Ó mulheres!... A Queda d'um Anjo · Capítulo 20 de 37
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Ó mulheres!...

Seguiram-se horas de insônia. O juízo dava-lhe tratos amaríssimos ao coração. O homem sentava-se na cama, e remexia-se inquieto como se o escárnio o estivesse picando dentre a palha do enxergão.

Os intervalos lúcidos eram-lhe intervalos do inferno. Os axiomas clássicos sobre o amor caiam-lhe na memória como chuva de dardos. Quem mais o supliciou foi o seu mestre e amigo D. Amador Arraiz. Este santo bispo apresentou-se-lhe em visão, com D. Teodora Figueirôa ao lado, e disse-lhe as palavras do capítulo XLV dos Diálogos: «Em a lei de Cristo a fidelidade que deve a mulher ao marido, essa mesma deve o marido à mulher; e, se as leis civis dão mais poder aos maridos que às mulheres, não é para as ofender e maltratar, nem para um ter mór jurisdição sobre si que o outro.»

Seguiram-se outras visões de não somenos pavor. Aí pela madrugada, Calisto Elói amodorrou-se em roncado dormir; mas a fada que lhe abrira os tesouros virgíneos do coração, a esbelta Adelaide bateu-lhe com as azas brancas nas pálpebras, e o homem acordou estremunhado a desgrudar os olhos, que se haviam fechado com duas lágrimas, as primeiras que o amor lhe esponjara do seio, e cristalizara nos cílios, como diria o dr. Libório. Então foi o trabalharem-no umas cogitações tão sandias, que seriam imperdoáveis, se não estivessem na tresloucada natureza de todo homem que ama.

Entrou a inventariar as alterações que devia fazer no substancial e acidental da sua personalidade.

O uso do meio grosso pareceu-lhe incompatível com um galã. Aqueles sibilos da pitada, bem que denotassem espíritos cogitantes e gravidade de juízo, deviam de toar ingratamente nos ouvidos de Adelaide. De mais disso, a saraivada de bagos de rapé que ele sacudia dos sorvedouros nasais, algumas vezes obrigava as damas a formarem sobre os olhos com os dedos um antemural sanitário contra as insuflações imundas do sábio. Deliberou, portanto, imolar as delícias pituitárias.

Viu-se no espelho de barbear, modesto utensílio do estojo de bezerro, e conveio no deslavado prosaísmo da sua cara clerical. Resolveu deixar pera e meia barba, como transição para o bigode, que devia ir-lhe bem na tez um tanto moreno-pálida.

Como o estudo lhe havia extenuado os olhos, e por amor disso usava óculos de prata quando lia, adotou a luneta de ouro com molas pensis.

Neste propósito, saiu a delinear as reformas capilares; fez alinhar as bases de uma cabeleira, que trouxera escadeada da província; e consentiu que lhe encalamistrassem dois topes rebeldes ao ferro.

Depois, quando a ânsia de uma pitada começava a importuná-lo, fez provisão de charutos, e fumou o primeiro com aflitivas caretas, e engulhos de estômago.

Colheu informações dos alfaiates de melhor fama, e foi ao Keil encomendar duas andainas de fato. O artista ofereceu-lhe os figurinos; e, como lhe falasse francês, Calisto supôs que o atencioso alfaiate lhe dava a conhecer os retratos de alguns sujeitos ilustres da França. Corrido do engano, depois de ler as indicações das toiletes, saiu dali a procurar mestre de línguas, e a comprar dicionários e guias de conversação.

Se o leitor, mais perseguido da fortuna esquerda, nunca passou por lances análogos, não se tenha em conta de desgraçado.

Quem tivesse conhecido, um mês antes, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, devia chorá-lo, quando o viu entrar em um café a pedir água para combater os vômitos provocados pelo charuto!

Irá perder-se aquela alma tão portuguesa, aquele exemplar marido, aquele sacerdote e glorificador dos clássicos lusitanos?

O amor abrirá no pavimento da câmara um alçapão, onde se afunda aquele grande brilhante, desluzido, mas prometedor de refulgente lume?

Di meliora piis!

Ó Lisboa!...

Ó mulheres!...

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