Capitulo Único
Chegando a padaria da senhora Luiza a primeira coisa que notei foi que ela estava mais cheia do que o normal, as pessoas presentes conversavam sobre algo que aconteceu na madrugada e eu não fazia ideia do que se tratava. Perguntei a dona o que aconteceu e ela me contou o que todos estavam comentando. As conversas eram sobre um casal de viajantes encontrados mortos por trabalhadores rurais; pelo que comentavam o casal estava dilacerado e todos achavam que eles foram vitimas de algum animal devido ao estado em que foram encontrados.
As pessoas começaram a detalha o que aconteceu, mas aquelas informações eram demais para mim, paguei pelo que comprei e voltei para casa pensando sobre o que havia escutado mais do que deveria. As seis e quarenta eu fui para minha loja onde vendia ração e remédios para animais, além de fornecer alguns trabalhos como veterinária; não era uma loja grande, mas me ajudava bastante. Comigo trabalhava um rapaz chamado Rafael, ele tinha 24 anos e havia chegado a Rosário faziam uns dez meses, como eu precisava de alguém para me ajudar eu o contratei assim que ele pediu por emprego e com o tempo acabamos nos tornando bons amigos.
— Dona Marcela, a senhora ouviu sobre os viajantes? — Rafael perguntou colocando os sacos de ração na porta.
— Já disse pra não me chamar de dona, eu sou apenas três anos mais velha que você. — Avisei ele enquanto abria o caixa. — E sim, eu fiquei sabendo. —
— Que animal você acha que foi? —
— Não faço ideia, não posso dar palpites sem saber que tipo de ferimentos eles sofreram ou em que condições o corpo foi encontrado. — Eu não estava interessada em falar daquilo, não me importava nada com aquilo.
Durante todo o dia várias pessoas vinham a loja e ficaram horas falando sobre o casal, eu não as expulsei porque seria pior para a loja, mas não disfarcei minha aversão ao assunto. As dezessete horas fechamos a loja e eu fui para minha corrida da tarde, a atmosfera estava tensa, haviam poucas pessoas na rua naquela tarde. Rosário sempre foi tranquila, como toda cidade interiorana, mas aquilo estava me dando calafrios.
Voltei da corrida no mesmo horário de sempre, mas antes de chegar em casa vi uma antiga colega da época do colégio me chamando. Era Sofia, uma ex. amiga com quem não tinha mais laços de nenhuma natureza.
— Boa tarde, Sofia. — Cumprimentei tirando meus fones de ouvido. — Precisa de alguma coisa? —
— Sim, meus cachorros estão com alguma doença e eu não sei o que é. — Ela deu passagem para mim. — Pode dar uma olhada neles? Como eu sou medica de gente não sei como proceder. — Ela tentou me alfinetar. Era um pouco hilário ela achar que eu me sentiria humilhada por ser veterinário e ela uma médica.
— Claro. —
Entrei na casa que estava muito bem arrumada e fui até os cachorros, dois vira latinhas filhotes que estavam encolhidos embaixo da mesa da cozinha. Examinei os animais, mas não achei qualquer anormalidade, expliquei a Sofia que eles não tinham qualquer doença que pudesse ser detectada a olho nu, nem sinal de maus-tratos, então disse que ela poderia leva-los a uma clínica em Oeiras caso eles continuassem mal.
— Muito bem, quando eu te devo por isso? — Ela pegou a carteira.
— Nada, eu sei que seu salario tá atrasado então não vou cobrar. — Eu não me senti humilhada pela sua primeira provocação, mas fazia questão de revidar.
Voltei para casa e liguei para meus pais para saber como estavam, eles estavam preocupados por causa dos assassinatos mas eu os tranquilizei, afinal eram eles que estavam perto do local. A estrada onde os corpos foram achados era próxima de onde eles estavam. Eu sempre fui muito cuidadosa e a casa era segura, portanto eu estava certa de que nada aconteceria comigo. No dia seguinte o trabalho foi mais tranquilo, as pessoas ainda falavam sobre o casal, mas bem menos. Por volta das três e meia da tarde recebi uma ligação do senhor Manoel, ele era o dono de um sítio e precisava da minha ajuda no parto de uma de suas vacas.
Peguei o que seria necessário para o parto e coloquei na caminhonete, Rafael quis me acompanhar, mas pedi para ele ficar e cuidar da loja ate eu voltar e fechar se fosse necessário. O caminho até o sítio foi rápido, as estradas estavam muito boas apesar das chuvas que estavam tendo. Cheguei no sítio e o senhor Manoel me esperava na porteira com Mariana, a sua filha mais velha.
— Que bom que veio, filha. — Ele me cumprimentou apertando minha mão com força. O senhor Manoel era um velho conhecido da minha família, eu e Mariana fizemos faculdade juntas, eu estudava veterinária e ela agronomia.
— Onde está a vaca? —
Eles me levaram ate o animal e então começamos o trabalho, a primeira coisa que fiz foi coloca-la na posição correta, em seguida passei lubrificante para auxiliar na saída do novilho e então comecei a fazer massagens, tudo com a melhor proteção possível. O parto levou mais tempo do que eu esperava, foram quase duas horas até o bezerro sair, mas por sorte ocorreu tudo bem e tanto a vaca quanto bezerro estavam bem e saudáveis. É nessas horas que os anos estudando valem a pena. Mariana levou os animais para outro local enquanto eu guardava meus materiais.
— Aqui está o pagamento, filha. — Ele entregou duas notas de cem e uma de cinquenta.
Além do pagamento o senhor Manoel também me deu algumas frutas, mesmo que tenha na fazenda dos meus pais, mas não recusei a gentileza. Ele e Mariana me acompanharam até a porteira onde guardei os frutas.
— Como estão seus pais? — Ele perguntou após eu fechar a porta onde coloquei as frutas.
— Eu não tenho visitado eles, mas na ultima ligação que fizemos eles estavam bem. —
— Quando os vir avise que tem um animal estranho rondando nosso sítio. — O senhor de idade falou ajeitando seu chapéu.
— Animal estranho? —
— Sim, filha. O bicho invade os sítios e leva qualquer animal que encontre. — A voz dele era preocupada. — Ele se move como uma sombra. —
— Não poderia ser uma onça? — Olhei em volta, o sítio ficava perto da mata, haviam muitas árvores e com as chuvas tudo ficava mais verde, era possível que alguma onça estivesse caçando na região e a escuridão as confundisse. O único porém era que ele deu a entender que são muitos animais desaparecidos, e uma onça não se comportaria assim.
— Eu não sei Marcela mas acho que uma onça não faz os barulho que esse bicho faz. — Mariana respondeu. — Além do mais, não foi só aqui que esse bicho apareceu, tem outros sítios e povoados que o bicho tem aparecido. —
— Entendo, nesse caso a ideia de uma onça pode ser descartada. Mas não se preocupe eu vou avisar meus pais sobre esse animal, podem deixar. — Entrei no carro e fechei a porta.
Quando estava saindo vi um carro branco indo em direção ao sítio, quando passou por mim notei que era Pedro, o filho mais novo do senhor Manoel. Eu não fazia ideia de que ele estava na cidade, Pedro havia se mudado para São Paulo para estudar direito então era estranho vê-lo de volta tão cedo.
Ignorei o encontro quando vi a estrada que me levaria a fazenda dos meus pais, antes de dirigir para lá liguei para Rafael e pedi que ele abrisse a loja no dia seguinte pois iria dormir na casa dos meus pais. Dirigi pela estradinha, o sol estava se ponto no horizonte, os inúmeros morros em volta da cidade faziam a escuridão chegar mais cedo. Já estava quase totalmente escuro quando avistei a porteira e o casarão.
— Boa noite, dona Marcela. — O senhor João falou após fechar a porteira.
— Por favor seu João. Não me trate como sua patroa. — Sorri e fui até ele o abraçando.
— Filha! — Ouvi a voz de meu pai.
Olhei para o topo da escadaria e vi papai e mamãe me olhando, eles sorriram e desceram as escadas para me abraçarem. Eu os apertei com força, nem sabia que estava com tanta saudade deles e da fazenda.
— Espere, João. Preciso falar com você. — Papai falou enquanto eu e mamãe subíamos para casa.
— Que milagre foi esse de você vir nos visitar? — Mamãe segurava meu braço enquanto subíamos as escadas.
— Não posso aparecer de surpresa para visitar meus pais? — Eu sorri segurando sua mão, meu pai ainda estava com senhor João.
— Dona Cândida. — Ouvi a voz de um homem assim que chegamos a varanda. Era Bruno, filho do senhor João. — As vacas já estão no curral. — Ele nem sequer me olhou.
— Boa noite, Bruno. — Falei e ele apenas me ignorou.
— Muito bem, pode ir descansar. Mas antes avise aos guardas para ficarem perto das casas. —
— Muito bem. Boa noite. — Ele saiu em direção a cozinha.
— Não se sinta mal, ele ainda está chateado com tudo que aconteceu. — Mamãe falou, mas eu não estava chateada.
Bruno e eu namoramos por alguns anos, na verdade começamos nosso namoro depois do meu primeiro ano da faculdade, mas nosso namoro terminou a um ano por termos planos diferentes para o futuro. Bruno queria casar e ter filhos enquanto eu nunca tive planos de ser mãe, para ele não fazia sentido continuar então terminamos. Obviamente ele ainda estava magoado com tudo, já eu estava com tudo absolutamente resolvido.
— O que o papai tanto fala com o João? — Olhei para os dois.
— Não deve ser nada, vamos jantar e logo ele vem. —
Sentamos para jantar e como mamãe havia dito papai logo se juntou a nós, comemos em meio a conversas e sorrisos. Mesmo com toda a felicidade de ter a família reunida eu ainda podia sentir uma certa tensão, mas esperei até terminar o jantar para poder perguntar o que estava acontecendo.
— Então, como estão as coisas na sua loja? — Mamãe perguntou quando sentamos no sofá da sala.
— Estão bem, as coisas estão bem tranquila por lá. —
— Já disse que não precisa dessa loja, você devia estar aqui cuidando da fazenda com a gente. — Papai comentou. Ele não gostava de eu morar longe deles.
— Bom, por enquanto eu estava pensando em voltar pra casa por uns dias, a vida na cidade é bem chata. Mas agora eu quero saber o que está acontecendo aqui, vocês ficaram o jantar inteiro olhando pela janela e esses seguranças? — Eles se olharam como se estivessem decidindo se iriam ou não falar o que estava acontecendo.
— Não é nada demais, apenas um bicho tentando comer nossas vacas. — Papai falou como se não fosse grande coisa.
— O senhor Manoel falou que a mesma coisa está acontecido no sítio dele. — Meus pais me olharam intrigados.
— Poderia ser o mesmo animal, filha? — Mamãe perguntou.
— Improvável, além da distância entre a fazenda e os sítios vizinhos esse animal estaria comendo uma quantidade absurda de carne, acho difícil, para não dizer impossível, que algum animal nativo faça isso. —
— Então o que pode ser isso? — Papai parecia tão confuso quanto eu.
— Bom podem ser ladrões, como é noite e o mato está alto é possível que tenha confusão sobre os avistamentos. —
— Bom, alguns moradores da fazenda estão falando em... — Papai parecia constrangido com o que estava dizendo. — Em lobisomem. — Eu pude ver sua pele ficar vermelha.
Papai era um homem estudado, assim como a mamãe, eles não eram tão céticos, mas dificilmente acreditariam em algo como um lobisomem, por isso mesmo fiquei espantada ao ouvi-lo falar aquilo.
— Eu sei que parece absurdo, mas filha... eu realmente não sei mais o que pensar sobre isso. —
— Acho que no momento nós precisamos esquecer isso, você está em casa depois de meses e não vamos estragar sua visita com essa história. — Mamãe olhou papai com um olhar de advertência. — E você tem que tirar essas ideias da cabeça. — Segurou o braço dele.
— Como sempre, você está certa. — Papai segurou sua mão e a beijou.
Uma das coisas mais bonitas que eu já vi na vida é o amor que meus pais demonstravam um pelo outro, o casamento deles era a meta de qualquer pessoa romântica e eu cresci em meio a todo o amor e carinho que eles tinham e não poderia ser mais feliz. Após a nossa conversa fomos deitar, eu dormi em meu antigo quarto e ele estava como eu deixei, as cortinas azuis na janela de vidro, quando era criança eu adorava ficar ali olhando a fazenda com a janela aberta, quando era lua cheia tudo ficava tão lindo com a pouca luz da lua.
Aquela noite foi a melhor que tive em muito tempo, meu sono foi leve e eu dormi como uma criança. Acordei por volta das sete da manhã e desci as escadas para encontrar minha mãe mexendo no forno a lenha que tínhamos, ela estava fazendo pão docinho. Cumprimentei ela com um abraço caloroso e pedi que ela deixasse as moças da fazenda terminarem tudo, mamãe obviamente recusou, ela dizia que enquanto estivesse viva fazia questão de fazer minhas comidas preferidas. Eu apenas ri porque contraria-la era algo que eu aprendi a não fazer.
— Onde está o papai? — Questionei olhando para a porta da cozinha.
— Ele está falando com alguns policiais. — Mamãe cortou um pedaço do queijo que era produzido na fazenda.
— Policiais? O que a polícia veio fazer aqui? — Mal terminei de falar e papai entrou pela porta da cozinha.
— O que aconteceu? O que a policia veio fazer? —
— Calma, eles só queriam saber se avistamos alguém suspeito por aqui. — Ele sentou ao lado de mamãe.
— Por que? — Mamãe perguntou enquanto papai colocava seu café.
— Uma moça foi assassinada em uma estrada próxima. — Ele bebeu o café e fez uma careta, não sei se pelo líquido ou pela informação que tinha acabado de nos dar.
— Como foi isso? E quem é essa pessoa? — Eu quase pulei em meu pai pedindo explicações.
— Bom, a delegada falou que o carro da moça foi encontrado em uma estrada por alguns moradores quando iam para suas roças, eles viram o corp... o que sobrou do corpo há alguns metros de distância. Eu não sei exatamente em que estado a moça foi encontrada, mas a coisa parece ter sido feia. —
— E quem é a moça? Eles sabem quem é? — Perguntei.
— Sim, eles encontraram os documentos e os cachorros no carro. O nome dela é Sofia. —
Meu corpo gelou ao saber o nome da pessoa, eu não sabia se era a mesma Sofia então pedi mais informações e a cada palavra que saia da boca do papai eu tinha mais certeza de que era a Sofia. Eu tirei aquele dia para ir a delegacia a procura de mais informações, a delegada Larissa não pôde me dar detalhes sobre a morte, mas confirmou que se tratava de Sofia. Foi um golpe duro para mim, há muito tempo não éramos próximas, mas eu não consegui ficar apática diante da noticia.
O trabalho ficou mais difícil nos dias que se seguiram, eu queria saber mais sobre como estavam as investigações do assassinato, mas não conseguia. Os boatos que rolavam na cidade era de que um animal selvagem havia atacado Sofia, o que eu não descarto, mas me parecia difícil algo assim acontecer. Já havia se passado dias desde terrível assassinato e nenhuma outra morte foi relatada, o que por um lado foi uma coisa boa, mas pelo outro não haviam novas informações sobre o assassino.
Eu havia me mudado para a casa dos meus pais para ajuda-los com os animais que estavam sumindo. Em uma noite nós estávamos na varanda conversando quando ouvimos um alvoroço próximo às casas dos trabalhadores, havia quatro famílias morando na fazenda com a gente e em uma delas algo havia acontecido. Eu e papai, juntamente com os seguranças, que foram contratados depois das mortes, fomos ver do que se tratava, mamãe ficou em segurança em casa devido a sua saúde frágil. Encontramos alguns trabalhadores reunidos em frente a uma casa, eles estavam discutindo enquanto uma das mulheres consolava um bebê em seus braços.
— José, o que esta acontecendo? — Papai questionou o rapaz que estava no centro da confusão.
— Aquele demônio voltou, seu Miguel, ele tava rondando a minha casa e quase entrou. — Um rapaz de uns 24 anos falou enquanto abraça a mulher com o bebê.
— Ele queria nosso filho, patrão. — A mulher falou acariciando a cabeça da criança.
— Se não fosse meu irmão ele teria entrado e sabe se lá o que ele faria com a gente. —
— Então vocês viram o que era? — Perguntei esperando finalmente ter alguma informação sobre esse animal.
— Não, só eu vi. — Um outro rapaz respondeu. Ele parecia ter a minha idade e segurava uma espingarda nas mãos.
— Qual o seu nome? — O rapaz disse que se chamava Antônio e eu pedi para ele relatar o que viu.
— Um bicho era grande, do tamanho de um cavalo. — O homem ainda tremia um pouco as mãos. — Ele arranhava as portas e as paredes, ele queria entrar de todo jeito. —
— E como ele era? — Perguntei ainda mais ansiosa.
— Estava escuro, dona. Eu não vi direito, mas era todo preto e desengonçado. — O homem estava visivelmente assustado. — Olha, eu não sei o que era, mas fazia uns barulho assustador. Eu só atirei porque era a família do meu irmão que estava lá, caso contrário eu teria caído morto de medo no chão. — Ele não estava mentindo, eu conseguia ver o medo em seus olhos. — Ele se embrenhou ai no meio do mato, espero que tenha morrido. —
— Isso é um lobisomem, ele veio pegar nosso bebê. — A mulher falou abraçando o filho mais forte ainda.
Foi difícil acalmar os ânimos, mas papai sabia como falar com eles e conseguiu acalma-los após garantir que os seguranças ficariam em volta das casas para garantir a segurança de todos. Voltamos para a casa deixando os seguranças e moradores para trás. Meus pais e eu conversamos sobre o que deveríamos fazer a respeito e decidimos que contrataríamos mais homens para garantir a segurança de todos.
No dia seguinte as pessoas estavam reunidas em frente a nossa casa, os trabalhadores que ainda não sabiam o que havia acontecido se uniram as famílias e o rapaz da noite anterior estava a frente deles dizendo que não ficaria mais ali, ele dizia estar com medo por seu filho. Enquanto estávamos tentando acalmar os moradores Bruno e seu pai se aproximaram, só então lembrei que eles não estavam conosco na noite anterior, mas eu não tinha tempo para pensar naquilo, os trabalhadores eram mais importantes.
— Escutem! — Pedi passando a frente de papai. — Eu sei que estão com medo, esse animal pode ser muito perigoso, mas nós garantimos que vamos cuidar de todos vocês. Já estamos contratando mais homens para garantir a segurança de todos aqui, não deixaremos vocês e suas famílias desamparados enquanto esse animal está a solta. Também vamos falar com os donos de sítios próximos e com a delegada para sabermos o que pode ser feito, também podem procurar algum lugar para dormir na cidade ate resolvermos tudo, até lá nós só pedimos a compreensão de vocês. —
— E quanto a nossas crianças? Elas estão em perigo com esse demônio a solta. — Uma das mulheres gritou.
— As famílias com crianças são convidadas a dormirem na casa principal até que esse animal seja capturado. — Papai falou e eu não podia concordar mais.
Os trabalhadores concordaram e papai encarregou Bruno e o senhor João de procurarem pessoas para fazerem a segurança, as famílias com crianças seriam levadas para a casa e eu fui até meu trabalho. Pensei em falar com a delegada antes de ir para a loja e foi o que fiz, eu pedi que ela mandasse alguém ver se encontravam esse animal e ela disse que faria isso o mais rápido possível.
Após falar com a delegada finalmente fui até a loja, Rafael já devia estar achando que eu não voltaria a trabalhar, no momento em que me viu entrar ele abriu um sorriso de alivio, eu o acalmei explicando o que havia acontecido. Naquele dia recebemos uma encomenda de alguns produtos, em especial remédios. Eu estava guardando tudo quando Rafael me chamou com uma caixa de vermífugos para porcos, a cara dele era de quem estava com medo de dar uma má notícia.
— Marcela, esses aqui estão vencidos. — Ele parecia frustrado com a caixa em mãos.
— O que?! — Peguei a caixa e olhei a data de um frasco, estava vencido. Peguei mais alguns e todos estavam realmente vencidos, era a última coisa que falta para completar o combo da desgraça. — Mas que droga! — Eu estava prestes a jogar a caixa no chão, aquele remédio era caro demais para perdermos uma caixa inteira. — Não acredito que vou ter que ir até a loja em outra cidade para trocar. — Eu já estava com dor de cabeça só de pensar em fazer uma viagem até Oeiras.
— Eu posso trocar para a senhora... quer dizer, pra você. — Rafael se ofereceu rapidamente, ele estava um pouco encolhido devido ao meu estado de estresse. — Eu estava querendo visitar minha mãe e como ela mora em Oeiras, eu posso fazer as duas coisas. — Ele pegou a caixa.
— Tem certeza? Esse bicho que tanto falam ainda está solto. — A menção ao animal assassino me causou arrepios.
— Não se preocupe, eu vou me cuidar. — Sorriu tentando transmitir confiança.
Rafael pegou a encomenda e eu o liberei para ir logo a Oeiras. A clientela estava mais fraca então não tive problemas no atendimento, mas quando eu estava começando a guardar os sacos de ração chegou uma menina pedindo para eu salvar uma gatinha que estava na casa dela sangrando. Peguei alguns remédios e segui a menina até a casa dela, chegando lá a gatinha só estava dando a luz, o animal era de rua e a família dela a alimentavam e por isso ela entrou na casa por acha-la segura. Ajudei a menina a encontrar um local seco e seguro para ela parir e ficamos até o último filhote sair, foram quatro gatinhos, dois laranjas e dois frajolinhas que deram até vontade de levar pra casa, com esse pequeno contratempo inesperado eu acabei saindo da loja mais tarde, já eram quase dezenove horas quando fechei a loja pronta para ir embora.
A viagem de volta a fazenda estava bastante tranquila, dirigir a noite me trazia uma sensação agradável. Em meio aquela escuridão eu senti um balanço do lado direito do carro e imediatamente fechei os olhos rezando pra não ser o que eu estava pensando. Parei o carro e desci para vê o que estava acontecendo e o que eu mais temia aconteceu. O pneu do carro estava quase vazio e eu chutei ele com raiva, não me permiti perder tempo e peguei o macaco para trocar o pneu o mais rápido possível.
O lugar onde eu parei não tinha casas, havia apenas um cercado do lado esquerdo onde tinham algumas vacas, do lado direito era apenas mato e árvores altas. O tempo passava rápido enquanto eu levantava o carro, comecei a desparafusar o pneu e o silêncio parecia aumentar, o único som que eu ouvia era o das pedras sendo comprimidas embaixo das minhas botas e a minha respiração ofegante. Já eram oito e quarenta quando finalmente removi o pneu e peguei o estepe, demorei pra começar o trabalho de colocar o estepe pois estava muito cansada. Quando finalmente recuperei a força e coloquei o pneu no lugar, naquele momento ouvi as vacas se agitarem, mas já estava muito ocupada para dar atenção às vacas e continuei parafusando o pneu.
Finalmente terminei de parafusar o pneu e estava tirando o macaco, enquanto retirava a ferramenta ouvi alguns sons estranhos vindo da mata. Até aquele momento eu estava tranquila, mas então lembrei do que aconteceu com Sofia e me apressei. Assim que guardei o macaco eu senti um frio percorrer minha espinha, fiquei paralisada no mesmo lugar sem olhar em volta.
Ao retornar ao lado direito ouvi um grunhido grotesco vindo da mata, minhas pernas falharam de imediato, quando olhei para a mata vi saindo da sombra de uma árvore um animal gigantesco. Tive que me segurar no carro para não cair de joelhos no chão, o animal era quase tão alto quanto o meu carro, seus dentes eram tão grandes que saiam para fora da boca, seu corpo não era coberto de pelos como o de outros animais, mas invés disso ele tinha partes completamente peladas e aqueles olhos, até hoje quando fecho os olhos para dormir ainda consigo lembrar perfeitamente daqueles olhos amarelos me olhando do escuro.
Eu fiz um movimento rápido em direção a porta que deixei aberta, mas antes de entrar ouvi um rosnado gutural e isso me fez parar. Vi o animal novamente, mas ele estava de pé, seu corpo agora era maior que o carro e eu pude ter um vislumbre do quão forte ele era, seus músculos eram visíveis em toda parte, seus braços se estendiam até abaixo do joelho, ele estava se preparando para correr. Eu não tinha muito tempo.
Com as pernas ainda fracas eu me joguei dentro do carro e fechei a porta tão rápido que eu nem ao menos lembro como foi, tudo que aconteceu depois parece uma névoa espessa, a adrenalina do momento era tão intensa que meu corpo apenas agia sozinho. Eu via pelo retrovisor aquele demônio correndo na estrada atrás de mim, vez ou outra ele se chocava contra o carro fazendo ele balançar e quase sair da estrada, mas eu não permitia e continuava acelerando em direção a fazenda.
Quando finalmente avistei a porteira dois seguranças apareceram segurando suas espingardas, a porteira estava aberta e logo que eu passei eles começaram a atirar no demônio que me perseguia. Meu corpo ficou paralisado, eu não conseguia me mexer mesmo fazendo um esforço enorme; meus pais vieram até mim para saber o que havia acontecido e foi só quando ouvi a voz da mamãe que eu despertei do transe em que me encontrava. Eu e os seguranças contamos o que aconteceu e meu pai me levou para dentro de casa; em meio a confusão papai tomou a decisão de perseguir a criatura para abate-la.
— Papai, aquilo não é um animal comum, ele não vai ser abatido tão facilmente. — Eu dizia tentando convencê-lo a ficar na fazenda, mas nenhuma palavra surtia efeito.
Papai e mais seis homens, incluindo José e seu irmão Antônio, entraram na mata a procura da criatura deixando suas famílias na fazenda, eu pensei que Bruno apareceria para ir junto com eles, mas apenas seu pai apareceu. Cintia, a esposa de José, ficou em nossa casa com seu bebê, ela dormiria em um quarto separado para cuidar da criança, mas passou a maior parte do tempo conosco.
As horas passavam lentamente, a madrugada veio e nenhum sinal da criatura ou de papai e dos outros homens, apenas o silêncio reinava entre nós.
— Eu vou cuidar do meu bebê. — Cintia falou indo até o quarto, já eram por volta das quatro da manhã e logo o bebê acordaria para mamar.
— E onde está o Bruno, senhor João? — Perguntei enquanto olhava o homem de cabelos brancos sentado no sofá.
— Ele saiu para a cidade, filha. — Ele respondeu meio sem jeito.
— Ele devia estar aqui para o caso de algo assim acontecer, não é? — Eu estava realmente preocupada com o sumisse de Bruno, não estava desconfiada como talvez eu devesse, mas estava com medo de que algo acontecesse e ele não estivesse presente para ajudar, como de fato aconteceu.
— Filha, você tem certeza de que o que viu era mesmo um... lobisomem. — Mamãe perguntou, acho que ela queria quebrar o clima tenso que se formou.
— Mamãe, eu nunca vi um lobisomem a não ser nós filmes, mas aquilo que eu vi na estrada... aquilo não era nenhum animal conhecido. — Olhei diretamente para seus olhos. — Lobisomem ou não, aquilo precisa ser abatido antes que mate mais pessoas. —
Houve um silencio, estávamos tensos com tudo que aconteceu e ainda estava acontecendo, continuamos em nossa espera por mais algum tempo até que ouvimos alguns barulhos. Nós três fomos até a varanda e vimos papai e quatro dos homens voltando, eu e mamãe nós entre olhamos já entendendo o que havia acontecido. Recebemos todos e Cintia veio procurar pelo marido, no momento em que ela viu todos os homens menos José e Antônio ela começou a chorar, seus gritos ecoavam pela casa e precisamos segura-la para que ela não agredisse meu pai. Cintia foi levada para o quarto sob os cuidados de outras mulheres enquanto chamávamos a polícia para relatar o que houve.
A polícia veio em pouco tempo e recolheu tudo que precisava para a perícia, a delegada Larissa ficou horas recolhendo o depoimento dos homens, papai e os outro quatro ficavam apenas com os policiais durante a maior parte da manhã repetindo o depoimento; por volta das onze da manhã eles foram liberados e a delegada veio falar comigo.
— Então você viu a tal criatura? — A delegada se aproximou com as mãos já cintura.
— Sim. — Eu estava com vergonha de dizer que era um lobisomem, sabia o quão ridículo era afirmar o que vi.
— Pode me dizer exatamente o que viu? — Larissa sentou perto de mim.
— Eu estava trocando o pneu do carro e quando terminei tinha um... animal entre as árvores. — Meu corpo tremia apenas por lembrar o que vi.
— Pode dar uma descrição de como ele era? —
— Claro. Ele era grande, tinha poucos pelos, os olhos eram grandes e amarelos... — Continuei descrevendo a criatura da forma mais fiel que podia, o problema foi quando eu tive que dizer que a criatura ficou de pé.
—Você quer dizer que esse animal ficou de pé e que quando ele fez isso ficou maior que o seu carro. — Larissa olhou o veículo, era realmente difícil de acreditar nas minhas palavras, se não tivesse acontecido comigo eu também não acreditaria então não posso culpa-la por seu ceticismo.
— Sim, foi exatamente o que aconteceu. — Meu rosto devia estar igual uma pimenta na ocasião. — O carro tem os amassados das batidas. —
— Eu vi. Muito bem, entraremos em contato quando precisarmos de mais informações. — Larissa virou as costas para ir embora.
A delegada saiu olhando os amassados em meu veículo, eu não fazia ideia do que ela poderia estar pensando ou se havia acreditado no que falamos, mas só podíamos esperar pelo que viria. Após os policiais e a delegada saírem eu, mamãe, Bruno e o senhor João sentamos para questionar meu pai sobre o que aconteceu e ele nós contou.
— Eu estava te esperando pra contar tudo. — Papai estava abalado, sua voz antes energética e cheia de alegria agora era cansada e melancólica. — Como vocês sabe saímos para caçar o lobisomem pela mata, seguimos ele pelo mato até perto da cachoeira. José estava a frente, ele queria matar a fera mais que todos ali, mas as coisas se complicaram.
Nós apontávamos as armas para todos os lugares, estávamos atentos a qualquer barulho ou sombra se movendo, não havia nuvem no céu, mas as árvores nos impediam de ver claramente a nossa volta.
Tudo aconteceu muito rápido, foi como um piscar de olhos e de repente um grito cortou o silêncio. Eu lembro de procurar em volta e ver José sendo arrastado para o meio do mato. Corremos em direção a eles e atiramos, mas os gritos só pioraram e então, do nada eles cessaram.
Eu pedi para pararem de atirar já que estávamos apenas gastando balas e o lobisomem nem deveria estar mais ali, nós fizemos uma roda para termos uma visão melhor. Antônio estava irado, eu podia sentir a raiva dele, ele gritava para a criatura tentando provoca-la a sair das sombras, mas o animal não era tão estupido. Eu esperava que ele se acalmasse, mas quando o corpo sem vida e dilacerado de José foi jogado perto de nós, o Antônio pareceu enlouquecer e saiu a procura do lobisomem; tentamos ir atrás dele, mas só ouvimos os tiros e depois... os rosnados. Tudo ficou em silêncio, nenhum som foi ouvido depois daquilo, eu sabia que a fera estava em vantagem, ela era mais inteligente do que eu pensava e ir atrás dela foi o pior erro que cometemos.
Chamei os homens e fomos para a cachoeira, entramos na água e lá ficamos até ver o sol nascer. Foi uma noite amaldiçoada, enquanto estávamos lá a criatura devorava os corpos de Antônio e seu irmão. Ficamos parados ouvindo a carne sendo arrancada, os ossos sendo quebrados enquanto aquele demônio rosnava. —
Após o relato de papai todos se retiraram, mamãe estava abalada e mesmo assim disposta a cuidar de tudo enquanto papai se recuperava do choque. Enquanto todos cuidavam da fazenda eu pedi a Bruno que ficasse pois queria fazer algumas perguntas a ele.
— O que deseja? — Ele estava do outro lado da mesa de madeira.
— Onde esteve ontem a noite? — Fui direta, fizer rodeios não era para mim.
— Eu fui a cidade. — Ele respondeu com a indiferença de sempre.
— E passou toda a noite lá? — Eu confesso que acabei usando um tom mais agressivo do que deveria. — Não é a primeira vez que você não está aqui quando algo acontece, então eu quero que me diga o que tem de tão importante na cidade pra você passar tantas noites por lá. — Vi seu rosto ficar vermelho e então ele respondeu.
— Uma mulher. — Ele quase gritou, deveria estar irritado com minha insistência, porém eu não me importava, precisava saber o que estava acontecendo. — Eu tenho ido ver uma mulher e passo algumas noites com ela. Está satisfeita? —
— Sim. Mas não esqueça que você também têm obrigações aqui e meus pais contam com você. —
Minha conversa com Bruno se encerrou e ele voltou a cuidar dos afazeres na fazenda, avisei a Rafael que não iria trabalhar naquele dia e expliquei a situação, como esperado o rapaz ficou desesperado, mas consegui acalma-lo. A fazenda estava silenciosa, os trabalhos foram interrompidos na maior parte da fazenda, Cintia e seu bebê receberam todos os cuidados que podíamos oferecer e até entramos em contato com sua família, eles viriam busca-la assim que possível. A tarde, por volta das quatro, recebi a visita de Rafael que veio saber como eu estava.
— Eu fiquei muito preocupado quando disse o que aconteceu. — Ele falou enquanto caminhávamos pela fazenda vistoriando tudo — Sabe o prefeito disse que os moradores deveriam evitar as estradas durante a noite, agora tem patrulhas a cada cinco quilômetros nas estradas para tentar achar esse assassino ou animal. —
— Finalmente o prefeito fez algo que preste. — Nós rimos do meu comentário.
— É verdade que a senhora viu o animal? —
— Animal? Foi o que a delegada disse ao jornal? — Rafael acenou positivamente, agradeci em silêncio pela descrição de Larissa. — Eu vi algo, mas não sei se aquilo era um animal. — Parei em frente a porteira. — Parecia um demônio que havia saído do inferno naquele instante. — Os flashbacks do meu encontro com a criatura voltaram.
— O que acha que é? —
— Por mais absurdo que possa parecer, aquilo pode ser... um lobisomem. — Eu não estava com tanta vergonha como quanto falei a delegada, Rafael era uma pessoa que me respeitava muito e que além disso era apaixonado pelo sobrenatural.
— Sério mesmo? — Eu juro que seus olhos brilharam quando ele falou.
— É a única coisa que consigo pensar. — Encostei na porteira.
— A senhora tem ideia de quem pode ser? —
— O senhor Miguel está chamando. — A voz de Bruno chamou nossa atenção.
— O que ele quer? —
— Ele não disse. Só avisou para voltar rápido. — Bruno e Rafael se encaravam de uma maneira nada amigável, dava para ver que nenhum dos dois estava muito feliz com a presença um do outro, mas eu não me importava com aquilo.
Disse a Bruno que logo iria e acompanhei Rafael até a saída, já estava tarde e as estradas estavam mais perigosas que nunca então ele precisava ir logo ou quando a noite chegasse ele ainda estaria na estrada. Quando voltei a fazenda encontrei mamãe e papai sentados na varanda. A conversa que eles queria ter era sobre os homens que estavam com ele quando encontraram a criatura, eles queriam se demitir por conta do que aconteceu e nós precisávamos assinar os papéis.
Quando terminamos tudo já era noite, todos na fazenda já estavam recolhidos devido ao medo, os únicos que estavam fora eram os seguranças e apenas porque estavam muito bem armados. A fazenda inteira estava em silêncio, do meu quarto eu via a fazenda iluminada pelo luar, mas não havia mais aquela beleza, era apenas medo agora. As horas passaram e o sono não vinha, por volta da meia noite ouvi um grito ao longe, era um grito cheio de dor e desespero e que fez meu corpo tremer, mas nada além disso aconteceu.
Fui dormir por volta das duas da manhã e acordei as oito, o clima estava pesado na fazenda, as mulheres que antes conversavam fazendo os trabalhos estavam silenciosas, não ouvia as vozes altas dos homens cuidando dos animais. Fui trabalhar naquela manhã para pelo menos me afastar da fazenda um pouco e dos clientes que poderíamos ter os únicos que eu não esperava eram Mariana e Pedro, geralmente o senhor Manoel me pedia para levar o que ele necessitava até seu sítio, já que a fazenda dos meus pais era próxima.
— É verdade que o bicho esteve na fazenda de vocês? — Mariana perguntou enquanto eu pegava o remédio para feridas de animais. — Tu viu como ele era? — Eu dei uma resposta positiva e isso a animou. — Era um lobisomem, não era? —
— Lá vem você de novo com esse assunto de lobisomem. — Pedro falou se aproximando do balcão.
— Se você passasse as noites no sítio invés de estar atrás de mulheres na cidade você entenderia. — Mariana retrucou. — Fala pra ele Marcela. —
— O bicho parecia muito com essa criatura. — Confessei envergonhada.
— Então você acha que é um lobisomem? Tem alguma ideia de quem ele é ou como podemos pegar, já que viu ele tão de perto? — Pedro se debruçou sobre o balcão, sua pergunta soou debochada; notei ele tinha um cheiro forte e desagradável que eu não consegui identificar, provavelmente devia ser bebida e alguma outra coisa.
— Se eu o vir uma segunda vez talvez eu possa encontrar algo que possa ser usado para abate-lo. — O encarei irritada.
— Vocês ficaram loucos. — Ele saiu andando em direção a caminhonete.
Os irmãos pagaram o que tinham que pagar e foram embora, eu e Rafael continuávamos especulando quem poderia ou não ser a criatura.
— Talvez seja uma pessoa próxima da sua família. — Rafael estava colocando os sacos da ração para dentro.
— Por que acha isso? — Eu colocava outro saco para dentro.
— Eu leio muito sobre essas criaturas, elas são vingativas e considerando que ele anda muito na fazenda da sua família, provavelmente ele é alguém que tem ou teve algum problema com vocês. —
— Não acho que minha família tenha inimigos, não consigo pensar em ninguém que queira nós fazer mal. —
— E quanto a senhora? Talvez o encontro na estrada não tenha sido um acidente. — Já estávamos terminando de guardar tudo. — Talvez tenha sido uma tocaia, consegue pensar em alguém que tenha motivos para querer mata-la? — Ele questionou.
Eu ia responde-lo, mas antes que eu o fizesse uma caminhonete parou em frente a loja, era Bruno. Ele disse que meus pais o mandaram por medo de algo acontecer novamente, dava para ver que ele não estava feliz em estar ali, mas ele era o peão de maior confiança do papai. Fechamos a loja e eu entreguei a chave a Rafael, antes de ir ele disse para eu tomar cuidado. Nossa volta para casa foi tranquila, mas eu sentia medo a cada segundo que o sol se escondia, medo daquela coisa pular do meio das árvores e me atacar, mas por um milagre ou por pura sorte nada aconteceu.
Os dias se passaram e os restos dos corpos foram liberados, fizemos o interrompida simbólico de José e Antônio, papai providencial que Cintia recebesse todos os cuidados já que os rapazes não tinham família, a criatura não apareceu nós dias seguintes e nesse meio tempo Cintia voltou para sua família em outra cidade.
Já havia se passado uma semana e a polícia continuava fazendo suas vigias na cidade, alguns vizinhos relatavam sobre a criatura correndo nas estradas, mas não houveram mais mortes, porem muitos animais ainda desapareciam. As noites na fazenda não eram mais as mesmas invés de tranquilidade o silêncio transmitia medo, olhar pela janela e ver os campos iluminados pela lua não me trazia paz e sim agonia; até que em uma noite de segunda ouvi gritos ao longe.
Eu desci as escadas com papai e mamãe vindo logo atrás, saímos para encontrar os seguranças. Ouvíamos os gritos se aproximando cada vez mais até que avistamos uma figura correndo na estrada de terra, era um dos policiais. O homem tropeçava enquanto corria até nossa fazenda, quando ele finalmente estava bem próximo avistamos o demônio vindo pela estrada como um trem desgovernado.
Os seguranças pegaram suas armas e eu e meus pais abrimos a porteira, assim que o homem se aproximou o bastante os seguranças começaram a atirar. Por um instante a criatura parou na estrada e nos encarou, eu a olhei parada e parecia que estava olhando diretamente para mim, minhas pernas tremeram encarando aquela besta, mas após aqueles segundos aterrorizantes a criatura correu para a mata.
— Vamos entrar. — Ordenei e todos seguimos para a casa.
Os seguranças voltaram a suas funções próximo às casas dos trabalhadores enquanto eu e meus pais cuidávamos do policial.
— Ele matou todos. — Ele dizia tremendo a mão enquanto bebia um chá feito por minha mãe.
— Acalme-se e conte o que aconteceu. — Mamãe segurava sua mão e papai estava no celular ligando para a delegacia.
— Nós ouvimos gritos vindos da mata e fomos averiguar, nós estávamos armados, mas não adiantou de nada. Ele vinha como uma sombra e atacava tão rápido que só ouvíamos os gritos. Aquele demônio matou meus companheiros e só eu consegui sair com vida. — O homem chorava como uma criança.
Enquanto esperávamos a delegada ouvimos mais tiros, o policial parecia desesperado e o deixamos sob os cuidados de mamãe. Eu e papai fomos ver o que havia acontecido e os trabalhadores estavam todos fora de suas casas, a criatura havia retornado e tentou atacar a casa deles.
A delegada veio e nós levamos as pessoas para a casa principal, todos ficaram com minha mãe enquanto ficávamos com os seguranças. A delegada Larissa estava disposto a entrar na mata atrás da criatura, ela e os policiais que a acompanhavam entraram na mata e nós ficamos com os seguranças esperando por eles, usávamos as lanternas para iluminar tudo a nossa volta para o caso da criatura estar por certo.
Mamãe estava junto aos demais moradores enquanto eu e papai estávamos do lado de fora, mesmo com medo eu não iria deixa-lo ali. Não demorou muito para ouvirmos gritos e tiros vindos da mata, papai correu para encontrar a delegada e eu fui atrás, antes de ir pedi a três guardas para ficarem enquanto o resto nos acompanharia para ajudar a delegada, também peguei uma pistola para mim e papai outra.
Entramos na mata iluminando nosso caminho com nossas lanternas, os tiros estavam próximos e quando chegamos a delegada estava coberta de sangue e quase atirou em meu pai. Nós unimos a Larissa e os outros dois policiais sobreviventes, o grupo agora tinha oito pessoas juntas em um círculo; de qualquer lugar que a criatura atacasse nós veríamos. Esperamos e esperamos, a criatura devia estar esperando o momentos certo para nós atacar, qualquer distração era uma brecha para sermos uma vítima.
O silêncio era tanto que podia ouvir a respiração dos homens ao meu lado, estava perdendo a esperança de pegar a criatura quando ouvi um tiro. Foi um único tiro, mas não venho de nenhum de nós, nem eu e nem as pessoas presentes no círculo atirou e então um pensamento aterrorizante tomou conta de mim.
— Mamãe! — Meus olhos se encheram de lágrimas e eu sai correndo de volta para a fazenda.
Eu ouvia os passos apressados atrás de mim e os chamados de meu pai e dos outros, nenhum dos chamados era o bastante para me fazer parar. Corri sendo cortada por galhos de árvores, eu sentia o sangue escorrer por meus braços, mas a única coisa que me importava era chegar até a mamãe.
Cheguei a fazenda e vi os três seguranças no chão, ou melhor, vi o que havia sobrado deles. Corri até a entrada e vi um rastro de sangue que subia as escadas até o interior da casa, meu coração estava batendo freneticamente e quando vi que não havia ninguém na sala ele quase explodiu.
— Mamãe! — Gritei sem me importar se a criatura me ouviria.
Ouvi passos atrás de mim e a voz do meu pai perguntando onde estavam todos, antes de conseguir pensar no que poderia ter acontecido ouvi um rosnado vindo dos fundos da casa. Corri mais rápido que pude até entrar já cozinha e vi a criatura enviada pelo inferno devorando um corpo. As lágrimas rolaram sem controle quando vi que aquele corpo estava com as mesmas roupas da minha mãe, aquele maldito estava devorando a minha mãe.
Segurei a arma que os guarda me deram e atirei sem pensar duas vezes, eu e os policiais descarregamos as balas enquanto o demônio corria para fora de nossa casa, eu corri atrás dele ouvindo meu pai gritar desesperado. Do lado de fora eu vi a criatura correr e fui atrás dela.
— Pra onde ele foi? — A voz da delegada veio de trás de mim.
— Foi em direção às casas. — Corri junto a Larissa. — Ele entrou nessa casa. — Sussurrei apontando uma direção específica.
— Aqui, pegue para se defender. — A delegada me entregou uma pistola e um cartucho cheio de balas.
Outros policiais vieram e rodeamos a casa prontos para matar o lobisomem, era isso, tudo iria acabar naquela noite. Estávamos prestes a entrar pela porta da frente, mas no momento em que eu e a delegada entramos ouvi o som de madeira quebrando e um rosnado gutural junto a um grito de dor.
Aquele demônio do inferno havia saído por uma das janelas e estava atacando os policiais, saímos correndo e vimos ele em cima de um policial. Começamos a atirar novamente e logo que nos viu ele correu em direção a mata, um policial tentou para-lo, mas o animal partiu em dois com um só golpe.
— Não! — A delegada gritou enquanto me impedia de perseguir a criatura.
— Ele tá fugindo. — Eu tentava me soltar de todas as formas possíveis.
— Na mata ele tem vantagem, eu já vi como ele é, não temos chance. — Ela me puxava de volta para a casa.
Os policiais que sobraram a ajudaram a me carregar de volta, dentro de casa eu fui forçada a ver o que restou de minha mãe, confrontar a dura realidade de tê-la perdido por um descuido. Os trabalhadores vieram até nós, eles havia se escondido no andar superior por ordens da mamãe.
A delegada chamou a ambulância enquanto eu e papai lamentávamos nossa perda junto as demais pessoas, todos nós chorávamos de tristeza e raiva, meu sangue quase fervia lembrando daquele maldito. A pericia veio e o corpo dos policiais e da minha mãe foram levados, a delegada ficou conosco até tudo se acalmar.
De manhã, por volta das seis da manhã, Bruno chegou e quando soube do ocorrido a primeira coisa que fez foi vir até mim e me abraçar. Eu sabia de suas mágoas, mas não consegui recusar seu abraço e desabei a chorar. Conforme o dia passou mais pessoas vierem até nós para nós confortar em nosso luto, Rafael veio logo que soube e assim como Bruno ele me abraçou de forma terna e reconfortante, o senhor Manoel e seus filhos também apareceram.
Foram momentos de muita dor e agonia, papai não conseguia parar de chorar e se culpar, apesar de sabermos que nada iria parar aquela coisa, ainda assim, o peso de não estar presente para protege-la caia sobre nós como um trem. Os empregados limparam toda a casa, nem parecia que tantas pessoas havia sido perdidas de forma tão cruel naquela casa. No final daquele dia meu pai estava dormindo e eu estava na varanda com Bruno, Rafael, Mariana e Pedro quando a delegada chegou a fazenda.
— Boa tarde. — A mulher falou ao subir a escadaria. — Eu vim ter uma conversa com a senhorita e seu pai.
— Pode falar aqui estamos entre amigos. — Respondi sem muita vontade de sair para qualquer outro lugar.
— Não. Essa conversa tem que ser apenas entre nós três. — A mulher afirmou com uma voz que sugeria que ela tinha algo importante a falar.
Pedi que os outros ficassem na varanda e entrei com Larissa indo direto até o quarto onde papai estava, nem precisei chamá-lo pois ele já estava acordado. Sentei junto a papai e pedi que ela explicasse o motivo de querer falar em particular com nós dois.
— Eu não vou fazer rodeio, essa manhã eu fui até a cidade vizinha e encomendei balas de prata para matar essa criatura. — A mulher mostrou duas caixas cheias de balas prateadas.
— Então a senhora acredita no que eu disse? — Levantei uma sobrancelha.
— Eu vi com meus próprios olhos, aquilo não é obra de Deus, aquela coisa matou meus homens. — Senti um amargor em sua fala. — Seja lá o que for, eu vou persegui-lo até os confins da terra. — Eu pude ver a chama da vingança nos olhos de Larissa, a mesma chama que crescia dentro de mim. — Se for como nas lendas, uma bala de prata poderá mata-lo. Já que a criatura tornou a fazenda e seus arredores em seu território de caça, nós vamos fazer uma armadilha e com uma dessas, um de nós poderá mata-lo. — Ela segurava uma bala entre os dedos.
— Por isso não quis falar na presença dos outros, esta desconfiada que um deles possa ser a criatura? — Perguntei sem rodeios.
— Um dos rapazes trabalha na fazenda, mas não estava presente, o outro é seu funcionário e amigo e ainda tem os dois irmãos de sítios vizinhos. — A delegada falou. — Ambos conhecem a fazenda e seus moradores, lamento ter que dizer, mas só podemos confiar em quem esteve conosco ontem a noite. —
— Bruno e seu pai são meus homens de confiança. — Papai falou irritado, ele já havia passado por muitas coisa e ouvir que seu protegido na fazenda era um suspeito era demais para ele, era compreensível sua recusa em aceitar as suspeitas.
— Como eu disse, eu lamento, mas precisamos ter cautela. Aqui, vou deixar metade das balas aqui, consigam um revolver e se poderem mandem fabricar mais. Não sabemos se teremos sucesso com essas. — A delegada falou colocando uma caixa sobre uma mesinha. — Assim que os policiais estiverem recuperados vamos por a armadilha em prática. — Ela levantou e eu a acompanhei.
A delegada foi embora deixando a mim e o restante do pessoal, mas logo Rafael teve de ir embora também e o acompanhei até a porteira.
— Eu sinto muito, por tudo isso. Eu nem posso imaginar como a senhorita está se sentindo. — Ele falava já perto de sua moto. — Se precisar de algo me ligue e eu virei o mais rápido possível. — Ele segurou minha mão. Agradeci sua gentileza e após um abraço ele partiu.
A suspeitas da delegada estavam sobre os quatro amigos que eu tinha, em especial Rafael e Bruno. Eu não conseguia ver nenhum dos dois como possíveis suspeito e eu não sabia o quanto da minha dúvida era fruto da minha proximidade com os dois. A única coisa que conseguia pensar na época era que se um deles fosse criatura que tirou minha mãe de mim eu não saberia como reagir ou que fazer.
— Nós também já estamos indo, papai está um pouco doente. — Mariana falou e me abraçou.
Pedro não desse nada, ele apenas ficou parado olhando para nos duas sem dizer uma palavra. Os irmãos foram embora deixando apenas eu e meu pai, Bruno já havia retornado a seus afazeres com seu pai e eu fiquei sozinha na varanda. São nesses momentos de solidão que a dor de perder alguém que amamos bate mais forte e ali sentada na cadeira que minha mãe sempre sentava eu deixei as lagrimas rolarem.
A noite veio e com ela a sensação de que algo me rodeava, a casa não parecia mais tão segura e a única coisa que tinha para me defender era uma pistola que não fazia efeito na criatura. Noite após noite ouvíamos gritos na mata, não eram os mesmos que ouvimos naquela terrível noite, os gritos que ouvíamos eram quase uma lamuria, uma espécie de pesar.
O enterro da mamãe foi triste, papai não conseguia falar uma palavra e no fim de uma tarde de sábado demos adeus a minha querida mãe. Os nossos amigos e vizinhos aos poucos se despediam e ficaram apenas eu, papai, Bruno, Rafael , o senhor Manoel e seus filhos e a delegada que desejava falar comigo.
— Conseguiu o resolver? — Ela perguntou após sairmos da presença dos demais.
— Sim. Ele está no meu quarto. — Eu falava baixinho para os outros não ouviram.
— Você tem treinado para ter certeza que consegue usar? — Afirmei que sim e ela continuou. — Ótimo, hoje eu ficarei aqui, mas amanhã meus homens começarão a caçar esse desgraçado. — A delegada tinha certeza de que estávamos sob o mesmo teto do assassino.
As horas se arrastavam lentamente, o silêncio era senhor absoluto na fazenda, até os animais pareciam estar lamentando e com o manto noite uma chuva forte caia sobre a fazenda. Sem alternativa nossos amigos tiveram que ficar na fazenda, a chuva era acompanhada por fortes relâmpagos que iluminavam todo o lugar. A delegada estava olhando tudo na casa e observava cada pessoa presente procurando alguma pista que entregasse qualquer um deles.
Aos poucos todos foram se retirando para os quartos ficando apenas eu, Pedro e a delegada. Era um trio que eu não esperava, eu não sabia o porquê de ainda estarmos acordados, mas tive a impressão de que estávamos esperando algo acontecer.
— Acham mesmo que foi um lobisomem? — Pedro olhava a chuva pela janela.
— Tenho certeza, eu vi com meus olhos ele matando meus soldados. — Larissa respondeu sentada em um canto perto de um abajur. — É um demônio, mas eu vou mata-lo. —
— Talvez não seja tão fácil. — Pedro olhou para a mulher.
— Fácil ou não ele vai pro inferno, nem que eu tenha que arrasta-lo pra lá com minhas próprias mãos! — Eles se encararam, havia uma faísca de ódio nos olhos dela que não apagaria tão cedo.
Um clarão iluminou o céu tornando ainda mais visível o ódio no rosto da mulher, após nossa pequena interação sai da sala e fui ate a cozinha fazer um café, eu não queria dormir com nossos suspeitos em casa. O Café estava quase pronto quando Larissa veio falar comigo.
— Onde está seu revolver? — A delegada perguntou quase me fazendo derramar o café com o susto. Respondi que estava em meu quarto e subimos para pega-lo. [Truncated]