A Melodia da Tristeza
Eden, era uma cidade pequena comparada a todas as outras que a cercavam, mas mesmo assim, era palco de grandes festivais culturais e pessoas de várias cidades vinham até ela para conhecer e ver mais sobre música. Entre os muitos músicos que abrilhantavam a cidade com seus talentos, existia um que há muito não viam.
Carlos raramente era visto em qualquer lugar que não sua casa. Vez ou outra acompanhava alguns recitais de amigos próximos, mas há anos não tocava fora de seu próprio refúgio.
Ele foi promissor como pianista. Aos quatro anos, o pai, professor de música, o levava para as aulas e o ensinou a tocar; aos oito já se apresentava ao lado dele, foram tempos preciosos os de sua juventude. Quando o pai morreu, ele já era um músico consagrado em toda a região aos vinte dois anos.
Naquele mesmo ano saiu em turnê com alguns amigos, tocando pelas cidades e assim, conheceu Penélope, por quem se apaixonou quase que instantaneamente.
A jovem, de dezoito anos, era filha de um casal de padrinhos em um casamento em que os músicos foram convidados a tocar, e seu encanto por ela se fez notável durante todo o evento. Conversaram pouco, apenas trocando endereços e mantiveram contato por carta por dois anos até poderem finalmente se casar.
A vida de Carlos estava perfeita: tinha uma esposa adorável e grávida, ainda tocava com seus amigos em eventos aos quais eram chamados e ainda dava aulas de piano para algumas crianças em Eden. Nada poderia estragar sua vida.
— Querida, está pronta! Quero chegar a Rivena antes do anoitecer.
— Já estou aqui! — Penélope segurou seu braço e ele beijou sua testa carinhosamente. — Peça ao motorista para não correr, sabe que fico nervosa e é tempo de chuva.
— As estradas estão boas, não tem com que se preocupar. Chegaremos bem à casa de sua mãe! — ajudou a esposa a entrar no carro e se sentou ao seu lado fechando a porta.
Como estavam perto dos dias em que ela daria à luz, decidiram que a casa da sogra seria o melhor lugar para ficarem. Lá, Penélope seria bem assistida e ele ficaria tranquilo. A viagem não levava mais que duas horas, mas, com a chuva, demorava um pouco mais por causa da lama. O carro derrapava, mas o motorista controlava bem, a sorte era a esposa ter pego no sono quase que imediatamente após deixarem Eden.
A tempestade aumentou, o carro derrapava muito e outro carro veio desgovernado pela estrada. Devido a pouca visibilidade, eles não tiveram como se desviar e colidiram. O impacto foi violento e os carros foram lançados em direções opostas.
Depois disso, o silêncio.
Carlos acordou com os pingos de chuva caindo sobre si; sua cabeça doía, levou a mão ao local da dor e viu sangue. Seu ouvido zunia e a única coisa que queria era encontrar a esposa. Se levantou e viu dois senhores agachados, entre eles estava ela, sua Penélope.
— Penélope! — ele tentou correr, mas a perna estava machucada e precisou se arrastar. — Penélope!
— Senhor! — um dos homens, veio até ele, o amparando. — É sua esposa? Estamos tentando salvar o bebê.
— O bebê? — não entendeu porque falavam da criança e não de Penélope.
— Ela perdeu muito sangue e entrou em trabalho de parto.
— Me deixe vê-la! — tentava se aproximar, mas o homem não permitia.
— É melhor não, ela está muito ferida, não deve resistir ao parto. — Carlos o fitou em desespero. — Sinto muito!
Nesse momento ele ouviu seu grito, e com as últimas forças que tinha, se arrastou até ela, segurando sua mão. Estava fria e ela o encarava com olhos cansados, o corpo machucado, seu cabelo emplastado pela chuva e o sangue. O homem colocou em seu colo a criança que não chorava, estava morta.
— Era um menino! — o homem informou com as mãos cobertas de sangue.
Penélope segurou a criança com o pouco de força que ainda lhe restava e beijou sua testa. Sua força se esvaindo ao mesmo tempo que as lágrimas caiam de seus olhos. Ela olhou mais uma vez para o marido e sorriu, antes de se render ao destino.
— Meu amor! Penélope.... Não faça isso! Querida... — seu choro se misturava a chuva que ainda caia.
Naquele fim de tarde, ele perdeu as duas coisas mais preciosas de sua vida.
*
Fechou a tampa do piano com força e levou as mãos a cabeça. Sempre que tocava Ode ao eterno, suas lembranças retornavam. Nada mais justo, foi sua última composição e dedicada aqueles que o deixaram sozinho no mundo.
Naquele dia se completavam trezes anos do acidente e ele nunca mais foi o mesmo. Se isolou do mundo e poucos amigos ficaram ao seu lado. Apenas Arthur, o violoncelista, ainda o visitava. Se arrastou da banqueta em direção ao armário de bebidas e pegou um dos vinhos, o tomaria inteiro aquela noite.
Já seguia para seu quarto, quando ouviu a sineta tocar e só uma pessoa no mundo teria coragem para tal. Seu maior desejo era ignorar e o faria se não fosse pelos gritos que vieram em seguida.
— Eu sei que está em casa, e é bom abrir essa porta!
Carlos puxou o ar com força, desceu as escadas e abriu a porta. Arthur sempre tinha um sorriso no rosto ao ver o amigo, e não esperou ser convidado para entrar e fechar a porta.
— Imaginava que fosse enfiar a cara em uma garrafa de vinho hoje. Você está bem?
— Realmente preciso responder a essa pergunta? — pegou duas taças. — Quer beber comigo?
— Sim, quero! — pegou a taça e deixou que o amigo o servisse. — Haverá um festival de música na cidade, esperam te ver lá.
— Não fui convidado! — desconversou, tomando o conteúdo da taça de uma vez só.
— Aposto que foi e o convite deve estar naquela pilha de cartas que você não pega lá fora! — suspirou. — Já se passaram treze anos, Carlos. Eu sei que não é algo que vai parar de doer, mas não pode viver enclausurado nessa casa. — olhou ao redor e a casa estava imunda. — E precisa deixar que alguém limpe tudo isso!
— A casa está limpa e hoje não é o melhor dia para falar da minha dor.
— Penélope não ia querer te ver assim para sempre! — Carlos segurou a taça com mais força aos enche-la de novo. — Não me olhe como se eu estivesse errado, porque não estou e sabe disso. Foi um acidente, uma fatalidade... Mas você se fechou para o mundo.
— Arthur, é melhor ir embora!
— Por que não gosta de ouvir a verdade? Estou tentando te ajudar! Me diga ao menos se irá ao festival, eles querem todos os músicos da cidade participando.
— Não vou garantir!
Arthur abriu a porta e olhou mais uma vez para a casa e para o amigo. Por que ele era tão difícil de ajudar?
— Está bem! Mas vou arrumar alguém para te ajudar com a casa e não adianta me dizer não. Não pode viver nesse pardieiro e se sentir bem.
— Perdeu o respeito por mim, rapaz? Somos amigos, mas ainda sou mais velho e mais vivido...
— E milhões de outras coisas. Mas você parou de viver aos 25 anos, eu não. — era a primeira vez que Carlos o via tão sério. — Então você é o mais velho, mas sou mais vivido. Nunca perderia o respeito por você, mas acho que você mesmo não se respeita mais.
— Arthur... — sua voz saiu sussurrada, sabia que o amigo tinha razão.
Ele não disse mais nada, apenas deixou a casa e bateu a porta com força. Chovia lá fora, sempre chovia nessa data, como se os céus chorassem sua perda junto com ele. O viu caminhar pela rua e sumir entre os transeuntes.
Arthur era o único que ficou. O único que se importava e ele, por todos esses anos, tentou afasta-lo inutilmente. O rapaz se mantinha fiel, mesmo ele sendo um péssimo amigo: não foi ao seu casamento, não foi ver seus filhos, não compareceu aos seus batizados, nem sendo convidado para apadrinhar as duas crianças. Por que Arthur insistia em ficar ao seu lado depois disso era um mistério.
Olhou a garrafa ainda em sua mão e tomou direto do gargalho; sozinho não precisava fingir que tudo estava perfeito. Subiu para seu quarto e se afundou na cama, com as luzes apagadas, tomando de seu vinho e vendo a chuva molhar as janelas até pegar no sono.
*
Na manhã seguinte Arthur mandou distribuir panfletos procurando por uma empregada. Muitas moças humildes pegaram, prontas a assumir as responsabilidades; mas ele sabia bem o que procurava. Não era qualquer pessoa que atenderia as necessidades de seu amigo.
O panfleto dizia:
“Procuro jovem para trabalhos domésticos.
Que tenha tempo disponível pela manhã e tarde. Saiba lavar, passar e cozinhar.
Casa com um só morador, seis cômodos e dois andares.
As interessadas devem procurar por Arthur.
Rua Tâmisa, n° 14, na sexta-feira.”