Capitulo 1 Cabriola · Capítulo 1 de 1
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Capitulo 1

Você já viveu uma experiência que modificou totalmente a sua vida? Algo que redefiniu a forma como você via o mundo? Creio que todos nós vivemos algo que nos modifico de alguma forma; hoje eu quero contar a minha a você.

Meu nome é Isabel; atualmente eu trabalho no IBAMA, mais especificamente eu sou responsável por investigar trafico, mas o que estou prestes a contar aconteceu na minha infância e pouco tempo a ver com o meu trabalho.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Eu morava com meus avós em um sítio no interior do Piauí, minha mãe faleceu no meu nascimento e meu pai morava em outro estado. Apesar disso, eu gostava muito de viver com meus avós, cresci cuidando de plantas e animais, era uma criança forte para uma menina e até comparada a alguns garotos eu era bem mais forte. Eu tinha dois tios que moravam na cidade, o tio Henrique e a tia Lúcia, eles sempre nos visitavam nas férias de julho trazendo meus primos com eles.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Sempre que chegava julho, o sítio se tornava mais alegre e divertido. Meus primos eram cinco ao todo, Pedro, Letícia e Ana era filhos do tio Henrique. Já os filhos da minha tia Lúcia se chamavam Cristina e Carlos, eles eram gêmeos e eu sempre achei eles fofos. Nós vivíamos brincando quando estávamos juntos, meus avós faziam questão de me liberar das tarefas no sítio para poder brincar e mostrar tudo que havia de novo no sítio a eles.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Algo que era bem típico das nossas férias eram as tardes e noites em que assávamos milho e contávamos histórias de terror. Era uma época muito feliz, brincávamos no riacho que tinha próximo ao sítio e corríamos por todo lugar, mas em uma quarta-feira tudo mudou. Era um dia como qualquer outro, não havia nenhuma coisa extraordinária naquele dia; nada além do fato de Carlos ter levantado antes de todos e passado a manhã fora.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Aquele dia foi diferente de todos, estava fria demais para o mês de julho e havia uma preocupação constante com Carlos. Naquele dia não saímos para brincar, apenas procuramos por Carlos com nossos tios e avós, mas ele não apareceu. Quando a noite chegou, minha tia estava desesperada procurando pelo filho, estava claro que algo havia acontecido com ele, porém, não havia nenhum sinal de anormalidade.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Eu lembro que os dias seguintes foram desesperadores, todos os adultos procuravam por Carlos e tanto eu quanto meus primos tentávamos ajudar procurando nos lugares onde sempre brincávamos. Nada, nenhuma pista e nem nossos vizinhos tinham visto ele.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Em uma tarde de sábado, os adultos saíram para falar com a polícia. Eles deixaram eu e Henrique sendo responsáveis, pois éramos os mais velhos dos primos. Eu lembro daquela tarde como se tivesse sido ontem, às quatro e meia começou uma chuva leve e nós pegamos algumas espigas para assar. Enquanto o milho estava no fogo, nós conversamos sobre os lugares onde Carlos poderia ter estar se escondendo ou até mesmo preso.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— E se ele não fugiu? — Ana perguntou, sentada comigo em uma rede.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Eu e Henrique trocamos olhares naquele momento, parece que ainda estou vendo o olhar dele, era o olhar que transmitia uma mensagem clara “essa pergunta é estranha”.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Se ele não fugiu, então o que poderia ter acontecido pra ele ter sumido? — Eu questionei, olhando para Ana.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Ana era a mais nova entre todos ali, ela estava prestes a completar onze anos, e sua expressão era de alguém muito assustado. Eu queria continuar insistindo, mas isso só iria assustá-la ainda mais, precisava ter paciência se quisesse saber o que ela sabia.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Pode dizer, Ana. — Coloquei a mão sobre ela para que se sentisse segura. Aprendi com minha avó que a melhor maneira de fazer uma pessoa contar um segredo é fazendo a pessoa se sentir segura.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Vocês lembram quando estávamos nadando na riacho? — Ela finalmente decidiu falar.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Sim, vocês ficaram de fora enquanto nadávamos. — Eu abracei Ana​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Ele tava me falando que não estava conseguindo dormir, disse que estava ouvindo vozes chamando ele do lado de fora. — Ela respondeu, estava encolhida. Eu já estava confusa com o fato de Carlos estar desaparecido, mas imaginar que alguém poderia ter sequestrado ele só deixava tudo mais sinistro.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Ele disse quem está chamando ele ou o que essa pessoa dizia? — Cristina perguntou ansiosa, eu podia ver a esperança em seus olhos, ainda lembro de como ela parecia esperançosa naquele momento.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Ele não sabia, mas... ele disse que a voz parecia com... — Ana levantou o olhar para Cristina e abaixou novamente.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Pode contar, a gente não vai brigar. — Henrique se ajoelhou em frente à irmã.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Ele disse que a voz era igual à da tia Lúcia. — Lembro até hoje de Ana recolhendo as mãos com medo.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Tá dizendo que a mãe sumiu com meu irmão? — Cristina se exaltou, tivemos que segurá-la pois estava realmente irritada. — Nunca mais repete isso, entendeu? A mãe nunca faria isso! — Afirmou avançando na menina.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Foi o que ele disse, que era a voz da tia chamando ele pra fora. — Ana falou mais alto.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Calma. — Eu pedi para Cristina se acalmar, mas como você deve imaginar, não deu certo.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Ela tá mentindo, minha mãe nunca faria algo contra meu irmão! —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Talvez o Carlos que tenha se confundido. — Henrique falou, acredito que ele só estava tentando proteger a irmã.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— É possível, mas não temos como afirmar, então vamos deixar isso pra depois. — Eu e Letícia soldados Cristina.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Vocês vão falar pra tia? — Ana estava agarrada ao irmão.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Tanto eu quanto os demais nos entreolhamos como se estivéssemos tentando discutir telepaticamente. Pelo olhar, eu pude perceber a que conclusão eles chegaram.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Não, vamos esperar até saber mais. — Henrique afirmou.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Ficamos lá fora até os pais deles e nossos avós chegarem, nós não contamos a eles o que Ana nos contou, queríamos evitar mais estresse para todos. Cristina estava nervosa, notei que durante todo o restante da noite ela olhava a mãe intensamente, uma consequência desagradável da conversa que tivemos.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Aquela noite foi difícil de dormir, além do desaparecimento de Carlos, ainda tive que lidar com as informações que Ana nos deu. Passaram-se horas sem que eu conseguisse dormir, eu estava cansada e, por volta das duas da manhã, quando eu finalmente estava conseguindo cair no sono, ouvi passos do lado de fora. Eram quase como batidas no piso, meus pensamentos, como os de qualquer criança naquela situação, voltaram-se para a história de Ana. O medo de que ali estivesse alguém disposto a fazer a mim o mesmo mal que fez a meu primo fez gelar a minha espinha. Com o corpo trêmulo, eu levantei lentamente e fui até a janela. Vale lembrar que as janelas do sítio eram todas de vidro e que as luzes de fora sempre ficavam acesas para o caso de Carlos achar o caminho até o sítio. Quando olhei para fora, esperava ver alguém mal-intencionado e, no entanto, me surpreendi ao perceber que era apenas um dos bodes que tínhamos no sítio. Devia ter se soltado e vindo até a varanda.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Abri a janela e balancei as mãos para assustar o animal que, por sorte, saiu de volta para o curral. Aliviada por todo o medo que senti ser apenas fruto da imagem, eu relaxei e consegui adormecer. Parecia que o alívio de confirmar que nada de ruim aconteceria retirou um peso de mim e eu dormi como uma pedra.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

O restante da noite foi tranquilo, acordei um pouco mais tarde do que o habitual para mim, mas devido ao nervosismo de todos, minha ausência não foi notada. O dia ocorria com a mesma correria com a qual aos poucos estávamos nos acostumando. Eu e os outros ajudamos nos afazeres do sítio e logo em seguida tratamos de sair à procura de nosso primo.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Acham que ele vai voltar? — Ana perguntou enquanto caminhávamos perto de uma cachoeira bem mais longe do sítio.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Claro que vai, ele pode ter se perdido por aí e uma hora ele vai achar o caminho ou nós o achamos. — Letícia respondeu segurando a mão da irmã.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Caminhamos por mais tempo que nos dias anteriores, cada dia entrávamos mais na mata esperando encontrar Carlos, mas não íamos muito longe pois poderíamos nos perder também. Naquele dia em especial, nós fomos um pouco mais longe do que havíamos planejado inicialmente e, em nossa caminhada, acabamos por encontrar uma espécie de caverna ao pé de um morro.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Isa, você sabia dessa caverna? — Henrique perguntou, olhando para dentro.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Nunca vi ou ouvi falar. — Respondi, entrando um pouco mais.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Talvez o Carlos tenha entrado aí e se perdido. — Ana foi quem nos fez cogitar a ideia.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Vamos entrar. — Cristina avançou sem pensar.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Espera, é perigoso. — Eu a segurei, impedindo que avançasse dentro da caverna.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— E o que fazemos? Ficamos aqui esperando? — Minha prima tentava se soltar.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Vamos voltar e contar aos nossos pais, eles vão saber o que fazer. — Letícia falou atrás de nós.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Ficou acordado entre nós quatro que um ficaria para o caso de Carlos aparecer, nós tínhamos certeza de que ele estava lá dentro, e enquanto isso, os outros voltavam para avisar os adultos sobre nossa descoberta. Discutimos um pouco e concordamos que eu ficaria, pois eu conhecia melhor a área, as meninas ficariam mais seguras com Henrique, e eu acredito que ele próprio tinha medo de ficar sozinho na mata, mas para mim isso não era problema.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Meus primos saíram correndo de volta ao sítio, meus tios haviam saído para procurar Carlos, mas meus avós estavam em casa, então não deveriam demorar.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Enquanto estava à sombra de uma árvore, ouvi uma movimentação dentro da caverna e, após apurar bem os ouvidos, eu pude distinguir o que me pareceu passos. Hoje eu penso que talvez fosse o cansaço que tenha feito eu achar ter ouvido, mas depois do que vivenciei no sítio, eu não duvido que havia alguém naquele lugar.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Carlos! — Chamei, me aproximando da entrada, lá dentro tudo estava escuro. — Carlos, segue a minha voz. — Eu pedi, falando mais alto, naquele momento eu estava bem perto da caverna, tão perto que eu tive medo de algo vir correndo de lá e me tragar para a escuridão.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Não havia resposta, os sons que eu pensei ter ouvido não estavam mais presentes e, em um ato de imprudência e ingenuidade, eu dei alguns passos para frente. Eu queria entrar, pois, se meu primo estava lá, eu queria encontrá-lo.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Isabel! — Ouvi o grito de minha avó, meus primos já haviam retornado. — Venha pra cá. —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Obedeci e expliquei o que havia acontecido, meu avô, que era um homem idoso, mas muito corajoso, se adiantou e entrou na caverna junto à minha avó. Ficamos eu e os outros três esperando e não demorou muito tempo até eles voltarem, seus rostos assustados nos encheram de medo, mas eles apenas disseram para voltarmos para casa.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Aquele dia levamos uma bronca e teríamos apanhado se a situação com meu primo não fosse mais urgente, eu ainda lembro da voz ríspida de minha avó nos proibindo de ir tão longe. Quando os pais dos meus primos voltaram, eles ficaram a sós na cozinha com nossos avós e, quando saíram, foram direto abraçar os filhos e a mim, porém eles nada disseram sobre o motivo do alarde.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Anos mais tarde eu descobri o perigo ao qual nós, em especial eu, havíamos nos submetido sem saber. Acontece que, quando meus avós entraram na caverna, eles encontraram ossadas de vários animais. A caverna era um local onde alguma onça devia se alimentar e, pelos deuses, ela não estava por perto durante o tempo que estive ali.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Bom, passado esse acontecimento, nenhum de nós retornou àquela área da mata. Mais uma vez, o restante do dia passou rápido. Era como se o tempo lutasse para extinguir nossas esperanças. Naquela noite, eu fui para o meu quarto mais cedo do que o normal, toda a agitação do dia e a noite mal dormida me deixaram muito cansada ou, como dissemos aqui, “amuada”.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Cai em um sono pesado antes das oito da noite, eu não fazia ideia de que horas eram quando acordei com leves batidas no vidro da janela. A princípio, achei ser apenas o vento, mas o som persistia e, em meio ao sono, eu ouvi, ouvi baixinho uma voz vinda do lado de fora da minha janela.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Prima! — Eu conhecia bem aquela voz, era de Carlos.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Carlos? — Chamei, sentando rapidamente no colchão.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Prima, eu estou aqui fora. — Ele sussurrou tão baixo que eu quase não o ouvi.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Cadê você? Seus pais estão te procurando. — Eu levantei procurando ele na janela, mas não havia nada ali, então me aproximei da janela e de longe vi uma silhueta que nunca vou esquecer.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Ali, do lado de fora da minha janela, eu vi a sombra de alguém... não, de algo que se escondia em um ponto cego da janela. Pela silhueta, eu notei que o que estava ali tinha algo na cabeça que se assemelhava a chifres.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Não sei quanto tempo fiquei ali, mas de repente a sombra se mexeu e a criatura ficou de frente pra mim e então eu pude ver seu rosto nojento que possuía marcas rudes e profundas ao redor da boca e dos olhos, o queixo tinha uma barbicha longa como um bode bastante velho, o peito estava coberto de pelos grossos como o das caras, sua cabeça... aquela cabeça realmente tinha dois longos e afiados chifres, seus olhos estavam fixados em mim, eram de um amarelo intenso. Eu estava em estado de paralisia; só conseguia imaginar aquilo me olhando pela janela a noite toda. A criatura pareceu notar meu choque e abriu um sorriso sem mover o restante do rosto, um sorriso que hoje eu posso definir como sádico e zombeteiro. A boca da criatura se mexeu e ouvi sua voz exatamente igual a de Carlos.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Eu estou aqui, prima. — Ouvi novamente. — Vem aqui fora, vem me encontrar. — No momento em que falou, eu vi sua barriga se contorcer.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Meu corpo inteiro tremia e eu não conseguia sair do lugar, minha garganta estava se fechando a fim de prender um grito que agitaria a criatura. Em meio ao medo, eu vi aquilo levantar sua mão peluda e bater no vidro com sua unha, ela continuava a falar imitando a voz de Carlos.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— Abre a janela, Isa, deixa eu entrar. — A criatura batia com mais força no vidro.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Em um momento de puro desespero, minha garganta se abriu e eu gritei tão alto que até nossos vizinhos devem ter ouvido. De repente, a criatura saiu correndo e logo em seguida meus tios e avós entraram no quarto. Enquanto chorava, eu disse a eles o que tinha visto e ouvido. Meus tios olharam pela janela e viram uma silhueta correndo em direção à mata. Meu avô e meu tio saíram à procura de quem quer que estivesse ali, mas mesmo passando a noite na mata, eles não acharam nada.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Eu estava em choque e repetia tudo o que havia acontecido. Minha tia me abraçou tentando me acalmar e a vovó tentava acalmar os outros. Só depois de muitas horas eu me tranquilizei.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Depois de ter visto aquela coisa, eu caí doente, tive febre alta a ponto de delirar, me levaram aos médicos, mas eles apenas passavam remédios que não surtiam efeito algum.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Certo dia, minha avó, que já estava desesperada com medo de perder outra neta, chamou uma senhora que era rezadeira, ela contou o que havia me acontecido e a mulher disse que eu havia escapado de uma criatura muito perigosa e ardilosa. A senhora fez algumas rezas e me fez vários banhos com ervas até que eu melhorasse. Quando já estava quase recuperada, ela me contou sobre a criatura. Nós estávamos trancadas no meu quarto, eu estava deitada na cama e ela sentada em uma cadeira perto de mim.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— A coisa que tu viu, fia... — Ela dizia enquanto pegava alguns ramos, passava em uma bacia com água e ervas para em seguida passar em meu corpo. — É a traiçoeira Cabra Cabriola. O povo antigo contava que ela se escondia nas mata vigiano as famia e quando os pai saia de noite ela vinha na porta, batia e imitava igualzin a voz da mãe pra atrai os minino. — Nós estávamos sozinhas em meu quarto e ela não parava de molhar os ramos e passar pelo meu corpo. — Depois que abriam a porta ela pegava os minino, jogava dentro de um saco e levava pro mato. —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— O que ela fazia com eles? —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

— O qui ela ainda faz, fia. Ela come eles. — Ela olhou fundo nos meus olhos. — Tem gente qui não acredita, qui diz qui é tudo lenda, essas pessoas tem estudo mas num sabe metade das coisas que nós sábi. — Sua fala parecia se dirigir a nós duas e não aos idosos da região, grupo ao qual ela também pertencia. — Eles nunca vão ver o qui nois vê. — Sorriu. — Se eles ve, eles fico fica tudo doido, fia. —​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Após os banhos de ervas, eu ficava bem e mais ou menos uma semana eu estava curada do que quer que fosse aquilo. A rezadeira, cujo nome era Joana, conversou com meus avós e disse que eu tinha uma espiritualidade muito grande, o que mais tarde eu vim a comprovar como um fato, e que o encontro com a poderia ter sido fatal em alguém tão jovem. Cabriola não foi a única criatura sobrenatural que vi e, antes de morrer, acredito que verei muitas ainda.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

A idosa disse que eu poderia ver outras coisas assustadoras e que precisaria aprender a me proteger tanto física quanto espiritualmente. Ela se ofereceu para me ensinar como afastar os maus espíritos e até identificar criaturas das matas. Meu avô e meus tios achavam tudo uma grande bobagem e, mesmo vendo que as rezas estavam funcionando, eles se recusavam a acreditar no que aconteceu, mas minha avó concordou e deixou que Joana me ensinasse sobre as criaturas.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Eu não sei o quanto aquele acontecimento e o que aconteceu depois me influenciaram, mas eu me tornei uma apaixonada por nossas criaturas sobrenaturais. Mas creio que meus queridos leitores tenham curiosidade em saber o desfecho a respeito de meu querido primo, mas é com muita tristeza que informo que meu primo nunca foi encontrado. Em conversa com a rezadeira que salvou minha vida na ocasião, ela me confessou acreditar que Carlos foi mais uma vítima da tal cabriola. Ela me aconselhou a não falar sobre isso com meus tios, pois eles poderiam não conseguir lidar com a verdade e também porque eles não acreditariam em nada.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

Bom, aqui finalizo minha história mais marcante, eu aprendi tudo que pude com aquela idosa e, com o passar dos anos, aquele conhecimento se mostrou mais útil do que eu poderia pensar, mas isso é outra história. Até a próxima e se você ouvir passos fora da sua janela, melhor não levantar.​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​‌​‍​​‌‌‌​‌​‍​​‌‌​​​‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌‌​​‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌​‌‌‌‍​​‌‌​​‌‌‍​​‌‌‌​​​‍​​‌‌​‌​​‍​​‌‌​​​​‍

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