Capitulo 1 Novos Dias · Capítulo 1 de 1
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Capitulo 1

Eu me peguei pensando sobre minha vida desde o dia em que as duas entraram na loja, os sorrisos de cumplicidade direcionados um para o outro, a pele dela ficando rubra quando a noiva a elogiava, as mãos entrelaçadas, os toques tão carinhoso e íntimos… aquilo se tornou meu martírio. Todos os dias eu me forçava a visitar essas memórias, eu acreditava que a dor diminuiria conforme eu fosse revendo e revendo, mas cá estou sentada em uma mesa de dois lugares enquanto o café esfria na xícara lindamente decorada com folhas verdes e amarelas, a dor ainda está aqui. A minha frente esta um homem que eu nem fiz questão de lembrar o nome, acho que se chama Marcos, ele me chamou pra sair após visitar a joalheria por alguns dias e como eu não tinha nada melhor pra fazer, e principalmente pela insistência de minhas colegas, resolvi aceitar.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Você tem um ótimo gosto para restaurantes. — A voz dele me tira me meus devaneios, eu o olho quando percebo que ele esta falando comigo, acho que ele percebeu que eu estava distraída. — A decoração é linda e os pratos são deliciosos. — Ele soou um pouco desconcertado, mas até que conduziu bem a conversa.

— Sim, eu vinha aqui há... dois anos. — Dois anos desde a ultima vez que eu tinha pisado nesse lugar, dois anos desde que ela me deixou naquela sorveteria sem sequer olhar para trás.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Tanto tempo? — Seus olhos arregalam um pouco, talvez estivesse fingindo surpresa para não deixar a conversa morrer. — Por que parou de vir? —

E agora? O que se responde nessas ocasiões? Porque foi minha ex quem me apresentou esse lugar e eu não queria lembrar dela?! Não, iria deixa-lo desconfortável. Eu não tenho que ti dizer nada?! Muito grosseira e ele não fez nada pra merecer isso. Eu não tinha motivos para voltar aqui?! Nada disso. Talvez ele se sinta mais especial do que realmente é. Que tal…​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Eu só não estava achando tempo para vir, o trabalho e os estudos roubam todo meu tempo. — Uma resposta satisfatório, em meus conceitos, claro. Espero que ele não tenha mais perguntas sobre isso.

— Bom, eu espero que agora você encontre mais tempo, porque eu irei te trazer aqui muitas vezes. — Eu conhecia bem aquele tom de voz. Ele está tentando parecer mais intimido, vejo sua mão estreitando a distância e sinto seu toque áspero sobre minha mão, meu corpo se arrepia, não por prazer e sim pelo desconforto que era ter outra pele tocando na minha, mas por mais eu queira tirar sua mão, algo dentro de mim apenas permite que ele continue.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— O tempo dirá. — Respondo sem muito animo. Minha mão se fecha sob a dele, o calor faz ela suar e nem assim eu a tiro.

— Ele dirá sim, assim como você. — Insiste ele. Seus dedos morenos se movem segurando a palma da minha mão para acaricia-la e só então eu a recolho.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Acho melhor aproveitar esse encontro, invés de pensar nos futuros que nem sabemos se irão acontecer. — Passo uma mão sobre a outra como se esse movimento pudesse retirar suas digitais da minha pele.

— Tem razão. — Ele dá um sorriso mostrando os dentes brancos e alinhados. — Temos que pensar no agora. — Ele pega a taça e antes de beber deu uma piscadela para mim. Eu forço um sorriso, sei que não estou sendo convincente, mas eu não quero engana-lo, só não quero deixa-lo desconfortável. — A quanto tempo você trabalha naquela joalheria? —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Ah… — Suas perguntas estão realmente me deixando desconfortável ou talvez seja apenas minha má vontade em responder, que estivesse me deixando daquele jeito. — Quase dez anos. — Respondo sem fazer os cálculos direito, mas eu sei que é perto disso, talvez sete anos.

— Tanto tempo? — Agora ele realmente parece surpreso. — Eu frequento a céu de março há cinco anos, como eu nunca vi um anjo como você naquele lugar? — Ele põe o cotovelo sobre a mesa, apoia a cabeça na dorso da mão e suspira olhando pra mim.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Provavelmente você aparecia em dias que eu não trabalhava. — Bebo um pouco do vinho para desviar de seu olhar.

— E quis o destino que nos encontrássemos agora. — Ele ajeita a cabeça. — Você não concorda? —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

Ele não é desinteressante, é bonito, conversa bem e é galanteador… não há nenhum defeito visível nele, pelo menos nenhum que eu aponte como grave, a única coisa que me faz ter certeza de que eu não poderia me envolver com ele é justamente ele parecer tão apaixonado. Veja bem, já faz bastante tempo que conversamos na loja, ele já me deu carona ate em casa, nunca foi invasivo e nem tentou nada além do que eu permitia, mas ele age como se tivesse certeza que sou o amor de sua vida. Eu já havia sentido aquilo antes, era a mesma coisa que acontecia com a… enfim, o fato é que eu já sei que qualquer coisa entre nós não pode durar muito.

— Foi só uma coincidência. — Eu não quero ser grossa, mas de forma alguma eu me deixarei iludir por isso. Espero que ele não responda que essa é a melhor coincidência da vida dele.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— A melhor coincidência da minha vida. —

A lufada de ar que sai de minhas narinas deve ser suficiente para ver meu desgosto. Ao longo desses dois anos eu já ouvi essas frases genéricas, já sei até o que ele dirá conforme eu vou refutando suas cantadas, já se tornaram previsíveis.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Acho melhor pedir a conta. — É a única coisa que consigo dizer para evitar mais falas genéricas.

— Eu pago. — Ele chama a garçonete e pega que carteira.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

Não pretendo fazer objeções quanto ao pagamento, pelo pouco que notei de sua personalidade, ele era um homem genuinamente cavalheiro. Pegamos nossas coisas e saímos do restaurante após a garçonete levar o pagamento, a gorjeta que ele deixou pra moça era muito boa, vi a surpresa nos olhos dela quando viu a quantidade. Preferimos voltar caminhando já que o restaurante fica duas ruas do meu apartamento.

A caminhada em si esta bem tranquila, a noite estava fresca finalmente, acho que fazem uns dois dias que as noites estão muito quentes e agora tínhamos um pouco de frio. Marcos está falando sobre o quão agradável foi a noite, sua voz é gentil enquanto fala como minha companhia é agradável. Eu sorriu baixo enquanto escuto isso, eu mal falei durante o jantar, mas segundo ele, eu tenho uma energia muito agradável e que gera confiança. Eu sei bem o porque de ele achar isso, mulheres que falam pouco costumam chamar atenção de certos grupos de pessoas, talvez ele goste muito da própria voz.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

Estamos nos aproximando do meu prédio, eu estou considerando convida-lo pra subir, mas sei bem que isso pode fazer ele acreditar que temos algo e a ultima coisa que eu quero é iludir alguém por estar carente. Quando paramos em frente ao prédio ele me olha serio, seus olhos escuros e seu sorriso largo são fofos, se fosse em outra situação eu o convidaria para subir.

— Boa noite, Marcos. — Eu o abraço. — Obrigada pela noite. —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Eu que agradeço, sua companhia é muito agradável. — Ele diz sorrindo lado. — Podíamos… repetir qualquer dia. —

Eu suspiro. Puxo o ar com força buscando coragem para responder, sei que vou machuca-lo e talvez ele até quisesse brigar, mas eu tenha que dizer.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Marcos… — Olhei em seus lindos olhos negros. — Você é um cara muito legal, gentil e lindo, mas eu não estou afim de continuar isso. — Olho diretamente em seus olhos e posso ver sua luz de apagando.

— Eu fiz algo errado? Falei demais? — Ele acha que o problema é ele. Talvez ache que pode me fazer mudar de ideia.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Não é isso. —

— Então o que é? — Ele segura minha mão. — Se eu poder mudar, eu faço. — Essas palavras devem doer mais em mim do que nele, talvez porque elas me fazem lembrar daquela quarta-feira em que minha dignidade foi arrastada na lama por mim mesma.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Não há nada que você possa ou deva mudar. — Respondo acariciando as costas de sua mão. — Só não estou pronta para entrar em uma relação que não vejo futuro, não é justo com você e nem comigo. Eu não quero te magoar, mas também não vou criar brechas para que você se iluda, o encontro foi muito bom, mas não vamos repetir. Eu espero que possa entender, não vou pedir para ser meu amigo, nem nada, seria muito cruel com você. —

— Realmente… não há nada que eu possa fazer? — Ele indaga com a voz baixa e eu respondo com um balançar de cabeça. — Nesse caso, eu acho que não posso fazer nada. — Ele enxuga uma lagrima. — A noite foi muito agradável, obrigada pela companhia maravilhosa e desejo felicidades a você. —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Igualmente. — É tudo que consigo dizer. — Boa noite. —

— Boa noite. — O tom de voz dele está baixo. Ele vira as costas e vai embora.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

Eu subo pro meu apartamento e tomo um banho longo para relaxar a mente. É difícil dormir depois do jantar, eu me sento mal por ter dispensado Marcos de forma tão fria, porem eu tenha noção que ser gentil não é uma opção nesses casos. Essa é uma questão para ser tratada em uma terapia e por sorte os dias passam rápida até a sessão chegar.

Eu desabafei tudo com ela, cada passo do encontro e até o tom de voz que usei ao dispensa-lo. Ela está me olhando em silencio com aqueles dedos em posição de noventa graus a maior parte do tempo, quando eu finalmente termino de relatar tudo, ela sai da posição e acho que me fará uma pergunta.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Você prestou atenção no que você disse? — Ela finalmente falou alguma coisa. Eu disse tantas coisas que não faço ideia do que ela quer que eu responda.

— O que? —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Você disse “eu não queria magoar ele, mas também não queria iludir nos dois”. Foi isso que você disse. — Ela fala com sua voz calma de sempre. Confesso que isso me irritar um pouco.

— O que tem isso? — Eu realmente estou com dificuldade de pensar direito.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Você me procurou porque queria superar a dor que o último termino te causou. — Ela pós as mãos sobre a mesa. — No último ano você tem me relatado suas experiências, suas dores, recaídas, crises de choro, dificuldades que o trauma te causou... mas em nenhum momento você me falou algo assim, você diz que não consegue se conectar com outras pessoas por causa da quebra de confiança que você passou; mas você acabou de me dizer que não conseguiu sair uma segunda vez com ele para não criar ilusões nele. Sarah, você não se define mais pela dor que te causaram, você olhou de frente a mesma situação pela qual passou e optou por não causar a mesma dor. —

Eu estou sem palavras, eu não parei para pensar naquilo porque não vejo da mesma maneira que ela.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Eu não sinto que superei. — As palavras saíram como uma confissão. Uma confissão dolorosa e cruel.

— Porque? —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Eu não sei, mas aquele dia ainda dói tanto. — Meus ombros relavam enquanto eu apoio os cotovelos sobre os joelhos.

— Talvez você ache que ainda não encerrou aquela conversa, talvez ainda tenha algo a dizer, algo que ainda te machuca e você não conseguiu dizer. —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— E como eu resolvo isso? Vou atrás dela pra dizer o quanto ela me machucou me largando e assumindo um namoro logo em seguida? Devo ir a casa dela e dizer pra esposa dela o quanto eu sinto raiva por ela ter conquistado o amor da única mulher que amei? — Talvez eu tenha falado essas palavras de um jeito mais agressivo do que sarcástico.

— Não. Minha sugestão é que você faça como já estamos fazendo, escreva seus sentimentos em um papel. Isso vai ajudar a aliviar o que está sentindo e a organizar seus sentimentos. —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

Encerramos a sessão e eu volto pra casa com o mesmo sentimento de antes, nada melhorou, não de primeira, mas ao longo dos dias eu espero que tudo se ajeito.

Agora é e quinta a noite mais uma noite e eu preciso escrever o que acabou de acontecer.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

Eu saí do trabalho e como estava cansada demais pra fazer comida eu passei no mercado pra comprar lasanha e vinho. Eu olhava a seção de vinhos procurando uma opção boa e em conta, mas tive que desembolsar uma boa grana por algo decente, mas isso não é a parte importante. Enquanto comprava eu nem notei, mas bem do meu lado estava Lília também procurando um bom vinho. Eu quase deixei a garrafa cair quando virei e a vi, pensei em passar sem falar nada, mas infelizmente ela também me viu e falou comigo.

— Sarah! — Ela parecia surpresa, não o tipo de surpresa ruim, o tipo que deixa falou mais tranquilo.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Oi Lília. — Respondi evitando seu olhar.

— Tudo… bem com você? — Eu estranhei aquela perguntou. Não esperava vê-la tão de perto novamente e menos ainda esperava que ela puxasse assunto comigo.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Eu estou bem. — Respondi forçando um sorriso. — E você? —

— Estou bem. — Ela não pareceu muito sincera. Poderia ser desconforto pelo encontro, mas eu não pretendia perguntar. — Você tá indo pra casa? —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— É. Passei aqui pra comprar uma lasanha e um vinho. —

— Quer uma carona? — Eu tive que ficar em silêncio alguns segundos para entender a pergunta corretamente. — Sua casa é aqui perto, e a minha fica no caminho. —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

Ponderei por alguns segundos a proposta. Eu sei o que qualquer pessoa sensata diria se estivesse passando pelo mesmo, mas eu precisava saber o que ela queria. A terapeuta disse que eu precisava encerrar esse ciclo, colocar pra fora o que sentia, talvez fosse minha chance. Pensando agora eu acho que a terapeuta vai puxar minha orelha me acusando de distorcer o conselho dela, mas aceitei a carona de Lília mais por curiosidade que por necessidade.

O carro da Lília era grande, confortável, prateado, o tipo de carro que se compra pra uma família grande. Me perguntei se elas adotaram filhos ou fizeram fertilização, pateticamente me peguei procurando algum brinquedo ou objeto que crianças costumavam usar pelo carro, não encontrei. Ela tinha razão, meu apartamento era bem perto do mercado, não demoramos a chegar. Eu podia ter descido assim que o carro parou, mas fiquei parada.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Então… acho que é boa noite. — Falei a contra gosto.

— Espera. — Falou antes de eu abrir a porta. — A gente pode se ver outra vez? Sair pra tomar um café, sei lá. —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Por que você quer me ver outra vez? — Parei para olha-la.

— É que faz muito tempo que não te vejo, parece que você está muito b… —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Tudo bem, eu vou refazer a pergunta de um jeito mais simples. — Falai a interrompendo. Parei um pouco para formular a frase. — Onde sua esposa entra nessa situação na qual você quer me encontrar? —

Lília ficou em silêncio e desviou os olhos para o painel do carro. Acho que o velocímetro era mais interessante que minha cara ou menos difícil de encarar.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Eu não sei. — Respondeu baixinho ainda sem me encarar.

— E o que quer comigo? —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— É que… —

— Aconteceu alguma coisa com ela? — Era a primeira vez desde o termino que eu me preocupada com ela. Que sensação estranha eu senti ao perceber isso.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Não… é que depois de tanto tempo juntas… bom, as coisas ficaram monótonas. — Então era isso. — Ela é ótima, é inteligente, linda, confiante… mas nos últimos tempos ela parece não se esforçar. Dai eu vi você, de começo você nem me viu, eu pensei em não falar, mas fiquei lembrando de como era divertido conversar com você. Sempre que conversávamos você trazia alguma novidade, e mesmo quando você contava a mesma coisa pela décima vez, ainda fazia parecer que era a primeira vez que contava porque você falava com tanta empolgação que era difícil não sentir a mesma emoção que você… — Ela soltou uma lufada de ar que parecia carregar uma tristeza profunda. — Eu pensei que podia conversar como antes. —

Então era só isso. Ela sentia falta de conversar, de ter alguém que a fizesse rir e se entreter.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Entendi, você tá entediada com o casamento. — Olhei a rua vazia a nossa frente.

— É. — Lília estava envergonhada, era perceptível pelo tom melancólico de sua voz.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— O tedio faz as pessoas fizerem coisas, coisas das quais podem se arrepender depois. — Falei sem encara-la.

— Acha que eu trairia ela? — Eu podia sentir seus olhos sobre mim.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Acho que não, você não é o tipo de mulher que trai, mas você devia resolver isso com ela, não é? — Olhei para a mulher a meu lado com frieza.

— Eu tento, mas é difícil. — Ela olhou a calçada a nossa frente, iluminada apenas pelas luzes dos postes​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Mesmo as coisas mais difíceis precisam ser feitas. — Passei a língua sobre meus lábios. — Eu não vou ser seu espete pra você se distrair, nem mesmo se for pra conversar. —

— Você tá certa… eu não… estava pensando direito. — Lília abaixou os olhos. — Eu só queria que fosse mais fácil conversar com ela… como era com você. — Me olhou de soslaio. — Eu te magoei muito, né? —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Eu planejei um futuro com você. Casar, viajar, ter filhos, envelhecer, estava planejando comprar uma casa pra gente morar sem precisar pagar aluguel... eu estava mudando toda minha vida pra termos uma convivência melhor juntas… e você ainda pergunta se me magoou? — Eu a olhei, pensei que iria chorar quando falasse dos meus planos pra nós, mas não chorei invés disso senti alívio. — Eu senti vontade de morrer quando você terminou comigo. Nada mais parecia fazer sentido. —

— Eu sinto muito. — Ela falou e eu notei que ela realmente estava arrependida.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Seu arrependimento não vai mudar nada… — Falei seca. Naquele momento eu quis parar, tinha medo de ser cruel demais, mas eu também tinha medo de carregar palavras e sentimentos nunca ditos pro resto da vida. — Você mentiu pra mim, você exigia que eu fosse como você queria e eu mudei pra ser exatamente quem você desejava e no fim você nem queria estar comigo. — Naquele momento eu mordi meu lábio ao perceber o que falei. — Eu nem sei quem me machucou mais. Mas eu sei que ninguém vai me machucar assim novamente. —

— Você sempre foi muito corajosa. — Lilia falou baixinho.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Não era, não. Eu só tinha muito medo de te perde, mas agora eu sou corajosa. — Relaxei novamente. — Eu não tenho mais medo de ficar sozinha. —

— Eu fico contente com isso, você merece ser feliz. — Essa sua versão é muito boa. — ​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

— Com certeza. — Nos encaramos por alguns segundos. — Espero que consiga se resolver com sua esposa. Boa noite, Lília. — Abri a porta do veiculo e antes de sair ouvi um tímido “boa noite” saindo de seus lábios.

Voltei pra casa com um certo alivio no peito, eu realmente precisava encerrar essa relação, mesmo que fosse algo unilateral, ainda haviam coisas a serem ditas. Agora vou fazer uma massa para jantar, uma mascara fácil para relaxar e sentar pra ver filmes até tarde, uma noite silenciosa e sem estresse, apenas eu e minha casa na calmaria da noite. Espero não pensar mais sobre Lilia, não quero mais me martirizar com isso, só espero aproveitar minha companhia com meu vinho.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

Fim.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌​‍​​‌‌​‌​‌‍​​‌‌‌​​​‍

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