Capitulo 1
Antes eu gostaria de avisar que este conto está disponível na antologia “o pacto” da medula editorial e aqui eu o apresento com algumas mudanças e obviamente a editora permitiu a publicação.
Uma segunda chance.
Sam Alves.
Eu estava enchendo a cara há poucos minutos em um bar e acabei sendo praticamente expulsa de lá por causar confusão, mas o que poderia fazer se aquela droga de lugar só tinha idiotas? O que deveria fazer? Abaixar a cabeça e deixar me ofenderem? Não! Essa vida já era uma merda grande o suficiente para eu aceitar ofensas de um bando de bunda mole e mela a cueca. Uma boa surra fez eles ficarem mansos como gatos bem adestrados.
A vida não era um mar de rosas, todos sabem disso; mas também não precisava ser um rio de bosta como é, todo mundo é um cretino louco pra ferrar a vida do outro e todo dia esses imundos se multiplicam. Eu estava xingando Deus e o mundo enquanto lembrava daqueles idiotas me xingando e pela maldita dor que estava sentindo em meu joelho.
— Boa noite. — Uma voz masculina muito calma veio de um beco escuro.
Ignorei quem quer que estivesse ali e continuei caminhando com dificuldade em direção a minha casa, minha raiva só aumentava conforme eu pensava naquela droga de lugar onde era obrigada a morar. Meu sangue já estava quase fervendo quando ouvi novamente uma voz chamando no escuro, bufei irritada e continuei caminhando pois dar atenção a qualquer imbecil só me irritaria mais. Já era meia noite quando avistei meu prédio, lá estava minha mãe me esperando e provavelmente estava pronta para mais uma briga.
— Boa noite, Carla Medeiros! — Aquela voz surgiu novamente.
Dessa vez eu parei de caminhar pois aquele era meu nome, eu não tinha muitos amigos e mesmo os que tinha não perderiam tempo fazendo uma pegadinha só para me irritar, então aquilo era no mínimo estranho. Olhei o beco completamente escuro e vi uma silhueta de um homem alto, ele acenou com a cabeça para que eu fosse até ele, não sabia quem era, mas eu iria descobrir como sabia meu nome. Fechei os punhos pronta para arrancar algumas informações e fui até o homem.
— Quem é você? — Questionei olhando o homem enquanto ele caminhava para mais longe, eu só conseguia ver suas costas e eram enormes. — Como sabe meu nome seu... —
— Não foram seus amigos que me falaram sobre você. — Ele falou parando a pouco menos de um metro de uma parede. — Eu sei quem você é desde o momento em que você nasceu. — Estávamos a dois metros de distância um do outro.
— Você conhece a minha mãe? — Tentei ver seu rosto, mas a escuridão não me permitia e nem era por estar noite, era como se houvesse uma escuridão ao redor dele que me impedia de ver qualquer coisa.
— Podemos dizer que sim. — Ele sorriu e eu pude ver seus dentes alvos como tinta branca em um pano negro. — Na verdade eu conheço todo mundo. —
— Tem muita gente no mundo pra você conhecer todos. — Eu o olhava com desconfiança.
— É mesmo. —
— E qual é o seu nome? O que quer comigo? —
— Me chamam de muitos nomes, mas a maioria de meus clientes me chama de negociador. — Ele andou em volta de mim.
— Clientes? Você é o que? Garoto de programa? — Enquanto ele me rodeava eu o olhava tentando identificar seu rosto, mas era uma tarefa impossível, eu não conseguia ver nada.
— Não, não é esse tipo de serviço que eu ofereço. — O homem sorriu protegido pelas trevas.
— E o que é? — Meu corpo estava frio, mas não era um frio normal, era como se eu tivesse caído em um rio congelado.
— Eu ofereço os seus sonhos. — Sorriu mostrando mais uma vez aqueles dentes alvos.
O sorriso por si só já era bastante estranho, mas o que realmente fez minhas pernas fraquejarem foi o que ele me mostrou. Do bolso o homem tirou uma luva sem dedos, eu conhecia bem aquilo, era a luva que eu usava quando lutava MMA. Eu as deixei em meu quarto, as guardava como meu tesouro e ali estavam elas, nas mãos naquele homem.
— Como conseguiu isso? — Peguei as luvas das mãos dele.
— Você era uma lutadora promissora. — Ele voltou a sua postura de indiferença. — Até aquela lesão. Um chute no joelho de uma lutadora desleal e o sonho de ser lutadora profissional desapareceu como fumaça. Foram meses de fisioterapia tentando recuperar os movimentos, tentando lutar como antes e a cada dia suas esperanças eram sugadas de você como a luz é sugada por um buraco negro. — Meus olhos estavam lacrimejando e minha respiração estava irregular devido a lembrança do acontecido e de tudo que aconteceu desde aquela fatídica noite. Aquele desgraçado sabia muito a meu respeito. — A depressão e a autopiedade fizeram a mulher, um dia tão forte e determinada, se tornar uma qualquer, agora leva a vida trabalhando em uma farmácia para se sustentar e a sua mãe. —
— Quem é você desgraçado? — Segurei pela gola da camisa e joguei contra a parede.
— Eu sou um amigo. — Foi ali que eu finalmente vi seus olhos, mas entrei em choque quando vi que eles eram amarelos. O homem pareceu se transformar em uma fumaça e reapareceu atrás de mim como um fantasma, ou coisa pior. — Eu quero oferecer a você a chance de viver a vida que sempre sonhou, uma segunda chance de lutar novamente, como antes. — Ele arrumou sua roupa. — Você sempre quis voltar ao ringue e mostrar que era a melhor, a mais habilidosa. Eu posso ajuda-la a conseguir isso. — Sua voz estava empolgada como a de um narrador e ele fazia movimentos como se estivesse lutando.
— E você vai fazer isso só porquê é um cara legal? — Não escondi meu deboche.
— Tudo tem um preço, a senhorita sabe bem que sempre precisamos fazer sacrifícios para conseguirmos algo. — Ele tinha o chapéu sempre cobrindo o rosto enquanto me rodeava como um cão. — O que eu peço em troca de meus serviços é... a sua alma. —
Eu não era burra, já havia visto filmes e ouvido histórias o suficiente para saber quem, ou melhor, o que era aquilo na minha frente. Ele puxou um documento amarelado mostrando para mim, eu nunca senti tanto medo em minha vida, minha cabeça girava considerando a ideia. “Não tenho nada a perder” era isso que minha mente gritava para mim, mas as lembranças das aulas de catequese açoitavam minha mente.
— O que tem a perder? — Ele perguntou sarcástico. — Mas se não quiser eu irei embora, existem muitos dispostos a aceitar. — Ele recolheu o papel.
— Espera! — Pedi e peguei o documento.
Mesmo com as mãos trêmulas assinei o documento. Estava diante da única chance que teria em toda vida de voltar a colocar os pés em um ringue novamente. O preço era alto, mas com a vida que eu estava levando não havia muitas chances de eu ir lá pra cima. Afinal as exigências para subir são bem altas, mas pra descer é quase zero requisitos.
— É um grande prazer negociar com a senhorita. — Ele estendeu a mão e pude ver que ela era grande e suas unhas eram pontiagudas. — Em dez anos voltaremos a nos encontrar, Carla Medeiros. —
No momento em que toquei sua mão senti um frio percorrer minha espinha, ele apertou com tanta força que senti minha mão queimar. Desmaiei ali mesmo e acordei em meu quarto no dia seguinte, levantei sem sentir dor no joelho, quando olhei minha mão vi uma marca que percorria toda a palma, costas e parte do braço. Era como uma tatuagem, imaginei que seria uma lembrança do acordo, bom eu tinha algumas tatuagens então não liguei muito. Levantei e não senti um único estalo ou dor. A dor havia sumido, eu chutava o ar e não senti nenhuma dor. Sai de casa sem nem ao menos escovar os dentes e corri pela rua, eu não sentia dor em nenhuma parte do meu corpo, eu realmente estava bem. Corri cada vez mais rápido, era uma sensação incomparável voltar correr sem medo de arrebentar meu joelho a qualquer momento. Pela primeira vez desde aquele golpe traiçoeiro eu estava sorrindo de forma genuína.
Quando voltei pra casa minha mãe estava a minha espera, ela, como sempre, estava disposta a brigar por eu ter saído cedo, mas eu não iria entrar em uma discussão; havia algo mais importante do que discutir com ela. Troquei minhas roupas e saí para falar com meu antigo treinador, conversamos por alguma horas sobre eu retornar aos ringues, obviamente ele não aprovava a ideia, mas eu pedi para lutar com uma das outras alunas para provar que estava pronta para voltar. Eu não lutei com a mulher, eu limpei o chão com ela, estava a cinco anos sem lutar e ainda assim meu corpo lembrava perfeitamente do que precisava ser feito. Todas as brigas em que me mete ao longe desses anos valeram a pena, mas óbvio que brigar com Zé ruela em bares não é o mesmo que lutar com outra lutadora, mesmo assim fez eu me manter em forma.
Convenci meu treinador a me colocar em uma luta, mas ele me fez prometer que se perdesse eu sairia do MMA para sempre, eu aceitei sem precisar pensar muito. No dia marcado eu lutei como se nunca tivesse parado, lutei como antes, era como se eu nunca tivesse saído dos ringues, como se tivesse sido feita para aquilo. Após a primeira vitória meu treinador voltou a me agenciar e mais lutas vieram, no início começamos com adversárias mais leves, mas aos poucos fui caindo com as peso pesado e mesmo assim eu vencia a imensa maioria, eu não lutava pelos mesmos motivos que elas, eu lutava porque aquilo era minha vida. Eu nunca estivesse tão feliz, aquele era meu maior prazer. Ano após ano eu permanecia no topo do MMA e nenhuma única dor me incomodou durante esses anos.
Nesses últimos anos minha vida mudou muito, como já era de se esperar. Eu comprei uma casa e um apartamento, viajei pelo mundo e conheci muitas mulheres lindas com quem namorei por alguns meses, mas eventualmente problemas surgiam, em especial, causados por minha mãe. Como sempre ela procurava uma razão para brigar comigo. Em uma dessas ocasiões eu estava na minha academia particular socando um saco de areia quando ela apareceu com seu celular e mostrou um site de fofoca. Era uma notícia sobre eu estar bêbada durante uma luta, o que era uma mentira, mas como ela não podia mais brigar por causa do aluguel essas fofocas se tornaram sua forma de causar brigas entre nós.
— Você sabe que eu não bebo antes das lutas, isso não faz parte da minha preparação e eu levo muito a sério o que faço. — Continuei a socar o saco de areia.
Ela disse algo sobre não acreditar no que eu dizia e sobre não poder confiar em mim por ser uma pessoa violenta, sua voz irritante percorria minha mente trazendo a tona toda a raiva que eu guardava para as lutas. Passei a socar o saco com mais força, mas ela não parava de falar, eu já nem conseguia mais ouvi-la de forma clara, apenas um som distante e eu acabei furando o saco com um soco mais forte. Saí o mais rápido que pude e fui tomar um banho, minha mãe tentou me seguir, mas tranquei a porta antes de ela passar. Ela gritava para eu abrir a porta, mas eu apenas a ignorei.
No banheiro eu parei para jogar água em meu rosto, minha respiração estava travando enquanto eu jogava água sem parar em meu rosto. Eu estava com tanta raiva que meu corpo tremia, olhei no espelho apenas para ver minha face distorcida completamente vermelha, havia uma lagrima se formando em meus olhos. Porque diabos eu estava chorando? Gritei naquele pequeno cômodo e conforme eu gritava a raiva se esvaia mais e mais, deitei no chão do banheiro e aos poucos minha respiração voltava ao normal, o alivio veio em seguida, foi uma catarse inconveniente, mas necessário pois, lutar com raiva não era o meu estilo.
Naquela noite eu teria uma luta contra uma nova lutadora, ou melhor, uma nova promessa do MMA. Até aquele momento ela havia perdido apenas duas lutas; com certeza seria uma luta difícil, mas é isso que realmente deixava as lutas divertidas, você nunca tem certeza que vai ganhar e precisa sempre ir ao limite.
A noite estava indo bem, tivemos uma coletiva onde eu a encontrei e ela era realmente muito bonita e parecia muito boa, após a coletiva fui me preparar em meu vestiário. No ringue tudo estava como eu esperava que fosse, ou seja, uma luta equilibrada e que venceria quem fosse mais habilidosa. Conforme a luta avançava eu conseguia me sair melhor, estava pronta para finalizar quando meu olhar periférico avistei na plateia o tal negociador que não via a exatos dez anos. Aquele pequeno momento fez meu coração acelerar e minhas pernas fraquejarem, minha adversária obviamente não perdeu a oportunidade e acabou me nocauteando. Foi uma derrota dura, mas não era o título que me preocupava naquele momento, após a luta eu parabenizei a moça, ela me chamou para sua casa, mas eu recusei por causa do negociador, voltei para meu apartamento; eu sabia que ele iria me procurar e não queria que fosse onde minha mãe estivesse.
Eu havia acabado de sair do banho e encontrei aquele homem sentado em uma poltrona, ele estava com aquele terno perfeitamente alinhado e o chapéu cobrindo seu rosto impedindo que eu visse seus olhos. Ele não esboçou qualquer emoção ao me ver, apenas seguia meus movimentos movendo levemente a cabeça enquanto eu me vestia. Eu sentia cada pelo do meu corpo ficando em pé, meus instintos estavam todos enviando sinais de perigos como jamais fizeram e eu sabia que o que seja lá o que negociador queria não seria bom para mim. Eu sentia minha cabeça girar de tanto que pensava em uma maneira de renegociar os termos do acordo, deveria haver alguma alternativa, não podia acabar assim tão de repente.
— Vejo que aproveitou bem os benefícios de nossa negociação. — Ele finalmente se levantou, foi até o mini bar e pegou uma taça a enchendo de champanhe. — Você realmente tem um bom gosto. — Falou após um gole da bebida. — Imagino que saiba o motivo de eu estar aqui. —
Eu estava congelada no lugar onde estava, completamente estática e assustada, me sentia uma criança que viu um filme de terror e a noite vê monstros em todo lugar. Meus pés travados no chão como se cada um estivesse pesando toneladas.
— Sente-se. — Apontou a outra poltrona. — Sinta-se em casa. — Seu deboche era irritante, mas não consegui rebater. Meu corpo parecia ter perdido as forças.
— O-o q-q-que veio fazer a-aqui? — Parecia que havia algo atravessado em minha garganta.
— Você não lembra? — Vi seu sorriso convencido. — Devia ter lido o contrato com mais atenção. Hoje faz exatamente dez anos desde a noite que assinou o contrato. — Senti meu corpo sendo tragado para o centro da terra. — Eu vim buscar a minha parte do acordo. —
— Eu ainda não tô pronta! — O homem riu, uma gargalhada que vinha do fundo de seu ser. Senti meu corpo tremer de medo. — Ainda tenho muitas lutas para vencer, eu faço o que quiser, mas me deixa lutar mais um pouco! — Corri e me ajoelhei diante dele. — Me dá mais uma chance! —
— Você já teve sua chance, é hora de pagar o que me deve. — Ele me olhava de cima, o chapéu fazia uma sombra que escondia metade de seu rosto. — Você já teve uma vida de luxo e glória, era tudo que queria. — Seus olhos brilharam em um tom amarelo.
— Eu não ligo pra luxo, eu só quero lutar! — Gritei completamente transtornada. — Tem que haver algo que eu possa fazer por mais tempo. —
O negociador levantou finalmente removendo o chapéu e revelando seu rosto, era um rosto andrógeno lindo, eu nunca havia visto uma pessoa tão bela em toda a minha vida, nem mesmo em pinturas ou descrições literárias havia algo semelhante. Era tão lindo que me dava calafrios, eu tinha medo do que aquilo faria, eu não entendia porque aquilo tinha um rosto tão belo e angelical. Ao redor dele todo o quarto começou a se modificar, uma fumaça vermelha surgiu do chão e com ela um cheiro de sangue invadia o ar me fazendo vomitar.
O negociador estava de frente para mim com a expressão mais calma que eu já havia visto. — Hora de ir. — Sua voz era tão suave e tranquila que quase me fez congelar de medo.
Outras criaturas surgiram em meio a fumaça, alguns eram pequenos como gatos e outros se rastejavam como cobras nojentas. Horrível era uma palavra muito pequena, até singela, para descrever o que eu estava vendo. Eu não podia, eu não podia ficar naquele lugar com aquelas coisas. Levantei com as pernas bombas e mesmo caindo devido a fraqueza que se abateu sobre mim eu consegui sair do apartamento e do prédio. Corri para meu carro, mas da mesma forma que meu apartamento foi completamente destruído e transformado em um inferno o carro também estava deformado como se fosse uma carona para o abismo eterno.
Eu não entrei no carro e saí do prédio correndo desesperadamente em direção a qualquer lugar onde pudesse conseguir mais tempo, atravessei a avenida e passei entre os carros enquanto olhava para trás com medo dele estar me seguinte. Avistei uma igreja católica a alguns metros de distância, meu coração se aliviou ao chegar no local. Não havia ninguém na igreja então pude entrar para me esconder, imaginei que ali seria o único lugar onde ele não poderia entrar para me atormentar.
Eu estava diante daquele ser vindo das profundezas do abismo eterno, ele estava em frente a escadaria que levava a igreja, me olhava da forma mais tranquila possível e aquilo me dava náusea. Eu estava próxima ao altar e subia cada vez mais para tentar me proteger de alguma forma. Acreditei que ele não podia entrar lá, que aquele era um lugar onde ele não possuía poder, acreditei, ingenuamente, que estava segura
— Acha que esse lugar vai te proteger? — Ele deu um passo para subir a escadaria e o chão pareceu afundar sob meus pés. — Deus abandonou esse lugar há muito tempo. — Ele subia devagar, entrou na igreja e com ele vinham aqueles monstros. — Por um acaso você não havia notado que a humanidade foi o projeto mais fracassado dele? Ele é indiferente a seus desejos, caso contrário, quem teria atendido seus pedidos seria ele, não é? — Ele sorriu.
— Não, não pode fazer isso. — Eu estava próxima a imagem de Cristo.
— Eu não só posso, como estou fazendo. — Ele sorriu de lado mostrando seus caninos longos. — Por que vocês sempre se desesperam? Sabem desde o começo qual é o preço dos meus serviços e mesmo assim entram em pânico ao serem cobrados. — Estava sentado em um dos bancos, sua posição era tranquila e elegante.
— Eu não sabia que seria assim... — As lágrimas grossas desciam por meus olhos. — Eu só queria voltar a lutar! —
— Achou que poderia escapar? Que Deus olharia pra você quando se arrependesse? — Seu sorriso de lado, um sorriso que, naquele momento, era um misto de sedutor e diabólico. — Por um acaso você ainda não percebeu que ele. — Apontou a imagem de Cristo atrás de mim. — Não liga pra vocês? E porque ligaria? Vocês adoram a imagem do sofrimento dele, vocês usam a imagem de sua tortura como adorno e ignoram toda a vida que ele teve e os ensinamentos dele. — Sua voz era acusadora e irritada. — Pequena, ele não olha por vocês. — Ou achou que poderia me enganar para ter mais tempo? —
Enquanto ele falava as criaturas continuavam me olhando ansiosos, olhar aquelas criaturas me fez gritar e chorar sem parar. Toda a igreja pareceu se transformar em um enorme precipício repleto de fumaça e escuridão pronto para tragar qualquer um. Eu estava embaixo da imagem de Cristo quando senti um liquido escorrer pelo meu rosto. Olhei para cima e vi a imagem sangrando, estava completamente desfigurada, aquilo era uma distorção do que deveria ser uma imagem de conforto e amor.
O negociador estava de pé no centro de toda aquela monstruosidade, o chão embaixo de seus pés estava negro e viscoso, pequenas mãos surgiram daquele liquido negro e vieram em minha direção. Eu queria subir mais um pouco, mas as mãos seguravam minhas pernas me puxando para o meio daquela imundice. Implorei para me soltarem, segurei os pés de Jesus, mas estava escorregadio e acabei soltando. Eles me arrastaram pelo chão enquanto todas aquelas mãos passavam por meu corpo, eu afundava enquanto olhava ele de pé a minha frente. Seus olhos, aqueles olhos amarelos eram frios e foram a última coisa que vi antes de tudo ficar escuro.
E no momento eu me encontro em meio às trevas eterna, agora eu sei o que é o verdadeiro desespero, um sentimento que não consigo explicar está tomando conta de cada centímetro de meu corpo. Muitos já tentaram descrever o inferno, mas a imagem que esta diante de mês olhos agora é mais devastadora que qualquer coisa que qualquer ser humano possa ter imaginado. Nem Deus viria a esse lugar.
Fim.