Capitulo único
Terra, 2045, central da missão espacial da ONU.
Era meia-noite, as primeiras horas do dia 7 de julho, um domingo qualquer na base, algumas mulheres limpavam o local com o máximo de cuidado Tudo tinha que estar 100% limpo e esterilizado para garantir o melhor funcionamento possível para a base e elas cumpriam bem esse papel. Na central os homens recebiam uma chamada de máxima urgência vinda da estação especial Morfeu I, assim que receberam o sinal retornaram de imediato tratava-se da base espacial na qual atuavam cinco astronautas, duas mulheres e três homens, eles entraram em contato por uma questão muito diferente da imaginada. Haviam, pela primeira vez em toda a história, estabelecido contato e uma iniciativa de comunicação com uma espécie vinda de outro planeta. Alienígenas, aqueles cinco astronautas haviam entrado em contato com uma espécie alienígena.
— Está me dizendo que vocês encontraram uma espécie alienígena? — O comando perguntou enquanto todos na central vibravam.
— Está mais para: eles nos encontraram, senhor! — O homem mais velho da equipe, que se chama William, respondeu visivelmente eufórico. — Pelo que conseguimos decifrar, eles estavam nos observando desde que chegamos a estação. estavam esperando o momento certo de estabelecer contato. —
— Isso é maravilhoso. — O comando vibrou e todos vibraram juntos.
— O que descobriram sobre eles? Que tipo de comunicação eles usam? Quais são as estruturas de seus corpos, quantos eles são? Têm alguma radiação ou algo que pode apresentar algum risco a corpos humanos? — Uma das integrantes da central questionou, contendo as lágrimas de alegria. Seu nome era Joana e era a única brasileira na equipe em terra e prezava pela segurança de todos na missão.
— Ainda não sabemos, Liliana é quem está coordenando a comunicação com eles. —
— Por que vocês não estão juntos? — perguntou o comandante.
— Ela é a profissional de comunicação, senhor. E eles entraram em contato com ela primeiro, não aceitaram falar com a gente. — Respondeu o segundo astronauta; seu nome era André.
— Entendo, fiquem de olho e reportem tudo para nós aqui na Terra. — O líder da missão respondeu.
— Senhor, o que faremos com essa descoberta? — Joana questionou.
— Vamos relatar aos superiores, eles saberão o que fazer? — O homem respondeu eufórico, mas mantinha o ar profissional.
A comunicação foi quase imediata, não houve um empecilho para o comandante relatar o maior acontecimento da década ou talvez daquele século inteiro. As autoridades optaram por ocultar a informação da população geral no primeiro momento, apenas as autoridades máximas de cada país afiliado tiveram acesso à descoberta, pois precisariam se preparar para o possível pouso dos seres ou para fornecerem armas de guerra caso as intenções dos seres não fossem a paz. Apenas após uma reunião com os líderes mundiais eles poderiam comunicar a população.
Na estação especial os astronautas esperavam notícias de Liliana; seus sorrisos deixavam claro o quanto aquele momento havia mexido com cada um ali.
— Por que eles escolheram a Liliana? Será que é porque ela estava lá fora na hora? — Perguntou André, olhando a imensa nave alienígena ao lado da estação.
— Talvez eles soubessem que ela é tradutora. — Carina respondeu após refletir por alguns segundos.
— Isso não é possível, como eles poderiam saber disso? — William sorriu com a hipótese de Carina. — Vamos ter que esperar ela voltar para sabermos. Provavelmente eles vão querer falar com a gente também. — Ele olhou a nave gigantesca esperançoso.
Seguiram-se dias e dias, a central da missão ainda estava mantendo comunicação total com a estação espacial, sempre havia um dos astronautas para relatar o que estava acontecendo. Nesse tempo foram reunidos autoridades militares e cientistas para debaterem o encontro de espécies. No dia quinze de julho, Liliana finalmente apareceu para falar com o comando; toda a central ficou em silêncio aguardando as informações que ela conseguiu.
Dia 15 de julho, duas e quinze da tarde, central da missão da ONU.
— O que descobriu sobre eles? — O comandante da missão estava na base e junto dele estavam militares dos Estados Unidos, China, Alemanha, Inglaterra e alguns outros países. Também estavam os maiores nomes da biologia, química, filosofia e medicina, todos preocupados com o que quer que viesse a acontecer nesse encontro de espécies.
— Eles vieram em paz. Desejam estabelecer uma aliança com a humanidade e desejam falar com seus líderes para negociar uma troca justa para ambos. — Liliana respondeu com a voz arrastada, estava evidentemente cansada, afinal, havia passado dias intensos aprendendo a língua dos seres, sua anatomia e cultura.
— Muito bem. — O comandante soltou o ar aliviado. — Estaremos prontos para negociar com esta espécie amiga. — Respondeu com um sorriso imenso nos lábios.
— Como vocês conseguiram se comunicar? — Joana indagou receosa. Estava preocupada com a possibilidade de os seres estarem observando o planeta há muito mais tempo do que poderiam imaginar e, nesse caso, teriam que ter cuidado com essa aliança.
— A espécie possui um aparelho fonético muito complexo e diferente do nosso; eles não conseguem pronunciar palavras e se comunicam entre si com grunhidos, mas conseguiram aprender nossos símbolos gráficos e assim conseguimos estabelecer contato através de palavras escritas. —
— Como eles aprenderam isso? — Joana questionou.
— Eles disseram que estavam nos observando há anos, aprenderam nossa linguagem ao interceptarem nossos sinais de satélites. — A astronauta passava as mãos pelo rosto, uma tentativa de afastar o cansaço que aumentava a cada instante.
— Como? Nós teríamos percebido isso em algum momento. — O comandante da missão perguntou antes de Joana prosseguir.
— Eles conseguiram usando nossos robôs exploradores que foram abandonados. Disseram que era rústico, mas que serviu para interceptar nossa comunicação e aprender nossas linguagens. — Liliana respondeu após pegar uma garrafa de água. O líquido, ao ser liberado, flutuou no ar e a jovem teve que sugar a água do próprio espaço.
— Está me dizendo que esses seres conseguiram invadir nossa rede de satélites sem que percebêssemos e conseguiram dominar nossa forma de nos comunicar? Quantas línguas eles aprenderam, quantas culturas e quantas informações sobre nós eles têm? — Joana continuou questionando a mulher.
— Eles não falaram. Estavam focados em me ensinar a compreender sua comunicação para que eu pudesse ser uma espécie de tradutora entre espécies. Como disse, eles não conseguem pronunciar palavras como nós, então tive de aprender o que cada som significa. —
— Muito bem, vocês retornarão em dezembro junto desses… seres… como devemos chamá-los? — Indagou o comandante, ignorando os questionamentos de Joana.
— Após estudarem as diferentes espécies que temos, observaram que sua aparência lembra a de algumas espécies e adotaram o nome Araforme para definir sua espécie. —
— Por que soa tão estranho? — Perguntou o general do exército dos Estados Unidos.
— Como eu sou brasileira, eles optaram por se comunicar em minha língua materna. — Revelou Liliana.
— Muito bem, receberemos os Araformes em alguns meses, aprenda o máximo sobre essa espécie e relate tudo para nós. — O comando da missão respondeu.
— Espere, eu ainda tenho perguntas. Que outras informações vocês conseguiram? — Joana falou.
— Essas perguntas serão respondidas quando estiverem em nosso planeta e sob nossa supervisão. — O general americano afirmou. Não era o tipo de homem que aceitava comando de mulheres e muito menos de estrangeiros, então seu plano trazer os alienígenas para um lugar onde ele pudesse controlar tudo.
O retorno da equipe de astronautas estava marcado para dezembro e até lá mantiveram o contato diário, Liliana conversava com Araformes em busca de mais informações. Os representantes das espécies estavam se aproximando e isso era bom para as negociáveis futuras, Liliana aproveitou os meses para descobrir mais sobre a espécie em si e o que poderiam oferecer de bom para o planeta.
Os demais astronautas ficavam na estação esperando informações que Liliana traria; os Araformes não aceitavam outros próximos, pois atrapalhavam o entendimento da conversa devido à variação dos idiomas. Na Terra, os líderes mundiais anunciavam ao mundo a visita dos Araformes e a aliança que desejam formar, também preparavam um prédio gigantesco para a reunião com os seres. Como imaginado, os Estados Unidos seriam a sede do encontro com a ajuda das demais nações conseguiram terminar a imensa construção em um tempo recorde.
A população do planeta não estava tão apavorada quando imaginado, a maioria já considerava a existência de seres alienígenas como um fato, apenas discussões entre ateus e religiosos aconteciam, nada que a humanidade já não tivesse visto. No entanto, algumas discussões foram levantadas; alguns jornais questionavam a facilidade com a qual as Nações Unidas e os governos do mundo aceitaram essa aliança, outros indagavam os perigos de trazer uma espécie alienígena para o planeta, correndo o risco de colocar todo o mundo em risco. Mas não importavam os questionamentos, os líderes mundiais estavam satisfeitos em terem novos recursos para seus países.
7 de dezembro de 2045, central planetária,
Washington.
Eram por volta das quatorze horas quando a nave com os tripulantes pousou no oceano. Havia pessoas de todo o mundo ansiosas para a chegada dos visitantes de outro planeta. Poucos minutos depois do pouso, os espectadores puderam ver uma enorme silhueta no céu, pouco a pouco a nave espacial dos Araformes surgia na imensidão azul, afastando as nuvens e fazendo todos tremerem diante da visão da imensa nave.
Durante séculos a humanidade considerou a existência de seres extraterrestres; nos últimos anos não era mais uma hipótese e sim um fato que só precisava de tempo para ser confirmado, mas não importa o quanto o mundo estivesse certo sobre a existência de alienígenas, no momento em que viram a enorme nave descendo do espaço, o medo ancestral do desconhecido retornou, golpeando a todos como um chicote golpeando as costas de um animal.
Os astronautas foram resgatados e levados para junto de suas famílias, Liliana foi a única exceção; ela só veria sua esposa após falar com alguns presidentes, entre eles estava o presidente do Brasil. Enquanto a equipe se recuperava, os Araformes observavam tudo na nave, se recusaram a descer da astronave sem sua intérprete para evitar problemas. Presentes de todas as nações foram deixados próximos à nave como forma de mostrar que a humanidade também queria uma relação amigável. O exército dos Estados Unidos os saudou com tiros de canhões e um show de seus caças, obviamente uma maneira de mostrar que eles estavam prontos para se lutarem, mas não receberam nenhuma resposta.
Os Araformes não saíram da nave, esperaram até que sua intérprete estivesse bem e disposta a cumprir seu papel, enquanto isso pessoas chegavam ao local apenas para deixarem presentes e mensagens de “bem-vindos” em vários idiomas. Foram mais sete dias até que Liliana estivesse bem o suficiente.
— Tem certeza de que está pronta para isso? — O presidente dos Estados Unidos questionou.
— Tenho sim, eu já dormi o bastante. — Respondeu levantando de sua cama. — Eu só quero ver minha esposa antes. — Os líderes mundiais se olharam, já havia se passado sete dias e a mulher só falava com representantes dos Nações Unidas ou médicos, enquanto sua família nem conseguia entrar em seu quarto.
— Está bem, vamos trazê-la até o quarto, mas tente não se cansar para não atrapalhar em seu trabalho. — O presidente do Brasil falou.
Eles trouxeram Amanda, esposa de Liliana, e as mulheres conversaram por quase uma hora. Liliana acalmava a amada enquanto explicava detalhes sobre suas conversas com os Araformes; não revelou muitos detalhes, apenas o suficiente para garantir que Amanda ficaria mais calma.
Após falar com sua esposa, Liliana foi preparada para se apresentar como intérprete. Às dezesseis horas a mulher estava do lado de fora da nave esperando que os visitantes descessem; atrás dela estavam o presidente do Brasil, o presidente dos Estados Unidos, os comandantes das forças armadas dos Estados Unidos e um intérprete de português para inglês.
Um orifício com formato triangular se abriu na imensa nave e dela descia um pedaço de metal com duas criaturas Araformes. Ao chegarem em terra, todos puderam ver a real aparência dos seres; seus corpos possuíam uma carapaça negra que parecia fazer parte deles, eles possuíam seis braços e se sustentavam com duas pernas, as cabeças eram alongadas e relativamente achatadas, mas de longe a maior anormalidade estava nos rostos. Os Araformes possuíam um rosto com vários olhos, suas bocas eram como triângulos alongados que possuíam dentes afiados e presas que saltavam para fora, havia vários buracos nas extremidades que pareciam orelhas.
— Vagina dentada. — O presidente brasileiro comentou ao ver a aparência das criaturas.
Um dos visitantes moveu sua boca junto com as presas e um som gutural saiu. Liliana olhou para o ser, prestando atenção em cada som que saía.
— Minha aparência é assustadora para vocês? — Liliana traduziu.
— Ah, não, não é isso. Foi só um pensamento inconveniente. —
Liliana traduziu, mas não era necessário, pois os visitantes sabiam o que havia sido dito. Liliana estava ali para traduzir os Araformes para os humanos e não o contrário. O presidente dos Estados Unidos guiou os visitantes até a central planetária. Durante o caminho até a central, alguns homens olhavam o Araformes e riam; os visitantes se aproximaram para uma interação com um grupo que ria aos berros.
— A boca deles é uma vagina dentada. — Um dos rapazes comentou, apontando a boca da criatura.
Novamente os Araformes iniciaram uma interação com os movimentos verticais, que geravam ainda mais risadas dos rapazes.
— Fico feliz que minha aparência seja satisfatória a vocês, isso é importante para nossa aliança. — Liliana traduziu, olhando os homens.
— É sim, lembra o buraco que entrei ontem. — Mais gargalhadas vinham do grupo e de homens próximos. Eles imaginavam que as criaturas não conseguiam entender o sarcasmo e isso tornava tudo mais hilário.
Uma das criaturas Araforme falou algo novamente, mas Liliana não traduziu, apenas olhou os homens e seguiu em direção à central planetária. Dentro do prédio, os líderes mundiais estavam reunidos, prontos para ouvirem as propostas dos visitantes do espaço.
A reunião começou com perguntas básicas sobre o que os visitantes conheciam sobre o planeta; estavam tentando descobrir quais riscos eles representavam. As perguntas continuavam e aos poucos chegavam no ponto que todos desejavam.
— O que vocês têm para oferecer e a ganhar nessa aliança. — O presidente da Rússia perguntou.
Os Araformes se olharam; na sala havia apenas cinco mulheres que eram líderes de estado e, com isso, eles começaram a produzir os sons característicos de sua espécie. Liliana começou a traduzir tudo que era dito e, ao mesmo tempo, os intérpretes dos líderes começaram a traduzir tudo para seus chefes.
— Nosso planeta sofreu mudanças climáticas severas que afetaram gravemente nossa espécie, quase fomos exterminados, mais da metade de nossa população morreu por doenças e os que sobreviveram estão cada vez mais fracos. Nossa população está enfrentando problemas para gerar novas gerações, pois a fome afetou principalmente a parte reprodutora, sendo assim pedimos à sua espécie que nos ajude a repovoar nosso planeta e, em troca, ajudaremos a desenvolver sua indústria, ensinaremos a preservar sua natureza, produzir alimentos mais saudáveis e desenvolver tecnologias que vocês nem imaginam existir. —
— Deixe-me ver, vocês querem que enviemos seres humanos para servirem de reprodutores para salvar sua espécie? — O presidente da China questionou. — Em troca de alimentos? Nós já temos uma economia global estável o bastante. já tivemos esse tipo de ajuda no passado e o resultado é sempre desastroso. — Ele lançou um olhar para o líder da Inglaterra.
Liliana ouviu atentamente a resposta dos Araformes e então reproduziu em alto e bom som.
— Não estamos falando apenas de alimentos, mas de proteção contra outras espécies hostes que, assim como nós, podem descobrir vocês. — As palavras de Liliana fizeram todos se calarem. — Também oferecemos uma medicina tão avançada que vocês levariam milênios para desenvolverem sozinhos, troca de corpos, a vida útil humana pode ultrapassar os 150 anos, além de ensinamentos que servirão para ajudá-los a se defender de outras espécies, até mesmo nós. Nosso objetivo é criar uma aliança forte que beneficie ambas as partes, mas só poderemos cumprir com nossa parte se estivermos vivos para isso. —
Os líderes mundiais silenciaram, nenhum deles sabia o que dizer ou fazer, apenas sabiam que as propostas eram boas, muito boas para deixarem passar, mas também eram boas demais para não ter consequências.
— Conhecemos as regras humanas e sabemos que o método contraditório chamado “democracia” é a maneira pela qual a maioria dos humanos tomam suas decisões, então estamos de acordo em dar a vocês uma escolha. Votem, como estão acostumados a fazer, e decidam quais nações aceitam nossa proposta. Não estamos ameaçando, não queremos usar a força e sim criar amizade com nossos vizinhos e não faremos nada contra sua vontade, mas devo adverti-los que, após tomada a decisão, não poderão mais voltar atrás. — afirmou Liliana.
A reunião encerrou e Araformes retornaram à sua nave; os líderes mundiais aceitaram que houvesse uma votação. Cada país votaria por si se aceitaria a ajuda dos visitantes e também assumiria sozinho os riscos de tal escolha. Enquanto o planeta se organizava para a votação, os líderes militares se preocupavam em descobrir a extensão do poder armamentista dos visitantes, para isso pediram que os visitantes lhes mostrassem.
Novamente Liliana estava junto aos líderes para poder auxiliar os diálogos. A demonstração ocorreu em mar aberto; havia ilhas desabitadas onde poderiam usar suas armas sem medo, mas os visitantes não precisariam destruir nada para demonstrar seu poder.
— Muito bem, vamos mostrar o que podemos fazer. — O líder americano ordenou.
Os Araformes estavam em sua nave, observando os navios se moverem com suas armas prontas. Os navios humanos apontaram suas armas para a ilha e começaram a atirar até transformarem a ilha em cinza, era uma visão horrível, apenas terra queimada e arvores destruídas, quantos aos animais, nem o exercito conseguia imaginar como estavam.
— É a vez de vocês. — O general falou.
Novamente os estalos da comunicação Araformes voltaram e Liliana começou a traduzir.
— General William, havia animais vivendo na ilha. — Informou Liliana ao lado de uma das criaturas.
— Eram vidas pequenas, animais venenosos e que não conseguiria sobreviver fora da ilha. —
— Ainda assim, acreditamos que devem ser preservados e por isso, os removemos do local antes do ataque. —
— O que? — A pergunta saiu no automático, era o efeito da surpresa.
— Todas as formas de vida do planeta estão a salvo em nossa nave, mas não se preocupe, devolveremos todas a um local adequado para que possam sobreviver. — Liliana traduziu a informação ao mesmo tempo em que ela era pronunciada.
— Como fizeram isso? —
— Possuímos uma máquina de transporte de massas eficiente o suficiente para remover habitantes de um local para dentro de nossa nave; ela não é a nossa máquina mais eficiente, mas espero que entenda que precisamos das melhores em nossa casa. — Liliana tinha um olhar de superioridade, de alguém que sabia o quanto aquela informação poderia abalar os nervos de qualquer pessoa e, mais ainda, os de um soldado. — Agora faremos nossa demonstração. —
Da pequena nave alienígena surgiram pequenos fótons no ar que se juntavam no meio do oceano. Os soldados cobriram os olhos para protegê-los da luz e, quando voltaram a olhar, encontraram apenas uma imensa faixa de terra ao lado da ilha, a qual havia destruído um pouco antes. O general assistiu completamente abobalhado enquanto, à sua frente, uma nova ilha surgia do absoluto nada; pelo menos ele acreditava que ela havia surgido do nada.
— Como fizeram isso? — Indagou o general. — É um milagre! — Exclamou. Era impossível decifrar quais emoções o homem sentia naquele momento, talvez um misto de euforia e medo.
— Parece um milagre para seus intelectos limitados, mas apenas reorganizamos os átomos, usando como modelo a ilha a qual o senhor destruiu. — informaram. Havia uma certa soberba ao notarem o quão maravilhados estavam os soldados. — Agora, devolveremos os animais a um lar semelhante à sua antiga casa. —
Os animais foram colocados em seu habitat e os navios se aproximaram para terem certeza de que o que estavam vendo não era uma ilusão ou uma simulação. Ao tocarem a areia e sentirem o cheiro das plantas, eles tiveram certeza de que aquilo era real. Eles criaram uma ilha do absoluto nada.
— O general precisa de mais alguma demonstração? — Indagou Liliana, novamente traduzindo suas companhias na nave.
— Não, vamos retornar. —
Pouco a pouco os homens, e as poucas mulheres que serviam à marinha, retornavam aos navios. Todos estavam assustados e maravilhados com tamanho poder e a maioria sabia que algo assim não poderia ser ignorado.
Em terra, a votação era discutida em todo o planeta; mulheres de todo o mundo, até mesmo nos países onde seus direitos eram mínimos, se uniam em protesto à ideia mais cruel que haviam concebido. Não era um movimento pequeno, mulheres de todas as classes discursavam e até mesmo se envolviam em atos violentos para tentarem impedir a concretização de sua ruína como seres humanos com direitos.
Mas também havia aquelas que se recusavam a lutar por seus direitos; no caso, eram mulheres que possuíam a certeza de que nunca seriam vítimas das criaturas do espaço. Essas mulheres eram, unanimemente, tão ricas que sequer seriam consideradas alvos nessa situação; elas sabiam que as únicas mulheres que seriam oferecidas como incubadoras vivas seriam as da ralé, aquelas que só importavam para reprodução e que haviam se iludido com a ideia de que haviam conquistado seus lugares em definitivo.
Em sua casa, Liliana assistia a jornais que transmitiam um dos inúmeros protestos que aconteciam ao redor do mundo.
— O que vocês pretendem conquistar com esses protestos. — Um repórter perguntou à líder do movimento.
— Vamos mostrar aos nossos políticos que não abriremos mão de nossos direitos, nossos corpos não são incubadoras, não seremos vendidas a quem quer que seja. — A mulher gritava e era seguida por outras.
— Os líderes mundiais acreditam que a cooperação entre espécies será benéfica para ambos, consideram esse um sacrifício necessário para proteger e desenvolver a espécie humana. Vocês não consideram isso? —
— O progresso não pode vir a custa de milhões de mulheres que serão escravizadas por terem um sistema reprodutor; isso é um retrocesso imenso como sociedade e como seres vivos. É um absurdo sequer considerarem essa votação. — A mulher respondeu aos gritos para poder ser ouvida, pois havia muito barulho, inclusive de forças policiais que tentavam expulsar as manifestantes.
— Acha que os líderes irão ouvir suas reclamações? —
— Eles terão que ouvir, a voz das ruas não deixará eles dormirem enquanto essa votação estiver acontecendo. — A fala da mulher evocou o grito de todas as outras que se sentiam mais encorajadas por suas palavras. — Quero mandar um recado para Liliana, aquela traidora. Você nos traiu, tenha coragem de vir a público e se manifestar contra essa atrocidade que estão tentando fazer, sua traidora covarde. — A mulher gritou e o repórter se afastou.
— Liliana continua se recusando a ser entrevistada por qualquer veículo midiático; no momento, ela está em isolamento com sua esposa e filha. —
Liliana desligou a TV assim que sua esposa se aproximou; ela não queria que a mulher ouvisse as palavras pelas quais a estavam chamando.
— Elas ainda exigem um pronunciamento seu? — perguntou a mulher. Ela trazia em seus braços a filha do casal, que dormia alheia ao que acontecia no mundo.
— Sim, mas não é hora pra isso. —
— Por que você não vai até elas? Por que está tão tranquila com tudo isso? —
— Amor, você confia em mim? — Perguntou segurando o rosto da mulher, que balançou a cabeça em um movimento positivo. — Então acredite, eu tenho meus motivos para estar assim. Não se preocupe, todas vamos ficar bem. — Encerrou a conversa dando um beijo na testa da filha.
Nas ruas de cada capital, mulheres se reuniam contra a votação mais absurda que alguém já pôde pensar, mas nada impedia os parlamentares, que em sua esmagadora maioria eram homens, de seguir com a votação.
Não foram apenas políticos, mas também as famílias mais ricas do mundo apoiavam a ideia, pois sonhavam com a ideia de viver até os 150 anos ou até mesmo mais e, se para isso tivessem que sacrificar algumas mulheres, eles estavam dispostos a fazer, até porque o número de mulheres já estava ficando muito grande.
Levaram meses para que todo o planeta pudesse votar e decidir qual seria o destino do planeta, mas finalmente eles estavam finalizando a votação.
Dia 7 de julho de 2046, central planetária, Washington, reunião para apresentação dos resultados.
Os votos já estavam feitos e contabilizados, com 79% dos votos dos parlamentares do mundo, o planeta Terra decidiu aceitar a aliança com os Araformes e ceder espécimes saudáveis para reprodução. Em troca exige receber auxílio no encontro de outras espécies, ajuda para desenvolver a medicina e aumentar a longevidade, armamento avançado, entre outras coisas. A notícia foi recebida com alegria pelos Araformes, que trataram de fornecer acomodações para os espécimes.
— Nossas naves estão a caminho para cumprir nossa parte no acordo; em alguns dias, pegaremos os espécimes de nossa escolha. — Liliana traduziu e os Araformes retornaram à sua nave.
— Inacreditável que conseguiremos tanto avanço assim em tão pouco tempo. — O presidente do Brasil falou enquanto os Araformes retornavam ao interior da nave.
— Sim, eu estou ansiosa para ver como o mundo ficará após essa transação. —
— Achei que você se recusaria a fazer parte disso. — O homem olhou para a mulher a seu lado enquanto os demais presidentes os ignoravam e conversavam com seus intérpretes.
— Por que eu faria isso? — Liliana pareceu não entender, mas era uma encenação bem elaborada.
— Porque você é mulher. Não achei que levaria isso tão bem como levou; todas as mulheres do mundo te xingaram e desejaram sua morte por você aceitar entregá-las a esses monstros. — O presidente não camuflada mais seu nojo pelas criaturas.
— Ah, isso. — Liliana sorriu. — Eu esqueci de esclarecer uma coisinha que é bem importante. —
— O quê? —
— A espécie Araforme é, majoritariamente, constituída por fêmeas, OS Araformes não vieram atrás de fêmeas para procriar, AS Araformes vieram atrás de machos para fornecer o esperma necessário. — O presente ficou mudo, assim como os intérpretes de cada líder mundial. — Elas tem preferências por nossos líderes pois consideram que eles precisam servir de exemplo a população. —
— Você está brincando, né? — O homem falou empalidecendo de medo. — Isso não é possível, temos que votar isso. —
— Isso não é possível. Adeus, senhor presidente, para o caso de não nos vermos mais. Vida longa à democracia. — O rosto do presidente se encheu de horror. Liliana saiu do local enquanto os intérpretes se atropelaram nas palavras para relatar a informação.
No céu era possível ver vários módulos descendo da nave, prontos para receberem os espécimes que as ajudariam a repovoar seu mundo.
Fim.