Capítulo 2: Coisas que Não Dizemos no Ar-Condicionado
Há uma regra não dita sobre ex-namorados: eles não deveriam ter cheiro. Deveriam ser entidades inodoras, assépticas, lembranças em preto e branco que não ativam seu sistema límbico.
Caio Lemos, infelizmente, cheirava a perigo imediato.
Assim que fechei a porta da picape, o mundo lá fora ficou mudo. O isolamento acústico era bom demais. O único som audível era o da minha própria respiração, que estava vergonhosamente acelerada. O ar-condicionado mantinha o interior numa temperatura ártica, mas o calor que subiu pelo meu pescoço não tinha nada a ver com a meteorologia.
Ele entrou no banco do motorista. O movimento fez o ar circular, trazendo aquela mistura de sândalo, café e... ele. Não havia outra palavra. Era o cheiro da pele dele, algo que meu cérebro tinha arquivado na pasta "Segurança" há dez anos e que agora, traicoeiramente, tentava acessar sem minha permissão.
Caio afivelou o cinto. O tecido da camisa de linho azul-clara esticou sobre o peito quando ele se moveu. Meus olhos, desobedientes, seguiram o movimento. Ele estava mais largo. Mais sólido. O Caio de vinte e quatro anos era um esboço; o homem de trinta e dois ao meu lado era a versão finalizada, revisada e ampliada.
— Cinto — ele disse, sem olhar para mim.
Pisquei, saindo do transe.
— O quê?
— O cinto, Helena. O carro não anda sem ele. Ou melhor, anda, mas fica apitando. E eu não tô com paciência pra barulho hoje.
Puxei a faixa de segurança com força excessiva. O mecanismo travou. Soltei, respirei fundo, puxei devagar. Click.
O som metálico ecoou como um tiro no silêncio da cabine.
Ele engatou a primeira, mas não saiu imediatamente. Tamborilou os dedos no volante revestido de couro gasto pelo uso. Eram dedos longos, de unhas curtas e limpas. Dedos de arquiteto. Dedos que desenhavam linhas retas e construíam coisas que ficavam de pé. Dedos que conheciam cada centímetro da minha coluna vertebral.
Desviei o foco para a janela. Paisagem. Botânica. Qualquer coisa que não fosse o bíceps dele roçando no console central.
A picape arrancou suavemente. Caio dirigia como vivia: sem pressa, com precisão irritante.
— A cidade mudou — soltei, só para preencher o vazio. O silêncio estava ficando denso, palpável, como se tivesse massa e ocupasse o banco de trás junto com a minha mala quebrada.
— O mundo muda — ele respondeu, os olhos fixos na estrada de paralelepípedos. — Construíram dois condomínios na saída pra praia do Tombo. E o Cine Teatro virou uma igreja evangélica.
— O Cine Teatro? — Virei para ele, a indignação momentaneamente superando o constrangimento. — Aquele com as cadeiras de veludo vermelho?
— O próprio. O teto caiu numa tempestade em dois mil e dezenove. A prefeitura não tinha verba. Venderam.
— Meu Deus. Eu assisti Titanic lá. Três vezes.
— Eu sei. — Ele parou numa faixa de pedestres para deixar uma senhora com um carrinho de feira passar. — Eu estava com você nas três vezes. Na segunda, você chorou tanto que derrubou pipoca dentro do meu tênis.
O comentário me pegou desprevenida. Foi dito com uma naturalidade brutal, como se ele estivesse comentando a cotação do dólar.
Olhei para o perfil dele. Ele não estava sorrindo. A mandíbula estava travada, um músculo pulsando levemente sob a barba rala.
Ele lembrava.
Não só lembrava, como guardava o detalhe sensorial. A pipoca no tênis.
— É — murmurei, voltando a olhar para a janela. A senhora do carrinho de feira acenou para ele. Ele acenou de volta, um gesto breve de dois dedos levantados do volante. — Faz tempo.
— Faz. — A palavra saiu seca. — Oito anos, dois meses e doze dias, pra ser exato.
Meu coração falhou uma batida. Literalmente. Senti a arritmia no centro do peito, um soco oco.
Virei o rosto para ele devagar.
— Você conta?
Ele parou o carro num sinal vermelho. Virou o rosto para mim. Pela primeira vez desde que entrei no carro, ele sustentou o olhar.
Não havia doçura ali. Havia uma franqueza devastadora.
— Eu não preciso contar, Helena. Eu sou bom com números. Datas são marcos. A gente não esquece quando uma estrutura colapsa.
A metáfora técnica me atingiu em cheio. Estrutura colapsada. Era assim que ele via o nosso fim? Não como um rompimento, mas como uma falha estrutural?
— Eu precisei ir — minha voz saiu baixa, defensiva. A velha justificativa ensaiada. — Você sabe que eu precisava. A bolsa de residência, a oportunidade no Sírio... Sereno era pequena demais.
— Eu nunca pedi pra você ficar por causa da cidade — ele disse, a voz perigosamente calma. — Eu pedi pra você não ir embora como se a gente nunca tivesse existido.
O sinal abriu.
Ele pisou no acelerador. O corpo dele foi para frente, focado na estrada, encerrando o assunto com a mesma eficiência com que fechava um projeto.
Fiquei muda.
O que eu poderia dizer? "Desculpa por ter saído de madrugada deixando apenas uma carta de três páginas porque eu era covarde demais para ver você chorar?" ou "Desculpa por ter cortado contato porque ouvir sua voz me faria largar tudo e voltar, e eu precisava provar que conseguia ser alguém longe de você?"
Nenhuma das opções parecia adequada para uma conversa de carona numa terça-feira à tarde.
O carro subiu a ladeira da Rua das Hortênsias. O motor da picape roncou baixo, vencendo a inclinação sem esforço.
A casa da minha avó ficava no topo. Era uma construção antiga, de estilo colonial, pintada de amarelo-ocre com janelas brancas. O muro estava coberto por uma trepadeira indomável de buganvílias magenta que parecia querer engolir o portão de ferro.
Caio estacionou na frente. Puxou o freio de mão com força. O som da catraca rasgou o silêncio.
— Chegamos.
— Obrigada — falei, já alcançando a maçaneta. Eu precisava sair daquele carro. Precisava de ar não condicionado.
— O registro — ele lembrou, desligando o motor.
— Caio, sério. — Virei para ele. — Você já me deu carona. Já me salvou da insolação. Eu não sou uma donzela em perigo. Eu sei abrir um registro de água. Deve estar só um pouco duro.
Ele tirou a chave da ignição. O tilintar do chaveiro — um mosquetão simples — foi a única resposta que ele me deu antes de abrir a porta e descer.
Bufei, irritada e secretamente aliviada. Desci também. O calor me abraçou de novo, mas agora vinha misturado com o cheiro de mato e terra úmida do jardim da vovó.
Caio já estava na caçamba, pegando minha mala quebrada.
Tirei o envelope pardo da bolsa, pesquei a chave de latão e a encaixei na fechadura do portão pequeno. O mecanismo girou com dificuldade, arranhando. Empurrei o metal, que rangeu num lamento agudo de ferrugem.
— Deixa aberto — Caio disse, passando por mim com a mala.
Ele entrou no jardim, ignorou o mato alto que batia na canela e colocou minha bagagem na varanda, longe da terra e protegida da rua. Só depois de garantir que minhas coisas estavam seguras é que ele se virou para mim.
— O registro — ele apontou para a lateral da casa.
Caminhamos até a entrada de serviço, onde o chão estava coberto de folhas secas que estalavam sob nossos pés. O registro ficava numa caixa de concreto baixa, rente à parede, cercada por samambaias que cresceram demais.
— Tá ali — apontei. — Eu tenho um... pano na bolsa. Pra não machucar a pele.
Caio ignorou meu comentário. Ele se agachou diante do registro.
A posição fez a calça jeans dele repuxar nas coxas. A camisa de linho esticou nas costas.
Engoli em seco.
Médica, Helena. Foco na anatomia. Flexão de joelhos, coluna neutra.
O problema era que a anatomia do Caio era perfeita. E atraente pra caralho.
Ele colocou a palma sobre a borboleta de metal do registro. Fez força.
Nada.
O metal nem se moveu.
— Tá calcificado — ele diagnosticou, sem olhar para trás. — Maresia. O sal solda o ferro se ficar muito tempo parado.
— Tem jeito? — perguntei, chegando mais perto. Perto demais. O cheiro dele ali, misturado com a terra, era inebriante.
— Sempre tem jeito. Só precisa da alavanca certa.
Ele levantou, foi até a picape e voltou com uma chave de grifo vermelha, enorme, que parecia uma arma medieval. E um spray de óleo desengripante.
Voltou a se agachar. Espirrou o óleo na rosca do registro. O cheiro químico e pungente subiu no ar.
— Segura aqui pra mim — ele ordenou, estendendo a lata de spray para trás. — Preciso das duas mãos na chave.
Peguei a lata. Nossos dedos se roçaram na troca. Dessa vez, foi impossível ignorar. Uma corrente elétrica, estática pura, subiu pelo meu braço. Ele parou por um segundo. Os dedos dele ficaram suspensos no ar antes de voltarem para a ferramenta.
Ele encaixou a chave de grifo.
— Vou fazer força. Se afasta um pouco, pode espirrar ferrugem.
Dei um passo para trás.
Caio respirou fundo e empurrou a alavanca da chave.
Vi os músculos do antebraço dele saltarem. As veias desenharam caminhos sinuosos sob a pele bronzeada. O pescoço tensionou. Ele grunhiu baixo, um som de esforço contido que fez meu útero contrair involuntariamente.
Crac.
Um som de metal cedendo.
— Foi — ele disse, girando a ferramenta agora com facilidade.
O som de água correndo pelos canos ecoou dentro da parede, como se a casa estivesse acordando de um coma profundo, respirando novamente.
Caio levantou. Limpou os dedos na lateral da calça jeans, manchando o tecido com um pouco de ferrugem e óleo. Ele não pareceu se importar.
Ele se virou para mim. Estávamos a menos de um metro de distância, no corredor estreito entre a casa e o muro, cercados por samambaias.
Ele estava suado. Uma gota brilhava na têmpora dele, escorrendo para a barba. O cabelo estava levemente despenteado pelo esforço. Ele parecia real. Cru.
E eu, com minha roupa de viagem amassada e meu "fracasso logístico", me senti exposta.
— Água ligada — ele disse. A respiração dele estava um pouco mais pesada. Ou talvez fosse a minha.
— Obrigada — minha voz saiu um sussurro. — Quanto eu te devo? Pelo serviço de encanador de luxo?
Tentei fazer uma piada. Tentei usar o humor como escudo, como a Tarah DeWitt me ensinaria.
Mas o Caio não riu.
Ele deu um passo na minha direção. Recuei instintivamente e minhas costas bateram na parede fria da casa.
Não tinha para onde fugir.
Ele parou.
O olhar dele desceu para a minha boca, depois subiu para os meus olhos. Era um escrutínio lento, deliberado.
— Você não me deve nada, Helena. — A voz dele baixou uma oitava. Era grave, rouca, íntima. — A gente não tá zerado. A conta entre nós dois é muito mais alta do que um registro emperrado.
O ar entre nós vibrou.
Era desejo? Sim.
Era raiva? Também.
Era aquela atração magnética e desastrosa de duas pessoas que compartilharam fluidos, segredos e sonhos, e que agora não sabiam como compartilhar o mesmo CEP.
Ele levantou o braço. Por um segundo insano, achei que ele fosse tocar meu rosto. Prendi a respiração, meu corpo inteiro se inclinando em direção a ele, ansiando pelo contato como uma planta ansiando por luz.
Mas ele apenas apoiou a palma na parede, ao lado da minha cabeça.
Ele se inclinou, aproximando o rosto do meu ouvido. O calor do corpo dele era uma fornalha.
— A Nina te deu a chave da porta da frente — ele sussurrou, e o hálito quente dele arrepiou os pelos da minha nuca. — Mas a porta dos fundos tá com a fechadura frouxa. Qualquer um abre com um empurrão. Tranca por dentro com o ferrolho. Hoje à noite.
Ele se afastou abruptamente, como se a proximidade física fosse queimar.
A frieza voltou ao espaço onde o corpo dele estava.
— Bem-vinda de volta, Helena — ele disse, pegando a chave de grifo do chão. — Tenta não fugir antes do amanhecer dessa vez.
Ele deu as costas e saiu andando pelo corredor de samambaias.
Ouvi o portão bater. O motor da picape ligar. E o som dos pneus no paralelepípedo se afastando.
Fiquei ali, encostada na parede amarela descascada da casa da minha avó, com uma lata de óleo desengripante na mão e o coração batendo tão forte que parecia querer quebrar minhas costelas de dentro para fora.
A água corria nos canos, enchendo a caixa d'água.
A casa estava viva.
E eu, infelizmente, também.