Capitulo 1 (Des)amor de família · Capítulo 1 de 1
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Capitulo 1

Carla estava em seu quarto ouvindo suas músicas enquanto pintava mais um de seus quadros. O quadro em questão era de um homem pedindo uma mulher em casamento na praia. Suas pinceladas eram graciosas como as notas musicais que ouvia. Na sala de sua casa, seu irmão Paulo ouvia notícias sobre a economia do país quando ouviu que haveria um aumento no preço da gasolina. A notícia deixou o homem irado, mas curiosamente Paulo tinha somente uma moto que a mãe às vezes ajudava com os custos.

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— Malditos corruptos! — Esbravejou alto o bastante para chamando a atenção dos vizinhos. — Esses desgraçados. — Gritou, desligando a televisão.

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— O que foi, meu filho? — Heleonor, a mãe de Paulo e Carla, entrou na sala enxugando as mãos em um pano.

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— A gasolina vai subir, tudo para esses malditos ganharem mais dinheiro. — Gritou com a mãe, apontando para a televisão.

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— E quanto é o aumento? — A voz de Carla chamou a atenção de todos. A jovem havia ouvido os gritos do irmão mesmo usando seus fones e decidiu sair para o caso de seu irmão ir contra sua mãe.

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— Vinte centavos. — Respondeu com a voz mais calma.

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— E o que exatamente o governo ganharia cobrando vinte centavos a mais? Isso não é imposto estatal? — Questionou a morena, pensando nas possibilidades. Era comum seu irmão se revoltar contra decisões políticas mesmo sem entender do assunto.

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— E tu acha que dariam um aumento se não fossem ganhar algo? — Alterou um pouco a voz.

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— Não me parece muito, além disso, esse imposto já estava previsto desde o governo passado, é até menor do que haviam falado. — A mulher encostou o ombro na parede branca.

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— Tu não sabe de porra nenhuma, esses arrombados estão roubando a gente. — Alterou mais um pouco a voz. — Fica calada antes que eu dê um murro nessa tua boca. — Paulo não entendia coisa alguma de política, mesmo assim ele gostava de fingir saber o que falava, o fato de ele estar sempre rodeado de pessoas que não se interessavam por política só fazia sua falsa sensação de ser politizado aumentar e quando sua irmã o contestava era como atacá-lo em seu ponto mais sensível.

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— E tu sabe de alguma coisa? Fez faculdade de economia sem que soubéssemos? — Perguntou na intenção de fazê-lo refletir os limites de seu raciocínio; era uma esperança tola da parte da moça.

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— Já disse pra calar tua boca, fala isso porque vivi ganhando dinheiro do governo. — Apontou o dedo para a irmã.

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— Eu não tenho auxílio do governo e até onde eu sei você que foi colocado para dar aulas no fundamental sem ter faculdade nenhuma. — Rebateu, olhando o irmão de forma apática.

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— Imoral! — Paulo deu uma bofetada na irmã que a fez cair no chão. — Pelo menos eu trabalho, não fico o dia todo pintando escondido no quarto. — Gritou novamente enquanto Heleonor se colocava entre os irmãos.

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— Pelo amor de Deus, já chega, vocês dois! — Pediu, segurando o homem.

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— Eu vendo minhas pinturas e ajudo a pagar as contas em casa. E tu, faz o que? — Perguntou, limpando o sangue que escorria, pois o tapa havia cortado o canto da boca.

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— Carla, fica quieta e não piora as coisas! — Ordenou Heleonor, irritada com a filha.

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— Tu deixa tua casa e vem aqui esperando ser servido como um lorde, sempre que vou na tua casa te vejo deitado na merda daquele sofá enquanto a mãe faz as coisas pra tu. — Continuou a falar mesmo sob os protestos de sua mãe. — Só porque tu tem esse emprego dado pelo vereador acha que pode vir aqui me humilhar? — Perguntou levantando.

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— Carla, eu já te mandei ficar quieta. — A mãe voltou a ordenar.

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— Espera que ela fica, a senhora nunca deu limite nela e agora espera algum respeito? — Paulo continuou tentando avançar. — Ela precisa é de uma surra para aprender a ficar de boca fechada e obedecer. —

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— Mais do que tu já me bate? — Perguntou, segurando o choro e apertando as mãos que tremiam de pura raiva.

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— Tu acha que eu te bato? No dia que tu achar alguém que te dê uma surra de verdade tu aprende a respeitar as pessoas! — Se afastou, deixando a mãe mais calma.

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— Carla, volta pro teu quarto. — Ordenou Heleonor, sem olhar a filha.

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— A senhora realmente não vai fazer nada? — Perguntou, olhando a mãe.

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— Mais do que eu já faço? Eu dou o sangue por vocês dois. — A mais velha passou as mãos no rosto.

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— A senhora nunca deu limites a ela, por isso ela é desse jeito! — O homem voltou a falar. — Nunca se cala, nunca obedece, vive de cabeça erguida e não se cala quando eu falo. — Os gritos de Paulo eram ouvidos pelos poucos vizinhos.

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— Falando assim, fico até orgulhosa de mim. — Debochou.

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Aquilo foi a gota d’água para o homem que empurrou a mãe e tirou seu cinto. Ele bateu na irmã por uns cinco minutos, durante esse tempo Carla não esboçou qualquer reação ou tentou fugir, ela apenas o olhava com raiva e suportava tudo.

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— Era isso que tu queria? — Gritou ele, se afastando.

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— Eu disse pra ficar calada. — Heleonor falou, ajudando a filha a levantar.

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— Se sente melhor assim? Conseguiu aliviar a raiva da surra que tu levou do Samuel no jogo da semana passada? — Carla conseguiu forças para falar. — É o único jeito de se sentir homem, não é? — Foi a última coisa que falou antes de ser empurrada para seu quarto por sua mãe.

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Carla ficou deitada, sentindo o corpo todo doer pelos golpes que recebeu. O lado do rosto que recebeu o tapa ainda sangrava, então ela foi ao banheiro para cuidar de seu ferimento.

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— Merda, não para de sangrar! — Falou preocupada, passando álcool e tentando parar o sangramento com algodão. — Mais uma cicatriz para o rosto. — Sussurrou para si mesma, olhando a outra cicatriz que cortava seu rosto. — Inferno! — Continuou a cuidar do corte que aos poucos diminuía o sangue.

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Enquanto cuidava do ferimento, sua mãe servia um café para seu irmão. Ela colocou duas colheres de açúcar e o levou para o homem que voltou a acompanhar o noticiário.

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— Isso aqui tá doce demais, mãe, não sabe nem fazer um café. — Esbravejou, derramando o café no meio da casa. — Se não consegue fazer um café, então não faz! Pelo amor de Deus. Eu devia ter ficado em casa mesmo. —

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— Eu vou passar de novo. — A mulher pegou a xícara.

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— Não precisa, eu já vou embora. — Levantou, saindo pela porta.

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Após alguns minutos, Carla saiu de seu quarto com um curativo no rosto, ela estava com um quadro embalado, pronto para ser entregue.

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— Aonde pensa que vai? — Perguntou Heleonor, aparecendo atrás da filha.

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— Vou entregar o quadro do senhor Jeremias. — Respondeu, virando para a mãe.

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— Pelo menos tira esse negócio da cara. — Pediu, chegando mais perto e quase tirando o curativo.

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— Tá com medo que vejam o que seu filhinho fez? — Perguntou com sarcasmo. — Não há um puto nessa maldita cidade que não saiba disso, mas eu não vou denunciar ele, não. Fique tranquila que seu filho de ouro não vai pra cadeia. —

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— Pelo amor de Deus! — Bradou aos céus a senhora de cabelos grisalhos. — Eu faço de tudo por essa família e ainda preciso ouvir isso. Eu nunca fui mais pelo seu irmão. — Tentou se defender.

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— Claro que não, você nunca defendeu ele quando eu tentava revidar quando ele me batia. — Falou, contendo uma lágrima. — Você nunca ignorou quando ele me dava tapas, você nunca me bateu quando eu enfrentava ele. — Os comentários eram puro sarcasmo. — Agora a vagabunda aqui precisa ir entregar o quadro. — Saiu em direção à cidade.

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Apesar de seu corpo estar machucado, Carla andava apressadamente para seu destino, seus passos estavam cada vez mais rápidos e ansiosos para entregar o trabalho. Mais ou menos uma hora depois, Carla chegou à casa do senhor Jeremias e foi recebida com olhares de preocupação pelo idoso e sua esposa.

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— O que houve, filha? — Perguntou o idoso, olhando o curativo em seu rosto e as marcas vermelhas em seus braços.

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— Não foi nada, seu Jeremias. — Carla sorriu para o homem. — Eu trouxe o quadro que o senhor encomendou. — Mostrou a peça.

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— Foi ele, não foi? — Dona Carmen se referia a Paulo. — Você não pode deixar ele fazer isso com você. — A senhora impôs sua voz.

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— Dona Carmen, não se preocupe, eu estou cuidando de tudo. — Entregou o que foi deixar. — Eu só preciso vender mais uns 5 quadros e vou poder me mudar para outra cidade. — Falou confiante de sua decisão.

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— Espero que consiga logo esse dinheiro, filha. — O senhor Jeremias falou esperançoso.

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— Entre, filha, você pode ficar aqui o quanto quiser. — Dona Carmen ofereceu sua casa para a jovem.

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— Obrigada, Dona Carmen, mas eu preciso comprar mais algumas tintas, pincéis novos e telas. — Carla negou educadamente. — Além do mais, preciso ver uma amiga antes de voltar para casa. — Informou, sorrindo e segurando as mãos da idosa.

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— Está bem, meu amor. — A mulher acariciou as mãos da mais nova. — Mas não esqueça de que sempre terá um lugar para você aqui. — Ressaltou.

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— Não vou esquecer. Agora eu preciso ir, até mais. — Carla abraçou os idosos e saiu em direção à loja onde comprava seus materiais de pintura.

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Após fazer suas compras sob os olhares curiosos dos cidadãos e vendedores, Carla rumou para a casa de Marcela, que era enfermeira e cuidaria de seu corte. Logo que chegou, a jovem foi abordada por inúmeras perguntas, as quais mal conseguia ouvir de tanto que a amiga falava.

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— Por que não denuncia ele? — Perguntou Marcela, saindo do banheiro.

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— Primeiro: lave as mãos. — Ordenou e Marcela voltou rapidamente ao banheiro. — Segundo: ele é amigo do vereador, se eu denunciar, ele sai no mesmo dia e só pioraria tudo. Por último: ele é o filho preferido da mãe. Ela não aguentaria ver ele sendo preso, mesmo que por apenas um dia. — Explicou, fazendo a mais nova bufar em frustração.

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— Não importa o que sua mãe vai dizer, ele não pode fazer isso e continuar impune. — Marcela saiu novamente do banheiro com as mãos molhadas. — Vamos cuidar desse machucado. — Falou, retirando o curativo.

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— Esse foi apenas um dos argumentos que eu dei. — Carla fez uma careta quando o algodão foi retirado. — Além disso, eu estou quase comprando uma casa no interior de outra cidade. — Lembrou orgulhosa de seu feito.

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— Que bom que eu sempre tenho materiais de enfermagem em casa. — Ela começou a limpar o corte que ainda sangrava um pouco. — Aliás, eu consegui mais um cliente. É uma mulher da capital que está visitando uns parentes e quer um quadro dela. — A mulher pegou um bilhete em uma mesinha e entregou para a amiga. — Aqui está uma foto para usar como referência. — Começou a dar os pontos.

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— Ela não disse mais nada? Nenhuma referência além disso? — perguntou, olhando a foto.

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— Não. Ela disse que seus quadros eram bonitos e confiava que faria um bom trabalho. — Informou enquanto Carla fazia caretas, mas depois de dois pontos já estava finalizado. — A mulher parece ter muito dinheiro e muitos contatos, se você fizer um bom trabalho, com certeza ela vai divulgar seu trabalho para os amigos ricos dela. — Incentivou a amiga.

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— E os preços, você informou tudo direitinho a ela? — Essa era a maior preocupação da jovem.

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— Sim, senhora, ela disse que paga o que quiser. — Respondeu Marcela, terminando o curativo. — Eu também fiquei surpresa. —

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— Gente rica. — Carla sorriu, revirando os olhos. Apesar de surpresa, ela estava feliz por ter uma cliente que não enrola para pagar.

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— Aqui, essa pomada vai ajudar com as marcas nos braços e resto do corpo. — Entregou um frasco à amiga.

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Marcela se preocupava bastante com Carla, mas, apesar disso, sabia que não podia agir sem que ela quisesse. Sua vontade era de denunciar aquele maldito, mas como a amiga já havia alertado: só pioraria a situação. As amigas conversaram mais um pouco e logo Carla precisou voltar. Ela se despediu, saindo da casa da amiga, pronta para começar sua caminhada.

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De volta em seu caminho, ela pensava em como faria o quadro da mulher, as ideias surgiam em sua mente, mas nenhuma parecia boa o bastante para ela. O tom de pele bronzeada, o cabelo, os olhos, as roupas, tudo na mulher era bem harmonioso e ela precisaria manter essa harmonia para sair perfeito.

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Enquanto caminhava em direção à casa de sua mãe, a mulher viu um objeto brilhante em meio à mata. Mesmo distante, era possível ver o brilho intenso do objeto. Carla se aproximou devagar, limpando o local e encontrando um pincel de madeira com detalhes em prata e cerdas delicadas. O objeto estava um pouco sujo, mas ainda era bonito.

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— Mais um para a coleção. — Falou, colocando o objeto em sua sacola de compras.

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Seguindo para casa, Carla chegou encontrando o irmão sentado vendo um filme. Ela passou direto por ele, indo para seu quarto fazer os esboços para o quadro. Todas as ideias que ela tinha não pareciam boas o bastante, até que ela notou um pequeno detalhe na foto que lhe deu uma luz. Olhando atentamente, a jovem notou um colar de borboletas e então ela teve uma ideia para o quadro.

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— Assim vai ficar bom. — Falou ao anotar a ideia em seu caderno. — É, isso vai ficar lindo. — Largou o lápis.

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Carla sentou em sua cama para passar a pomada em seus braços e suas costas, as marcas da surra que seu irmão lhe deu ainda estavam vermelhas e doendo. Agora que ela parou para pensar na situação, a raiva tomou conta de sua mente, tudo que ela queria era que seu irmão sofresse o mesmo que ela. Com esses pensamentos, a jovem adormeceu em sua cama, acordando apenas na madrugada por causa da fome.

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O relógio marcava três e quinze quando ela foi até a cozinha preparar um ovo frito com arroz e comeu em silêncio. A solidão da madrugada era reconfortante para a mulher que raramente tinha paz em sua própria casa. Ela finalizou a refeição e então lavou a louça, guardando tudo em seu lugar novamente.

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Sentada em sua cama, Carla trocava seu curativo em silêncio. Após cuidar de seus machucados, a mulher começou a desenhar em um pequeno caderno de folhas amareladas. O retrato que ela fazia era de si mesma, as linhas finas contornavam o formato do rosto o retratando com perfeição. A imagem da folha estava perfeita, seu rosto não possuía o corte deixado por seu irmão.

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— Vamos testar você, garoto. — Pegou o pincel que encontrou na estrada e, após levá-lo, começou a pintar.

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Ela misturou as tintas com cuidado para garantir maior semelhança, o pincel de cerdas finas e delicadas coloria a imagem com uma semelhança que Carla não achou possível. Ao finalizar a pintura, colocou na mesinha perto da janela para a tinta secar. Após tomar um banho, deitou-se para dormir o restante da noite. No dia seguinte, Carla entrou no banheiro para se limpar e, quando tirou o curativo de sua bochecha, viu em seu reflexo que não havia mais o corte do dia anterior.

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— Mas o quê? — Ela olhava o rosto de vários ângulos, procurando o machucado. — Como? —

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Voltando para seu quarto, ela procurou o espelho para se olhar novamente, a mulher estava descrente do que seus olhos viam em seu reflexo.

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— Como isso é possível? — Questionou-se, tentando encontrar uma explicação.

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Seus pensamentos retornaram ao dia anterior, revendo cada passo, tentando encontrar uma resposta, porém não havia sequer comprado uma pomada diferente, não havia como ter se curado tão rápido. Por alguns segundos, até cogitou a possibilidade de o ocorrido ter sido apenas uma ilusão, mas as marcas em seus braços não a deixaram acreditar por muito mais que dez segundos.

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— Carla vem tomar o café! — Chamou Heleonor.

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— Já estou indo. — Respondeu, ainda olhando seu reflexo.

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Com medo das perguntas de sua mãe, Carla colocou o curativo novamente e saiu para tomar seu café. Enquanto fazia seu desjejum Paulo entrou na cozinha se juntando à família, ele sentou de frente para ela.

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— Por que tá com isso no rosto? — Perguntou o homem, olhando o rosto da irmã mais nova.

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— É uma nova moda. — Respondeu com sarcasmo. — Vou voltar para os meus quadros. — Pegou o último pedaço de beiju e comeu com café.

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— Até parece que tem alguém querendo esses quadros de merda que tu faz. — Falou, o homem.

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Carla olhou para sua mãe com um fio de esperança de que ela a defenderia, mas a mulher permanecia calada, servindo seu filho mais velho. A mais nova suspirou alto decepcionada, mas não surpresa com a atitude de sua mãe. Ela volta seu olhar para o irmão e, com um sorriso de canto, responde.

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— Você realmente não tem nada melhor para fazer, não é? — Seu olhar era indiferente. — Nem sequer um café tu faz na tua casa? Ou só veio aqui pra importunar? —

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— Mas uma porra dessa acha que é o quê? — Paulo bateu forte com a mão sobre a mesa. — Uma merda dessa que não é nada na vida, que nunca fez porra nenhuma acha que pode falar assim comigo? — Tentou avançar em sua irmã.

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— Meu Deus! Fica calada, Carla. — Heleonor pediu segurando o filho.

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— Essa merda só fala essas coisas porque ainda não ganhou uma surra de verdade. — Cuspiu as palavras tentando machucar a irmã ao máximo. — Tu ainda vai ganhar a surra que merece quando casar. —

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— Vai fazer o quê? Dá um murro na minha cara? — Perguntou com sorriso de canto.

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— Tu não brinca não, porque eu dou um murro nessa tua cara mesmo. — Mostrou o punho fechado. — Assim tu vai aprender a abaixar a cabeça e não responder. —

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— Vai pro teu quarto, Carla. — Heleonor ordenou.

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— Vocês que se fodam. — Largou a xícara e voltou para seu quarto.

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— Tá vendo o que a senhora ganha protegendo ela assim? — Gritou, olhando a irmã de costas e sentindo sua raiva subir.

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— Já chega. Vocês dois não podem ficar no mesmo lugar, não? — Respondeu ao filho, recolhendo a louça. — São igual cachorro, vivem brigando. —

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Em seu quarto, Carla enxugava as lágrimas que insistiam em sair de seus olhos. Ela cerrava os dentes tentando conter as grossas lágrimas e, com muito esforço, conseguiu parar de chorar. Após se acalmar, voltou-se para seu quadro e começou o esboço para pintar. No segundo plano, ela fez o cenário que se resumia à sala de uma mansão com uma lareira. Já o primeiro plano tinha a mulher com várias borboletas à sua volta, mas ainda não estava bom, pois suas mãos tremiam de raiva e todo o esboço estava borrado. Enquanto desenhava, ouviu o som da moto de seu irmão e o viu saindo para a cidade.

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— Queria que você sumisse. — Apertou a mão com tanta força que acabou quebrando o pincel que segurava. — Desgraça! — Praguejou pelo pincel quebrado. — Que ódio! Como eu queria... — Não conseguiu finalizar a frase, pois sequer sabia o que desejava. Ela largou o pincel quebrado e pegou o prateado que estava sobre a mesa de cabeceira.

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A raiva que sentia era tamanha que seu coração chegava a doer, e ela mal percebia as imagens que surgiam na tela, tamanha era sua ira. Lembrou da surra que havia levado no dia anterior, e das outras que recebera antes disso. As palavras que ouvira mais cedo ressoavam em sua mente, juntando-se a outras que ouvira ao longo de sua vida. As horas passavam, e nem mesmo para comer ela saiu de seu quarto. Permanecia na mesma posição, pintando os detalhes de uma nova tela que representava toda a sua raiva e dor.

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— Droga! — Falou ao finalizar a tela.

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Já era quase noite quando finalizou o trabalho, sua respiração ofegante junto às mãos trêmulas deixavam claro a exaustão que sentia. Carla saiu de seu quarto e entrou correndo no banheiro para se limpar, deixando a tela no mesmo lugar. Enquanto lavava o pincel, ela admirava a tinta vermelha que, mesmo diluída na água, era tão forte que se assemelhava a sangue.

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Após o banho, a jovem voltou para seu quarto contemplando seu trabalho. Agora mais calma, ela finalmente pôde perceber o que havia criado e a imagem lhe causou um certo horror. Aquilo pintado era um sentimento tão sombrio que a fez paralisar, mas no fundo a sensação de alívio era tão extasiante que a fez sentir que a realidade estava diluindo tal como a tinta na água. Carla caiu em sua cama tão cansada que logo dormiu, seu sono foi tão pesado que não ouviu quando um carro parou em frente à sua casa.

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Na manhã seguinte, ela levantou sentindo-se melhor não apenas do corpo, mas também da alma. Na mesa, ela comia ovos com cuscuz e café. Passar o dia anterior sem comer lhe deixou com tanta fome que ela sentia que podia comer tudo que havia na casa. Após finalizar a refeição, ela finalmente sentiu falta de sua mãe, procurou por todo lugar e nada de encontrar a mulher.

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— Já que estou sozinha, acho que vou pintar aqui fora. — Falou, após lavar a louça do café.

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A jovem mulher pegou a pintura que fez na noite passada e escondeu em seu guarda-roupas. Depois, ela pegou o esboço que começou e o levou para fora, onde finalizou com mais calma. Próximo à hora do almoço, ela voltou para a casa esperando encontrar a mãe, mas ela ainda não havia voltado.

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Preocupada com a mulher, Carla saiu procurando pela mãe na esperança de encontrá-la na casa dos vizinhos. Foi na casa de um deles que ouviu a trágica notícia de que Paulo havia sofrido um acidente de moto na noite anterior e estava no hospital da cidade. Preocupada, ela pediu uma carona até o hospital, onde encontrou a mãe sozinha na sala de espera. Seu irmão estava em coma e seria levado para a capital para uma cirurgia.

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— Vai até em casa e pega umas roupas pra mim que eu vou com ele. — Heleonor falou, abraçando a filha enquanto chorava.

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— Eu vou lá e volto logo. — Respondeu no automático. — Vamos, Daniel. — Chamou seu vizinho que a levou até a mãe.

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Em sua casa, Carla arrumava as coisas de sua mãe enquanto tentava organizar seus pensamentos. Daniel permanecia na sala, balançando a chave de sua moto enquanto esperava sua vizinha voltar. Após guardar tudo que sua mãe precisaria a mulher foi até seu quarto, trancando a porta. Ela revirou suas coisas até encontrar a pintura que fez no dia anterior. Ela sentou na cama com lágrimas nos olhos enquanto olhava a imagem de seu irmão caído no chão com a moto a seu lado, pintada na tela.

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— Já arrumou tudo? — Daniel perguntou, batendo na porta.

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— Já. Eu já estou saindo. — Escondeu a tela no fundo de seu guarda-roupas e saiu.

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No hospital, ela entregou a mochila com roupas e tudo mais que precisaria, além do dinheiro. Após uma hora de espera, Paulo e Heleonor saíram do hospital da cidade em uma ambulância que os levaria até a capital, onde o homem seria tratado. Carla, voltou para casa ainda abalada pelo que aconteceu com seu irmão. Em seu quarto, a mulher olhava a tela de seu irmão, tentando entender o que aconteceu, quando um estalo veio em sua mente.

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— Cadê?! Cadê?! — Ela revirava suas coisas à procura de algo. — Aqui! — Falou ao encontrar o autorretrato que fez.

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Ela colocou as pinturas uma ao lado da outra e as observou com cuidado, elas eram diferentes uma da outra, mas ambas causaram mudanças no mundo real. O autorretrato que fez não tinha o corte do tapa que seu irmão lhe deu e, no dia seguinte, seu rosto não estava mais marcado. A tela que fez de seu irmão caído e sangrando havia se tornado real também.

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— Como isso pode ser real? — Se perguntou, continuando a olhar as telas. — Eu fiz aquilo com meu irmão? — Colocou as mãos na cabeça, ainda sem acreditar. — Mas como? O que eu usei pra fazer isso? Foi a tinta? — Olhou os potes guardados na mesinha. — Não, são as mesmas de sempre. Então, o que? — Bateu as mãos na mesa, derrubando tintas, pincéis e lápis no chão.

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Ajoelhou-se para pegar os objetos caídos no chão os recolhendo devagar, então pegou o pincel prateado que encontrou jogado no chão. Ao tocar o objeto brilhante, uma ideia surgiu em sua mente. Lembrou-se que aquele foi o mesmo que usou para pintar tanto o autorretrato como a tela com seu irmão. Ela largou os demais materiais e sentou na cama, segurando o objeto com força. Era difícil acreditar em algo como o que estava acontecendo diante de seus olhos, por isso ela decidiu testar mais uma vez.

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— Se não foi a tinta nem a tela, só pode ter sido você. — Falou para o pincel. — Ou talvez eu esteja louca. — Falou olhando o céu. — Vamos descobrir. —

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Carla começou a traçar linhas novamente, desta vez mais rápido, e logo começou a pintar com a mesma tinta de sempre, mudando apenas o pincel pelo prateado. A imagem retratada era sua novamente e, desta vez, ela se retratou sem uma marca em sua bochecha. A cicatriz em questão era resultado de uma briga ocorrida entre ela e sua mãe quando Carla tinha apenas nove anos de idade. Até onde se lembra, em um surto de raiva causado por uma resposta desaforada da filha, Heleonor deu um tapa tão forte que sua unha acabou cortando o rosto da filha. Desde aquele dia, seu rosto ficou marcado com uma cicatriz que ia de seu nariz até perto da orelha, aquilo sempre foi motivo de vergonha para ela e agora queria apagá-lo de seu rosto.

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— Pronto, agora é só esperar. — Falou ao terminar de pintar.

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Ela largou o desenho na cama e saiu para fazer sua janta, pois o dia passou rápido. Enquanto fazia a comida, ligou para sua mãe para ter alguma notícia. De acordo com Heleonor, Paulo ainda estava em coma, mas logo seria operado. Essas foram as únicas palavras trocadas entre mãe e filha naquela noite.

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Após seu jantar, Carla voltou a pintar o quadro da mulher. Ela terminou o esboço por volta das vinte e duas horas e deitou-se para descansar. Quando acordou na manhã seguinte, estava com o pincel em sua mão e logo lembrou-se do que havia acontecido. Com os pensamentos afoitos, ela correu para o banheiro e lá admirava seu reflexo e, para sua surpresa e horror, a cicatriz que sua mãe fez havia sumido.

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— Meu Deus, é verdade! — Falou, tocando o local da cicatriz. — Essa coisa torna tudo que pinto real! — Respondeu, olhando o objeto em suas mãos.

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Os pensamentos surgiam em sua mente, a euforia da descoberta deu lugar à culpa e ao medo pelo que fez. Ela ficou quase uma hora com a peça em mãos, apenas a olhando. Os pensamentos vinham e iam como vento, sem se fixar em nada.

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— Droga! Meu irmão tá no hospital e a culpa é minha! — Colocou as mãos na cabeça. — Mas ele mereceu, ele me fez muito mal desde sempre. — Ponderou, ficando de pé. — Mas eu fiz algo muito ruim também. — Cerrou os dentes. — Mas ele continuaria fazendo aquelas coisas... eu sei que faria. E, se ele ficar bem de novo, ele vai voltar a fazer. — Sentou, na cama novamente.

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Durante todo o tempo, ela continuou com o pincel nas mãos, o apertando com força até ficar com os dedos vermelhos. O “debate” consigo mesma levou algum tempo até chegar à conclusão de que o que fez foi para se preservar.

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— Se ele voltar, ele vai fazer igual. — Segurou o objeto com força. — Se nunca pensaram em mim, por que eu deveria pensar neles? — Ela olhava intensamente para a tela em branco. — É só dessa vez, não é pra matar. É só dessa vez. — Falava para si repetidamente, tentando se convencer a prosseguir.

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Carla respirou fundo, procurando a coragem e, então, começou seu trabalho, pulando direto para a parte da pintura. Com a mente completamente caótica e assustada, ela usava as cores azul, ciano, branco, cinza, vermelho, entre alguns outros tons. A imagem tomava forma e, a cada pincelada, sua mão vacilava em prosseguir, mas ela nunca parou.

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— Não é pra matar, mas você nunca mais vai tocar em mim. — falou, admirando sua nova tela.

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Os dias passaram rápido, dia após dia ela trabalhava na encomenda que recebeu enquanto esperava a chegada da mãe e do irmão. Duas semanas se passaram até que recebeu a notícia de que seu irmão havia sido liberado e estaria em casa em onze horas. Ela correu para arrumar a casa e um quarto para o homem. Aquele dia foi corrido e, quando seu irmão chegou, foi colocado em um quarto próximo ao dela. Carla serviu uma refeição à mãe e às pessoas que vieram com ela enquanto recebia as instruções de como cuidar de seu irmão de agora em diante.

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— Agora, eu preciso arrumar umas coisas no meu quatro. — Falou para a mãe.

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Carla passou pelo quarto de seu irmão, o olhando imóvel na cama. Ele não se moveu quando a viu, nem sequer mexeu um músculo, apenas moveu levemente os olhos a acompanhando. Em seu quarto, ela olhava para a tela que tinha a imagem pouco trabalhada de seu irmão deitado imóvel no quarto pelo qual acabara de passar. O lençol azul ciano cobrindo seu corpo, a expressão um pouco borrada de alguém paralisado, os aparelhos ao lado de seu corpo estavam tudo exatamente como acabara de ver no quarto onde seu irmão repousava imóvel.

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— Agora, tudo ficará bem. — Falava para si mesma, enquanto admirava a tela. — Assim é melhor. —

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— Carla, leva uma água para seu irmão! — Heleonor falou, batendo na porta.

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— Já vou. — Respondeu, escondendo o retrato com uma tela em branco.

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Carla levou a água para seu irmão, ela molhou seus lábios e pouco a pouco colocou a água em sua boca, tomando cuidado para ele não engasgar. Enquanto fazia isso, o olhar de Paulo, direcionado para a irmã, transbordava fúria. Seu ódio pela situação em que se encontrava só era superado pelo ódio de saber que dependeria daquela que sempre desprezou e diminuiu. Os olhares dos irmãos se encontraram em um confronto silencioso, a mais nova notou a ira do mais velho, porém, Carla não disse uma palavra ou demonstrou qualquer emoção.

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Dias se passaram com Paulo, imóvel na cama, os olhares de fúria persistiam e a cada dia Carla sentia mais desconforto com tudo aquilo. As imagens do que ele fazia, das palavras que proferiu ao longo de tantos anos, não cessavam nem mesmo com ele naquele estado. Tendo em mente a raiva que seu irmão sentia por ela, Carla fez uma última tela para ele e levou até seu quarto.

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— Trouxe isso aqui pra você, irmãozinho. — Colocou o cavalete em frente à cama com as telas cobertas por um pano branco. — Sabe o que gosto na arte? — Ela olhou o irmão. — É que com a arte a realidade é o que eu desejar que ela seja. — Ela descobriu a tela mostrando o que havia feito.

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Os olhos do homem, outrora furiosos, agora estavam arregalados com a imagem que via. A imagem de um homem caído e sangrando no chão era semelhante à posição em que ele mesmo havia sido encontrado, seu olhar voltou-se para a irmã com horror e surpresa. Carla levantou a tela, mostrando uma segunda imagem de seu irmão deitado na cama, exatamente com os mesmos traços. A semelhança entre o que via pintado na tela e o que realmente aconteceu era tão grande que o assustava.

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— Se você gostou desses, vai adorar o próximo. — Sorriu para o irmão mostrando uma terceira imagem.

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Agora os olhos de Paulo estavam quase saltando para fora com a imagem que via, a tela agora retratava ele mesmo deitado em sua cama no meio da noite e a seu lado havia quatro figuras escuras o olhando. As figuras não faziam nada, apenas o olhavam enquanto ele estava indefeso.

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— Ele ainda não está finalizado, faltam algumas coisas, mas eu garanto que terminarei em breve. — Sorriu para o irmão.

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— Carla? — A voz de Heleonor fez Carla cobrir as telas rapidamente. — O que está fazendo? — Perguntou, entrando no quarto do filho.

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— Só estou mostrando alguns quadros que fiz enquanto estavam fora. — Respondeu à mãe, pegando o cavalete.

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— Não faça mais isso, sabe que ele não gosta disso. — Falou a mulher, sentando ao lado do filho com uma sopa nas mãos.

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— Não se preocupe, mãe, não vou incomodá-lo mais. — Saiu do quarto.

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Carla voltou para seu quarto, partindo para finalizar o quadro. As últimas pinceladas foram dadas nas criaturas e finalmente ele estava pronto. Quando a noite chegou, Carla deitou-se em sua cama, esperando pacientemente as horas passarem. Pouco a pouco, a lua subia no céu. Às duas da noite, ela levantou-se para beber água e, quando voltou, passou devagar pelo quarto onde Paulo estava. Ela voltou seus olhos para ele e viu sua expressão de horror e medo, era como se ele estivesse vendo algo que não se revelava para ela, mas ela sabia bem o que ele via.

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Agora, deitada em seu quarto, a jovem não conteve mais o sorriso nos lábios. Imaginar que o homem, que tanto lhe machucou, estava ao lado quase chorando de medo, lhe dava um alívio imenso.

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Na manhã seguinte, Carla pegou o quadro da mulher e partiu para o local onde a encontraria, era uma casa do outro lado da cidade. Ao chegar, viu uma linda mulher de 1,67 de altura, cabelos cacheados, lábios carnudos e um pouco gordinha.

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— Olá, eu vim entregar... o... quadro... — Falou, admirando a linda mulher.

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— Então é você a famosa Carla, de quem todos falam? — A mulher colocou os óculos nos cabelos.

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— Sim, aqui está. — Entregou a peça. Carla, tremia um pouco de nervoso, mas conseguiu esconder.

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— Espero que faça jus à sua fama. — Sorriu com o canto dos lábios.

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A mulher tirou o papel que cobria a imagem, abriu a boca ao ver a linda imagem, na tela as borboletas azuis a sua volta e a luz que elas emanavam junto a luz da lareira deixavam a pintura linda.

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— É, parece que você é realmente tudo que dizem mesmo. — Sorriu completamente satisfeita. — Espere aqui, vou pegar seu dinheiro. —

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A mulher saiu e, alguns minutos depois, voltou entregando o dinheiro para Carla, que sorriu.

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— Tem algumas notas a mais. — Alertou Carla, retirando as notas e devolvendo.

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— Pode ficar. Considere um extra pela qualidade. — Falou, ainda admirando o quadro. — Conheço algumas pessoas que adorariam conhecer seu trabalho. — Falou, concretizando as falas de Marcela.

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— A senhora apresentaria meu trabalho a eles? — perguntou, cheia de esperança.

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— Se você aceitar jantar comigo. — Deu sua condição.

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— Eu adoraria. — Concordou, agradecendo aos céus pelo talento que tem.

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FIM

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