, ora falando baixo a um escravo ao seu lado.

--É Joseph de Ramatha, segredou-me o douto Historiador. Vamos ter com ele, ouvir as coisas que convém saber...

Mas em esse instante, de entre o bando sórdido dos servos do Templo e dos sacerdotes miseráveis que são nutridos pelos sobejos dos holocaustos, rompeu um ruido mais forte como o grasnar de corvos em um alto. E um de eles, colossal, esquálido, com costuras de facadas através da barba rala, atirou os braços para a cruz do Rabbi, e gritou em uma baforada de vinho:

--Tu que és forte, e querias destruir o Templo e as suas muralhas, porque não quebras ao menos o pau de essa cruz?

Em torno estalaram risadas alvares. E outro, espalmando as mãos sobre o peito, curvado com infinito escárnio, saudava o Rabbi:

--Herdeiro de David, oh meu príncipe, que te parece esse trono?

--Filho de Deus! Chama teu pai, vê se teu pai te vem salvar! rouquejava a meu lado um magro velho, que tremia e sacudia a barba, apoiado ao seu bordão.

Alguns vendilhões bestiais apanhavam torrões secos a que misturavam cuspo, para arremessar ao Rabbi: uma pedra por fim passou, resoou cavamente no madeiro. Então o Centurião correu, indignado; a folha da sua larga espada lampejou no ar; e o bando recuou blasfemando--enquanto alguns embrulhavam na ponta do saião os dedos que escorriam sangue.

Nós acercámo-nos de José de Ramatha. Mas o sombrio homem abalou bruscamente, esquivando a importunidade do sábio Topsius. E, magoados com a sua rudeza ali ficámos junto de um tronco de oliveira seca, defronte das outras cruzes.

Os dois condemnados tinham acordado do primeiro desmaio, sob a frescura da aragem da tarde. Um, grosso, peludo, com os olhos esbugalhados, o peito atirado para diante e as costelas a estalar, como se em um esforço desesperado quizesse arrancar-se do madeiro--urrava sem descontinuar, medonhamente: o sangue pingava-lhe em gotas lentas dos pés negros, das mãos esgaçadas: e abandonado, sem afeição ou piedade que o assistissem, era como um lobo ferido que uiva e morre em um brejo. O outro, delgado e louro, pendia sem um gemido, como uma haste de planta meio quebrada. Defronte de ele uma mulher macilenta e em farrapos, passando a cada instante o joelho sobre a corda, estendia-lhe nos braços uma criancinha núa, e gritava, já rouca: «Olha ainda, olha ainda!» As pálpebras lividas não se moviam: um negro, que entrouxava as ferramentas da crucificação, ia empurral-a com brandura: ela emudecia, apertava desesperadamente o filho para que lho não levassem também, batendo os dentes, tremendo toda: e a criancinha entre os farrapos procurava o seio magro.

Soldados, sentados no chão, desdobravam as túnicas dos supliciados: outros, com o elmo enfiado no braço, limpavam o suor--ou por uma malga de ferro, a goles lentos, bebiam a posca. E em baixo, na poeira da estrada, sob o sol mais dôce, passava gente recolhendo pacificamente dos campos e dos hortos. Um velho picava as suas vacas para o lado da porta de Genath: mulheres, cantando, carregavam lenha: um cavaleiro trotava, embrulhado em um manto branco. Ás vezes os que atravessavam o caminho ou voltavam dos pomares de Gareb avistavam as três cruzes erguidas: arregaçavam a túnica, subiam a colina devagar através das urzes. O rotulo da cruz do Rabbi, escrito em grego e em latim, causava logo assombro. «Rei dos Judeus»! Quem era esse? Dois moços, patrícios e sadduceus, com brincos de perolas nas orelhas e bordaduras de ouro nos borzeguins, interpelaram o Centurião, escandalisados. Porque escrevera o Pretor--«Rei dos Judeus»? Era aquele, ali pregado na cruz, Caio Tibério? Só Tibério era rei da Judêa! O Pretor quisera ofender Israel! Mas em verdade só ultrajava Cesar!...

Impassível, o Centurião falava a dois Legionarios que remexiam no chão em grossas barras de ferro. E a mulher que acompanhava os sadduceus, uma romana miudinha e morena, com fitas de purpura nos cabelos empoados de azul, contemplava suavemente o Rabbi e aspirava o seu frasco de essências--lamentando decerto aquele moço, rei vencido, rei bárbaro, que morria no poste dos escravos.

Cansado, fui sentar-me com Topsius em uma pedra. Era perto da oitava hora judaica: o sol, sereno como um herói que envelhece, descia para o mar por sobre as palmeiras de Betânia. Diante de nós o Gareb verdejava, coberto de jardins. Junto ás muralhas, no bairro novo de Bezetha, grandes panos vermelhos e azuis secavam em cordas ás portas das tinturarias; um lume vermelhejava no fundo de uma forja; crianças corriam, brincando sobre a borda de uma piscina. Adiante, no alto da torre Hippica, que estendia já a sua sombra sobre o Vale de Hinom, soldados de pé na amurada apontavam a seta aos abutres voando no azul. E para além, entre arvoredos, surgiam, frescos e rosados pela tarde, os eirados do palácio de Herodes.

Triste, com o espirito disperso, eu pensava no Egypto, nas nossas tendas, na vela que lá me esquecera ardendo, fumarenta e vermelha--quando avistei, subindo a colina devagar, apoiado ao hombro da criança que o conduzia, o velho que já cruzáramos na estrada de Jopé, com uma lira presa á cintura. Os seus passos arrastavam-se mais incertos, na fadiga de uma jornada penosa; uma tristeza abatia-lhe sobre o peito a clara barba ondeante; e debaixo do manto cor de vinho, que lhe cobria a cabeça, as folhas da corôa de louro pendiam raras e murchas.

Topsius gritou-lhe: «Eh, Rapsodo!» E quando ele, tenteando as urzes do caminho, se acercou--o douto Historiador perguntou-lhe se das dôces Ilhas do mar trazia algum canto novo. O velho ergueu a face entristecida; e muito nobremente murmurou que uma mocidade imperecivel sorri nos mais antigos cantos da Hellenia. Depois, tendo assentado a sandália sobre uma pedra, tomou a lira entre as mãos vagarosas; a criança, direita, com as pestanas baixas, pôs á boca uma flauta de cana; e, no resplandor da tarde que envolvia e dourava Sião, o Rapsodo soltou um canto já tremulo, mas glorioso e repassado de adoração, como ante a ara de um templo, em uma praia da Ionia... E eu percebi que ele cantava os Deuses, a sua beleza, a sua atividade heroica. Dizia o Delphico, imberbe e cor de ouro, afinando os pensamentos humanos pelo ritmo da sua citara; Atheneia, armada e industriosa, guiando as mãos dos homens sobre os teares; Zeus, ancestral e sereno, dando a beleza ás raças, a ordem ás cidades; e acima de todos, sem fórma e esparso, o Fado, mais forte que todos!

Mas subitamente um grito varou o céo no alto da colina, supremo e arrebatado como o de uma libertação! Os dedos frouxos do velho emudeceram entre as cordas de metal: com a cabeça descabida, a corôa do louro épico meio desfolhada, parecia chorar sobre a lira helênica, de ora em diante e para longas idades silenciosa e inutil. E ao lado a criança, tirando a flauta dos lábios, erguia para as cruzes negras os olhos claros--onde subia a curiosidade e a paixão de um mundo novo.

Topsius pediu ao velho a sua historia. Ele contou-a, com amargura. Viera de Samnos a Cesarêa, e tocava o konnor junto ao Templo de Hercules. Mas a gente abandonava o puro culto dos heróis; e só havia festas e offrendas para a Boa Deusa da Syria! Acompanhára depois uns mercadores a Tiberiade: os homens aí não respeitavam a velhice, e tinham corações interesseiros como escravos. Seguira então pelas longas estradas, parando nos postos romanos onde os soldados o escutavam; nas aldeias de Samaria batia ás portas dos lagares; e para ganhar o pão duro tocara a citara grega nos funerais dos bárbaros. Agora errava ali, em essa cidade onde havia um grande Templo, e um Deus feroz e sem fórma que detestava as gentes. E o seu desejo era voltar a Mileto, sua pátria, sentir o fino murmurio das águas do Meandro, poder palpar os mármores santos do templo de Phebo Dydimeo--onde ele em criança levara em um cesto e cantando os primeiros anéis dos seus cabelos...

As lagrimas rolavam pela sua face, tristes como a chuva por um muro em ruínas. E a minha piedade foi grande por aquele Rapsodo das ilhas da Grecia, perdido também na dura cidade dos judeus, envolto pela influencia sinistra de um Deus alheio! Dei-lhe a minha derradeira moeda de prata. Ele desceu a colina, apoiado ao hombro da criança, lento e curvado, com a orla esfarrapada do manto trapejando nas pernas núas, e muda e mal segura do cinto a lira heroica de cinco cordas.

No emtanto, em torno ás cruzes, no alto, crescera um rumor de revolta. E fômos encontrar a gente do Templo, com as mãos no ar, mostrando o sol que descia como um escudo de ouro para o lado do mar de Tyro, intimando o Centurião a que baixasse os condemnados da cruz antes de soar a hora santa da Paschoa! Os mais devotos reclamavam que se aplicasse aos crucificados, se ainda viviam, o crurifrágio romano, quebrando-lhes os ossos com barras de ferro, arrojando-os ao despenhadeiro de Hinom. E a indiferença do Centurião exasperava o zelo piedoso. Ousaria ele macular o Sabbath, deixando um corpo morto no ar? Alguns enrolavam a ponta do manto para correr, e ir a Acra avisar o Pretor.

--O sol declina! O sol vai deixar o Hebron! gritou de cima de uma pedra um levita, aterrado.

--Acabai-os, acabai-os!

E ao nosso lado, um formoso moço exclamava, requebrando os olhos languidos, movendo os braços cheios de manilhas de ouro:

--Atirai o Rabbi aos corvos! Dai ás aves de rapina a sua Paschoa!

O Centurião, que espreitava o alto da torre Mariana onde os escudos suspensos luziam batidos pelo sol derradeiro--acenou devagar com a espada. Dois Legionarios, lançando pesadamente ao hombro as barras de ferro, marcharam com ele para as cruzes. Eu, arripiado, agarrei o braço de Topsius. Mas diante do madeiro de Jesus o Centurião parou, erguendo a mão...

O corpo branco e forte do Rabbi tinha a serenidade de um adormecimento: os pés empoeirados, que ha pouco a dor torcia dentro das cordas, pendiam agora direitos para o chão como se o fossem em breve pisar: e a face não se via, tombada para traz molemente por sobre um dos braços da cruz, toda voltada para o céo onde ele puzera o seu desejo e o seu reino... Eu olhei também o céo: rebrilhava, sem uma sombra, sem uma nuvem, liso, claro, mudo, muito alto, e cheio de impassibilidade...

--Quem reclamou o corpo de este homem? gritou, procurando para os lados, o Centurião.

--Eu, que o amei em vida! acudiu Joseph de Ramatha, estendendo por cima da corda o seu pergaminho.

O escravo que esperava junto de ele depoz logo no chão a trouxa de linho e correu para as ruínas do casebre onde as mulheres choravam entre as amendoeiras.

E por traz de nós, Fariseus e Sadduceus que se tinham juntado estranhavam com azedume que José de Ramatha, um membro do Sanhedrin, assim solicitasse o corpo do Rabbi para o perfumar e lhe fazer soar em torno as flautas e os prantos de um funeral... Um de eles, corcovado, com esfiadas melenas luzidias de óleo, afirmava que sempre conhecera José de Ramatha inclinado para todos os inovadores, todos os sediciosos... Mais de uma vez o vira falar com esse Rabbi junto ao campo dos Tintureiros... E com eles estava Nicodemus, homem rico que tem gados, que tem vinhas, e todas as casas que estão de ambos os lados da Synagoga de Cyrenaica...

Outro, rubicundo e mole, gemeu:

--Que será da nação, se os mais considerados se juntam aos que adulam o pobre, e lhe ensinam que os fructos da terra devem ser igualmente para todos!...

--Raça de Messias! bradou o mais moço com furor, atirando o bastão contra as urzes. Raça de Messias, perdição de Israel!

Mas o Sadduceu de melenas oleosas ergueu devagar a mão, ligada em tiras sagradas:

--Socegai: Jehovah é grande: e tudo em verdade determina para melhor... No Templo e no Conselho não faltarão jamais homens fortes que mantenham a velha Ordem; e em cima dos calvários, felizmente, hão de sempre erguer-se as cruzes!...

E todos susurraram:

--Amen!

No emtanto o Centurião, com os soldados atraz levando ao hombro as barras de ferro, marchava para os outros madeiros onde os condemnados, vivos e cheios de agonia pediam água--um pendido e gemendo, outro torcido, com as mãos rasgadas, rugindo terrivelmente. Topsius, que sorria friamente, murmurou: «É tempo, vamos.»

Com os olhos alagados de água amarga, tropeçando nas pedras, desci ao lado do fecundo critico a colina de Immolação. E sentia uma densa melancolia entenebrecer a minha alma pensando em essas cruzes vindouras, anunciadas pelo conservador de guedelha oleosa... Assim seria, oh dura miséria! Sim! de ora avante, por todos os séculos a vir, iria sempre recomeçando em torno á lenha das fogueiras, sob a frialdade das masmorras, junto ás escadas das forcas--este afrontoso escândalo de se juntarem Sacerdotes, Patricios, Magistrados, Soldados, Doutores e Mercadores para matarem ferozmente no alto de um morro o justo que penetrado do esplendor de Deus ensine a Adoração em Espirito, ou cheio do amor dos homens proclame o Reino da Igualdade!

Com estes pensamentos recolhi a Jerusalem--enquanto as aves, mais felizes que os homens, cantavam nos cedros do Gareb...

* * * * *

Escurecera e era a hora da Ceia Paschal, quando chegámos a casa de Gamaliel: no pátio, preso a uma argola, estava o burro, albardado de panos pretos, que trouxera o amável físico Eliezer de Silo.

Na sala azul, de tecto de cedro, perfumada de malobrathro, o austero Doutor já nos aguardava estendido no divan de correias brancas, com os pés nús, as largas mangas arregaçadas e pregadas no hombro--e ao lado um bordão de viagem, uma cabaça de água e uma trouxa, emblemas rituais da sahida do Egypto. Defronte de ele, em uma mesa incrustada de madrepérola, entre vasos de barro com flôres pintadas, açafates de filigrana de prata transbordando de fruta e pedaços cintilantes de gelo, erguia-se um candelabro em fórma de arbusto, tendo na ponta de cada galho uma pálida chama azul: e, com os olhos perdidos no seu brilho tremulo, as mãos cruzadas no ventre, Eliezer, o benigno «Doutor da Tripa», sorria beatificamente encostado a almofadas de couro vermelho. Junto de ele dois escabelos, recobertos com tapetes da Assyria, esperavam por mim e pelo sagaz Historiador.

--Sede bem vindos, rosnou Gamaliel. Grandes são as maravilhas de Sião, deveis vir esfomeados...

Bateu de leve as palmas. Os escravos, caminhando sem ruido nas sandálias de feltro, e precedidos majestosamente pelo homem obeso de túnica amarela, entraram, erguendo muito alto largos pratos de cobre que fumegavam.

A um lado tinhamos, para limpar os dedos, um bôlo de farinha branco, fino e mole como um pano de linho; do outro um prato largo, com cercadura de perolas, onde negrejava entre ramos de salsa um montão de cigarras fritas; no chão jarros com água de rosa. Cumprimos as abluções: e Gamaliel, tendo purificado a boca com um pedaço de gêlo, murmurou a oração ritual sobre a vasta travessa de prata, onde o cabrito assado fazia transbordar o môlho de açafrão e saumura.

Topsius, bom sabedor das maneiras orientais, arrotou fortemente, por cortesia, demonstrando fartura e deleite: depois, com uma febra de anho entre os dedos, afirmou sorrindo aos Doutores que Jerusalem lhe parecera magnifica, formosa de claridade, e bendita entre as cidades...

Eliezer de Silo acudiu, com os olhos cerrados de gozo, como se o acariciassem:

--Ela é uma joia melhor que o diamante, e o Senhor engastou-a no centro da Terra para que irradiasse igualmente o seu brilho em redor...

--No centro da Terra!... murmurou o Historiador, com douto espanto.

Sim! E, ensopando um pedaço de bôlo no môlho de açafrão, o profundo Físico explicou a Terra. Ela é chata e mais redonda que um disco; no meio está Jerusalem a santa, como um coração cheio do amor do Altissimo; em redor a Judêa, rica em balsamos e palmeiras, cerca-a de sombra e de aromas; para além ficam os pagãos, em regiões duras onde nem o mel nem o leite abundam; depois são os mares tenebrosos... E por cima o céo, sonoro e solido.

--Solido!... balbuciou o meu sapiente amigo, esgazeado.

Os escravos serviam em taças de prata cerveja amarela da Media. Com solicitude Gamaliel aconselhou-me que, para lhe avivar o sabôr, trincasse uma cigarra frita. E Rabbi Eliezer, sábio entre todos nas coisas da Natureza, revelava a Topsius a divina construcção do céo.

Ele é feito de sete duras, maravilhosas, rutilantes camadas de cristal; por cima de elas constantemente rolam as grandes águas; sobre as águas fluctua em um fulgôr o espirito de Jehovah... Estas laminas de cristal, furadas como um crivo, resvalam umas sobre as outras com uma musica dôce e lenta que os profetas mais queridos por vezes ouviam... Ele mesmo, uma noite que orava no eirado da sua casa em Silo, sentira por um raro favor do Altissimo essa harmonia, tão penetrante e suave que as lagrimas uma a uma lhe cahiam nas mãos abertas... Ora nos meses de Kisleu e de Tebeth os furos das laminas coincidem, e por eles cahem sobre a Terra as gotas das águas eternas que fazem crescer as searas!

--A chuva? perguntou Topsius, com acatamento.

--A chuva! respondeu Eliezer, com serenidade.

Topsius, mordendo um sorriso, ergueu para Gamaliel os seus óculos de ouro que faiscavam de sabia ironia: mas o piedoso filho de Simeon conservava sobre a face, emagrecida no estudo da Lei, uma seriedade impenetrável. Então o Historiador, remexendo as azeitonas, desejou saber do esclarecido Físico por que tinham os cristais do céo essa cor azul que enleva a alma...

Eliezer de Silo elucidou-o:

--Uma grande montanha azul, invisivel até hoje aos homens, ergue-se a ocidente: ora, quando o sol a bate, a sua reverberação banha o cristal do céo e anila-o.

É talvez em essa montanha que vivem as almas dos justos!...

Gamaliel tossiu brandamente e murmurou: «Bebamos, louvando o Senhor!».

Ergueu uma taça cheia de vinho de Sichem, pronunciou sobre ela uma benção--passou-m'a, chamando a paz sobre o meu coração. Eu rosnei: «Á sua, muitos e felizes!» E Topsius, recebendo a taça com veneração, bebeu--«á prosperidade de Israel, á sua força, ao seu saber!»

Depois os servos, precedidos pelo homem obeso de túnica amarela, que fazia resoar sobre as lages com pompa a sua vara de marfim, trouxeram a mais devota comida paschal--as hervas amargas.

Era uma travessa repleta de alface, agriões, chicorea, macela, com vinagre e grossas pedras de sal. Gamaliel mastigava-as solenemente, como cumprindo um rito. Elas representavam as amarguras de Israel no captiveiro do Egypto. E Eliezer, chupando os dedos, declarou-as deliciosas, fortificadoras e repassadas de alta lição espiritual.

Mas Topsius lembrou, fundado nos auctores gregos, que todos os legumes amolecem no homem a virilidade, lhe descoram a eloquência, lhe enervam o heroísmo: e com torrencial erudição citou logo Theophrasto, Eubulo, Nicandro na segunda parte do seu Dicionário, Phenias no seu Tratado das Plantas, Dephilo e Epicharmo!...

Gamaliel, secamente, condemnou a inanidade de essa sciencia--porque Hecateus de Mileto, só no primeiro livro da sua Descripção da Asia, encerra cincoenta e três erros, quatorze blasfêmias e cento e nove omissões... Assim dizia o leviano grego que a tâmara, maravilhoso dom do Altissimo, enfraquece o intelecto!...

--Mas, exclamou Topsius com ardor, a mesma doutrina estabelece Xenofonte no livro segundo do Anabasis! E Xenofonte...

Gamaliel rejeitou a autoridade de Xenofonte. Então Topsius, vermelho, batendo com uma colhér de ouro na borda da mesa, exaltou a eloquência de Xenofonte, a forte nobreza do seu sentimento, a sua terna reverencia por Socrates!... E enquanto eu partia um empadão de Commagenia, os dois facundos doutores, asperamente, romperam debatendo Socrates. Gamaliel afirmava que as vozes secretas ouvidas por Socrates, e que tão divina e puramente o governavam, eram murmúrios distantes que lhe chegavam da Judêa, repercussões miraculosas da voz do Senhor... Topsius pulava, encolhia os hombros, com desesperado sarcasmo. Socrates inspirado por Jehovah! Ora lérias!

No emtanto era certo (insistia Gamaliel, já livido) que os gentílicos iam emergindo da sua treva, attrahidos pela luz forte e pura que derramava Jerusalem:--porque a reverencia pelos Deuses aparecia em Eschylo profunda e cheia de terror; em Sophocles, amável e cheia de serenidade; em Euripides, superficial e cheia de dúvida... E cada um dos Tragicos dava assim, largamente, um passo para o Deus verdadeiro!

--Oh Gamaliel, filho de Simeon, murmurou Eliezer de Silo, tu, que possues a verdade, para que dás acesso no teu espirito aos pagãos?

Gamaliel respondeu:

--Para os desprezar melhor dentro em mim!

Farto de tão clássica controvérsia, acheguei a Eliezer um covilhete de mel do Hebron--e contei-lhe quanto me agradara o caminho do Gareb entre jardins. Ele concordou que Jerusalem, cercada de vergeis, era dôce á vista como a fronte da noiva toucada de anemonas. Depois estranhou que eu escolhesse, para me recrear, esses arredores de Gihon, cheios de açougues, junto ao môrro escalvado onde se erguem as cruzes. Mais suave me teria sido a fragrância de Siloeh...

--Fui vêr Jesus, atalhei severamente. Fui vêr Jesus, crucificado esta tarde por mandado do Sanhedrin...

Eliezer, com oriental cortesia, bateu no peito demonstrando mágua. E quis saber se pertencia ao meu sangue, ou partilhara comigo o pão de aliança, esse Jesus que eu fora assistir na sua morte de escravo.

Eu considerei-o, assombrado:

--É o Messias!

E ele considerou-me mais assombrado ainda, com um fio de mel a escorrer-lhe na barba.

Oh raridade! Eliezer, doutor do Templo, Físico do Sanhedrin, não conhecia Jesus de Galilêa! Atarefado com os enfermos que pela Paschoa atulham Jerusalem (confessou ele) não fora ao Xistus, nem á loja do perfumista Cleos, nem aos eirados de Hannan, onde as novas voam mais numerosas que as pombas: por isso nada ouvira da aparição de um Messias...

De resto, acrescentou, não podia ser o Messias! Esse deveria chamar-se Manahem «o consolador», porque traria a consolação a Israel. E haveria dois Messias: o primeiro, da tribu de José, seria vencido por Gog; o segundo, filho de David e cheio de força, venceria Magog. Antes de ele nascer começariam sete anos de maravilhas: haveria mares evaporados, estrelas despregadas do céo, fomes e tais farturas que até as rochas dariam fructo: no último ano correria sangue entre as nações: emfim resoaria uma voz portentosa: e, sobre o Hebron, com uma espada de fogo, surgiria o Messias!...

Dizia estas coisas peregrinas fendendo a casca de um figo. Depois com um suspiro:

--Ora ainda nenhuma de essas maravilhas, meu filho, anunciou a consolação!...

E atolou os dentes no figo.

Então fui eu, Teodorico, Ibero, de um remoto município romano, que contei a um Físico de Jerusalem, creado entre os mármores do Templo, a vida do Senhor! Disse as coisas dôces e as coisas fortes: as três claras estrelas sobre o seu berço; a sua palavra amansando as águas de Galilêa; o coração dos simples palpitando por ele; o Reino do Céo que prometia; e a sua face augusta brilhando diante do Pretor de Roma...

--Depois os Padres, os Patricios e os Ricos crucificaram-no!

Doutor Eliezer, volvendo a remexer o açafate de figos, murmurou pensativamente:

--Triste, triste!... Todavia, meu filho, o Sanhedrin é misericordioso. Em sete anos, desde que o sirvo, apenas tem lançado três sentenças de morte... Sim, decerto o mundo necessita bem escutar uma palavra de amor e de justiça: mas Israel tem sofrido tanto com inovadores, com profetas!... Emfim, nunca se deveria derramar o sangue do homem... E a verdade é que estes figos de Bephtagé não valem os meus de Silo!

Calado, enrolei um cigarro. E em esse instante o douto Topsius, debatendo ainda com Gamaliel o Hellenismo e as escólas Socraticas, empinado, de óculos na ponta do bico, soltava este resumo forte:

--Socrates é a semente; Platão a flôr; Aristóteles o fructo... E de esta árvore, assim completa, se tem nutrido o espirito humano!

Mas Gamaliel subitamente ergueu-se: Doutor Eliezer também, arrotando com efusão. Ambos tomaram os cajados, ambos gritaram:

--Aleluia! Louvai o Senhor que nos tirou da terra do Egypto!

Findára a ceia Paschal. O esclarecido Historiador, que limpava o suor da controvérsia, olhou logo vivamente o relógio e rogou a Gamaliel permissão de subir ao terraço, a refrescar a sua emoção no ar macio de Ophel... O Doutor da Lei conduziu-nos á varanda alumiada palidamente por lampadas de mica, mostrou-nos a íngreme escada de ébano que levava aos eirados; e chamando sobre nós a graça do Senhor, penetrou com Eliezer em um aposento cerrado por cortinas de Mesopotamia--de onde saiu um aroma, um fino rumor de risos e sons lentos de lira.

Que dôce ar no terraço! E que alegre essa noite de Paschoa em Jerusalem! No céo, mudo e fechado como um palácio onde ha luto, nenhum astro brilhava: mas o burgo de David e a colina de Acra, com as suas iluminações rituais, pareciam salpicadas de ouro. Em cada eirado, vasos com estopa ardendo em óleo lançavam uma chama ondeante e vermelha. Aqui e além, em alguma casa mais alta os fios de luzes, na parede escura, reluziam como um colar de joias no pescoço de uma negra. O ar estava dôcemente cortado dos gemidos de flauta, da dolente vibração das cordas do konnor: e em ruas alumiadas por grandes fogueiras de lenha, viamos esvoaçar, claras e curtas, as túnicas de gregos dançando a callabida. Só as torres, mais vastas na noite, a Hippica, a Mariana, a Pharsala se conservavam escuras: e o mugido das suas bozinas passava por vezes, rouco e rude, como uma ameaça, sobre a santa cidade em festa.

Mas para além das muralhas recomeçava a alegria da noite paschal. Havia luzes em Siloeh. Nos acampamentos, sobre o monte das Oliveiras, ardiam fogos claros: e como as portas ficavam abertas, filas de tochas fumegavam pelos caminhos, por entre um rumor de cantares.

Só uma colina, além do Gareb, permanecera em treva. em essa hora, por baixo de ela, em uma ravina entre rochas, alvejavam dois corpos despedaçados, onde os bicos dos abutres com um ruido seco de ferros entrechocados faziam a sua ceia Paschal. Ao menos outro corpo, precioso envolucro de um espirito perfeito, jazia resguardado em um tumulo novo, envolto em linho fino, ungido, perfumado de canela e de nardo. Assim o tinham deixado em essa noite, a mais santa de Israel, aqueles que o amavam--e que desde então para todo o sempre mais entranhadamente o amariam... Assim o tinham deixado com uma pedra lisa por cima: e agora entre as casas de Jerusalem, cheias de luzes e cheias de cantos--alguma havia, escura e fechada, onde corriam lagrimas sem consolação. Aí o lar esfriara, apagado: a lampada triste esmorecia sobre o alqueire: na bilha não havia água, porque ninguém fora á fonte; e sentadas na esteira, com os cabelos cahidos, aquelas que o tinham seguido de Galilêa falavam de ele, das primeiras esperanças, das parábolas contadas por entre os trigães, dos tempos suaves á beira do lago...

Assim eu pensava, debruçado sobre o muro, olhando Jerusalem--quando no terraço surgiu, sem rumor, uma fórma envolta em linhos brancos, espalhando um aroma de canela e de nardo. Pareceu-me que de ela irradiava um clarão, que os seus pés não pisavam as lages--e o meu coração tremeu! Mas de entre os pálidos panos uma benção saiu, grave e familiar:

--Que a paz seja comvosco!

Ah! que alivio! Era Gad.

--Que a paz seja contigo!

O Essenio parou diante de nós, calado; e eu sentia os seus olhos procurarem o fundo da minha alma, para lhe sondar bem a grandeza e a força. Por fim murmurou, imóvel como uma imagem tumular nas suas grandes vestes brancas:

--A lua vai nascer... Todas as coisas esperadas se estão cumprindo... Agora, dizei! Sentis o coração forte para acompanhar Jesus, e guardal-o até ao oásis de Engaddi?

Ergui-me, atirando os braços ao ar, em um terror!... Acompanhar o Rabbi! Ele não jazia pois morto, ligado e perfumado, sob uma pedra, em uma horta do Qareb?... Vivia! Ao nascer da lua, entre os seus amigos, ia partir para Engaddi! Agarrei anciosamente o hombro de Topsius, amparando-me ao seu saber forte e á sua autoridade...

O meu douto amigo parecia enleado em uma pesada incerteza:

--Sim, talvez... O nosso coração é forte, mas... Além de isso não temos armas!

--Vinde comigo! acudiu Gad, ardentemente. Passaremos por casa de alguém que nos dirá as coisas que convém saber, e que vos dará armas!...

Ainda trêmulo, sem me desamparar do sapiente Historiador, ousei balbuciar:

--E Jesus?... Onde está?

--Em casa de José de Ramatha, segredou o Essenio espreitando em roda como o avaro que fala de um tesouro. Para que nada suspeitasse a gente do Templo, mesmo na presença de eles depositámos o Rabbi no tumulo novo que está no horto de José. Três vezes as mulheres choraram sobre a pedra que segundo os ritos, como sabeis, não fechava inteiramente o tumulo, deixando uma larga fenda por onde se via o rosto do Rabbi. Alguns serventes do Templo olharam, e disseram: «Está bem.» Cada um recolheu á sua morada... Eu entrei pela porta de Genath, nada mais vi. Mas, apenas anoitecesse, José e outro, fiel inteiramente, deviam ir buscar o corpo de Jesus, e com as receitas que vem no livro de Salomão fazel-o reviver do desmaio em que o deixou o vinho narcotisado e o sofrimento... Vinde pois, vós que o amais também e credés em ele!...

Impressionado, decidido, Topsius traçou a sua farta capa: e descemos, em um cauto silencio, pela escada que do terraço levava um caminho de pedra miúda colado á muralha nova de Herodes.

Longo tempo marchámos na escuridão, guiados pelas roupagens brancas do Essenio. de entre casebres em ruínas, por vezes um cão saltava uivando. Sobre as altas ameias passavam mortiças lanternas de ronda. Depois uma sombra que tossia ergueu-se de sob uma árvore, triste e mole como se sahisse da sua sepultura; e roçando o meu braço, puxando a capa de Topsius, rogava-nos através de gemidos e baforadas de alho que fôssemos dormir ao seu leito que ela perfumara de nardo.

Parámos finalmente diante de um muro, a que uma esteira grossa de esparto cerrava a entrada. Um corredor que ressumbrava água levou-nos a um pátio rodeado por uma varanda, assente sobre rudes vigas de madeira: o chão mole como lodo abafava o rumor das nossas solas.

Gad, três vezes espaçadas, soltou o grito dos chacais. Nós esperavamos no meio do pátio, á borda de um poço, coberto com tábuas: o céo, por cima, guardava a escuridão dura e impenetrável de um bronze. A um canto, emfim, sob a varanda, um clarão vivo de lampada surgiu--alumiando a barba negra do homem que a trazia e que lançara sobre a cabeça a ponta de um albornoz pardo de galileu. Mas a luz morreu sob um sôpro forte. E o homem, lentamente, na treva, caminhou para nós.

Gad cortou a desolada mudez:

--Que a paz seja contigo, irmão! Estamos promptos.

O homem pousou devagar a lampada sobre a tampa do poço, e disse:

--Tudo está consumado.

Gad, estremecendo, gritou:

--O Rabbi?

O homem atirou a mão para abafar o grito do Essenio. Depois, tendo sondado a sombra em redor com olhos inquietos que reluziam como os de um animal do deserto:

--São coisas mais altas do que podemos entender. Tudo parecia certo. O vinho narcotisado fora bem preparado pela mulher de Rosmophim, que é hábil e conhece os simples... Eu tinha falado ao Centurião, um camarada a quem salvei a vida na Germania, na campanha de Publius. E, quando rolámos a pedra sobre o tumulo de José de Ramatha, o corpo do Rabbi estava quente!

Mas calou-se: e, como se o pátio fechado sob o céo negro não fosse bastante secreto e seguro, tocou no hombro de Gad, e sem um rumor dos pés nús recolheu á escuridão mais densa sob a varanda, até ás pedras do muro. Nós, rente a ele e mudos, tremiamos de ansiedade:--e eu senti que uma revelação ia passar, suprema e prodigiosa, alumiando os Mysterios.

--Ao anoitecer, segredou o homem por fim com um murmurio triste de água correndo na sombra, voltámos ao tumulo. Olhámos pela fenda: a face do Rabbi estava serena e cheia de majestade. Levantámos a pedra, tirámos o corpo. Parecia adormecido, tão belo, como divino, nos panos que o envolviam... José tinha uma lanterna: e levámol-o pelo Gareb, correndo através do arvoredo. Ao pé da fonte encontrámos uma ronda da Cohorte auxiliar. Dissemos: «é um homem de Jopé que adoeceu, e que nós levamos á sua sinagoga.» A ronda disse: «passai». Em casa de José estava Simeon o Essenio, que viveu em Alexandria e sabe a natureza das plantas: e tudo fora preparado, até a raiz do baraz... Estendemos Jesus na esteira. Démos-lhe a beber os cordiais, chamámol-o, esperámos, orámos... Mas ai! sentiamos, sob as nossas mãos, arrefecer-lhe o corpo!... Um instante abriu lentamente os olhos, uma palavra saiu-lhe dos lábios. Era vaga, não a comprehendemos... Parecia que invocava seu pai, e que se queixava de um abandono... Depois estremeceu: um pouco de sangue apareceu-lhe ao canto da boca... E, com a cabeça sobre o peito de Nicodemus, o Rabbi ficou morto!

Gad cahiu pesadamente de joelhos, soluçando: e o homem, como se todas as coisas tivessem sido ditas, deu um passo para buscar a sua lampada ao poço. Topsius deteve-o, com avidez:

--Escuta! Preciso toda a verdade. Que fizestes depois?

O homem parou junto a um dos pilares de madeira. Depois, alargando os braços na escuridão, e tão perto das nossas faces que eu sentia o seu bafo quente:

--Era necessário, para bem da terra, que se cumprissem as profecias! Durante duas horas José de Ramatha orou, prostrado. Não sei se o Senhor lhe falou em segredo; mas, quando se ergueu, resplandecia todo e gritou: «Elias veio! Elias veio! Os tempos chegaram!» Depois, por sua ordem, enterrámos o Rabbi em uma caverna que ele tem, talhada na rocha, por traz do moinho...

Atravessou o pátio, tomou a sua lampada. E recolhia lentamente, sem um rumor, quando Gad, erguendo a face, o chamou através dos seus soluços:

--Escuta ainda! Grande é o Senhor, na verdade!... E o outro tumulo, onde as mulheres de Galilêa o deixaram, ligado e envolto em panos, com alões e com nardo?

O homem, sem parar, murmurou, já sumido na treva:

--Lá ficou aberto, lá ficou vazio!...

Então Topsius arrastou-me pelo braço tão arrebatadamente que tropeçavamos no escuro contra os pilares da varanda. Uma porta ao fundo abriu-se, com um brusco estrondo de ferros cahidos... E vi uma praça, rodeada de pálidos arcos, triste e fria, com herva entre as fendas das lages dessoldadas, como em uma cidade abandonada. Topsius estacou, os seus óculos faiscavam:

--Teodorico, a noite termina, vamos partir de Jerusalem!... A nossa jornada ao Passado acabou... A lenda inicial do cristianismo está feita, vai findar o mundo antigo!

Eu considerei, assombrado e arripiado, o douto Historiador. Os seus cabelos ondeavam agitados por um vento de inspiração. E o que levemente saia dos seus finos lábios retumbava, terrível e enorme, caindo sobre o meu coração:

--Depois de amanhã, quando acabar o Sabbath, as mulheres de Galilêa voltarão ao sepulchro de José de Ramatha onde deixaram Jesus sepultado... E encontram-no aberto, encontram-no vazio!... «Desapareceu, não está aqui!...» Então Maria de Magdala, crente e apaixonada, irá gritar por Jerusalém--«resuscitou, resuscitou!» E assim o amor de uma mulher muda a face do mundo, e dá uma religião mais á humanidade!

E, atirando os braços ao ar, correu através da praça--onde os pilares de mármore começavam a tombar, sem ruido e molemente. Arquejando, páramos no portão de Gamaliel. Um escravo, tendo ainda nos pulsos pedaços de cadeás partidas, segurava os nossos cavalos. Montámos. Com um fragor de pedras levadas em uma torrente, varámos a Porta de Ouro: e galopámos para Jerichó, pela estrada romana de Sichem, tão vertiginosamente que não sentiamos as ferraduras ferir as lages negras de basalto. Adiante, a capa branca de Topsius torcia-se açoutada por uma rajada furiosa. Os montes corriam aos lados, como fardos sobre dorsos de camelôs na debandada de um povo. As ventas da minha egoa dardejavam jactos de fumo avermelhado:--e eu agarrava-me ás clinas, tonto, como se rolasse entre nuvens...

De repente avistámos, alargada, cavada até ás serras de Moab, a planície de Canaan. O nosso acampamento alvejava junto ás bragas dormentes da fogueira. Os cavalos estacaram, tremendo. Corremos ás tendas: sobre a mesa, a vela que Topsius acendera para se vestir, havia mil e oitocentos anos, morria em um fogacho livido... E derreado da infinita jornada atirei-me para o catre, sem mesmo descalçar as botas brancas de pó...

Imediatamente me pareceu que uma tocha fumegante penetrara na tenda, esparzindo um brilho de ouro... Ergui-me, assustado. em um largo raio de sol, vindo dos montes de Moab, o jocundo Potte entrava, em mangas de camisa, com as minhas botas na mão!

Arrojei a manta, arredei os cabelos, para verificar melhor a mudança terrível que desde a véspera se fizera no Universo! Sobre a mesa jaziam as garrafas do champagne com que brindaramos á Sciencia e á Religião. O embrulho da Corôa de Espinhos pousava á minha cabeceira. Topsius, no seu catre, em camisola e com um lenço amarrado na testa, bocejava, pondo os óculos de ouro no bico. E o risonho Potte, censurando a nossa preguiça, queria saber se appeteciamos em essa manhã--«tapioca ou café».

Deixei sair deliciosamente do peito um ruidoso, consolado suspiro. E no jubilo triunfal de me sentir reentrado na minha individualidade e no meu século pulei sobre o colxão, com a fralda ao vento, bradei:

--Tapioca, meu Potte! Uma tapioca bem docinha e mollesinha, que saiba bem ao meu Portugal!...

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