Segunda Carta de Z. O Mistério da Estrada de Sintra · Capítulo 5 de 10
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Segunda Carta de Z.

Senhor redator.--Acabo de vêr publicada na sua folha de hoje uma carta em que o doutor..., com uma insistência malévola, torna a inculcar, como cúmplice no atentado de que ele se fez o historiador voluntario, o meu pobre amigo A. M. C.

Disse-lhe na minha primeira carta, senhor redator, que eu ia com o auxílio único da minha coragem e da minha astucia, pôr-me ao serviço da curiosidade de todos, procurando penetrar e desfiar a tenebrosa historia que ha mais de uma semana, vem todos os dias sucessivamente, no folhetim do seu jornal, apresentar diante de um publico atônito um quadro misterioso e lúgubre.

Não pude, porém, descobrir nada: indagações, interrogatórios, visitas aos logares, tudo foi inutil. A historia perde-se cada vez mais em uma nevoa que a afoga: e o meu pobre M. C. lá está ainda--não sei se em um retiro voluntario, se em uma sequestração forçada.

Na impossibilidade de descobrir, fisicamente, por essas ruas, a verdade, resolvi ir buscá-la ás mesmas cartas do doutor. Analysei-as, decompul-as palavra por palavra. E sem contar os processos, apresento os resultados.

O Mysterio da estrada de Cintra é uma invenção: não uma invenção literária, como ao principio supus, mas uma invenção criminosa, com um fim determinado. Eis aqui o que pude deduzir sobre os motivos de esta invenção:

Ha um crime; é indubitavel; é claro. Um dos cúmplices de este crime é o doutor ***. Ele está envolvido no anonimo: não tenho por isso dúvida em apresentar esta acusação formal. Se o seu nome fosse conhecido, se as suas cartas estivessem assignadas, eu, só com provas judiciarias, me atreveria a escrever esta grave afirmativa.

Sim, o doutor *** é o cúmplice de um crime: o meu pobre amigo M. C. é um desgraçado incauto, sobre quem se querem fazer recahir as suspeitas que se possam ter já, e as provas que mais tarde venham a juntar-se. Este crime, que existe, aparece-nos envolvido nas roupas literárias de um mistério de teatro. As cartas do doutor *** são um romance pueril. Vejamos.

É possível que em uma cidade pequena como Lisboa, em que todos são visinhos, amigos de tu, e parentes, o doutor *** que parece ser um homem notado na sociedade, vivendo em ela, frequentando as suas salas e os seus teatros, não conhecesse nenhum de estes quatro mascarados, que pelas suas indicações pertencem a essa mesma sociedade, se sentam nos mesmos sofás, escutam a mesma musica nos mesmos salões e nos mesmos teatros?

Uma mascara de veludo preto não basta para disfarçar um conhecido. O seu cabelo, o seu andar, a sua estatura, a sua figura, a sua voz, as suas mãos, a sua toilete, são bastantes para revelar, trahir o individuo. O doutor *** pois nunca os tinha visto? O quê? Pois eram tão galantes, tão distinctos, governam tão bem as suas parelhas, falam tão bem as suas línguas, pareciam tão ricos, e o doutor *** um medico, um homem relacionado, um velho diletante de S. Carlos, nunca os viu, nunca os percebeu, em esta terra, em que toda a vida se concentra nos doze palmos de lama do Chiado! E F... tem um amigo intimo entre os mascarados, diante de si, na carruagem, joelho com joelho, e não o reconhece, pelas mãos, pelos olhos, pelo corpo, pelo silencio até! Comedia!

E o menos conhecido, o menos celebre dos rapazes de Lisboa, mascara-se no carnaval de Turco, enche-se de barbas, cobre-se de plumas, veste-se de Mephistopheles, de Ci-devant, ou de Melão, e não ha ninguém que no salão de S. Carlos, não diga ao passar por ele: lá vai fulano! E é de noite, ás luzes, e as mulheres olham-nos, e estamos distrahidos, e não estamos em uma estrada, de dia, surprehendidos e violentados! Tanto nos conhecemos todos! Comedia! Comedia!

E aqueles mascarados, são tão inocentes, tão ingênuos, que vão procurar, em um momento tão perigoso, o homem que pelas suas relações, pela sua posição, pela sua inteligente penetração, mais facilmente os poderia reconhecer.

Se lhes era repugnante serem descobertos, para que procuraram aquele homem? Se lhes era indiferente, para que se mascararam?

E depois, para que era um medico? Era para verificar a morte? Para acudir? Para salvar? em esse caso então que homens são esses, que em logar de ir á botica mais próxima, a casa do primeiro medico rapidamente, logo, logo,--vão em socego mascarar-se nos seus quartos, para irem ao crepúsculo, para uma charneca, a duas legoas de distancia, representar os velhos episódios de floresta dos dramas de Soulié?

Suppunham por ventura que ele estava morto? Para que era então um medico, uma testemunha? E se não receavam as testemunhas para que punham nos seus rostos uma mascara, e nos olhos dos surprehendidos um lenço de cambraia? Comedia! Comedia sempre!

Veja-se o doutor *** diante do cadáver: não ha ali uma palavra que seja scientifica: desde a serenidade das feições até á dilatação das pupilas, tudo é falso em aquela descripção symptomatica.

E que homens são, o doutor *** e o seu amigo F... que na rua de uma cidade, dentro de uma casa, com os braços livres, não deitam a mão àqueles mascaras? Como é que, sendo generosos e altivos suportam certas violências humilhantes? Como é que, sendo honestos e dignos, aceitam pela sua atitude condescendente uma parte da cumplicidade?

E A. M. C.! Como o representam ali, pueril, nervoso, tímido, imbecil e coacto! Ele de uma tão grande força de temperamento! de uma tão enérgica coragem! de um tão altivo sangue frio! Como se póde acreditar em aquela astucia infantil, com que o doutor *** o envolve?

--O que admira é que não deixasse vestígios o arsênico!

--Mas foi o opio! responde M. C., segundo conta o doutor ***.

Qual é a imbecil ingenuidade do homem que possa descer a esta simplicidade lorpa?

E emfim, que mulher é aquela, que aí se entrevê? Porque a quer o mascarado salvar? Que roubo é aquele de 2:300 libras? Sejamos lógicos: dado o tipo do mascarado, cavalheiroso e nobre, como é que ele, vendo que o crime teve por origem o roubo, procura salvar e tem considerações por uma mulher que mata para roubar?

Se ele suspeita que o crime cometido por essa mulher teve por móbil a paixão, como explica o roubo?

Demais, se desconfiava que ela estivesse envolvida em aquele facto, se estava tão ligado com ela que a queria salvar, por que a não procurou logo, por que a não interrogou, em logar de ir surprehender gente para as estradas, e vir fazer tableau em volta de um cadáver?

Ah! como toda esta historia é artificial, postiça, pobremente inventada! aquelas carruagens como galopam misteriosamente pelas ruas de Lisboa! aqueles mascarados, fumando em um caminho, ao crepúsculo, aquelas estradas de romance, onde as carruagens passam sem parar nas barreiras, e onde galopam, ao escurecer, cavaleiros com capas alvadias! Parece um romance do tempo do ministério Villele. Não falo nas cartas de F... que não explicam nada, nada revelam, nada significam--a não ser a necessidade que tem um assassino e um ladrão de espalmar a sua prosa ocá, nas columnas de um jornal honesto.

Deducção: o doutor *** foi cúmplice de um crime; sabe que ha alguém que possui esse segredo, presente que tudo se vai espalhar, receia a policia, houve alguma indiscrição; por isso quer fazer poeira, desviar as pesquisas, transviar as indagações, confundir, obscurecer, rebuçar, enlear, e em quanto lança a perturbação no publico, faz as suas malas, vai ser cobarde para França, depois de ter sido assassino aqui!

O que faz no meio de tudo isto o meu amigo M. C. ignoro-o.

Senhor redator, peço-lhe, varra depressa do folhetim do seu jornal essas inverosimeis invenções.--Z.

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