BRUXA
Era um bosque perfeito: distante dos burburinhos da sua vizinhança, mas próximo o bastante para uma rápida caminhada.
Ela gostava de pensar no bosque como seu quintal. Uma das principais razões para adorar sua casa: Em um lugar tranquilo e seguro, em um país de povo educado e reservado. Já havia feito alguns bons amigos, mas o bosque era dela. Nunca havia levado alguém lá, ou sequer demonstrado interesse, quando se conversava a respeito da vizinhança.
Aquele entardecer de outono foi especial. A festa de cores, de terrosas a quase douradas nas árvores e no chão, enquanto o céu límpido ia trocando de azul à medida em que o sol despedia-se com os mais variados vermelhos, tudo embalado à canção dos ventos.
Ela ficou feliz de ter ido um pouco mais cedo hoje. Ou não teria aproveitado essa ária visual porque ainda estaria ajeitando a lenha para a fogueira.
Mas a fogueira estava pronta, no centro da clareira. E sobre um toco de árvore seguramente afastado, organizou os utensílios.
Uma grossa vela de cera de abelha; sua pequena faca de rituais; uma bela ametista ainda bruta; e incenso. Hoje trouxe uma taça um pouco maior que a usual.
O início do anoitecer a encontrou já preparada. Começou a acender a fogueira, e, enquanto esperava, sorvia o máximo que podia daquelas maravilhas naturais. Mas estava frio, e o vento teimava em encontrar frestas em sua longa manta-vestido. "Tudo bem. A fogueira e meu sol interno bastarão para me aquecer logo logo", pensou.
A lua já estava no céu, cheia e bela, apressada para tomar seu lugar no firmamento noturno. Sabia que aquela celebração era em sua homenagem.
A fogueira estava queimando bem, já aquecia o ambiente. Ela concentrou-se e iniciou seu ritual.
Cerrou os olhos por um momento, enquanto respirava profundamente. Encontrou seu sol interno, e o acordou. Sentiu a luz e o calor lhe percorrer a espinha, e lhe presentear com uma coroa de energia radiante. Pensou, como quase todas as outras vezes, "como eu queria ver o mundo sutil, ao invés de só senti-lo"...
Estava empoderada, já não sentia frio. Passou a desenhar o círculo mágico imaginário ao redor da fogueira, como sempre a partir do norte até o leste, evocando as forças elementais do ar para que testemunhassem, abençoassem e protegessem aquele esbath.
Do leste, continuou o tracejado até o sul, evocando os elementos do fogo. Seguindo, foi até o lado oeste, pedindo proteção da água, e terminou no norte, evocando a terra.
A energia viva e pulsante do círculo sagrado a deixou à vontade. Desafivelou seu manto, deixando que ele escorresse por seu corpo. Ereta, encarou o fogo totalmente nua (na verdade, sentido-se vestida de céu estrelado). Poderosa. Linda. Elevada. Sabia que era o mais próximo que conseguimos chegar ao nível de potestade.
Deixou o calor da fogueira se entremear com aquele calor interno tão grande que sempre sentiu. As chamas da fogueira crepidaram, saudando o seu próprio fogo. Agradeceu com um sorriso, e deixou-se perder no tempo vislumbrando a dança flamejante. Sempre lhe trazia paz, e excitação.
Fez uma mesura para a Lua. Sentiu-se confortada maternalmente.
Cantou e dançou alegre ao redor da fogueira, até perceber que a dança já tinha se convertido em algo mais sensual, e viu que era hora.
Abriu o vinho, encheu a taça devagar. O som do líquido lhe excitou mais. O calor aumentou.
Pegou a faca. Ela sabia do ato simbólico que iria perpetrar, mas, em seu transe, já não distinguia se era sua faca ou um falo desejante. Olhou para a taça. Viu o órgão feminino transbordando excitação, à espera do seu consorte.
Segurando a faca com as duas mãos, em posição ritual, foi mergulhando-a vagarosamente no vinho da taça, sentindo como se ela, agora também desejante, estivesse sendo penetrada por um falo real.
Com a voz embargada de desejo, cantou à glória da eterna Deusa-mãe e seu Deus-consorte, e ao simbolismo do ato sexual sagrado.
Deitou a adaga, e pegou a taça. O vinho ainda estava frio, apesar do calor que ela sentia. E, já ofegante, percebeu-se sedenta. Bebeu tão vorazmente aquele líquido, a ponto de escorrer pelos lados da taça. E, enquanto matava sua sede, sentia as carícias frias/quentes do vinho-gozo caindo nos seus seios e percorrendo seu corpo... e arfava enquanto bebia... E gemia com as gotas que encontraram o caminho para juntarem-se ao seu próprio cálice, transbordando...
Deixou-se banhar de um pouco mais de vinho, enquanto se tocava, por vezes provando o dedo de vinhos e gozos, até um violento e delicioso orgasmo.
O calor diminuiu, e agora ela conseguia escutar os sons noturnos do bosque que, até aquele momento, não havia percebido.
Agradeceu a cada elemento em seu próprio ponto cardeal, agora no sentido contrário ao relógio, levantando o círculo sagrado.
Vestiu-se. A fogueira ainda queimaria um pouco mais. Ainda assim, certificando-se que o fogo não faria mal ao bosque, embrulhou suas coisas e começou a volta para casa.
Com um meio-sorriso (quase cruel), cogitou se não seria interessante ter um consorte ao seu lado, durante o ritual. Talvez o levasse.
"A questão é: será que ele aguentará o calor?", pensou.
A Lua, a Noite e o Bosque ouviram ao longe suas gargalhadas.