Capítulo VII A Cidade e as Serras · Capítulo 7 de 16
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Capítulo VII

Julho findara com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em realizar finalmente a minha romagem ás cidades da Europa, sempre retardada, através da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne. Mas, de repente, Jacinto começou a rogar e a reclamar que o seu Zé Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame de Oriol! E eu compreendi que o meu Príncipe (á maneira do divino Achilles, que, sob a tenda, e junto da branca, insipida e dócil Briseis, nunca dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presença, o confôrto e o socorro da Amizade. Pobre Jacinto! Logo pela manhã combinava pelo telefone com Madame de Oriol essa hora de quietação e doçura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e solitária em aquela sala da rua de Lisbonne, onde Jacinto e eu mal cabiamos, suffocavamos na confusão, entre os cestos de flôres, e os ouros rocalhados, e os monstros do Japão, e a galante fragilidade dos Saxes, e as peles de feras estiradas aos pés de sofás adormecedores, e os biombos de Aubusson formando alcôvas favoraveis e languidas... Aninhada em uma cadeira de bambú lacada de branco, entre almofadas aromatisadas de verbena da Índia, com um romance pousado no regaço, ela esperava o seu amigo, em uma certa indolencia passiva e mansa que me lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas Pompadour, parecia também uma marquezinha de Versalhes cançada do grande século; ou então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intrusão, na intimidade de aquelas tardes, não a contrariava--antes lhe trazia um vassalo novo, com dois olhos novos para a contemplar. Eu era já o seu cher Fernandez!

E apenas descerrava os lábios avivados de vermelho, semelhantes a uma ferida fresca, e começava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a murmuração de Paris. Ela só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o resumo da sua Classe, e sobre a sua existência que era o resumo do seu Paris:--e a sua existência, desde casada, consistira em ornar com suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeição em uma sala e irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vitoria como uma imagem de cêra; decotar e branquear o colo; debicar uma perna de galinhola em mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a vaidade esfalfada; percorrer de manhã, tomando chocolate, os «Echos» e as «Festas» do Figaro; e de vez em quando murmurar para o marido--«Ah, és tu?...» Além de isso, ao lusco-fusco, em um sofá, alguns certos suspiros, entre os braços de alguém a quem era constante. Ao meu Príncipe, em esse ano, pertencia o sofá. E todos estes deveres de Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que já duas prégas lhe vincavam os cantos dos beiços, indelevelmente. Mas nem na alma, nem na pele, mostrava outras maculas de fadiga. A sua Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario. Através, porém, desta fulgurante sociabilidade arranjara no cérebro (onde de certo penetrara o pó de arroz que desde o colégio acamava na testa) algumas Idéas Gerais. Em Politica era pelos Principes; e todos os outros «horrores», a República, o Socialismo, a Democracia que se não lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa juntava ás rendas do chapéu a Corôa amarga de espinhos--por serem esses, para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dor. E, diante de todo o Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoção e formulava finamente o juízo, que no seu Mundo, e em essa Semana, fosse elegante formular e sentir. Tinha trinta anos. Nunca se embaraçara nos tormentos de uma paixão. Marcava, com rígida regularidade, todas as suas despezas em um Livro de Contas encadernado em pelúcia verde-mar. A sua religião íntima (e mais genuína do que a outra, que a levava todos os domingos á missa de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amável cidade começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem abrigo--ela preparava com comovido cuidado os seus vestidos de patinagem. E preparava também os de Caridade--porque era boa, e concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados pelas Duquezas do seu «rancho». Depois, na primavera, muito metodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de inverno. Paris admirava em ela uma suprema flôr de Parisianismo.

Pois respirando esta macia e fina flôr passamos nós as tardes de esse julho em quanto as outras flôres pendiam e murchavam na calma e no pó. Mas, na intimidade do seu perfume, Jacinto não parecia encontrar esse contentamento de alma, que entre tudo que cança jamais cança. Era já com a paciente lentidão com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem tapetados, que ele subia a escadaria de Madame de Oriol, tão suave e orlada de tão frescas palmeiras. Quando a apetitosa creatura, com dedicação, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavão desdobra a cauda, o meu pobre Príncipe puxava os pelos do bigode murcho, na murcha postura de quem, por uma manhã de Maio, em quanto os melros cantam nas sebes, assiste, em uma egreja negra, a um responso fúnebre por um Príncipe. E no beijo que ele chuchurreava sobre a mão da sua dôce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e alivio.

Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar através da Biblioteca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telégrafo, atirando algum recado mole pelo telefone, espalhando o olhar desalentado sobre o saber imenso dos trinta mil livros, remexendo a colina dos Jornais e Revistas, terminava por me chamar, já com a preguiça triste da façanha a que se impelia:

--Vamos a casa de Madame de Oriol, Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para hoje seis ou sete coisas, mas não posso, é uma seca! Vamos a casa de Madame de Oriol... Ao menos lá, ás vezes, ha um bocado de frescura e paz.

E foi em uma de essas tardes, em que o meu Príncipe assim procurava desesperadamente um «bocado de frescura e paz», que encontramos, ao meio da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame de Oriol. Eu já o conhecia--porque Jacinto mo mostrara uma noite, no Grand Café, ceiando com dançarinas do Moulin Rouge. Era um moço gordalhufo, indolente, de uma brancura cruá de toucinho, com uma calvice já séria e já lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos carregados de anéis. em essa tarde, porém, vinha vermelho, todo emocionado, calçando as luvas com cólera. Estacou diante de Jacinto--e sem mesmo lhe apertar a mão, atirando um gesto para o patamar:

--Visita lá acima? Vai achar a Joana em péssima disposição... Tivemos uma scena, e tremenda.

Deu outro puxão desesperado á luva cor de palha, já esgaçada:

--Estamos separados, cada um vive como lhe apetece, é excelente! Mas em tudo ha medida e fórma... Ela tem o meu nome, não posso consentir que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do trintanário. Amantes na nossa roda, vá! Um lacaio, não!... Se quer dormir com os creados que emigre para o fundo da província, para a sua casa de Corbelle. E lá até com os animais!... Foi o que eu lhe disse! Ficou como uma fera.

Sacudiu então a mão do Jacinto que «era da sua roda»--rebolou pela escadaria florida e nobre. O meu Príncipe, imóvel nos degraus, de face pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando para mim, como um sèr saturado de tédio e em quem nenhum tédio novo póde caber:

--Já agora subamos, sim?

* * * * *

Parti então, com muita alegria, para a minha apetecida romagem ás Cidades da Europa.

Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, á pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia em um wagon, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida de um Hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, de onde me erguia, estremunhado, para pedir em línguas desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a lôdo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me chegasse o boeuf-a-la-mode, já frio, com môlho coalhado--e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e quarenta salas revestidas até aos tectos de Christos, heróis, santos, ninfas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias manchas de betume, tristezas das formas imóveis!... E o dia mais dôce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho inglez de penca flamejante que habitara o Porto, conhecêra o Ricardo, o José Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista... Gastei seis mil francos. Tinha viajado.

Emfim, em uma bendita manhã de outubro, na primeira friagem e nevoa de outomno, avistei com enternecido alvoroço as cortinas de seda ainda fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde encontrei o ar macio e tépido que deixara em Florença, apertei os ossos do Grilo excelente:

--E Jacinto?

O digno negro murmurou, de entre os altos, reluzentes colarinhos:

--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da Duqueza de Loches. Era o contrato de casamento de Mademoiselle de Loches... Ainda tomou antes de se deitar um chá gelado... E disse a coçar a cabeça: «Eh! que massada! Eh! que massada!»

Depois do banho e do chocolate, ás dez horas, consolado e quentinho dentro do roupão de veludo, rompi pelo quarto do meu Príncipe, de braços abertos e sedentos:

--Oh Jacinto!

--Oh viajante!...

Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a face--e em ela a alma. Encolhido em uma quinzena de pano cor de malva orlada de peles de Marta, com os pelos do bigode murchos, as suas duas rugas mais cavadas, uma moleza nos hombros largos, o meu amigo parecia já vergado sob o peso e a opressão e o terror do seu dia. Eu sorri, para que ele sorrisse:

--Valente Jacinto... Então como tens vivido?

Ele respondeu, muito serenamente:

--Como um morto.

Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fosse leve:

--Aborrecidote, hein?

O meu Príncipe lançou, em um gesto tão vencido, um oh tão cansado--que eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe comunicar uma parte de esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus!

* * * * *

Desde essa manhã, Jacinto começou a mostrar claramente, escancaradamente, ao seu Zé Fernandes, o tédio de que a existência o saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfôrço consistiram então em sondar e formular esse tédio--na esperança de o vencer logo que lhe conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacinto reproduziu a comedia pouco divertida de um Melancolico que perpetuamente raciocina a sua Melancolia! em esse raciocínio, ele partia sempre do facto irrecusavel e mássico--que a sua vida especial de Jacinto continha todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no século XIX, em uma vida de homem que não é um Gênio, nem um Santo. Com efeito! Apesar do apetite embotado por doze anos de Champagnes e môlhos ricos ele conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua inteligência não aparecera nem tremor nem morrão; a boa terra de Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as simpatias de uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de confôrtos; nenhuma amargura de coração o atormentava;--e todavia era um Triste. Porque?... E de aqui saltava, com certeza fulgurante, á conclusão de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava amortalhada, não provinham da sua individualidade de Jacinto--mas da Vida, do lamentável, do desastroso facto de Viver! E assim o saudável, intelectual, riquissimo, bem-acolhido Jacinto tombara no Pessimismo.

E um Pessimismo irritado! Porque (segundo afirmava) ele nascera para ser tão naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, até aos doze anos, enquanto fora um bicho superiormente amimado, com a sua pele sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lagrimas eram para ele tão incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. Só quando crescêra, e da animalidade penetrara na humanidade, despontara em ele esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das primeiras curiosidades, e que depois alastrara, o invadira todo, se lhe tornara consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto era inseparável de Viver. Soffrimentos diferentes nos destinos diferentes da Vida. Na turba dos humanos é a angustiada lucta pelo pão, pelo tecto, pelo lume; em uma casta, agitada por necessidades mais altas, é a amargura das desilusões, o mal da imaginação insatisfeita, o orgulho chocando contra obstaculo; em ele, que tinha os bens todos e desejos nenhuns, era o tédio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade, fastio da Inteligência--eis a Vida! E agora aos trinta e três anos a sua ocupação era bocejar, correr com os dedos desalentados a face pendida para em ela palpar e apetecer a caveira.

Foi então que o meu Príncipe começou a ler apaixonadamente, desde o Eclesiastes até Schopenhauer, todos os líricos e todos os teóricos do Pessimismo. em estas leituras encontrava a reconfortante comprovação de que o seu mal não era mesquinhamente «Jacintico»--mas grandiosamente resultante de uma Lei Universal. Já ha quatro mil anos, na remota Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triunfais, se resumia em Ilusão. Já o Rei incomparável, de sapiência divina, sumo Vencedor, sumo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas conquistas, e os mármores novos dos seus Templos, e as suas três mil concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Etiópia para que ele as fecundasse e no seu ventre depozésse um Deus! Não ha nada novo sob o sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males. Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do pó, em pó se tornam. Tudo tende ao pó efêmero, em Jerusalém e em Paris! E ele, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu trono de ouro, entre os seus quatro leões de ouro, o filho magnifico de David.

Não se separava então do Eclesiastes. E circulava por Paris trazendo dentro do coupé Salomão, como irmão de dor, com quem repetia o grito desolado que é a suma da verdade humana--Vanitas Vanitatum! Tudo é Vaidade! Outras vezes, logo de manhã o encontrava estendido no sofá, em um roupão de seda, absorvendo Schopenhauer--enquanto o pedicuro, ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos pés. Ao lado pousava a chávena de Saxe, cheia de esse café de Moka enviado por emires do Deserto, que não o contentava nunca, nem pela força, nem pelo aroma. A espaços pousava o livro no peito, resvalava um olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dor o torturaria--pois que a todo o viver corresponde um sofrer. Decerto o remexer assim, perpetuamente, em pés alheios... E quando o pedicuro se erguia, Jacinto abria para ele um sorriso de confraternidade--com um «adeus, meu amigo» que era «um adeus, meu irmão!»

Esse foi o período esplendido e soberbamente divertido do seu tédio. Jacinto encontrara emfim na vida uma ocupação grata--maldizer a Vida! E para que a pudesse maldizer em todas as suas formas, as mais ricas, as mais intelectuais, as mais puras, sobrecarregou a sua vida própria de novo luxo, de interesses novos de espirito, e até de fervores humanitários, e até de curiosidades supernaturais.

O 202, em esse inverno, refulgiu de magnificência. Foi então que ele iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Cor contados na Historia Augusta: e ofereceu ás suas amigas esse sublime jantar cor de rosa, em que tudo era róseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louças, os cristais, os gelados, os Champagnes, e até (por uma invenção da Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros serviam, empoados de pó rosado, com librés da cor da rosa, em quanto do tecto, de um velário de seda rosada, cahiam pétalas frescas de rosas... A Cidade, deslumbrada, clamou--«Bravo, Jacinto!» E o meu Príncipe, ao rematar a festa fulgurante, plantou diante de mim as mãos nas ilhargas e gritou triunfalmente:--«Hein? Que massada!...»

Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanças debeis á beira do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindù de Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para verificar a misteriosa exteriorisação da motilidade. Depois, desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegráficos do Times, para que no seu gabinete, como em um coração, palpitasse toda a vida Social da Europa.

E a cada um de estes esforços da elegância, do humanitarismo, da sociabilidade, e da inteligência indagadora, voltava para mim, de braços alegres, com um grito victorioso:--«Vês tu, Zé Fernandes? Uma massada!»--Arrebatava então o seu Eclesiastes, o seu Schopenhauer, e, estendido no sofá, saboreava voluptuosamente a concordância da Doutrina e da Experiencia. Possuía uma Fé--o Pessimismo: era um apostolo rico e esforçado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da sua Fé! Muito gozou em esse ano o meu desgraçado Príncipe!

No começo do inverno, porém, notei com inquietação que Jacinto já não folheava o Eclesiastes, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do Times, pareciam interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstrações gloriosas da sua Crença. E a sua abominável funcção de novo se limitou a bocejar, a passar os dedos moles sobre a face pendida palpando a caveira. Incessantemente aludia á morte como a uma libertação. Uma tarde mesmo, no melancólico crepúsculo da Biblioteca, antes de refulgirem as luzes, consideravelmente me aterrou, falando em um tom regelado de mortes rápidas, sem dor, pelo choque de uma vasta pilha elétrica ou pela violência compassiva do acido cianídrico. Diabo! O Pessimismo, que aparecera na Inteligência do meu Príncipe como um conceito elegante--atacara bruscamente a Vontade!

Todo o seu movimento então foi o de um boi inconsciente que marcha sob a canga e o aguilhão. Já não esperava da Vida contentamento--nem mesmo se lastimava que ela lhe trouxesse tédio ou pena. «Tudo é indiferente, Zé Fernandes!» E tão indiferentemente sairia á sua janela para receber uma Corôa Imperial oferecida por um Povo--como se estenderia em uma poltrona rota para emudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e não conduzindo senão a maior desilusão, que podia importar a mais rutilante atividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos, dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no mínimo ato, raspar um fosforo ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade tão desconsolada que todo ele parecia ligado, desde os dedos até á alma, pelas voltas apertadas de uma corda que se não via e que o travava.

* * * * *

Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus anos, a 10 de Janeiro. Cêdo, de manhã, recebèra, com uma carta de Madame de Trèves, um açafate de camélias, azáleas, orchideas e lírios do Vale. E foi este mimo que lhe recordou a data considerável. Soprou sobre as pétalas o fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escárnio:

--Então, ha trinta e quatro anos que eu ando em esta massada?

E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o Champagne do «Natalicio»--ele recusou, com o nariz enojado. Oh! Não! Que horrível seca!... E bradou mesmo para o Grilo:

--Eu hoje não estou em Paris para ninguém. Abalei para o campo, abalei para Marselha... Morri!

E a sua ironia não cessou até ao almoço perante os bilhetes, os telegramas, as cartas, que subiam, se arredondavam em colina sobre a meza de ébano, como um preito da Cidade. Outras flôres que vieram, em vistosos cestos, com vistosos laços, foram por ele comparadas ás que se depõe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente de Efraim, uma engenhosa meza, que se abaixava até ao tapete ou se alteava até ao tecto--para que, senhor Deus meu?

Depois do almoço, como chovia sombriamente, não arredamos do 202, com os pés estendidos ao lume, em preguiçoso silencio. Eu terminara por adormecer beatificamente. Acordei aos passos açodados do Grilo... Jacinto, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel! E nunca eu me compadeci de aquele amigo, que cancarã a mocidade a acumular todas as noções formuladas desde Aristóteles e a juntar todos os inventos realisados desde Tharamenes, como em essa tarde de festa, em que ele, cercado de Civilisação nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao seu lar, a recortar papeis com uma tesoura!

O Grilo trazia um presente do Gran-Duque--uma caixa de prata, forrada de cedro, e cheia de um chá precioso, colhido, flôr a flôr, nas veigas de Kiang-Sou por mãos puras de virgens, e conduzido através da Asia, em caravanas, com a veneração de uma reliquia. Então, para despertar o nosso torpôr, lembrei que tomassemos o divino chá--ocupação bem harmônica com a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chama bailando no fogão. Jacinto acedeu--e um escudeiro acercou logo a meza de Efraim para que nós lhe estreassemos os serviços destros. Mas o meu Príncipe, depois de a altear, para meu espanto, até aos cristais do lustre, não conseguiu, apesar de uma suada e desesperada batalha com as molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica, unicamente aproveitável para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do chá entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de alfaias de prata, que comunicavam a essa ocupação, tão simples e dôce em casa de minha tia, fazer chá, a majestade de um rito. Prevenido pelo meu camarada da sublimidade de aquele chá de Kiang-Sou, ergui a chávena aos lábios com reverencia. Era uma infusão descorada que sabia a malva e a formiga. Jacinto provou, cuspiu, blasfemou... Não tomamos chá.

Ao cabo de outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no lume:

--E as obras de Tormes? A egreja... Já haverá egreja nova?

Jacinto retomara o papel e a tesoura:

--Não sei... Não tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde param os ossos... Que lúgubre historia!

Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo Grilo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz dôce, com as iniciais de Jacinto e a data ditosa em canela, á moda amável da nossa meiga terra. E o meu Príncipe á meza, percorrendo a lamina de marfim onde no 202 se inscreviam os pratos a lápis vermelho, louvou com fervôr a ideia patriarcal:

--Arrôz dôce! Está escrito com dois ss, mas não tem dúvida... Excelente lembrança! Ha que tempos não cômo arrôz dôce!... Desde a morte da avó.

Mas quando o arrôz dôce apareceu triunfalmente, que vexâme! Era um prato monumental, de grande arte! O arrôz, mássico, moldado em fórma de piramide do Egypto, emergia de uma calda de cereja, e desaparecia sob os fructos secos que o revestiam até ao cimo, onde se equilibrava uma corôa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciais, a data, tão lindas e graves na canela ingenua, vinham traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos, em um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacinto, erguendo o copo de Champagne, murmurou como em um funeral pagão:

--Ad Manes, aos nossos mortos!

Recolhemos á Biblioteca, a tomar o café no conchego e alegria do lume. Fora, o vento bramava como em um êrmo serrano: e as vidraças tremiam, alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez mil pobres que em Paris erram sem pão e sem lar! Na minha aldeia, entre cêrro e Vale, talvez assim rugisse a tormenta. Mas aí cada pobre, sob o abrigo da sua telha vã, com a sua panela atestada de couves, se agacha no seu mantéo ao calor da lareira. E para os que não tenham lenha ou couve, lá está o João das Quintas, ou a tia Vicência, ou o abbade, que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com eles contam, como sendo dos seus, quando o carro vai ao mato e a fornada entra no fôrno. Ah Portugal pequenino, que ainda és dôce aos pequeninos!

Suspirei, Jacinto preguiçava. E terminamos por remexer languidamente os jornais que o mordomo trouxera, em um monte facundo, sobre uma salva de prata--jornais de Paris, jornais de Londres, Semanarios, Magazines, Revistas, Ilustrações... Jacinto desdobrava, arremessava: das Revistas espreitava o sumario, logo farto; ás Ilustrações rasgava as folhas com o dedo indiferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais estirado para o lume:

--É uma seca... Não ha que lêr.

E de repente, revoltado contra este fastio opressor que o escravisava, saltou da poltrona com um arranque de quem despedaça algemas, e ficou erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se intimasse aquele seu 202, tão abarrotado de Civilisação, a que por um momento sequer fornecesse á sua alma um interesse vivo, á sua vida um fugitivo gôsto! Mas o 202 permaneceu insensível: nem uma luz, para o animar, avivou o seu brilho mudo: só as vidraças tremeram sob o embate mais rude de água e vento.

Então o meu Príncipe, sucumbido, arrastou os passos até ao seu gabinete, começou a percorrer todos os aparelhos completadores e facilitadores da Vida--o seu Telégrafo, o seu Telephone, o seu Fonógrafo, o seu Radiometro, o seu Grafófono, o seu Microphono, a sua Machina de Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa Elétrica, a outra Magnetica, todos os seus utensílios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares de onde espera socorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou rígida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina vibrasse, para entreter o seu Senhor.

Só o relógio monumental, que marcava a hora de todas as capitais e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, anunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu pêzo--diminuindo esse sombrio pêzo da Vida, sob que ele gemia, vergado. O Príncipe da Gran-Ventura, então, decidiu recolher para a cama--com um livro... E durante um momento, estacou no meio da Biblioteca, considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e majestade como Doutores em um Concilio--depois as pilhas tumultuarias dos livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a consagração das estantes de ébano. Torcendo molemente o bigode caminhou por fim para a região dos Historiadores: espreitou séculos, farejou raças: pareceu atraído pelo explendor do Império Byzantino: penetrou na Revolução Francesa de onde se arredou desencantado: e palpou com mão indeliberada toda a vasta Grecia desde a creação de Atenas até a aniquilação de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas, que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, nos títulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. Não apeteceu nenhuma de essas seis mil almas--e recuou, desconsolado, até aos Biologos... Tão mássica e cerrada era a estante de Biologia que o meu pobre Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela inacessível! Rolou a escada--e, fugindo, trepou, até ás alturas da Astronomia: destacou astros, recolocou mundos: todo um Systema Solar desabou com fragor. Aturdido, desceu, começou a procurar por sobre as rimas das obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate. Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religiões: e relanceando uma linha, esgravatando além em um índice, todos interrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos, nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ânsia de encontrar um Livro! Parou então no meio da imensa nave, de cocoras, sem coragem, contemplando aqueles muros todos forrados, aquele chão todo alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substancia, já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua abundancia. Findou por voltar ao montão de jornais amarrotados, ergueu melancholicamente um velho Diario de Noticias, e com ele debaixo do braço subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.

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