O Fragmento
Ao fim da tarde, quando a cidade começava a afundar naquela claridade opaca que deixava as fachadas iguais, uma mesma cor cansada escorrendo pelos muros lisos, pelas vitrines de vidro tratado, pelos metais foscos das portas e das grades, para casa voltou Elara com a sensação de sempre, a de caminhar por um lugar que aprendera a esconder de si mesmo a própria face, como se alguma culpa antiga ainda respirasse sob as pedras, a espera de um descuido, e ali, no habito das ruas, no arranjo severo das janelas, no polimento sem brilho dos corrimaos, havia uma disciplina que desde a infancia lhe parecera maior do que uma regra, quase uma educacao do medo, e era esse o pensamento que a acompanhava quando dobrou a esquina da rua do avo, estreita, silenciosa, margeada por casas que guardavam o fim do dia do lado de dentro, como se o mundo inteiro, ao anoitecer, se recolhesse para nao dar ao escuro mais imagem do que o necessario.
Sobre o portao, ainda resistia a trepadeira seca que sua mae um dia prometera podar, lembranca tao pequena quanto inutil, e ainda assim suficiente para prender o passo de Elara por um instante, porque de promessas interrompidas era feito o pouco que lhe restava dela, uma frase pela metade, uma xicara de alca gasta, um lenco guardado em gaveta alta, um perfume que as vezes acreditava sentir quando abria armarios antigos, e embora desse perfume nenhuma prova existisse, em seu corpo, com uma conviccao silenciosa, ele permanecia, como permanecem certas memorias que a razao nao sustenta, e ao empurrar o portao com a palma da mao, levou consigo esse aperto morno, sem nome claro, que sempre surgia ao cruzar a entrada da casa.
Vazio estava o corredor, vazia a sala, quieta a cozinha, o relogio da parede marcando as horas com uma parcimonia irritante, e por saber que a tia so voltaria depois de escurecer, para o deposito dos fundos seguiu, levado o pensamento por um impulso mais antigo do que a curiosidade, porque desde a manha lhe rondava a ideia de mexer nas caixas esquecidas do avo, morto havia anos, homem de habitos metodicos e silencios longos, sobre quem a cidade nunca falara mal, embora muito pouco dela tivesse falado tambem, o que, naquela cidade, as vezes dizia mais do que qualquer acusacao. No deposito cheirava a papel gasto, madeira antiga, ferrugem parada, e ali o tempo parecia de outra consistencia, mais grosso, mais lento, como se o ar acumulasse camadas de decadas, cada uma assentada sobre a outra com a paciencia de quem sabe que cedo ou tarde tudo sera esquecido.
Primeiro abriu uma caixa de livros de contabilidade, depois uma de ferramentas, depois outra cheia de toalhas amareladas e retratos sem moldura, a maioria virada para baixo, como era costume naquela casa, e esse gesto simples, o de guardar imagens pelo avesso, de subito a feriu com a lembranca da escola, onde lhes ensinavam desde cedo a evitar superficies refletoras, a cobrir as que restassem, a recusar qualquer habito ligado a contemplacao da propria imagem por tempo excessivo, sob a alegacao de que do reflexo vinha a desordem, do reflexo a fissura, do reflexo as perturbacoes da alma, palavras repetidas tantas vezes, com tamanha autoridade, que em muitos ja nem soavam estranhas, e ainda assim, mesmo nessa repeticao gasta, Elara sempre percebera um excesso, como se a cidade temesse menos os objetos e mais aquilo que eles, por alguma razao, revelavam.
Foi no fundo de um bau menor, sob uma manta escurecida pelo po e um embrulho de linho grosso, que seus dedos tocaram uma forma rigida, leve demais para pedra, fria demais para metal, e devagar, como se o gesto exigisse uma cerimonia que ela mesma nao compreendia, puxou o embrulho para fora. O pano estava amarrado por um cordao ja ressequido, que cedeu sem resistencia, e dentro dele havia um fragmento irregular, do tamanho de uma mao aberta, com a borda quebrada em dentes finos e uma superficie turva, escurecida pelo tempo, que ainda assim prendia a luz que vinha da porta entreaberta, uma luz suja e ultima, e de imediato soube, antes mesmo de admitir o pensamento, o que segurava.
Um espelho.
Longo foi o instante em que apenas o encarou, sentindo as pulsacoes dos dedos se tornarem mais nitidas contra o vidro frio, o corpo inteiro escutando uma proibicao antiga erguida dentro de si como voz herdada, guarde isso, cubra isso, esqueca isso, e junto dessa voz outra crescia, funda, curiosa, sem alarde, quase intima, como se desde muito antes daquela tarde ja a esperasse, e nessa segunda voz havia alguma coisa de chamado, alguma coisa de reencontro, de modo que, sentada no chao do deposito, o fragmento entre as maos, ela teve a sensacao confusa de que nao encontrara um objeto perdido, encontrada por ele e que fora.
Subiu para o quarto com cuidado, o pano dobrado sobre o braco, o espelho envolto outra vez, embora frouxamente, e fechou a porta antes de coloca-lo sobre a escrivaninha. O quarto era simples, as paredes claras ja descascando junto a janela, a colcha azul desbotada, os livros empilhados no canto, a bacia de cobre onde as vezes lavava o rosto, peca antiga cuja superficie fora tratada ate perder quase todo brilho, e ali, cercada por coisas que conhecia desde sempre, estranha se sentiu, como se tivesse levado para dentro de seu espaco uma presenca que deslocava a ordem dos moveis, do ar, do proprio silencio. Sentou-se na cadeira, puxou o fragmento para mais perto, e por alguns minutos limitou-se a observa-lo, percebendo que a camada escura sobre o vidro nao o tornava cego por completo, apenas profundo, como uma agua parada em noite sem lua.
Quando enfim o ergueu, fazendo coincidir a parte mais limpa da superficie com a altura de seu rosto, nao foi de imediato uma imagem que viu, e sim um estremecimento da luz, uma oscilacao miuda, como se o espelho precisasse se lembrar da funcao que tivera um dia, e entao, aos poucos, surgiu um contorno, primeiro impreciso, depois mais firme, as linhas do proprio rosto devolvidas a ela com uma nitidez que a fez prender a respiracao, porque jamais, em toda a sua vida, se contemplara assim, inteira, sem a intermediacao de agua tremula, sem prata deformada, sem vidro adulterado, e o susto maior veio junto do reconhecimento, o arco da sobrancelha, a curva do queixo, a boca um pouco tensa, os cabelos escuros caindo por um lado, era ela, sim, e ao mesmo tempo havia qualquer coisa errada, qualquer coisa afiada demais naquele semblante, uma firmeza que em si mesma nunca encontrara, um modo de sustentar o olhar que lhe pareceu quase insolente.
Tao fixa ficou Elara, que mal percebeu o momento em que a figura do espelho deixou de acompanhar exatamente seus movimentos. Primeiro pensou tratar-se de atraso da visao, nervosismo, distorcao do vidro, e por isso abaixou lentamente a mao esquerda, enquanto na superficie a outra Elara, fracao de segundo a mais, ainda a mantinha suspensa, e foi nesse atraso minimo, pequeno o bastante para passar por engano, grande o bastante para ferir a logica, que o medo lhe subiu pela nuca. O fragmento escorregou em seus dedos, a cadeira rangeu sob o recuo brusco, o coracao bateu com violencia surda em sua garganta, e outra vez olhou, porque quando o medo se mistura a fascinacao o corpo aprende a desobedecer ao instinto de fuga.
La estava ela.
Mais ereta do que estava do lado de ca, mais calma, mais dura, o rosto igual, o olhar diverso, e uma impressao quase insuportavel tomou conta de Elara, a de que aquela mulher a observava desde antes do primeiro toque, com a paciencia de quem conhece o instante exato em que uma porta sera aberta. Sua propria boca secou, a mao livre agarrou a borda da escrivaninha, e um pensamento absurdo, com a forca lisa das coisas inevitaveis, atravessou-lhe a mente: livre parecia aquela outra, livre de hesitacao, livre de medo, livre ate de uma delicadeza que em Elara tantas vezes se confundia com fraqueza.
Tentou desviar o olhar, nao conseguiu, e nessa imobilidade tensa, quase reverente, a figura refletida inclinou levemente a cabeca, gesto pequeno, carregado de intencao, como se examinasse alguma antiga ferida cujo formato conhecia muito bem. Elara sentiu um arrepio correr-lhe os bracos, uma memoria sem imagem tocar fundo em seu peito, e por um segundo insustentavel acreditou reconhecer naquela estranha uma parte sua abandonada cedo demais, arrancada dela ou adormecida nela, e foi isso, mais do que o medo, que a manteve ali, porque de repente a pergunta ja nao era o que aquele espelho fazia em sua casa, nem por que o avo o escondera, nem mesmo como podia haver vida em um reflexo, a pergunta que crescia, feroz e baixa, era outra, quem eu seria se me tornasse inteira.
A luz do quarto desceu um pouco mais, o fim da tarde entrando naquela hora em que as cores perdem o nome, e no vidro a outra Elara ergueu devagar a mao, sem que Elara a movesse daqui, os dedos longos tocando a superficie pelo lado de dentro, ali onde sua propria pele nao estava, e depois, com uma lentidao quase terna, a estranha sorriu, um sorriso breve, sem bondade, sem crueldade aberta, um sorriso de quem aguardara muito tempo para ser vista.
So entao o fragmento caiu das maos de Elara sobre a mesa, e o som seco do vidro contra a madeira estilhacou o quarto em silencio.