EPÍLOGO - UM ANO DEPOIS
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ANTES DE COMEÇAR... Ei, você aí! Sim, você mesmo, que está segurando este livro agora! Posso te fazer uma pergunta? Você já olhou para um gato e se perguntou o que ele estaria pensando? Aquele olhar misterioso, aquelas orelhas em pé, aquele rabinho que balança de um jeito que parece que ele sabe de algum segredo que você não sabe? Pois é. Eu sei o que eles pensam. Como eu sei? Porque eu sou o Abacaxi. E esta é a minha história. Prepara o coração, colega. Vai ter emoção, risadas, sustos, amizades improváveis e talvez, só talvez, uma lágrima ou duas. Mas eu prometo que vai valer cada página. Vamos lá? Miau.
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LIÇÃO 1 - "APRENDENDO A PERCEBER O MUNDO" Cap. 1 - APRENDA COISAS NOVAS TODOS OS DIAS
Era uma noite que cheirava a mato molhado e terra fresca. O tipo de noite em que as estrelas tentam aparecer, mas as nuvens ficam na frente fazendo graça,
como
se
fosse
uma
brincadeira
de
esconde-esconde lá no céu. Uma noite em que os grilos cantam tão alto que parece que tem uma banda inteira tocando entre as folhas. E no meio de tudo isso, num cantinho que ninguém prestava
muita
atenção, debaixo de uma velha
goiabeira que balançava com o vento, aconteceu algo muito importante. Eu nasci. Não foi um nascimento com fogos de artifício ou bandas tocando. Não tinha fotógrafo, nem bolo de aniversário, nem ninguém gritando "parabéns!"
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No entanto, foi o nascimento mais importante do mundo. Pelo menos para mim. Abri os olhos e o que eu vi? Uma confusão enorme. Eram nós quatro: eu, minha irmã Melancia, meu irmão Maracujá e a pequenininha Pitanga, que era tão miudinha que a gente mal conseguia enxergá-la no escuro. E no meio de tudo isso, tentando dar conta de nós quatro ao mesmo tempo, estava a pessoa mais importante da minha vida até aquele momento: Mamãe. Ela era uma gata vira-lata como eu, com listras de todas as cores, como se alguém tivesse pegado um pincel cheio de tinta e feito riscos nela toda sem planejamento nenhum. Os seus olhos brilhavam no escuro como dois pequenos sóis dourados. E ela nos olhava com um amor tão grande que eu conseguia sentir aquele amor aquecendo meu pelo ainda molhado. Mas vou ser honesto com você: além de amor, eu sentia outra coisa. 6
Fome. Uma fome monumental. Uma fome do tamanho do universo. Uma fome que parecia fazer barulho dentro da minha barriguinha ainda minúscula. E eu não estava sozinho nessa. — MIAAAAAU! - gritei com toda a força que um gatinho
recém-nascido
consegue
gritar,
o
que
honestamente não é muita força, mas no silêncio da noite soou como um trovão. — Eca! Sai do meu lugar! - gritou Melancia, me empurrando com a patinha. — Aqui é meu! - eu respondi, empurrando de volta. — Os dois saiam. - disse Maracujá, se enfiando no meio. — Porque eu estava aqui primeiro! — Nenhum de vocês! - choramingou Pitanga lá do cantinho. — Porque eu sou a menor e tenho prioridade! E assim começou a minha primeira grande batalha. 7
Não era uma batalha de espadas ou de super-poderes. Era
uma
batalha
de
gatinhos
recém-nascidos
disputando espaço junto da mamãe. Mas para nós, naquele momento, era o maior desafio do mundo. Mamãe olhava para um lado, depois para o outro, depois para cima, como se estivesse pedindo paciência para alguma força superior do universo dos gatos.
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— Miau... - ela suspirou, com aquele tom de mãe cansada que todas as mães do mundo conhecem, seja gata, cachorra, leoa ou humana. Ela
começou
a
nos
organizar
com
o
focinho,
empurrando um aqui, ajeitando outro ali, tentando garantir que todos tivéssemos sua vez. E no meio daquela bagunça toda, eu descobri a primeira coisa importante da minha vida: Negociar espaço é uma arte. Não adianta só gritar e empurrar. É preciso esperar o momento certo, observar, e então... agir! Enquanto
Melancia
estava
distraída lambendo a
patinha dela, eu me movi. Devagarinho, sem fazer barulho, me posicionei no melhor lugar possível. Perfeito. — Heeey! - gritou Melancia, me vendo. — Agora é minha vez, Abacaxi! SAAAI!
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— Já saio. - eu disse, numa voz que tentava soar inocente mas está tão gostoso este leitinho quente, e as lambidas da mamãe me limpando... miau, miau... que estou com preguiça de sair. — SAI! SAI AGORA! - disse Melancia. Melancia estava vermelha de raiva ou estaria, se gatos ficassem vermelhos. — JÁ ESTOU IMPACIENTE E FAMINTA! — Tá bom, tá bom... - eu disse, me afastando com dignidade, como se fosse minha decisão e não dela. — Mas anotei que você me deve uma! Melancia bufou. Maracujá riu. Pitanga dormiu apesar de tudo isso, porque Pitanga dormia apesar de absolutamente tudo.
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Os dias passaram como os dias de gatinho costumam passar: mamando, dormindo, crescendo, e de vez em quando tentando dar um passo e caindo de cara no chão, o que deixava Melancia com um ataque de riso que durava horas. Mas lá pela terceira semana, algo mudou. O mundo começou a ficar maior. Não que o mundo em si tivesse crescido, é claro. O que cresceu fui eu. E comigo
crescendo, minha
curiosidade cresceu também. E a curiosidade, como todo gato sabe, é uma coisa muito poderosa e muito emocionante. E foi numa manhã de sol que tudo começou a mudar de verdade. Mamãe tinha saído para comer, como fazia todos os dias. Melancia estava quietinha, enroscada numa bolinha fofa de pelo laranja. Maracujá estava tentando escalar
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uma pedra e caindo no mesmo lugar pela décima vez. E Pitanga estava dormindo, como sempre. E eu... Eu estava olhando para o horizonte. Lá atrás dos arbustos, lá além da goiabeira, lá onde o mato terminava e começava um cheiro diferente, misturado de coisas que eu nunca tinha sentido antes, havia um mundo inteiro esperando por mim. Será que é seguro? pensei. Será que é perigoso? pensei, também. Mas e se for incrível? E foi essa última pergunta que fez meu coração dar um salto. Coloquei uma patinha na frente, depois outra, depois outra e antes que eu percebesse, estava caminhando sozinho pelo mato pela primeira vez na vida. O mundo era enorme. E silencioso de um jeito que me deixou com vontade de fazer barulho. Então foi o que fiz. 12
— MIAAAAAU! - gritei bem alto, para o mato todo ouvir.
O eco voltou para mim, se espalhando entre as folhas. Mas além do eco, veio outra coisa. Um barulho. Diferente de qualquer barulho que eu já tinha ouvido antes. 13
Não era minha mãe. Não eram meus irmãos. Não era o vento ou um passarinho. Era... outra coisa. E estava se aproximando. Meu pelo ficou em pé. Meu rabo ficou duro como uma vassoura. Meu coração batia tão rápido que eu conseguia ouvi-lo nos ouvidos. Corre, Abacaxi, disse uma voz dentro da minha cabeça. Mas aí outra voz respondeu: Ou então... e se for algo bom?
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Fechei os olhos. Respirei fundo, como a mamãe fazia quando estava com medo, mas precisava ser corajosa. E fiquei. Os passos se aproximaram. O cheiro era grande e desconhecido. E então houve uma sombra enorme na minha frente, e uma voz que soou como trovão mas com calor dentro: — NOSSA! Gatinho! O que você está fazendo aqui neste fim de mundo?! Abri um olho, depois o outro. Era um gigante. Mas não um gigante assustador. Era um gigante com olhos grandes e redondos que me olhavam com uma expressão que eu aprenderia mais tarde a reconhecer como espanto misturado com ternura. O tipo de expressão que humanos fazem quando veem algo pequeno e de pelo e ficam completamente sem ação. Antes que eu pudesse reagir, fui envolvido numa toalha quentinha que cheirava a algo suave e bom. 15
E o mundo começou a se mover de um jeito que eu nunca tinha sentido antes. Era um carro. E ele me levava para um lugar novo. Olhei pela janelinha enquanto o mato estava ficando para trás, e senti algo apertar no meu coração. Mamãe. Melancia. Maracujá. Pitanga. Mas então olhei para a frente, onde o mundo novo me esperava, e senti outra coisa, também. Esperança. 16
LIÇÃO DESTE CAPÍTULO: "Todo dia é dia de aprender algo novo e ganhar um amigo especial! Com um sorriso no rosto e o coração valente, você pode tudo — mesmo que sinta um friozinho na barriga, vá em frente com coragem Cap. 2 - OLHE O MUNDO DE FORMA MAIS AMPLA
A minha casa provisória era cor-de-mel. Pelo menos era assim que eu a via naquela tarde de sol, quando o Gigante me carregou pela primeira vez através do portão e eu espreitei por debaixo da toalha para tentar entender onde no mundo eu tinha ido parar. Era uma casa de tamanho médio, com um jardim na frente onde havia algumas flores que eu ainda não sabia o nome mas que cheiravam muito bem. Tinha uma varanda com cadeiras e uma janela grande que deixava o sol entrar como um rio dourado. E por essa janela, no parapeito, havia uma sombra. Uma sombra com olhos. 17
Uma sombra que me olhava com a expressão mais emburrada que eu já tinha visto em toda a minha curta vida de gatinho. — Eba! - pensei, tentando ser otimista . — Um amigo! A sombra com olhos discordava profundamente dessa avaliação. O Gigante me colocou no chão da sala, ainda enrolado na toalha, e me apresentou ao mundo novo com grande cerimônia: — Bem-vindo à casa, gatinho! Saí de baixo da toalha devagar, tentando parecer calmo e seguro de mim mesmo, o que era difícil considerando que meu pelo estava arrepiado em umas seis direções diferentes e minhas patinhas estavam tremendo levemente. Olhei em volta. A sala era grande. Tinha sofás macios que me pareceram paraísos de conforto. Tinha tapetes que 18
pediam para ser arranhados. Tinha um monte de prateleiras com coisas brilhantes e interessantes que com certeza cairiam perfeitamente no chão se eu dessem um tapa nelas. Era, resumindo, um lugar muito promissor. Mas antes que eu pudesse fazer minha análise completa, a sombra com olhos se revelou. Era uma gata. Branca com manchas cinzas, com os pelos mais bem penteados que eu já tinha visto, o nariz mais empinado da história dos gatos, e uma expressão que dizia claramente. “Este lugar é meu e eu não gosto de você.” Ela rodopiou uma vez, depois outra, depois uma terceira, o rabo batendo no chão com cada volta, como se estivesse marcando território no espaço, ao redor do espaço e ao redor dela mesma. — Goiaba! - disse o Gigante com um sorriso.
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— Este é o Abacaxi. Ele vai ficar com a gente por um tempo. Goiaba parou de rodar. Me olhou de cima a baixo com aqueles olhos que enxergavam mal mas compensavam com intensidade. Depois soltou um som que não era bem um miado e não era bem um rugido. Era uma combinação dos dois, o tipo de som que diz tudo sem precisar de palavras. Mas se eu tivesse que traduzir, seria mais ou menos assim: — Que gato maluco é este, de onde veio, por que está sujando minha casa com esses pezinhos de mato, e por que o Gigante está sorrindo desse jeito como se isso fosse uma coisa boa? Me sentei e pisquei para ela. Piscar, eu aprenderia mais tarde, é a forma que os gatos têm de dizer eu confio em você e estou sendo amigável ao mesmo tempo. É como um sorriso, mas mais elegante. 20
Goiaba virou o rosto para o outro lado como se eu não existisse. Ótimo, pensei. Já tenho um desafio. Mas Goiaba não era o único morador que eu precisava conhecer. Porque a casa tinha um quintal. E no quintal... — AU!AU! AU! AU! AU! Havia um cachorro. 21
Na verdade, haviam vários. A porta do quintal se abriu de repente como uma barragem
que
arrebenta,
e
uma
enxurrada
de
focinhos, línguas, orelhas e rabos entrou pela casa em velocidade de tufão. Eram cinco, e cada um vinha em uma direção diferente, cheirando tudo, empurrando tudo, fazendo um barulho que eu achei que ia fazer as janelas tremerem. Me encolhi contra a parede. Não de medo... bem, talvez um pouco de medo. Mas principalmente de análise. Eu estava analisando a situação, como qualquer estrategista de batalha faria. — Tem comida por aí? - perguntou o primeiro, um beagle gordinho com olhos de quem só pensa em duas coisas: ração e mais ração. Este era Easter, e ele mal me olhou, porque o cheiro de comida na direção da cozinha era muito mais interessante do que um gatinho novo.
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— Quem é você? Que bigode é esse? Por que você tem esse bigode tão grande? Que tamanho é esse? Posso cheirar? - disse a segunda, uma vira-lata preta com manchas brancas que não parava de abanar o rabo em velocidade de hélice. Esta era Pitch, e ela era a criatura mais curiosa que eu já tinha visto na vida. — Ooooh! Um gatinho! - choramingou a terceira, uma cachorra enorme que parou na minha frente e ficou me olhando com olhos úmidos e brilhantes. Esta era Merry Christmas, e ela era tão grandona que eu ficava com a impressão de que se ela me desse um abraço eu desapareceria completamente, por isso mantive uma distância segura. — Posso te cheirar? Por favor! Eu prometo que sou delicada! — Não! - disse eu, recuando mais dois passos obrigado.
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Os outros dois eram uns vira-latas que mal me notaram, ocupados demais farejando os cantos da sala em busca de algo que eu não consegui identificar. E ali estava eu, Abacaxi, gato vira-lata recém-chegado do mato, no meio de um caos de cinco cachorros, uma gata emburrada e um Gigante sorrindo como se tudo aquilo fosse completamente normal. 24
Beleza, pensei, respirando fundo. Vou precisar de um plano. Mas antes do plano veio uma coisa inesperada. O Gigante me pegou no colo. Me balançou de cá para lá. Puxou minha perna (com cuidado, mas ainda assim). Mexeu no meu rabo (com gentileza, mas eu não esperava).
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E quando eu já estava processando tudo isso, algo voou pelo ar e caiu no chão bem na minha frente. Uma bolinha. Com um barulho de zunido. Meus olhos foram para a bolinha. A bolinha estava ali, quietinha, esperando. E alguma coisa dentro de mim, algum instinto antigo e poderoso que não tem nada a ver com planos ou estratégias, simplesmente disse: CORRE ATRÁS! — Pega, pega, gatinho! - gritou o Gigante, rindo. Quero ver se você é mais rápido que eu! E lá se foi eu, correndo pela casa atrás daquela bolinha, esquecendo completamente que tinha chegado há menos de cinco minutos, que não conhecia a casa, que havia cinco cachorros no caminho e uma gata emburrada me observando de cima da cadeira com expressão de quem está assistindo a algo muito preocupante. — Que gato maluco mesmo. - murmurou Goiaba de novo, sacudindo a cabeça - não pára um segundo. 26
Mas eu vi. Vi o cantinho da boca dela. Ela estava quase, quase sorrindo. Progresso, pensei, enquanto derrapava numa curva e ia de cara na parede.
Naquela noite, depois que o Gigante foi dormir e a casa ficou quieta, fiz minha análise. Me sentei no meio da sala, envolto no silêncio azul da madrugada, e olhei ao redor com cuidado. Esta casa seria algo provisório. Ainda não fazia parte da família. E meu objetivo era fazer isso mudar. Então precisava pensar grande. Olhar de forma mais ampla. Que problemas tenho?
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Primeiro: Goiaba. Emburrada, rodopiante, claramente não feliz com minha presença. Mas por quê? Tinha que descobrir. Segundo: Os cachorros. Cinco deles. Cada um com uma personalidade diferente. Precisava entender cada um. Terceiro: O Gigante. Ele me acolheu, mas por quanto tempo? O que precisava fazer para ele decidir que eu ficaria para sempre? E como resolvo tudo isso? Devagar. Um passo de cada vez. Vendo cada ângulo possível. Comecei pelo mais difícil: Goiaba. Fui me aproximando dela aos poucos. Todos os dias um pouquinho mais. Ela ficava nervosa quando eu me aproximava, isso era claro. Mas por que uma gata fica nervosa com outra gato? Observei. E observei. E um dia entendi.
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Mas por que uma gata fica nervosa com outra gato? Observei. E observei. E um dia entendi. Goiaba enxergava muito mal. O mundo para ela era borrado, cheio de sombras que podiam ser qualquer coisa. Cada coisa que se aproximava poderia ser um perigo. E ela havia vivido a infância inteira cercada de outros gatos que a perturbavam sem parar. 29
Ah, pensei. Então não é maldade. É medo. Entendendo o medo dela, mudei minha estratégia. Passei
a
me
aproximar
mais
devagar,
sempre
anunciando minha chegada com um miado suave. A deixar que ela me farejasse antes de fazer qualquer movimento. A sentar-me a uma distância respeitosa, apenas existindo, sem exigir nada. Certa tarde, enquanto eu estava deitado no tapete tomando sol, senti um pelo roçar ao meu lado. Abri um olho. Era Goiaba. Deitada a trinta centímetros de mim. Com o rosto virado para o lado, fingindo que estava lá por acidente. Fingindo que absolutamente nada estava acontecendo e que ela definitivamente não tinha escolhido ficar perto de mim. Fechei o olho de volta. E sorri por dentro.
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LIÇÃO DESTE CAPÍTULO: "Abra bem os olhos para ver o mundo como um mapa gigante e cheio de caminhos! Antes de resolver um desafio, olhe para ele de cima, de baixo e dos ladinhos, como se fosse um quebra-cabeça. Estude todas as ideias com carinho, porque sempre existe um jeito brilhante de fazer as coisas darem certo!" 31
Cap. 3 -OLHE O MUNDO MAIS DE PERTO
Existe uma coisa que todo gato sabe e que os humanos levam anos para aprender: Os detalhes importam. De manhã, por exemplo. Para a maioria das pessoas, a manhã é simplesmente a parte do dia que vem depois da noite e antes do almoço. Mas para um gato que aprendeu a olhar de perto, a manhã é um espetáculo inteiro. Eram exatamente 5h30 da madrugada quando meus olhos se abriam sozinhos, como se tivessem um relógio interno programado com a maior precisão do universo. A casa estava no silêncio profundo desse horário que não é mais noite e ainda não é dia. O Gigante dormia lá no quarto. Os cachorros roncavam no quintal. E a única outra criatura acordada era... Goiaba. Sim. Goiaba.
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Olhamos um para o outro pelo corredor na penumbra azul da madrugada. E naquele olhar havia uma comunicação silenciosa que não precisava de palavras: Você também? Eu também. Ração? Ração. E assim, sem nenhum acordo formal, nasceu a maior parceria matinal da história da nossa casa. A Operação Café da Manhã tinha cinco etapas: Etapa 1: Iniciar a miação coordenada. Eu de um lado do corredor, Goiaba do outro. Juntos, criávamos uma sinfonia de miau que preenchia a casa de ponta a ponta. Etapa 2: Abrir a porta do quarto do Gigante com o máximo de barulho possível. Isso requeria alguma habilidade técnica: colocar a patinha exatamente no lugar certo, empurrar com o peso certo, e fazer a
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maçaneta ceder sem alertar o Gigante antes da hora. Era uma arte. Etapa 3: A batalha da cama. Subia primeiro eu, pulando com tanta elegância quanto uma pedra arremessada contra um colchão. Depois Goiaba, com muito mais dignidade, porque ela praticava dignidade o tempo todo. E então os dois começávamos a nossa coreografia especial de "acorde logo pelo amor de tudo que é sagrado", que incluía pular em cima do Gigante, caminhar sobre ele, ronronar no ouvido dele em volume de
concerto
de
rock,
e
eventualmente
sentar
diretamente no rosto dele se às etapas anteriores não funcionassem. Etapa 4: Acompanhar o Gigante até a cozinha, entrelaçando nas pernas dele o tempo todo, o que tecnicamente era um risco de segurança mas era tradição então mantínhamos. Etapa 5: O café da manhã propriamente dito. Ração de boa qualidade, água fresca, e então o grande prêmio... 34
Mas não era só isso, queríamos a sobremesa — Passa esse pão com requeijão para cá! - eu e Goiaba dizíamos com os olhos, sentados na frente da mesa com a postura mais implorante possível, as cabeças se movendo sincronizadas de um lado para o outro, acompanhando cada garfada do Gigante, é claro queríamos também o café da manhã dele após o nosso. 35
O Gigante tentava resistir. Tentava mesmo. Mas como resistir a dois pares de olhos de gato, no silêncio da manhã, com aquela música de fundo dos passarinhos lá fora?
Depois que a casa ficava vazia, com o Gigante saindo para a escola e os cachorros no quintal, o dia era meu. Bem, meu e de Goiaba. Que me fiscalizava o tempo todo, mas com um olhar que eu havia aprendido a ler corretamente:
não
era
mais
hostilidade.
Era
preocupação. Ela se preocupava comigo como uma irmã mais velha mal-humorada que não admite que se preocupa. E eu adorava isso.
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Passei a explorar a casa com método científico. Cada cômodo tinha seus segredos, e eu queria encontrar todos. A geladeira, por exemplo: fascinante por fora, impenetrável por dentro. Mas o cheiro que saía dela quando alguém a abria... meus bigodes tremiam só de pensar. O armário da cozinha: misterioso, fechado, mas com um cheiro que me dizia claramente que lá dentro havia comida. Mas como abrir? Estudei o mecanismo por dias. Analisei os movimentos do Gigante quando ele o abria. E um dia, posicionando a patinha exatamente no lugar certo... Clique. A porta cedeu. E lá estava a ração, num saquinho grande e perfumado. — GOIABA! - gritei, feliz com minha descoberta. — Olha o que eu achei! Goiaba, que estava dormindo no sofá, abriu um olho.
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— Não me chame de cúmplice nisso. - ela disse, fechando o olho de volta. Mas a descoberta mais importante não foi nem o armário. Foi o pote vermelho na lavanderia. Grande, redondo, com uma tampa que exigia força e precisão. E o que havia lá dentro... era mais ração. De cachorro, é verdade. Mas ração é ração quando a tarde avança e o Gigante ainda não chegou e a barriga começa a reclamar. Fui até o pote. O pote me olhou de volta. (Os potes não têm olhos, mas este parecia ter). — Você vai abrir?- eu disse para o pote. O pote discordou. Dei uma patada. A tampa não se mexeu. Dei outra. Nada. Dei uma terceira, com mais força. A tampa levantou levemente e fechou de novo. 38
Hm. Dei uma quarta, usando as duas patas. A tampa levantou mais. Fechou de novo. Dei uma quinta, pulei em cima, me pendurei, rodei... CLONC! CLONC! A tampa foi pro chão com um barulho de trovão.
Sentei ali, ainda sem fôlego, olhando para o pote aberto com a satisfação do conquistador. 39
E então, solenemente, comecei a comer minha merenda da tarde. É ração de cachorro! - pensei, mastigando com dignidade, mas pelo menos não vou começar a latir. Foi
nessa
tarde,
enquanto
eu
ainda
estava
comemorando minha vitória contra o pote, que a porta de entrada se abriu de um jeito diferente.
Não era o Gigante. O Gigante tinha um jeito específico de chegar: chave na fechadura, dois passos pesados, e um "olá" dito para o ar antes mesmo de entrar. Não. Este era um barulho menor. Uma coisa pequena. Uma coisa que farejou a casa toda em menos de dez segundos e então apareceu na porta da lavanderia com a energia de um furacão em miniatura. 40
Era um gatinho. Menor do que eu. Com um bigodão enorme que parecia desproporcional ao tamanho do corpo. Com olhos grandes e redondos cheios de uma curiosidade que eu reconheci
imediatamente
porque
era
a
mesma
curiosidade que eu via no espelho. — Oi! - disse ele, em voz tão alta e entusiasmada para um gatinho tão pequeno que eu dei um pulo de susto. — Quem é você? Quer brincar? Vou te seguir pela casa toda! disse ele. — Eu, tentei, mas ele não parava de falar e me seguir. — Legal! Que casa grande! Tem algum rato por aqui? Eu nunca vi um rato mas quero muito ver um! E você? Já viu rato? Esse pote é seu? Posso provar? Qual é o seu nome? O meu é Bigodinho! Por causa do bigode! Você também tem bigode! Podemos ser os dois gatinhos de bigode! Ele falou tudo isso sem respirar. Nossa, pensei. E então, mais um segundo depois disse. 41
Esse vai dar trabalho. E logo depois: Que bom alguém para brincar.
LIÇÃO DESTE CAPÍTULO: "Olhe para as coisas bem de pertinho, como se tivesse uma lupa mágica para ver cada detalhe! Se aparecer um probleminha, procure o jeito mais simples e especial de cuidar dele. Às vezes, as melhores ideias brilham nas coisas mais miúdas!" Escolha seu jeito preferido de brilhar! 42
Cap. 4 - TENHA SEMPRE PENSAMENTO JOVEM E CRIATIVO
Ter Bigodinho na casa era como ligar um ventilador dentro de um balão cheio de confete. Ele estava em todo lugar ao mesmo tempo. Na mesa, no sofá, no armário, em cima da geladeira, dentro do cesto de roupa suja, embaixo da cama, atrás da televisão. Cada cômodo que o Bigodinho descobria tornava-se imediatamente um palco para alguma performance nova e inesperada. E por algum motivo que eu demorei um tempo para entender, ele me seguia. Pra todo lugar. Todo lugar. — Por que você está me seguindo? perguntei, numa tarde em que eu tentava apreciar o pôr-do-sol pela janela em paz.
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— Porque você sabe das coisas. Ele respondeu, sentando ao meu lado e também olhando pela janela, mas claramente sem ver nada de especial lá. — O que você quer dizer? — Você conhece a casa, disse Bigodinho, como se fosse óbvio. — Você sabe onde fica a ração. Você sabe o nome de todo mundo. — Você sabe como abrir o pote vermelho. — Você é experiente. Continuava a falar. Fiz uma pausa. Eu tinha... quantos meses? Quatro? Cinco? Mas para Bigodinho, eu era experiente. — Tá bem. - disse eu, tentando não parecer muito orgulhoso. — Vou te ensinar o que eu sei. Bigodinho deu um salto de alegria que o fez cair do parapeito. Nossas aulas foram épicas.
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Ensinei a ele a arte da Patada Estratégica: como derrubar objetos da prateleira com o mínimo de esforço e o máximo de efeito dramático. Ensinei a ele a Caminhada Silenciosa, que é como os gatos andam quando não querem ser ouvidos. Ensinei a ele como calcular a distância de um salto sem fazer as contas erradas, (porque calcular errado dói, como ambos descobrimos em diversas ocasiões). E ele me ensinou coisas também. Me ensinou a brincar sem vergonha, a rir de si mesmo quando cai, a fazer amizade imediatamente e sem hesitação. Me ensinou que perguntar não é fraqueza, que curiosidade é superpoder, e que o mundo fica muito mais interessante quando você vê tudo como se fosse a primeira vez. Juntos, fizemos a casa virar um parque de diversões. — LARGA ESSE BONECO, É MEU! - eu gritava, correndo pelo corredor com um brinquedo na boca.
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— NÃO, LARGUEI NÃO! - respondia Bigodinho, pendurado no brinquedo do outro lado.
E
lá
íamos
nós,
em
velocidade
máxima,
pelos
corredores, pela sala, pela cozinha, por cima do Gigante que estava tentando assistir televisão, por debaixo de Goiaba que estava tentando dormir, fazendo os cachorros latirem de empolgação ou de irritação, não dava para saber ao certo. 46
Goiaba nos observava de cima do sofá com aquela expressão dela. — Gatos birutas! - ela murmurava , não param um segundo. Mas eu vi. Juro que vi. Ela estava sorrindo. Mas um dia, o Gigante chegou com uma expressão diferente. Sentou no sofá. Olhou para mim e para Bigodinho. Respirou fundo. — Encontrei um lar para vocês dois. - ele disse, e a voz dele tinha algo nela que eu não consigo chamar de tristeza, mas era algo perto disso. Eu e Bigodinho nos olhamos. — Juntos? - perguntei, com os olhos. — Juntos? - respondeu Bigodinho, com os olhos. 47
E o coração apertou de um jeito que eu não esperava, pensando. Será que aqui não é o meu lugar? Porque eu tinha chegado naquela casa como um estranho e ela havia se tornado o meu mundo. Goiaba com seu rodopio e seus rugidos. O Easter com a obsessão por comida. A Pitch com as perguntas sem fim. A Merry Christmas enorme e carinhosa. E o Gigante, com seus braços grandes e sua voz de trovão com calor dentro. Mas era hora de descobrir o novo. Pensamento
jovem,
eu
disse
para
mim
mesmo.
Aventura. Curiosidade. O que vem por aí. E lá fomos nós dois. ...mas a nova casa não funcionou. Não foi culpa de ninguém, na verdade. Os novos tutores eram pessoas boas, com corações bons, mas não estavam prontos para dois gatos malucos de alta energia que sabiam abrir armários, derrubar potes e fazer caminhadas pelo teto às 3 da manhã. Na segunda semana, gentilmente, eles ligaram para o Gigante. E o Gigante veio nos buscar. Bigodinho, felizmente, encontrou um lar maravilhoso 48
logo depois, com uma família que tinha duas crianças pequenas que corriam pela casa o dia todo e que precisavam exatamente de um gato que corresse junto. A última vez que vi o Bigodinho, ele estava sendo perseguido por duas crianças com chapéus de papel e gritando de felicidade. Era o lar perfeito para ele e eu, eu voltei. Quando naquele dia entrei novamente pela porta da casa cor-de-mel, parei no meio da sala. Goiaba estava no sofá. Ela me olhou. Eu a olhei. — Voltou. - ela disse. Não era uma pergunta. — Voltei. - eu disse. — Hm. - Ela rodou uma vez, se ajeitou no sofá, e fechou os olhos. E então, sem abrí-los, disse: — A almofada perto da janela está vazia. É um bom lugar para descansar. Me encaminhei para a almofada perto da janela. Me enrolei nela. Fechei os olhos e soube, com a certeza que só os gatos sabem sentir, que estava em casa. Mas enquanto eu olhava as estrelas pela janela, não conseguia parar de pensar no Bigodinho. 49
Ele tinha crianças, tinha chapéus de papel, tinha encontrado o seu “para sempre”. Olhei para a Goiaba dormindo tranquila. Nós tínhamos sorte. Mas e os outros? - Todo gato merece um “para sempre”, Goiaba... Sussurrei para o silêncio da sala. — Nenhum filhote deveria sentir frio ou fome no escuro. Goiaba apenas mexeu a orelha, mas eu sabia que ela concordava. Essa ideia plantou uma sementinha no meu coração. E foi essa sementinha que me fez olhar para fora. Mas o mundo lá fora continuava chamando. Dias depois, já mais velho, mais pesado, mais "dono da situação" como eu gostava de pensar, comecei a observar o que havia além da varanda. O telhado. Aquele telhado extenso, de telhas cor de ferrugem, que ia de uma ponta à outra da nossa rua como uma estrada suspensa acima das cabeças de todos. Será que é seguro lá? Será que é perigoso? Mas e se for incrível?
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Lições aprendidas: ●
Tenha pensamento jovem e seja aventureiro
●
Aprenda a tomar decisões
●
Faça novas amizades
●
Sempre pense em ajudar o próximo
●
Aceite desafios
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LIÇÃO 2 - "ALCANÇAR UM OBJETIVO" Cap. 5 - CRIANDO UM PLANO
O mundo de cima era diferente de tudo que eu imaginava. Lá do telhado, a rua parecia outra. As casas ficavam menores. As árvores ficavam mais próximas dos olhos. Os pássaros passavam no nível dos meus bigodes, e eles olhavam para mim com um tipo de surpresa que claramente dizia: o que você está fazendo aqui? Corri. Não sabia para onde, não sabia o porquê. Só sabia que havia espaço e o espaço pedia para ser preenchido com velocidade máxima de gato. De telhado em telhado, de salto em salto, com o vento nos bigodes e a cidade inteira embaixo de mim... Era magnífico. Até que... Parei. Olhei para trás. E percebi que não tinha a menor ideia de onde estava.
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O céu ficou escuro rapidamente, como costuma fazer quando a gente está muito ocupado se divertindo para prestar atenção. E com o escuro veio o frio, e com o frio veio a chuva, e com a chuva veio uma percepção muito desagradável: Estou perdido. Me abriguei debaixo de uma laje saliente, todo molhado, com o pelo colado e a barriga reclamando, e pensei com toda a seriedade que um gato consegue reunir: Como eu me meto nestas situações? A noite foi longa. O silêncio era do tipo que faz barulho, cheio de farfalhos e estalos e o latido distante de algum cachorro que claramente era mais esperto do que eu porque estava dentro de casa. E então, quando eu estava quase dormindo de exaustão, ouvi um som que não esperava. — Sai daqui, seu gato folgado! Abri os olhos. Na minha frente havia outro gato. Grande, listrado com uma mancha sobre o olho esquerdo e um ar de cansado que dizia muitas histórias sem precisar falar nenhuma. 53
Com uma expressão que dizia claramente que ele era o dono daquele espaço e que a minha presença não tinha sido autorizada. — Dormindo na minha casa sem permissão! Ocupando meu espaço sem ser do bando! Sai, já daqui! Levantei devagar, tentando parecer calmo e seguro de mim mesmo, o que era difícil com o pelo ainda escorrendo de chuva.
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— Calma aí, grandalhão. - eu disse, com a voz mais tranquila que consegui. — Estou perdido, não sabia que este espaço era seu. Mas já que você está aqui, você por acaso tem ou sabe onde tem comida? O gato franziu o que deveria ser a testa. Se chamava Beterraba, descobri mais tarde, e ele tinha um jeito de olhar que me lembrava muito a Goiaba: por baixo de toda
aquela
carranca
havia
algo
completamente
diferente. Inteligência. E uma fome que combinava com a minha. — Eu não tenho comida. - ele disse, depois de uma longa pausa. — Mas sei onde tem. Se eu te contar, você vai buscar e divide comigo e com o meu bando? Bando? Bando? - repeti. Dividir? E por que você mesmo não vai buscar? Beterraba olhou para os lados. Baixou a voz. — Bem... tem alguns probleminhas. — Que tipo de probleminhas? — Dois. O primeiro é a Pérola. Uma labradora. 55
Ela adora brincar com os gatos. Fiz uma pausa no tom que ele colocou em "brincar". — E o segundo? - Tem a Gata Brigitte, que dorme muito, mas na hora de comer não sobra absolutamente nada no prato. Fiquei em silêncio por um momento, processando. Uma labradora que "brinca" com gatos. Uma gata gulosa. E comida no meio disso tudo. Que situação deliciosa. — Me conta onde fica. - eu disse. — Deixa eu analisar e montar a estratégia. Beterraba piscou. A mancha sobre o olho dele se mexeu de um jeito que eu interpretei como surpresa. — Você é diferente! - ele disse. — Sou Abacaxi. Nasci para ser rei com a coroa na cabeça. Claro que sou diferente. Na manhã seguinte, conheci o bando. Eram quatro filhotinhos, todos com nomes de queijo: a Mussarela, a Gorgonzola, o Branco e o Requeijão. (o que eu achei muito curioso, vindo de um gato chamado Beterraba), e no meio deles, com um olhar de mãe que 56
protegia tudo ao redor com a intensidade de um campo magnético, estava Dona Tomate. — Vamos, gataiada! - ela disse logo de manhã, voz firme mas quente - café rápido, que temos que procurar comida. — Eu vou buscar. - disse eu, me levantando. Dona Tomate me olhou com aquele olhar de mãe que avalia tudo em dois segundos. — Você? - ela disse. — Sozinho? — Não completamente. - eu disse. — O Beterraba vem me apoiar. Mas o plano é meu. Dona Tomate continuou me olhando por mais três segundos. Depois assentiu. — Se você conseguir comida para estes quatro. - ela disse, olhando para os filhotes que já estavam correndo de um lado para o outro - eu fico no seu time para sempre. Missão aceita.
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Observei a casa lilás de longe. Era uma bela casa, com jardim bem cuidado e cerca de tijolos. Pelo muro, avistei Pérola: uma labradora dourada, jovem, com a energia de uma tempestade elétrica em formato de cachorro. Ela corria de uma ponta à outra do jardim, latindo para tudo que se movia, cheirando cada canto como se o mundo inteiro fosse novidade.
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Pela janela, avistei Brigitte: uma gata persa, branca, volumosa, que caminhava lentamente de um lado para o outro com a expressão de alguém esperando algo que demore a chegar. Claramente não tinha tomado café ainda. Claramente não estava feliz. Dois obstáculos. Duas estratégias diferentes. Para Pérola: empatia. Apresentar-me, brincar, deixá-la correr até o cansaço, ganhar sua confiança. Uma labradora que te conhece e confia em você não é mais um obstáculo. Para Brigitte: negociação. Descobrir o que ela quer. Oferecer algo. Fazer uma troca. O plano estava formado. Agora era executar. Dia Um com Pérola: Me aproximei do portão com calma. Deixei que ela me visse. Ela parou de correr, me olhou, e então veio na minha direção com toda a velocidade de uma labradora determinada. — NOVO AMIGO! NOVO AMIGO! - ela latiu, pulando de um lado para o outro — QUEM É VOCÊ? DE ONDE VEM? QUER CORRER? EU ADORO CORRER! CORRE 59
COMIGO? — Olá, Pérola! - eu disse, com calma. — Meu nome é Abacaxi. Pode correr se quiser. Mas depois vou precisar conversar com você sobre um assunto importante. Pérola parou. Me olhou com o tipo de expressão que cachorros têm quando processam algo levemente complexo. — Tá! - ela disse. — MAS PRIMEIRO CORRE! E lá fomos nós. Dia Dois com Pérola: No segundo dia, após uma hora de corrida, Pérola veio se deitar ao meu lado no jardim, a língua para fora, a barriga subindo e descendo rapidamente.
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— Você é legal! - ela ofegou. — Gatos geralmente não brincam comigo. — Eu não sou um gato comum. - eu disse, com modéstia razoável. — Não mesmo! - ela concordou, enfiando o focinho no meu pelo em sinal de amizade que eu aceitei com dignidade. Pérola: conquistada.
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Dia Três: A Operação Casa Lilás. Pérola estava dormindo no jardim, exausta da nossa corrida matinal. Era o momento. Avistei a janela do banheiro: aberta. Pequena, mas suficiente para um gato determinado. Respirei fundo. Saltei.
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O salto foi perfeito. O pouso, nem tanto. Porque no caminho do pouso havia um brinquedo de Brigitte, que eu não havia notado, e quando minhas quatro patas tocaram o brinquedo, o brinquedo fez um barulho de corneta que ecoou pela casa inteira como um alarme. — O QUÊ? - gritou Brigitte, se levantando de um salto do sofá onde dormia. Me virei para ela com a expressão mais calma que consegui, considerando que meu coração estava na garganta. — Olá, Brigitte! - eu disse. — Me chamo Abacaxi. Venho em missão de paz e com uma proposta. Brigitte me olhava com os olhos arregalados. O pelo todo arrepiado. A cauda inchada como uma escova. — Como você entrou aqui? - ela sussurrou. — Quem deixou você entrar? Você é real? — Muito real. E você vai adorar ouvir o que tenho a dizer. — EU VOU GRITAR !!! — Ah, é?
Os biscoitinhos amanteigados, hm... - eu
disse rapidamente. 63
Brigitte parou. Me olhou. Olhou para a prateleira alta onde os biscoitinhos ficavam escondidos. Me olhou de volta. — Como você sabe dos biscoitinhos? — Observei. - eu disse. — Sei que você os adora. Sei que sua tutora os escondeu porque acha que você não consegue chegar lá. E sei exatamente onde eles estão. O silêncio durou cinco segundos. — O que você quer? - ela disse, em voz bem baixa. — Um pote de ração. Para um bando de gatos com fome que eu conheço. Você me deixa pegar a comida, e eu garanto que você tem os seus biscoitinhos hoje. Brigitte olhou para a prateleira novamente. A barriga dela fez um barulho. — Rápido! - ela disse. — Antes que alguém chegue.
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Em trinta e dois segundos, eu estava em cima da cadeira. Em mais vinte, na mesa. Em mais quinze, na borda do armário. Em mais dez, na prateleira mais alta da cozinha, olhando para baixo com a sensação gloriosa de quem chegou ao topo do mundo. O pote de biscoitinhos estava ali. Dei uma patada. Ele caiu. Brigitte foi em cima antes mesmo que ele tocasse o chão. Enchi minha barriga (três dias sem comer direito, o Gigante
me
perdoaria).
Então,
cuidadosamente,
comecei a separar ração num saquinho plástico que encontrei num canto. Tudo estava perfeito. Claro que então ouvi o portão. O coração me subiu à garganta. Pérola despertou lá fora com um latido rouco. Brigitte engoliu o último biscoitinho e se encolheu no sofá com a expressão de quem absolutamente não fez nada de errado. E eu, Abacaxi, com um saco de ração nas
patas,
precisava
de
um
esconderijo
em
aproximadamente quatro segundos. O armário. Com a porta entreaberta. Perfeito. Me enfiei lá dentro no momento exato em que a chave 65
entrou na fechadura. No escuro do armário, com o coração batendo, escutei o som dos passos da tutora de Brigitte. Escutei a pausa dela quando ela viu o pote caído no chão. Escutei a conversa: — Como você conseguiu chegar lá, Brigitte? Eu achei que era impossível um gato chegar até aquele ponto! Brigitte não respondeu. Brigitte estava praticando inocência em nível profissional. Então o armário se abriu.
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A tutora me olhou. Eu a olhei. Meu coração disparou tão rápido que achei que fosse pular pela boca. O terror me invadiu. “Se ela ligar para o Gigante e disser que sou um ladrão de ração, ele vai me expulsar!”, pensei, tremendo. Ele nunca mais vai querer um gato de rua maluco na casa cor-de-mel. Vou perder minha almofada, meu pote vermelho, a Goiaba... Eu estava pronto para soltar o saco de ração e fugir de fininho. Mas então... me lembrei dos olhinhos do pequeno Requeijão e da barriga roncando do Beterraba. Lembrei da promessa que fiz a mim mesmo sobre o Bigodinho: todo gato merece um “para sempre”. Se eu perder a minha casa para salvar a vida deles... — apertei os olhos e estufei o peito — ...então que seja! A tutora sorriu, achando graça e foi me pegar no colo. Mas eu não podia ser o gatinho fofo agora. Eu tinha uma missão!
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Antes que ela me alcançasse, dei um salto ninja por cima do sofá, mordi a chave do carro que estava sobre a mesa e saltei pela janela! — Pode brigar comigo, universo! Mas ninguém vai passar fome hoje! - eu miei com a chave na boca, enquanto corria pela rua. A tutora, confusa e alarmada, me seguiu. E Pérola, ao me ver correndo pela rua, veio junto, latindo estrondosamente, com a energia toda de quem não sabe exatamente o que está acontecendo mas está absolutamente empolgada. Levei a tutora até o Beterraba e a Dona Tomate e os quatro filhotes, que estavam no cantinho escuro esperando por mim. E aconteceu então algo que eu não planejei. A tutora viu Dona Tomate olhando para ela com aqueles olhos de mãe exausta mas amorosa. Viu os quatro filhotes com aquelas barrigas vazias. Viu Beterraba curioso e a fome que ele tentava esconder por baixo de tudo. E fez algo que eu não esperava. Ela sentou no chão, ali mesmo, na rua. 68
Estendeu a mão. Dona Tomate, depois de três segundos de análise, se aproximou. E tocou o focinho naquela mão. A partir daquele toque, tudo mudou. Naquela noite, todos nós dormimos juntos. Eu, Beterraba, Dona Tomate, Mussarela, Gorgonzola, Branco e Requeijão, todos em cima de um edredom quentinho e macio que cheirava aquela casa boa. Barrigas cheias. O mundo lá fora continuava seu barulho, mas lá dentro estava o tipo de silêncio que vem de segurança, do tipo que só se sente quando se está em casa. Fechei os olhos e pensei. Como é deslumbrante o mundo lá fora, como era enorme e barulhento e cheio de perigos: carros que passavam rápido demais, outros animais que olhavam com hostilidade, chuva que molhava e frio que mordia e a solidão que era a pior de todas. Mas também vi o outro lado: novos amigos em cada esquina. 69
Histórias que esperavam para ser vividas. A Dona Tomate e seus filhotes. Beterraba com coração enorme. A tutora da casa lilás com os braços abertos.
O mundo é assustador e maravilhoso ao mesmo tempo. E a diferença entre os dois é o quanto você escolhe enxergar. Dormi.
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Cap. 6 - DÊ VALOR AO QUE VOCÊ CONQUISTOU
Na manhã seguinte, me despedi da Dona Tomate e do Beterraba. A tutora da casa lilás estava fazendo carinho neles, todos já de banho tomado. Missão cumprida. Voltei andando pelos telhados, com as patas cheias de lama, o pelo despenteado e um cansaço que pesava toneladas. Ouvi um barulho de portão e o latido do Easter faminto. Foi quando pulei de novo na minha varanda, mas por um momento hesitei. O Gigante já estava acordado. Ele estava na sala, de pé, de braços cruzados. Engoli em seco. É agora. Ele descobriu. Vou ser devolvido para a rua. Miei bem baixinho, de cabeça baixa: — Miau... (Desculpa, Gigante). O Gigante olhou para as minhas patas sujas. Depois respirou fundo. — Sabe quem me ligou hoje bem cedo? A moça da casa lilás. — Ele deu um passo na minha direção. — Ela disse que um gato ruivo com cara de maluco roubou a chave dela e a guiou até uma ninhada de rua. 71
Fechei os olhos, esperando a bronca. Mas em vez disso, senti duas mãos grandes e quentes me pegarem no colo. Quando abri os olhos, o Gigante estava com o maior sorriso do mundo. — Ela disse que você foi um herói, Abacaxi. Você salvou todos eles. — Ele me abraçou, sem se importar com a lama. — Se você tem um coração tão grande a ponto de arriscar tudo por outros animais, então você é exatamente o parceiro que esta família precisa! Ele me colocou no chão e anunciou, cheio de orgulho. — Liguei para a veterinária e marquei consulta. Você vai ter carteirinha de vacinação, chip, tudo. Você vai ficar com a gente para sempre! — Ele se abaixou e me coçou atrás da orelha, no lugar que eu nunca consigo coçar sozinho. — Você vai ficar com a gente. Vou cuidar de você, alimentar você. Você vai fazer parte desta família. Fiz três segundos de pausa. Por dignidade.
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E então corri pela casa inteira, miando para todos os cantos, saltando do sofá para a cadeira, para a bancada para o sofá de novo, comunicando ao universo com toda a força dos meus 100 sons de gato que aquela era a melhor notícia que eu já tinha ouvido na vida. Goiaba me observou de cima do sofá. — Que gato dramático! - ela disse. Mas estava sorrindo. Desta vez com a boca toda.
FIM (ou quase...)
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LIÇÕES FINAIS: ● Tenha um plano para conseguir aquilo que quer. ● Tenha empatia: ajude e será ajudado. ● Negocie: se quer algo, ofereça algo em troca. ● Tome iniciativa, lidere a negociação. ● Gerencie o tempo para alcançar o que quer. Tenha o Plano B, porque nem tudo sai como planejamos. ● E acima de tudo : acredite que você pertence ao lugar onde seu coração está.
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