Capítulo 1: A Grafin von Lichtenwald A Elegia Silenciosa · Capítulo 2 de 2
Obra Menu

Capítulo 1: A Grafin von Lichtenwald

Dia 01 de março de 1914.

Bridget Murphy.

A náusea sempre me assombrava nos primeiros dias.

Ficava de cama, igual uma moribunda – uma incapaz –, enquanto Madame Kingsley, no auge de seus 60 anos, saracoteava feito uma mocinha para lá e para cá pelo navio. Ela estava muito acostumada com esse tipo de viagem, o falecido era dono de uma companhia marítima e ela costumava viajar sempre que podia com ele para todo lugar.

Sra. Agatha Kingsley, minha senhora, era uma viúva rica, membro da alta sociedade de Londres, cujo marido deixou-lhe uma herança avantajada, que ela gastava majoritariamente em viagens. Queria conhecer o mundo antes de morrer, dizia sempre ela. E, juntas conhecemos. De Cairo a Nova Iorque, fomos a todo lugar.

Agora, o plano era conhecer as ex-colônias de Portugal e Espanha. Começaríamos com o Brasil. Depois Argentina e Chile, terminando nossa rota nos Estados Unidos novamente. Seriam quase seis meses de viagem. Tudo com muito luxo e conforto, é claro, que minha senhora já tinha idade – era uma aventureira, entretanto não dispensava a pompa e a finesse.

E, ela havia me escolhido e treinado para acompanhá-la durante todas as suas andanças. Tinha me adotado quando tinha já 15 anos num orfanato na Irlanda, e criara-me para ser a criada perfeita – a mais educada, fina, graciosa, inteligente… Exatamente como uma dama de companhia deveria ser.

Assim, eu havia me tornado. Quase perfeita…

Se não fosse o fato de eu enjoar toda vez!

– Vamos, Bridget! — exclamou Madame Kingsley, enquanto se arrumava para o jantar de “Boas Vindas” – Pare de fazer corpo mole, menina! Eu, na sua idade, não perdia uma oportunidade de ir a uma festa!

Eu a auxilei a colocar o vestido preto com saia cinza e detalhes bordados em dourado. Ajeitei-lhe os longos cabelos grisalhos, outrora negros, num delicado e elegante coque e entreguei-lhe o chapéu com plumas escuras, que combinava com o vestido.

– Está divina. – eu disse, admirando como uma mulher de 60 anos ainda conseguia dar o ar de sua graça e encantar com sua beleza amadurecida.

– Você não vem mesmo, querida? – ela me encarou, com o olhar estranhamente preocupado, o que não lhe era comum.

Eu apenas neguei, tímida, desviando o olhar.

– Então, pedirei que o serviço de quarto lhe traga uma sopa. – disse secamente, e saiu do quarto sem falar mais nada.

****

Era inevitável que, depois de tomar um caldo de ervilhas quentinho, as náuseas piorassem, e os vômitos atormentaram-me noite adentro – como era de ser esperado. O balanço do navio, aquele vai-e-vem incansável e constante, açoitava-me, fazendo tudo girar ao redor de mim, causando um rebuliço nas minhas entranhas.

Era demais até para mim.

Precisava ver um médico.

A área médica ficava no segundo andar, um andar abaixo do meu camarote. Penei, como uma bêbada recém saída do baile, pé por pé, pelas escadas auxiliares, que ficavam num canto escuro – era melhor que ninguém me visse naquele estado.

Apoiando-me nas paredes para não desfalecer ao chão, desci até o segundo patamar com muita, mas muita dificuldade e, sem poder evitar, vomitei mais caldo de ervilhas ao pé da escada.

Que desgraça!

Que desgraça!

Se Madame Kingsley me visse agora, repreenderia-me duramente: “Não é assim que se comporta uma dama da alta sociedade."

De fato, sair do meu camarote foi a segunda pior ideia que tivera essa noite. A primeira, com certeza, fora aceitar a tal sopa de ervilhas! Bom, agora era tarde demais para desistir…

Enquanto percorria o longo corredor, onde tudo girava como um redemoinho infinito – sentia-me como se estivesse percorrendo um labirinto sem rumo –, minhas pernas tremiam, fracas. Cansadas demais para lutar. Foi nesse momento que a vi pela primeira vez.

Primeiro, achei que estava tendo uma alucinação. Afinal, uma mulher tão linda, morena, com um vestido curto que terminava em um aro com plumas brilhosas, e, por baixo, estava com uma calça escura e reta. Ela percorria o corredor mal iluminado, embora as luzes parecessem se acender ao seu redor quando ela passava.

Eu nunca vira um vestido daquele antes. Não era como se eu já tivesse visto uma mulher de calças. Era curioso, e ao mesmo tempo intrigante. Chegava a ser até bonito, se não fosse muito esquisito.

Muito esquisito.

Nossos olhares se cruzaram por um breve instante e, não sei por quê, mas aquela distinta mulher veio até mim. Seu sapato de salto tilintando no tabuado do corredor, e eu, sem conseguir conter-me, cedi ao chão.

— Precisas de ajuda? — perguntou ela, no seu inglês com sotaque forte e, ao mesmo tempo, gracioso.

— Eu… Eu…

— Bebeste em demasiado? — ela questionou, seus olhos verdes-acastanhados pareciam seriamente preocupados comigo, uma completa estranha. — Vem, vou levar-te até a área médica.

E, como se estivesse um sonho, flutuei até meus pés tocarem sutilmente o chão. Aquilo foi, das coisas esquisitas da noite, a mais surreal e assustadora de todas.

Sem medo, quebrando qualquer regra de etiqueta, aquela mulher agarrou-me pela cintura, apoiando-me contra seu corpo esguio e, ao mesmo tempo, forte.

— A propósito, me chamo Alzira. Alzira, Grafin von Lichtenwald.

****

– Não se preocupe, é só mais um caso de cinetose. – explicou o médico, calmamente, enquanto a fumaça do seu cigarro barato invadia meus pulmões, fazendo-me tossir compulsivamente.

– E, é grave, doutor? – perguntei, um pouco assustada, entre as sibilâncias.

– Isso quer dizer que tu ficas tonta pelo balanço do barco, é bem comum nesse tipo de viagem – explicou Alzira, sorrindo para mim.

O jovem médico assistente, Dr. Oliver Harland, um rapaz simples — devia ter no máximo uns 27 anos —, vestes de segunda mão – com certeza, um recém formado que ficara de plantão, enquanto seu chefe gozava a “Festa de Boas Vindas”. Ele encarou a Grafin von Lichtenwald com certo espanto, como se não esperasse tanto conhecimento vindo de uma mulher do seu feitio.

De uma mulher de cor, eu presumi.

– É conhecedora das práticas médicas, senhora…? – ele, por fim, disse.

– Estudei de tudo um pouco, Dr. Harland. – apenas respondeu a senhora, com um gentil sorriso e concluiu, com o nariz empinado — Grafin von Lichtenwald, ao seu dispor.

Senti o médico ao meu lado engolir seco e enrubescer. Talvez não tivesse feito por maldade, mas ofender aquela mulher parecia a última coisa no mundo que eu gostaria de fazer.

– Perdão, senhora Grafin… — o doutor murmurou, finalmente apagando aquele maldito cigarro. – Então, senhorita Murphy – e voltou-se para mim, com aquele olhar de cansaço e desânimo. As olheiras profundas já bem salientes e era recém a primeira noite de viagem. – Vou prescrever-lhe uma pílula muito boa para cinetose, chás, muito líquido e repouso. Em alguns dias, seu labirinto, que é uma parte do ouvido, terá eventualmente acostumado com balanço do barco e ficará tudo bem.

– Ótimo. – respondi, satisfeita. Parecia-me um bom plano.

Deixei que a enfermeira preparasse uma infusão hidratante, pois eu havia perdido muitos líquidos durante todo meu adoecimento. Enquanto isso, senti o olhar curioso da Grafin repousar sobre mim. Ela aproximou-se sorrateiramente e cochichou:

– Me desculpa? Achei que estivesse embriagada… — e deu uma risadinha tímida.

– Tudo bem.

– Bridget Murphy, isso?

– Pode me chamar de Bridget. – eu acrescentei rapidamente, sem pensar duas vezes.

Por que eu disse isso?

Por que dei tal intimidade a uma total desconhecida?

Ela não pareceu nenhum pouco espantada. Talvez estivesse acostumada com esse tipo de interação, já que seu olhar inspirava simpatia. Pareciam querer convidar-nos a entrar e tomar uma xícara de chá. Abriu um largo sorriso e responde:

– Pois me chame de Alzira, por favor. Sabe, eu sinto falta das pessoas me chamando pelo meu nome… No meu país, as pessoas normalmente se chamam pelo primeiro nome, ao menos aonde eu nasci.

– Desculpe a curiosidade, mas qual o seu país?

Alzira lançou-me um olhar repreendedor.

– Que isso, Bridget, achei que tínhamos rompido com as amarras da etiqueta e da polidez! Não precisa se desculpar, não… Sou brasileira, carioca para ser mais específica.

Eu dei uma risadinha comedida. Sentia-me já muito melhor, menos tonta e enjoada – não sabia se era a visita ao médico ou se era o resgate da Grafin…

– Está voltando para casa, então?

– Depois de 10 longos anos, digamos que sim. – e sorriu. Um sorriso repleto de esperanças e sonhos, eu podia ver de longe. Era uma pessoa cheia de planos, desejos e ambições – o que era raro para uma mulher da nossa época.

Fiquei me questionando quais eram os meus, e não consegui rapidamente pensar em nenhum. Afinal, se Madame Kingsley (Deus me livre) falecesse naquele momento, eu não teria nem onde morar, não teria emprego, nem renda. Era por esse – e por tantos outros motivos – que o mais novo objetivo de minha senhora estava sendo me conseguir um bom marido. Ela sentia que estava envelhecendo e, por mais que não gostasse de admitir, se importava comigo e não queria que eu ficasse desassistida caso ela partisse.

Eu já estava um pouco velha para casar. Tinha 23 anos. Além disso, provinha de uma família irlandesa humilde. Meu pai era alcoólatra e extremamente agressivo – dei graças a Deus quando nos abandonou. Éramos 5 irmãos. Vivíamos com dificuldades, porém o grande problema foi realmente que mamãe faleceu de tuberculose. Eu já tinha 12 anos. Velha demais para qualquer coisa, fui parar num orfanato, até ser resgatada para ser criada de Madame Kingsley. Por mais educada e bonita que eu seja, que jovem bem apessoado casaria com uma criada órfã?

– Prontinho. – a enfermeira interrompeu nossa conversa, entregando-me uma jarra com um líquido não muito apetitoso, o qual o médico orientou-me a tomar 3 vezes ao dia, para me manter devidamente hidratada.

– Bom, muito obrigada, Alzira, pela ajuda. Foi deveras essencial. – eu agradeci, um pouco envergonhada pela bagunça que eu fizera tentando chegar até a área médica daquele jeito.

– Deixa-me eu te acompanhar até o teu camarote. – ofereceu a Grafin, gentilmente.

– Que isso, você já fez demais por mim. Eu estou bem, consigo ir sozinha. – argumentei, mais envergonhada ainda – tanto que não pude evitar que a minha pele pálida ficasse rubra.

Despedimo-nos com um aceno sutil. Senti o olhar de Alzira perseguir-me e acompanhar-me desaparecer por meio do longo corredor, enevoado pelos sons do meu tamanco contra o piso de tabuado marrom.

Que encontro peculiar, eu diria…

****

Dia 02 de março de 1914.

Despertei com duas batidas suaves na porta. Os raios de sol adentravam pelas frestas da cortina, denunciando o horário já avançado. Assim, perderíamos o horário do café da manhã – e a minha senhora detestava perder um evento social!

Levantei-me, atucanada, e coloquei meu roupão de cetim azul – talvez não muito apropriado para essa situação – entretanto ponderei que era melhor que abrir a porta de pijamas. Talvez fosse algum bilhete de algum outro passageiro à minha senhora, ou algum aviso do Capitão Harrington.

Abri apenas uma fresta da porta, deparando-me com menino (devia ter máximo uns 15 anos), com vestes da tripulação. Admito que o achei jovem demais para trabalhar num navio deste porte, contudo o trabalho infantil não era algo necessariamente ilegal – não em águas internacionais, não é mesmo? Ele sorriu para mim, muito simpático, porém apresentava um olhar perdido, não pude deixar de reparar.

– Sim?

– Bom dia, my lady – ele disse e prontamente entregou-me um envelope pesado. – Entrega para a cabine 22.

– Ah, obrigada.

Fechei a porta, deixando cair um bilhete ao chão.

– Briget! – exclamou Madame Kingsley, saindo do seu quarto com uma preguiça de quem fora dormir tarde e recém acordara. – Quem estava à porta?

– Era o entregador. Trouxe uma encomenda. – expliquei, balançando o envelope em minhas mãos. Recolhi o bilhete do chão e entreguei em suas mãos, como de costume.

A senhora pigarreou ao ler o pedaço de papel, um pouco irritada. Mirou-me com seus severos olhos castanhos e, finalmente, leu em voz alta:

“Cara Bridget,

Espero que esteja bem depois da última noite.

Fiquei pensando em como poder ajudá-la a tornar sua viagem mais agradável, então selecionei pessoalmente um dos meus livros favoritos do meu acervo particular.

Melhoras,

Alz.”

– Quem é Alz? – completou, impaciente. Ela odiava perder o controle sobre as situações, gostava de ter tudo sobre seu domínio sempre. Era extremamente rígida, quase militar. — E, que diabos aconteceu noite passada?

Alz?

Ontem à noite…

Só podia ser…

Alzira!

Abri rapidamente o envelope e me deparei com uma edição (em inglês, o que me surpreendeu mais) de Fausto - Parte I, de Johann Wolfgang von Goethe. Era uma escolha um pouco singular de livro – para não dizer talvez um pouco excêntrica.

– Fausto? – a Madame perguntou, com desdém, se aproximando e analisando o exemplar velho e surrado em minhas mãos – Que mal gosto! Ora, veja só! Deixo você sozinha por uma noite e já sai aprontando por aí?

Esclareci para minha senhora sobre os acontecimentos da noite passada. Ela ouviu atentamente, com um julgando-me a cada palavra dita, torcendo o nariz empinado. Por fim, conclui:

– Não foi assim que lhe eduquei, Bridget.

– Desculpe, Madame Kingsley.

– Não. Não há desculpas. Você me envergonhou com seu comportamento deplorável. — ela apenas falou isso, voltando os olhos e encarando a janela – E essa Alzira? Não gostei dela, simplesmente não gostei dela.

Apertei o livro com força contra o peito, os olhos marejados, segurando-me para não desabar em frente a minha senhora. Qualquer lágrima seria um sinal de fraqueza, e a fraqueza não era tolerada.

“Apenas os fortes persistem, Bridget."

1/1
Menu

Fazer anotação