2 - Fotografias As Flores Gêmeas · Capítulo 2 de 3
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2 - Fotografias

1

O porão estava totalmente mergulhado em breu. Velma teve de tirar uma

lâmpada de um dos quartos para botar lá, e ainda assim ficou mal

iluminado, provavelmente porque os fios de força estavam ficando

podres. A casa de dois andares era uma mistura de madeira e alvenaria,

não por puro capricho e sim porque quem a construiu queria economizar

em certo momento da construção, era o que dona Mirta já havia

comentado uma vez. Então, em algumas partes da casa era preciso de

conserto, mas reformas só ocorriam caso fosse em algum cômodo que

teria algum uso para dona Mirta, essas frescuras eram algo que Velma já

tinha se acostumado a tolerar há muito tempo.

2

O espaço do porão (antigamente uma despensa) não era grande, porém

era suficiente para caber duas estantes amareladas e úmidas com

prateleiras cheias de livros religiosos e de receitas, garrafas de vidro onde

dona Mirta guardava botões e agulhas velhas, sacolas com retalhos de

tecidos de todos os tipos que eram guardados para virarem enchimento de

almofadas que ela também vendia e alguns ferros de passar roupa

pifados, mas guardados com esperança de irem ao conserto. No chão, ao

lado das prateleiras, estavam quatro caixas de papelão fechadas com

dizeres escritos em giz preto “DOCUMENTOS VELHOS, NÃO

MEXER!”, em letras grandes. Velma puxou um banquinho de madeira

que trouxe da cozinha para poder sentar-se enquanto começava a xeretar

nas caixas.

— Vamos ver o que há aqui. — Sua voz saiu irreconhecível para si

mesma, foi assim que se deu conta de que era a primeira vez que falava

em voz alta desde que voltou para a casa. Já estava se acostumando com

o silêncio em sua volta e a voz de seus próprios pensamentos.

Velma empurrou a primeira caixa para onde estava sentada, o banquinho

era baixo, mas ainda precisava se curvar-se para poder ver melhor o

conteúdo. Ao abrir suas abas, uma aranha surgiu andando em direção à

sua mão direita, mas com um gesto natural de reflexo, a expulsou dali lhe

dando um tapa com as costas da mão.

3

A primeira caixa tinha várias pastas com papéis amarelados, eram contas

velhas e pagas — ainda bem, pensou Velma — como descobriu enquanto

vasculhava cada uma delas. Depois de alguns minutos viu que não

haveria nada interessante ali e partiu para a segunda caixa depois de

reorganizar a primeira.

Na segunda caixa, o seu conteúdo era mais desanimador que o anterior:

eram jornais, uma pequena pilha de jornais totalmente amarelados e

fedendo a mofo.

— Meu Deus, para que tantos jornais! — soltou Velma indignada,

imediatamente fechando as abas desta pra seguir para as duas caixas

restantes. A terceira caixa tinha uma pasta com documentos de verdade,

de sua avó, coisas de trabalho, primeiras vias de documentos de

identidade e umas papeladas com cópias e a própria escritura da casa, que

foi a única coisa que Velma salvou dessa caixa. E na quarta e última,

havia apenas cadernos velhos onde dona Mirta escrevia suas receitas

mirabolantes para novos pratos que por incrível que pareça, sempre

ficavam bons quando ela os preparava. Pelo menos era assim que Velma

lembrava, pois depois que aprendera a cozinhar, era apenas ela quem

fazia a comida. Não iria salvar nada desta caixa.

Sentindo-se ligeiramente desapontada, Velma se levantou segurando a

pasta com a escritura em uma das mãos e a outra fechada em punho. Só

havia lixo ali, nada mais que lixo e mais lixo. Se pudesse, atiraria fogo

naquilo tudo, e quem sabe, seria isso mesmo o que faria após retirar tudo

o que não tinha mais necessidade de ficar naquela casa. Velma já tinha

deslizado para a porta quando de súbito, girou nos calcanhares e retornou

onde estava, empurrou o banquinho com o pé e puxou a caixa onde havia

jornais e a entornou para jogar seu conteúdo fora dali. E foi assim que

encontrou o que procurava inconscientemente.

4

Em meio aos jornais velhos havia um grande envelope marrom meio

desbotado com seu desconhecido conteúdo. Velma demorou alguns

segundos para enxergá-lo junto aos jornais amarelados e a luz fraca, mas

quando viu ela se agachou e sentou-se novamente no banquinho. O

envelope era um pouco pesado, deveria ter umas 500 gramas, o que a fez

hesitar um momento antes de abri-lo e ver o que continha.

— Tudo bem, pode ser nada demais. — Murmurou Velma, que naquele

momento não se deu conta se estava falando ou pensando. Ela abriu o

envelope e deixou seu conteúdo escorregar em cima do seu colo onde a

pasta com os documentos da casa estavam. Eram algumas fotos e um

envelope menor que tinha uma carta. Ela checou as fotos primeiro e o

que viu a deixou mais consternada do que quando descobriu que sua avó

havia falecido. Aliás, o que viu nas fotos quase a fez se esquecer de sua

avó completamente, o que só não foi possível pois dona Mirta estava nas

fotos, mas não sozinha. Ela estava bem mais jovem, sentada numa

poltrona de veludo amarela — a foto estava velha, mas ainda era possível

distinguir suas cores — com Velma bebê em um dos braços e... outro

bebê no outro. Dona Mirta sorria para o outro bebê. Quem era esse outro

bebê?

5

Havia cinco fotos, além da primeira que dona Mirta aparecia, as outras

eram fotos desses dois bebês em seus berços. A última foto, porém, era

diferente e foi capaz de arrancar lágrimas de Velma que nem ao menos

conseguiu chorar no funeral. Quem estava nessa foto era sua mãe. Ela

sabia que era sua mãe, sem dúvidas. Ela tinha os mesmos longos cabelos

castanhos como carvalho e a mesma pinta ao lado do nariz, Velma era a

cara de sua mãe. Na mesma poltrona amarela onde dona Mirta estava na

outra foto, sua mãe também segurava dois bebês, que eram bastante

semelhantes. É lógico que bebês tem quase todos a mesma cara assim

que nascem, mas estes da foto eram muito parecidos. Irmã? Irmão?

— Eu não entendo... — Velma estava confusa, por que sua avó nunca

mencionou ter posse dessas fotos? Era a primeira vez que ela via a face

de sua mãe, a quem dona Mirta disse nunca ter existido fotos para

lembranças, que não havia tido tempo de fazê-las antes que sua filha

morresse no tal acidente de carro. A única coisa que sua avó a havia

contado sobre sua mãe era seu nome, Rosa.

Velma ficou olhando para essa foto por um bom tempo, vendo o rosto de

sua mãe, a expressão de felicidade enquanto segurava suas... filhas? Sim,

eram meninas, a qualidade da fotografia estava ruim, mas dava para

enxergar a cor rosa de suas roupinhas de frio. Num gesto inesperado,

Velma olhou para o verso da fotografia e viu algo escrito em caneta

esferográfica azul, estava um pouco desbotada, mas ainda legível.

Andradina — 1962

Rosa com suas gêmeas,

Velma e Dália.

E com apenas essas palavras lidas, foi o suficiente para Velma chorar o

que não chorou no enterro de sua avó.

6

Velma cresceu num ambiente aparentemente calmo, quando sua avó não

a chamava aos berros a convocando para ajudar em algum serviço de

casa ou de costura. Apesar disso, não teve problemas sérios, era um

pouco entediante até. Na escola, desde os anos iniciais, sempre teve

amigos que iam e vinham. E mesmo sendo um pouco tímida, ela nunca

ficava sozinha. Era o que a fazia nunca querer faltar nas aulas, seus

amigos, eram quem a tiravam do tédio.

— Não se apegue a essas crianças, logo elas seguem com a vida e

esquecerão de você. — Dissera dona Mirta numa vez que Velma fora

convidada para um aniversário de uma das colegas que insistiam que ela

fosse.

— A senhora também foi convidada! — protestara Velma e, por fim,

convenceu sua avó a levá-la para a festa.

Dona Mirta não prendia Velma em casa assim como Norma Bates fazia

com seu icônico filho, porém não era fácil convencê-la a sair de sua zona

de conforto. Apesar de não ter sido um mar de flores ser criada por ela,

tivera bons momentos, nem que fossem um pouco raros. Quando sua avó

estava de bom humor era como se fosse uma outra pessoa: levava Velma

para passear na cidade e tomar sorvete no parque; comprava roupas

novas para elas e chegavam em casa tarde, no último circular do dia.

Essas eram algumas das boas lembranças que tinha de sua infância. E

agora, tudo isso estava começando a desbotar de sua mente enquanto

tentava imaginar como seria sua vida se sua mãe estivesse viva. E se sua

irmã estivesse com elas, como tudo poderia ter sido diferente, melhor...

7

É engraçado como as crenças de alguém podem cair e quebrar tão

facilmente. É preciso de apenas um golpe de supetão e pronto. Velma

sentia que tinha levado um murro no estômago, e que estava presa

durante aquele momento de dor que nos paralisa logo após o golpe. A dor

vai aumentando e aumentando, contorcendo suas entranhas até começar a

ir embora lentamente, te deixando ofegante e depois, com alívio.

O que mais tinha sido escondido dela? Sua avó mentiu sobre mais

alguma coisa? Ela era realmente sua avó? Ela realmente era um dos

bebês? Claro que sim, não seja estúpida, seu nome está na foto. Velma

guardou as fotos no envelope novamente, o outro com a carta não queria

ler agora. Saiu do porão levando-as consigo, as segurava com as duas

mãos como se tivesse medo de que alguém as tomasse ou que elas

desaparecessem em pleno ar. Precisava preparar alguma bebida quente

para relaxar.

8

— Eu não posso deixar isso me afetar. — disse para si mesma, sentada à

mesa da cozinha, esperando a água do bule esquentar e começar a

assobiar. Velma achava que ao dizer essas palavras ela se sentiria

confiante, mas ao ouvi-las saindo de sua boca soube que não era como se

sentia. Ela já estava afetada pela recente descoberta e sabia que isso

continuaria a assombrando por um bom tempo. O que eu deveria fazer,

pensava ela sem saber de onde viria essa resposta.

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