Capitulo 1
Era mais uma tarde de quarta-feira quando cheguei em casa e me deparei com uma mensagem de Lília, ela queria me encontrar em uma sorveteria em algumas horas. Eu lembro o que respondi na época: “Foi nessa sorveteira que te pedi em namoro, vai noivar comigo aí?” Eu lembro que terminei com um “rs” ao final, também não saiu da minha cabeça a ausência de resposta dela. Eu apenas ignorei sua falta de resposta, pois era algo comum, e me arrumei para encontrá-la. Eu tinha duas horas, então pude fazer alguma comida e me vestir adequadamente. Eu sabia que ela não me pediria em casamento, mas havia algo sussurrando na minha mente que aquilo seria importante.
Seis da tarde eu saí de casa, estava em cima da hora, mas eu sabia que ela sempre se atrasava de quinze a quarenta minutos, então não havia pressa. Passei por um belo jardim de flores, ela gostava de flores silvestres, então peguei uma flor amarela para ela. Eu cheirei e voltei a caminhar, estava uma bela tarde do mês de dezembro, havia grandes nuvens no céu que indicavam chuva mais à noite. Mesmo assim, o pôr do sol deixava o céu com um tom romântico que fazia meu estômago vibrar de alegria.
Cheguei em frente à sorveteria e a vi lá dentro, não se atrasou tanto dessa vez. De longe, eu admirava seus lindos cabelos ondulados que, na ocasião, estavam pintados de vermelho, seu vestido azul claro e a pele clara; era linda. Entrei e fui direto até onde ela estava, entreguei a flor e ela abriu um sorriso que parecia ser tímido, mas agora pensando com mais clareza, acho que havia um pouco de desconforto. Eu sentei à sua frente, sorrindo como uma boba, era algo comum quando eu estava com ela; sua presença sempre me fazia sorrir.
— Sabe que mesa é essa? — Falei enquanto olhava o cardápio.
— Hm? — Ela pareceu não ter assimilado a pergunta de primeira. — Não, não sei. — Ela olhou para mim por um instante e então retornou seu olhar para o cardápio.
— Foi aqui que te pedi em namoro, a Selena ainda trabalhava aqui. Era uma quarta-feira, como hoje. — Olhei o balcão lembrando da moça que me ajudou a elaborar o pedido e agora esse lugar era ocupado por sua mãe, a dona da sorveteria.
— Eu não lembrava disso, talvez devêssemos trocar de mesa. — Ela fez menção de levantar.
Segurei seu braço e respondi o mais rápido possível. — Nem pensar, eu gosto daqui. Tenho ótimas lembranças dessa mesa. — Meus olhos encontraram os de Lília e eu pude notar que sua feição se enrijeceu, definitivamente era uma expressão de aflição. — Aconteceu alguma coisa? — Coloquei minha mão sobre a dela, mas ela recuou rapidamente. Eu não protestei, Lília não era a pessoa mais adepta a toques físicos, ainda mais se estivesse estressada. Isso às vezes era um ponto de discussões, pois apesar de eu também detestar toques físicos de qualquer natureza, com ela era diferente, na época meu corpo parecia ter uma necessidade de tocá-la, de sentir sua pele.
— Eu não sei como dizer isso. — Ela baixou os olhos.
— Se for com jeitinho, pode dizer qualquer coisa. — Meu tom era açucarado, fazer alguma bobice era meu jeito de aliviar o estresse, às vezes funcionava e às vezes piorava a situação.
— Para com isso. — Sua voz agora era mais agressiva. — Eu preciso falar uma coisa com você. —
— Tudo bem, pode dizer. — Ajeitei a postura e voltei ao meu tom sério. Do lado de fora, uma ventania começava, era o primeiro sinal de chuva.
— Eu... eu estava pensando sobre nós... sobre como você... nós duas estamos agindo ultimamente. — Ela não me olhava, seus punhos estavam fechados. Aquela conversa estava me deixando nervosa. — Eu n- —
— Aqui está o sorvete preferido do casal. — A dona da sorveteria colocou uma única taça de sorvete, nós dividíamos quando íamos à sorveteria. Era nosso pedido quando comemorávamos os aniversários de namoro, até ali foram três anos de namoro.
— Obrigada, Margarida. — Agradeci, pegando a colher. Algumas gotas de chuva atingiram a vidraça. — Eu amo o sorvete de chocolate daqui. — Levei uma colher cheia de sorvete à boca. — Senti falta disso, devíamos vir aqui m- —
— Eu quero terminar. —
A voz de Lília cortou todos os sons à minha volta como uma faca quente corta uma manteiga que estava fora da geladeira, eu levei alguns segundos para processar o que foi dito. Eu ouvi o que ela disse, mas não conseguia interpretar o que era. Eu fiquei olhando pra ela enquanto seus olhos verdes me encaravam com uma frieza digna de um personagem emo de anime. Quando finalmente consegui assimilar a informação, voltei a sentir meu coração bater, mas foi uma batida tão forte que pareceu quebrar minha caixa torácica.
— O que? — Minha voz, naquela altura, era apenas um fino fio que mal conseguia sair.
— Sarah, eu quero terminar com você. — Repetiu sem desviar o olhar, não havia expressões em seu rosto e muito menos na voz. Foi tão direta quanto um soco de boxeador. — Isso não está dando certo, você está sempr... —
Ela continuou falando, mas eu ainda estava presa na informação anterior. Não estava dando certo? Eu lembro de me perguntar o motivo, duas noites antes daquele fatídico encontro nós dormimos juntas e fizemos juras de amor. Estávamos felizes e passamos o dia juntas, como assim não estava dando certo? Na época, não era uma informação que batia com os dados, mas então balancei a cabeça e voltei à realidade.
— C-como assim não... está dando certo!? —
— Você não ouviu o que eu disse, não é? — Ela tinha um olhar de frustração. Eu conhecia aquele olhar, era o que ela fazia quando tinha que repetir algo ou quando as coisas não davam certo. — Esse é um dos motivos, você nunca me ouviu de verdade, está sempre fazendo suposições sem dar atenção ao que está sendo dito. Está sempre pensando... criando teorias sobre nós. —
Lá fora, a chuva caía mais forte, pelo olhar periférico pude ver o vento balançando os vestidos das mulheres e levando embora chapéus ou qualquer coisa que por ventura estivesse solta. Dentro da loja, eu olhava diretamente para Lília, aqueles olhos frios e a expressão zangada eram algo raro de se ver e por isso mesmo me causavam tensão quando apareciam. Eu havia jurado a mim mesma nunca me rebaixar a alguém novamente, eu prometi à minha criança que nunca a deixaria em segundo plano de novo e que não importava o que eu perderia, nossa dignidade sempre estaria em primeiro lugar, mas naquele momento minhas funções cerebrais não estavam funcionando devidamente, eu só conseguia ouvir os gritos de uma criança desesperada ao longe.
— O que eu preciso fazer? — Foi a primeira vez desde que chegamos que vi uma expressão de surpresa em seu rosto. — Diz: o que eu devo fazer pra você mudar de ideia? — Meus olhos estavam lacrimejando, mas eu não conseguia controlar. Todas as autopromessas de nunca mais me humilhar estavam escorrendo entre meus dedos como água, sem deixar qualquer resquício de que um dia estiveram em minhas mãos.
— Sarah. — Seus olhos agora eram gentis. — Não há o que você possa fazer. — Outra batida forte, como um soco no peito.
— Tem que ter. — Alterei a voz. — É porque eu sou muito carente? Eu paro. Só não termina. — Meu rosto estava molhado e eu já soluçava. Patética! Agora é a única coisa que posso pensar sobre isso. Eu estava sendo patética.
— Uma parte sim, mas não é isso, não necessariamente. —
— Então, o que é? — Enxuguei as lágrimas que caíam, mas novas logo surgiam, voltando a lavar meu rosto.
— Sarah, o problema não é você.—
— Então, o que é? Eu posso resolver seja lá o que for. — Dignidade, é uma coisa... não um sentimento muito importante, algo que nos lembra do nosso lugar, do que merecemos e naquele momento, ela evaporava de mim como fumaça.
— Eu não te amo. —
A minha garganta fechou, meu estômago revirava enquanto meu corpo parecia estar sendo alvejado por milhões de agulhas. Mesmo agora eu ainda consigo sentir essa sensação, todas as vezes que lembro de suas palavras eu ainda sinto aquela mesma sensação.
— Eu não consigo te amar! Mas você era tão apaixonada, tão intensa e amorosa. Eu achei que, se me esforçasse, conseguiria amar você da mesma forma que você me ama... então tentei te amar. Sua companhia sempre foi tão agradável que, por um tempo, eu consegui me enganar e... e te enganar.
Eu mentia pra nós duas, silenciava essa voz dentro de mim que dizia que não era amor, porque o seu amor era tão bonito que eu não podia recusar... mas não é assim que funciona, eu não sinto isso por você.
Não importa o que você faça, nem o quanto você mude, não vai mudar isso. Eu não amo você, eu não consigo e amar não é uma escolha, é algo além de nós. —
Eu coloquei a mão na testa e olhei para a mesa, eu não conseguia mais sentir meu corpo, aquilo parecia um pesadelo sem fim. Minhas lembranças iam e voltavam para nossas promessas para o futuro, tudo que planejamos para nós duas e tudo aquilo virando cinza.
— Fala alguma coisa! — Ela pediu.
— Você nunca me amou? Você mentiu todo esse tempo? —
— Não é tão simples. —
— Como não? — Bati na mesa, estava furiosa e já não media o peso de minhas ações.
— Escuta, eu poderia mentir pra você. Poderia inventar mil desculpas para terminar com você e até poderia continuar contigo e te trair, mas por consideração a você eu vim e te contei toda a verdade. —
— Isso não pode tá acontecendo. — Coloquei as mãos sobre a cabeça tentando acalmar meus pensamentos, naquela época eu tinha uma mania boba de sempre colocar as mãos na cabeça quando estava sob estresse ou triste. Era algo que me acalmava.
— Eu sei que vai doer, mas uma hora você vai perceber que a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa maravilhosa como você é ficar com alguém que não te ama de verdade. — Ela levantou, colocou algumas notas sobre a mesa e saiu andando.
A dona Margarida veio ao meu encontro, depois eu descobri que ela estava atenta a tudo que estava acontecendo e, quando percebeu o que aconteceu, veio ao meu encontro para me acalmar. Eu não lembro bem dos próximos acontecimentos, eu lembro de chorar muito e depois apagar.
Faz um ano desde aquela tarde melancólica, estou agora trabalhando em uma joalheria como vendedora na mesma cidade. Tenho um ótimo salário e um apartamento bem grande, um pouco grande demais pra alguém tão pequena. Na quarta-feira passada, eu tive a maior surpresa da minha vida quando vi Lília atravessando o salão. Ela segurava o braço de uma moça alta e de cabelos curtos. Naquele momento, eu revi toda a nossa história, foi como um flash, três anos passavam em instantes enquanto ela caminhava até onde eu estava.
Eu as atendi como se nunca tivesse visto antes, estavam ali encomendando alianças de casamento, pelas falas da mais alta seria uma cerimônia grande e ela falava com expectativa. Durante a compra, Lília parecia desconfortável, seus olhos evitavam os meus constantemente e eu agradeci aos céus por isso, não sei se conseguiria aguentar as emoções se nossos olhares se cruzassem. Se Lília estava em silêncio, por outro lado, sua futura esposa estava tagarelando sem parar, não parava de falar sobre os convidados e sobre o quanto estava feliz por ter sido pedida em casamento naquela semana. Isso mesmo, foi Lília quem fez o pedido. Para minha infelicidade, a noiva não parava de falar comigo sobre os detalhes.
— Você acha que essa combina com a gente? — Ela perguntava a cada aliança que colocavam em seus dedos. — Eu nem posso acreditar que fui pedida em casamento! —
Abraçou Lília e, como se a vida não tivesse esfregado minha cara na lama o suficiente, ela a beijou. Fiquei estática por alguns segundos enquanto meu coração travava as batidas. Quando me recuperei do choque, desviei o olhar, minha garganta secou e as lágrimas começaram a se formar.
Lília empurrou a noiva abruptamente, provavelmente havia se lembrado que eu estava ali. — Desculpe. — Ela pediu, mas eu mantinha meus olhos nas alianças em amostra.
Mantive minha postura madura e segura de mim enquanto terminava o atendimento, no final elas escolheram uma aliança de ouro branco com linhas douradas, eram as alianças mais caras da loja. “Felicidades às noivas” foi tudo que consegui dizer, minha voz estava embargada e tenho certeza de que Lília percebeu. No momento em que as duas sumiram do meu campo de visão, eu desabei em lágrimas.
Eu achei que estava bem, que tudo aquilo tinha ficado no passado e não poderia mais me abalar. Era o que eu pensava, mas durante todo o atendimento eu só conseguia pensar nas mesmas coisas: “por que não eu? O que eu tinha de tão errado para não ser sua escolhida?”. Eu não entendia por que não era eu ali, por que não fui a escolhida. Aquela avalanche de emoções e “porquês” voltaram a minha mente.
Eu não devia ter aceitado trocar os horários com minha colega, eu trabalhava nas segundas, quintas e sábados, mas naquela quarta-feira troquei com minha amiga que estava com visitas em casa. Aquele não era meu dia, eu não devia estar ali, mas eu estava e eu a vi. Definitivamente, eu odeio as quartas-feiras.
Fim.