Capítulo 15
Kaeidh pousou na ilha flutuante principal. Já era quase noite e estava ansioso para mostrar os cristais de memória para Saphyre e Ambhar. Tarwin tinha tirado um cochilo no banco da frente da carruagem de Kae, o que deu a Kae a oportunidade de repassar todas as informações que tinham conseguido até agora. Faltava muito a descobrir, e ainda não haviam sequer encontrado uma única pista do paradeiro da irmã e dos pais de Saphyre e Ambhar.
Na volta, refizeram as buscas pelas florestas, mas desta vez tudo que se mexia eram animais silvestres, e mais nada. Tiveram ajuda, inclusive, de Tarwin, com sua visão de longo alcance. Mas nada chamou a atenção dele. Ainda dentro da carruagem, logo após a parte de florestas sumir no horizonte, Kae enviou mensagens para todos os povoados e vilas, para que fossem mais minuciosos e aumentassem as buscas aéreas.
Mencionou que procurava três seres com aparência de elfos e que, se os vissem, reportassem ao rei ou rainha mais próximos o desaparecimento de alguém, ou se viram algum dwarf preso na floresta. Tentou falar com Saphyre pelo espelho de seu quarto, mas não conseguiu. Talvez ainda estivesse na ilha de treinamento. Teriam, ainda, que manter uma certa distância enquanto o treinamento não estivesse concluído.
Ajudaram a descarregar todos os suprimentos que haviam levado e foram, cada um, para seu quarto, se banhar e descansar antes de irem para o festival, que seria na praça central e se iniciaria à meia-noite. Tarwin foi muito bem recebido e tinha certeza de que iria se divertir muito esta noite.
Alguns dragões fêmeas, ao vê-lo, foram correndo dar as boas- vindas. Tarwin era muito desejado por fêmeas de todas as espécies. Kaeidh se lembrava de uma elfa que, uma vez, querendo escolher seu âme sœur a todo custo, havia eleito Tarwin e feito uma poção para tentar encantá-lo e fazer com que se apaixonasse por ela. Óbvio dizer que nunca deu certo. Ele era sempre muito educado e solícito, um super cavalheiro, e as garotas simplesmente se apaixonavam por ele.
E, se não conseguiam se apaixonar, tentavam fazer sortilégios com a esperança de enganar o próprio organismo. Quando jovens, viajavam e iam por todos os lugares, ajudando em povoados e sendo úteis para a sociedade. Mênadie era a única que não havia se apaixonado por Tarwin. Eles tinham crescido muito juntos e ambos se viam como irmãos. Tarwin se despediu, entrando no quarto designado a ele por Àsgar, e Kaeidh foi em direção ao de Saphyre. Bateu à porta e nada.
Resolveu ir ao seu, no outro corredor, do lado leste do castelo. Iria cuidar de suas necessidades básicas e, logo, desceria ao grande salão e ao pátio. Com certeza se encontraria com Saphyre em algum momento. Fez tudo o que necessitava e foi ao quarto de Saphyre, mas ela não estava lá ainda. Desceu ao escritório de Àsgar. Falaram sobre as buscas e Àsgar informou que Leigh também havia chegado à ilha junto com Sorag.
Então Kaeidh pediu que procurassem Leigh, Saphyre e Ambhar, e as enviassem para o escritório de Àsgar, pois estavam esperando. Àsgar recebeu Tarwin logo após o mensageiro sair. Tarwin tinha com ele os cristais de memória que pretendia mostrar a todos. Ambos se abraçaram e brincaram um com o outro como se fossem garotos, tirando sarro e rindo de uma lembrança ou outra, de alguma estripulia infantil. Ficaram conversando e contaram sobre as manobras que fizeram na caçada, como os poderes tinham
se aperfeiçoado e como foi empolgante. Uma batida tímida soou à porta e Àsgar foi logo abrir. Era Leigh, que vinha sorridente, e abraçou o irmão. — Ah, vejo que a linda princesa evoluiu e cresceu, não é? Olá, Leigh — disse Tarwin, sorrindo amplamente para ela. — Olá, Tarwin… se me lembro, não? — Oh, machucou meu coração agora, princesa Leigh. Nunca imaginei que se esqueceria de mim. — Me desculpe, rei Tarwin, mas eu era muito nova a última vez que nos vimos, não? — Com certeza não.
Eu fui ao seu casamento com Charif, mas, infelizmente, tive problemas e saí antes de terminar. Minhas desculpas por isso e meus sentimentos pela sua perda — disse Tarwin, olhando-a nos olhos muito sério. Abaixou-se e beijou sua mão. Pela primeira vez, Kaeidh percebeu que seu amigo olhava a sua irmã de forma diferente e ficou interessado em saber onde isso ia levar os dois. Nesse instante, Saphyre chegou e parou à porta, que ainda continuava aberta. Estava usando uma calça de tecido dracônico e uma blusa combinando.
Sua cintura estava marcada com um corpete justo, azul mais escuro, e uma capa dourada. Seus cabelos longos, negros e volumosos estavam repartidos de um só lado e, em suas orelhas, ela havia colocado três brincos dourados. E, nos pés, uma bota completava a roupa. Estava linda, e seu sorriso era enorme para ele. Chegou perto e a abraçou, e ela se aconchegou em seu peito, suspirando. Não precisavam de palavras. Suas mentes inquietas enviavam palavras e pensamentos soltos um ao outro, sem nem mesmo pensarem a respeito.
Ficaram ali, abraçados e satisfeitos, até Tarwin pigarrear. — Uhuhrmmm! Ah, olá, casal. Vocês estão presentes, a ponto de partir, ou gostariam que partíssemos? — Tarwin, seu patife! — disse Kae, rindo.
Virou Saphyre para eles, apresentando Tarwin: — Saphyre, este é meu amigo de infância, rei do mar Filórdico: rei Tarwin, o tritão. Tarwin se abaixou num floreio e disse: — É um prazer conhecer a âme sœur do meu melhor amigo. Olá, Saphyre. Pegou sua mão e beijou. Dando um passo atrás, falou novamente: — Trouxe uma história de minha família para você ver. Espero que goste. — Pegou o cristal e colocou nas mãos de Saphyre. — Será interessante. — Oh, é um prazer, rei Tarwin. Isto é uma memória, não é? De quem seria?
— Estas memórias são de meus bisavós, de muito tempo atrás. — Então, veremos. Da joia surgiu uma luz e dela formaram-se imagens. Saphyre viu uma pequena menina, um homem e uma senhora idosa. As imagens passavam, e eles observavam. Saphyre se emocionava: via ali algum ensinamento, não só sobre o que ela era, mas sobre como movimentar os braços para fazer algo com o fogo. Depois, viu a água também subindo como uma serpente pelo corpo do homem.
Um pouco depois, a pequena menina abria algo que parecia a Saphyre um espelho gigante, mas com a parte de dentro flutuando em tornados de cores. Seu pai, sério, a chamou de Mona e disse para ela não fazer aquilo, porque era muito perigoso na idade dela. Saphyre encheu os olhos de água. Seria sua mãe ali? Ela achava que sim. Caminhou pela sala, em volta das imagens, olhando bem para o rosto da menina, e viu nela feições de sua mãe… mas não poderia ser.
Sua mãe era jovem ainda, e, ali, no planeta Kalimares, havia muito tempo passado desde aquela memória. Saphyre hesitou em falar sobre isso. — Preciso que Ambhar veja isto. Podem chamá-la, Àsgar?
— Sim. O mensageiro já foi em busca dela, mas, aparentemente, ainda não a encontrou. — Viu algo, tarine? — perguntou Kae, olhando em seus olhos marejados. — Sim. Eu acho que a menina é minha mãe, mas a idade não é a mesma. Não pode ser. Minha mãe tem 47 anos, é jovem para ser ela ali, nesta memória tão antiga. — Sim, mas nós vivemos muito e envelhecemos muito lentamente — disse Àsgar. — E minha orelha é diferente da dela, que é arredondada em cima. Mas era assim mesmo no lugar que vivíamos.
Essa ponta igual à de vocês só apareceu depois que acordei aqui, sem memórias. Depois que me lembrei, que minha irmã me despertou as lembranças, eu percebi que éramos diferentes lá. — Vocês sabem o que são eles? — perguntou Leigh. — Sim. São feiticeiros elementares. Simplesmente a raça mais poderosa do nosso planeta, e eles foram dizimados por Borag. Não existem mais… ou pensávamos isso até ontem. Já que sua amiga descende de um, então, aparentemente, não estão mais extintos.