Um golpe de bêbado
Essa é a história do dia em que eu me cansei de trabalhar sozinho. A vida em alto mar não é tão boa no quesito ‘companhias’, então já estava na hora de melhorar isso.
As ilhas Vecchia eram meu ponto de parada favorito, no dia de hoje é comemorado um festival em homenagem aos espíritos, que nem sequer existiam mais. O fato de continuarem com o festival só prova que eles precisam de uma desculpa para festejar e beber a noite toda, o que eu totalmente concordo.
Já era perto do meio-dia quando atraquei o navio no porto de Calamis. A cidade estava extremamente agitada como era de se esperar, o som da gritaria e das conversas altas eram como música para meus ouvidos.
— O que vamos fazer hoje?
A voz cansada e entediante do meu irmão mais novo Max, ele vivia reclamando de tudo e no fim das contas sempre fazia o que eu mandava. Era um amor de pessoa.
— Vamos até a taverna, tô a fim de encontrar gente nova hoje e algo me diz que vou conseguir.
Ouvi ele suspirar e praguejar alguma baboseira antes que eu saísse. Ele provavelmente me seguiria, então fui direto até a taverna no centro da cidade.
Antes de descer do navio dei uma olhada no espelho da cabine para avaliar o quão incrível eu estava e adivinha? Eu estava magnífico. Meu colete caía perfeitamente no corpo e por não ter mangas, minha tatuagem ficava perfeitamente á mostra. Havia prendido meus cabelos loiros num rabo baixo e o charme eram os fios soltos que abraçavam meu rosto de maneira perfeitamente impecável.
A taverna Sinos de Fada era um lugar muito movimentado, hoje não foi diferente. Pessoas para todos os lados e com tanta movimentação assim, era o momento perfeito para adquirir algumas lembrancinhas desse festival.
Do lado de dentro a música era animada e o cheiro divino tomou conta do ar. Comida, bebida e mulheres. Não precisava de mais nada.
Me sentei em uma das banquetas do balcão e passei o olhar pelas pessoas que estavam ali, alguns rostos eram conhecidos, mas a maioria eu nunca tinha visto na vida. Ladrões, assassinos, passavam de cidade em cidade e nunca paravam no mesmo lugar por muito tempo, um jeito não muito eficaz de evitar a guarda local.
— O que vai querer hoje, capitão? — A pergunta veio de trás do balcão, uma voz doce e jovem.
— Olá Mel, bom te ver. Vou querer o de sempre.
Ela acenou e saiu apressada preparar as bebidas, a filha do taverneiro, Melissa, uma garota tão doce quanto o mel e tão durona como pedra. Nessa vida se você não souber se defender, acaba virando escravo dos mais fortes e eu duvido muito que Derick Campbell deixaria sua única filha indefesa.
— Aqui está, divirta-se.
Ela me entregou a caneca e o cheiro do rum invadiu meu nariz, suave e pronto pra me abençoar com seu doce sabor.
Meu irmão estava sentado em um canto da taverna, sozinho e o mais longe possível da minha pessoa, podia ver seu olhar passando de pessoa para pessoa, ele também estava trabalhando.
Ao meu lado um vulto vermelho chamou minha atenção, me virei para encarar melhor a pessoa que se sentou ao meu lado e para minha alegria era uma mulher. Cabelos cacheados tão vermelhos quanto o sangue, o manto azul indicava uma bruxa ou talvez uma maga. Independente das opções uma coisa era certa: ela era forte.
— Hey, é daqui da cidade? — sua voz era doce e calma.
— Não, estou apenas de passagem e você?
Numa abordagem como essa onde alguém de fora pergunta se você é das redondezas, nunca diga a verdade. Ela pode querer curtir uma noite ou então planejar o seu assassinato. Nas duas hipóteses, mentir vai te poupar muitos problemas.
— Só de passagem também, aproveitar o festival. — Seus olhos verdes como esmeraldas passaram por cada parte do meu corpo, ou ela me achou um tremendo gostoso... ou ela estava planejando me roubar e isso era uma ideia completamente estúpida.
— E onde está hospedado? Se é que posso saber, claro. — Perguntou, direta ao ponto.
Não pude evitar a surpresa, ela nem sequer se apresentou ou perguntou meu nome. Nem me ofereceu uma bebida ou então um mero elogio a minha beleza divina.
— Se me disser seu nome e aceitar uma bebida, talvez eu te leve até lá. Já que quer tanto saber onde eu durmo, pode dormir comigo, caso queira...
Dei um gole na caneca de rum e voltei o olhar para ela tempo suficiente para ver sua reação ou melhor, nenhuma reação, ela estava parada me encarando sem saber o que responder. Ela queria me roubar.
— Masie, Masie Hill. E você?
Ela parecia dizer a verdade e aqui meus amigos eu lhes ensino a segunda lição que vão precisar nesse mundo caótico que vivemos. Nunca. Diga. Seu. Nome. Fazer isso é praticamente cavar sua cova com palavras, nomes tem poder e nas mãos erradas sua vida pode simplesmente deixar de existir.
— Me chamo Jack. — Mas essas regras não se aplicam à mim.
— Ótimo, Jack. Você já está bebendo, então... — Eu virei o restante do rum em um gole só e deixei a caneca vazia na frente dela. — Ok, mais uma...
Ela pediu para Mel encher a caneca e eu saboreei cada gole daquele rum gratuito. Depois de três canecas cheias, sendo duas delas de graça, ela finalmente voltou a falar.
— Então, está satisfeito agora? — Perguntou. Ela parecia impaciente, infelizmente não parecia do tipo que sabia encenar direito.
Estava mais do que na cara, que ela estava tentando me embebedar e roubar todas as minhas coisas. Então aproveitei para me divertir um pouco.
Acenei com a cabeça respondendo à pergunta dela e pude ver um sorriso se formar em seu rosto.
— E que tal se eu acompanhar você até o lugar que está ficando? — Ela estava se preparando para se levantar.
— E-eu? HAHA, eU nÃo FaçO a mEnoR idEia de OndE eu Tô. — Sinto muito por verem tal vergonha, mas foi a melhor imitação de um bêbado que consegui improvisar no momento.
Masie parecia confusa e provavelmente estava pensando em uma saída. Seu semblante se iluminou e o brilho no olhar entregou a ideia brilhante que brotou naquela cabecinha.
— Eu tenho um... barco. Ele tá atracado no porto, é pertinho daqui. Consegue andar?
Se eu consigo andar? Eu poderia facilmente roubar suas duas bolsas e sumir sem ela nem sequer ter tempo de reagir. Mas como eu sempre digo, nada melhor do que deixar alguém se sentir no controle da situação mesmo quando ela definitivamente não está.
Apenas acenei com a cabeça e foi o suficiente para ela ir em direção à saída. Olhei para o meu irmão e nossos olhares se cruzaram por tempo suficiente para ele saber que eu estava voltando para o navio, ele ficaria mais um tempo ali avaliando as pessoas ao redor. Passei pela porta seguindo a ruiva pelo caminho da cidade até o porto.
Ela não falou nada o caminho inteiro e eu fiz questão de andar lentamente como um bêbado e me distraindo com as pessoas que passavam do meu lado. Com um fluxo tão grande, muitos se deixam levar e acabam ficando descuidados, consegui dois colares e alguns anéis nessa brincadeira a caminho do porto.
Masie por sua vez olhava para trás impaciente e assim que chegamos, ela teve uns segundos para raciocinar os próximos passos.
— Chegamos. — Declarou a senhorita óbvio.
Ótimo, chegamos ao porto com vários navios. Incrível.
— AqUi? MaS tEm — ICK — mUiTos nAviOs aQui. — Eu tive que me segurar para não cair na risada, esse era provavelmente o pior bêbado que já fiz em toda minha vida. — Uau, é Ali qUe a gEntE vAi?
Fiz a escolha mais sensata e apontei para o maior navio que estava atracado naquele lugar. O Caos. MEU navio.
— O grandão? — O sorriso que ela esboçou foi de puro desespero e para minha surpresa ela confirmou — É... Aquele ali mesmo, vem logo.
Ela agarrou na minha mão e me arrastou até lá, o navio estava movimentado já que vendemos especiarias, afinal, preciso de uma fachada e dinheiro para sobreviver por ai. Entrar foi bem fácil, mais um dia normal na vida da minha tripulação: eu com uma mulher indo até a cabine do capitão. Nada de diferente por aqui.
Essa era minha deixa, então como um bêbado de qualidade fui explorar a primeira porta que vi na minha frente, a minha cabine.
No momento em que Masie passou pela porta, ela fechou e trancou a mesma. Tadinha, ela estava jurando que ia me roubar. Em uma rápida análise do lugar ela parou o olhar em mim: sua pobre vítima.
Em silêncio ela se aproximou de mim, cada vez mais perto e mais perto. Aqueles olhos esmeraldas analisavam minha alma, então senti sua mão passar pela minha cintura... ao menos ela viu onde eu guardava meu dinheiro. No momento em que ela ia retirar minhas suadas moedas, eu segurei sua mão e a virei contra a parede atrás de mim.
— Achou mesmo que ia me roubar? No MEU navio? — seus olhos antes brilhantes, agora não passavam de duas esmeraldas confusas.
Ela usou a mão livre para tentar pegar a faca que estava em seu cinto, mas fui mais rápido.
— Nem pense nisso, uma faquinha dessa não faria cócegas em mim. E nem tente usar magia, até porque eu te mataria antes que pudesse terminar a frase toda.
— Então o que raios você quer? Pra que fazer todo esse teatrinho? Você bebeu TRÊS canecas enormes de rum e nem sequer ficou zonzo? Qual é o teu problema? — Sua voz antes doce, virou um furacão de ódio. Ela tentou se controlar e manteve a voz baixa.
— Você pergunta demais. — Soltei sua mão e me afastei — Eu não tenho problema nenhum e o teatrinho foi meramente para meu entretenimento. Agora o que eu quero é algo bem simples.
Fui até minha cadeira e me acomodei, mesmo relutante ela se aproximou.
— Eu preciso de pessoas como você, que independente do desafio continuam até o fim. Claro que vai aprender algumas coisas quebrando a cara, mas isso é um mero detalhe.
Eu esperei por uma resposta ou mais perguntas, mas ela simplesmente ficou parada esperando que eu falasse mais alguma coisa.
— Tenho um objetivo e para concluir ele preciso de mais gente para encarar os desafios, o que me diz? — Finalizei.
— E se eu não quiser? Já me enganou até aqui, imagine o que vai fazer depois. — Ela cruzou os braços e me analisou com certo ódio.
Errada ela não estava, porém, não tinha escolha. Eu não tinha a menor vontade de sair até a cidade para procurar mais pessoas e esse pequeno teatro que fizemos, (até porque ela disse ter algo que claramente não era dela) só prova que ela é capaz de se sair bem nos desafios que possamos encontrar no caminho.
— Essa opção não é válida, você irá aceitar de um jeito ou de outro. Até porque, todo dinheiro que conseguir achar ou roubar, será seu. — Espero ter sido convincente o suficiente, não tinha mais ideia do que falar caso ela continuasse insistindo em não aceitar.
O silêncio que caiu na cabine durou alguns minutos até que ela falasse algo.
— Então eu não tenho escolha? — Perguntou.
— Não.
— O que eu encontrar é meu? Qualquer coisa?
— Qualquer coisa...
Enquanto falava vi ela pegar um dos barcos de madeira que estava em cima da mesa e colocar na pequena bolsa que estava presa na cintura, quando eu disse que ela poderia pegar qualquer coisa, era qualquer coisa que não tivesse um dono.
— E que tipo de ‘desafios’ são esses que você não pode fazer sozinho, até porque você é tão inteligente.
Seu sarcasmo era notável. Isso estava ficando cada vez melhor, a ideia de recrutar gente nova definitivamente foi a melhor que eu tive nos últimos meses.
— Prefiro ficar assistindo a ter de lidar com esses desafios, é tedioso e cansativo. Vou dar comida, um lugar pra dormir e tudo que você encontrar no caminho. Para mim é um ótimo pagamento para explorar diversos lugares e trazer o que eu quero até mim. — Apoiei meus cotovelos na mesa —Temos um acordo?
Ela andava de um lado para o outro dentro da cabine analisando cada parte do navio, provavelmente tentando encontrar algo para ‘furtivamente’ roubar.
— É, acho que temos sim um acordo, espero que eu não me arrependa disso.
— Pode ter certeza de que você não vai se arrepender.
A essa altura da conversa, meu irmão já deveria estar voltando da adega e isso significa que ou ele se cansou de achar algo ou ele encontrou mais alguém para fazer o trabalho pesado para mim. E eu estava torcendo muito para que fosse a segunda opção.
Não precisei esperar muito para ter minha resposta. Do lado de fora da cabine pude ouvir um pequeno alvoroço se formar e senti o barco dar uma leve balançada, quando meu irmão abriu a porta avistei uma garota atrás dele e no meio do meu navio, um lobo enorme corria de um lado para o outro com algumas crianças.
— Trouxe o que pediu, espero que valha a pena. — Ele não parecia tão feliz, mas isso era algo normal se tratando dele.
A garota de cabelos castanhos usava um casaco de pele e um arco branco pendia nas suas costas; uma caçadora. Nossa aventura vai ser um tanto quanto emocionante, a junção de dois piratas, uma maga, uma caçadora e um lobo da lua...
Eu vou aproveitar cada segundo disso, até porque, caso vocês não saibam, estamos indo atrás de um mistério que assola nossas vidas a tanto tempo que muitos acham ser uma historinha para assustar as crianças, mas eu sei que são reais. Que eles são reais. E acredite em mim, vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para chegar no meu objetivo e isso inclui fazer alguns teatrinhos como esse do ‘falso bêbado’.
Que a diversão comece.