ATO III: Duendes vermelhos
Já era noite, mas Quebra-Ossos continuava a percorrer a Cidade de Pedras. O cansaço pesava sobre seu corpo, porém, nada seria suficiente para fazê-lo desistir daquela pequena criatura que tanto o instigara.
A luz da lua mal conseguia atravessar as estreitas fendas. O labirinto de rochas mergulhara numa escuridão tão espessa que até o vento parecia evitar aquele lugar. Restavam apenas o gotejar constante da água, o ranger das pedras e o perfume delicado que insistia em conduzir o caçador por caminhos que nenhum mapa seria capaz de registrar.
A cada novo corredor, ele tinha a impressão de que tudo ali mudava de lugar. Túneis que momentos antes terminavam em paredões agora revelavam passagens estreitas e até as enormes rochas pareciam ter deslizado.
Enquanto seus olhos encontravam apenas sombras, suas narinas reconheciam, entre as pedras, o aroma de sua adorada fada.
Andava atento pelas trilhas, quando uma gota gelada tocou sua pálpebra, outra caiu logo depois. Aquele líquido escorreu lentamente sobre seu rosto. Por um breve momento, imaginou que fosse apenas água. Ao enxugar o rosto, porém, sentiu entre os dedos uma textura espessa.
Ele permaneceu imóvel, encarando a ponta dos próprios dedos. Mesmo na penumbra, percebeu que não era água nem mesmo sangue.
— O que é isso! — murmurou, enquanto limpava as mãos na própria.
De repente, o canto dos insetos, que até então se entrelaçava ao ranger das pedras e ao gotejar persistente das grutas, cessou por completo. Restou apenas o vento, que agitava os galhos das árvores e os fazia se chocarem uns contra os outros. Não era o silêncio que inquietava o caçador, mas a lembrança de uma antiga lição do homem que o treinara desde a infância.
Mudan sempre dizia: “Os insetos são os primeiros a perceber a aproximação da morte. Enquanto cantam, o perigo continua distante. Quando se calam, é porque ele já chegou.”
Sem perder tempo, levou os dedos ainda úmidos ao nariz e inspirou profundamente. Um odor metálico, velho conhecido de suas caçadas, invadiu-lhe as narinas e fez cada músculo de seu corpo enrijecer. Durante alguns instantes, permaneceu imóvel, atento ao menor movimento que denunciasse a origem daquele cheiro.
Até que escutou um ruído, vindo de algum ponto entre as árvores. Instintivamente, sua mão deslizou até o cabo da adaga, enquanto os olhos percorriam cada tronco, cada galho e cada sombra que se confundia com a escuridão da mata. Apesar da atenção redobrada, não encontrou nada.
Mesmo mantendo-se em alerta, afastou a mão do cabo da adaga. Quando estava prestes a retomar o caminho, um estalo seco ecoou à sua direita. Girou o corpo por instinto e seus olhos encontraram uma pequena criatura de pele avermelhada, imóvel entre os arbustos.
Os olhos negros da pequena criatura permaneciam imóveis, sem um único piscar. Sob o sorriso de dentes finos, o sangue escorria pelos cantos da boca. Em uma das mãos, apertava um pequeno volume disforme, coberto por espinhos e ainda gotejando sangue fresco.
— Um duende… vermelho? — murmurou.
A última vez que encontrara um deles fora muitos anos antes, nas montanhas geladas do sul da Argentina. Jamais imaginara que uma criatura acostumada ao frio sobreviveria entre o calor úmido da Cidade de Pedras.
Sem emitir um único som, o duende ergueu a arma e disparou contra o caçador. O sorriso continuava estampado em seu rosto, como se a violência lhe despertasse a mesma alegria de uma brincadeira infantil.
Quebra-Ossos desviou com precisão. Num único movimento, puxou a adaga da bainha e desferiu um golpe contra a criatura.
Por um instante, acreditou que tudo terminara ali e um discreto alívio lhe percorreu o corpo. A última vez que enfrentara um duende vermelho quase lhe custara a vida, e ele não tinha nenhuma intenção de reviver aquele pesadelo.
— Morra! — exclamou, limpando a lâmina na própria roupa.
No entanto, a pequena criatura permaneceu imóvel e, diante dos olhos do caçador, o corte aberto pela adaga começou a se fechar lentamente, como se a própria carne recusasse o ferimento. Logo, não restava sequer uma cicatriz.
Então, os dedos do duende se moveram e, gradualmente, suas pequenas pernas voltaram a se firmar sobre as pedras, como se nada tivesse acontecido. Ergueu novamente a cabeça, e o sorriso ensanguentado permaneceu intacto.
O caçador inclinou levemente a cabeça, estudando a criatura.
— Você é diferente. Mas nenhuma criatura sobrevive sem a cabeça.
Sem hesitar, avançou contra o duende com toda a fúria, mas a lâmina sequer alcançou a criatura. O fracasso do golpe, em vez de irritá-lo, arrancou-lhe um discreto sorriso. Havia muitos anos não encontrava um adversário capaz de despertar tamanho interesse.
De repente, algumas gotas daquele mesmo líquido caíram sobre seus ombros. Antes que pudesse compreender o que acontecia, um ruído sacudiu os galhos acima de sua cabeça. Quando ergueu os olhos, outro duende despencou sobre ele e desferiu um golpe tão violento em sua nuca que o mundo pareceu girar.
A força do impacto fez suas pernas perderem o equilíbrio e, enquanto a consciência lhe escapava, a escuridão o engoliu antes que conseguisse enxergar o rosto de seu agressor.