livro em mãos. Fissura · Capítulo 3 de 3
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livro em mãos.

Espero que esta leitura provoque inquietações, desperte reflexões e permaneça com você muito depois da última página. Porque algumas histórias terminam; outras apenas revelam as fissuras que sempre estiveram ali. Boa leitura. Nãnashara Boehm

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Sumário O peso do silêncio ...................................................... 6 O chamado que não tem voz .................................... 12 O caminho de volta ................................................... 17 O que caminha entre as árvores ............................... 21 O corpo que devora .................................................. 25 O toque sem permissão ........................................... 30 O espelho quebrado ................................................. 32 O incêndio que não pôde existir ............................. 34 O trono dos que se acham deuses ........................... 36 O quarto que nunca foi abrigo ................................. 38 O dia em que ela quase não ficou ............................ 41 O alívio que envenena .............................................. 43 A perseguidora ......................................................... 50 A chegada ................................................................ 54

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O peso do silêncio O quarto de Emily parecia existir à margem do próprio dia. Mesmo com a manhã insinuando-se pelas frestas da janela, a luz entrava fraca, amarelada, como se tivesse atravessado uma camada espessa de poeira antes de tocar as paredes. O espaço era pequeno, sufocado por móveis desalinhados, roupas esquecidas sobre a cadeira, livros empilhados sem ordem, papéis dobrados como promessas nunca cumpridas. Nada ali era propriamente sujo, apenas desajustado, dando a impressão de que cada objeto foi abandonado no instante exato em que perdeu o sentido. Sobre a mesinha ao lado da cama, um copo com água permanecia pela metade. Ao redor dele, caixas de remédios abertas, cartelas incompletas, comprimidos soltos, o celular, o tablet, um carregador emaranhado. Um altar improvisado para a tentativa diária de continuar. Emily despertou como todos os dias. Não houve susto, nem pressa, só a consciência lenta de estar novamente dentro do próprio corpo. Sentou-se na cama com esforço, parecia que o colchão a puxava de volta. Os pés tocaram o chão frio, mas ela não se levantou. Ficou ali, imóvel, com os olhos fixos na parede à sua frente, onde uma pequena mancha de umidade desenhava formas que mudavam conforme o ângulo do olhar. Respirou fundo. Uma vez. Duas. Três. O ar parecia pesado demais para seus pulmões. Levou as mãos à nuca e, num movimento quase automático, 6

curvou-se para frente, projetando a cabeça em direção às pernas. Não era alongamento. Era um gesto de rendição. Um pedido silencioso para que o peso dentro dela encontrasse algum lugar onde repousar. Sem erguer o rosto, esticou o braço, pegou o copo com água e engoliu os comprimidos um a um, sentindo-os descer pela garganta como pequenas promessas químicas de estabilidade. Quando enfim se levantou, caminhou pelo quarto arrastando os pés, cada passo parecia negociado com uma força invisível. O corpo inteiro denunciava um cansaço que não vinha da falta de sono, mas do excesso de existir. O celular começou a tocar. O som vibrou sobre a madeira da mesinha, insistente. Emily lançou um olhar rápido para a tela. O nome do contato a fez desviar o rosto de imediato. Não atendeu. O aparelho tornou a vibrar. E depois outra vez. Logo em seguida, a sucessão de notificações: mensagens, chamadas perdidas, novos alertas. Ela respirou fundo, fechou os olhos por um instante e seguiu para o banheiro. Precisava lavar o corpo antes de decidir se tinha forças para lavar o passado. A água do chuveiro escorreu quente, mas não trouxe conforto. Apenas percorreu sua pele como um lembrete mecânico de que ainda estava ali. Quando voltou ao quarto, com os cabelos úmidos e o rosto sem 7

expressão, o celular permanecia aceso, como um pequeno farol acusatório. Emily sentou-se na beira da cama e leu as mensagens. Eram de Miriam, sua prima. “Por favor, me liga.” “É urgente.” “Eu preciso falar com você.” “É muito sério.” O nome pulsava na tela, uma espécie de ferida reaberta. Ela ficou encarando o aparelho por longos segundos. Depois por minutos. A vontade de ignorar disputava espaço com uma sensação incômoda de que, dessa vez, o silêncio também teria um preço. Com um suspiro quase imperceptível, tocou no botão de chamada. — Alô. — Oi, Miriam. — Emily, que bom que você ligou! — Você disse nas mensagens que era urgente. O que foi? — Seus irmãos tentaram de todas as formas falar com você nos últimos dias, mas não conseguiram, nem as mensagens chegaram. — É o que acontece quando os contatos estão bloqueados. — Emily, nós somos sua família, você não acha que...

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— Você fez tanta questão do meu contato para fazer discurso sobre família? Se for isso, a gente já encerra por aqui. — Não, calma. Eu liguei para te falar sobre a vó. — O que que tem? — Ela não está bem. Já estamos considerando que está chegando aos seus últimos dias e... — É o ciclo da vida. Uma hora esses dias chegam pra todo mundo. — Emily, pelo amor de Deus, não seja tão fria assim. A vó nunca te fez mal algum para você agir dessa maneira. O maxilar de Emily se contraiu. — Existem formas diferentes de se fazer mal a alguém. Do outro lado da linha, houve um breve silêncio, pesado como uma respiração contida. — Enfim... nossa avó quer te ver. É a única coisa que ela pede todos os dias. — A gente faz uma chamada de vídeo. Algo incrível que a tecnologia nos proporciona. — Emily, é sério. Não é hora para brincadeira. A vó quer você aqui, perto. Ela quer uma chance de se despedir.

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— Eu já me despedi de todos vocês anos atrás. — Prima, deixa um pouco essa mágoa de lado. Faz um esforço de atender a esse último pedido da nossa avó. Vai te fazer bem também. — Olha, eu vou pensar. Tenho muitas coisas para fazer aqui. Eu tenho minha vida, meu trabalho. Não posso simplesmente largar tudo para isso. — Não é pra “isso”. É pela família. — Quando eu puder, eu aviso, ok? — Certo... espero que seja a tempo. — Tchau. Emily encerrou a chamada antes que qualquer outra palavra pudesse atravessar a linha. O celular escorregou de sua mão e caiu sobre a cama. Ela se deitou de lado, puxou as pernas contra o peito e as envolveu com os braços, tentando impedir que algo dentro dela se partisse. A respiração veio irregular, curta, trêmula, até que, pouco a pouco, foi encontrando ritmo. Mas a mente já não estava mais ali. O quarto dissolveu-se. A parede, o copo, os remédios, a cidade grande, tudo foi engolido por uma memória que não pediu permissão para voltar. Era como se ela estivesse vendo, naquele momento, a Emily de onze anos, sentada à mesa de uma cozinha antiga, onde o cheiro de madeira envelhecida 10

se misturava ao de café. Os móveis eram rústicos, marcados por riscos e rachaduras. A louça de porcelana repousava sobre a mesa como peças frágeis demais para aquele ambiente. À sua frente, a avó mantinha a postura rígida. O olhar duro, a voz afiada. — Emily, você sabe que é muito feio ficar inventando histórias, né? A menina apertou as mãos no colo. — Mas, vó, eu não inventei nada! — Chega. Eu já disse que isso é horrível. Onde já se viu mentir desse jeito? — Eu juro, não estou mentindo! — Basta. Não vou falar outra vez. Não quero mais ouvir você falando uma coisa dessas, está entendendo? A pequena Emily sentiu os olhos arderem. As lágrimas não caíram de imediato. Elas ficaram ali, acumuladas, como se até chorar precisasse de autorização. No quarto do apartamento, anos depois, as lágrimas finalmente desceram. Escorreram pelo rosto adulto de Emily, carregando consigo o peso de uma infância que jamais havia sido realmente deixada para trás. E, naquele instante, enquanto soluçava em silêncio, ela teve a estranha sensação de que não era apenas uma lembrança que havia retornado. Era algo que nunca tinha ido embora. 11

O chamado que não tem voz Emily deixou o apartamento como quem abandona um abrigo instável. Trancou a porta com cuidado excessivo, conferindo duas vezes se a fechadura havia realmente cedido ao clique final. O corredor do prédio estava silencioso demais, e o eco de seus próprios passos lhe causava um desconforto inexplicável. O carro a aguardava no estacionamento como um animal adormecido. Ao entrar, sentiu o cheiro de metal, tecido e algo indefinido, um odor que sempre associava à solidão das grandes cidades. Girou a chave e seguiu pelas ruas ainda impregnadas de pressa, buzinas, semáforos e rostos anônimos. Quando passou em frente à rodoviária, algo se deslocou dentro de seu peito. Um aperto lento, progressivo, ela sentia mãos invisíveis comprimindo seu coração por dentro. O prédio da rodoviária, com seus vidros opacos e filas desordenadas, pareceu crescer diante dela, ocupar mais espaço do que deveria. Uma culpa a atravessou. A imagem da avó — frágil, silenciosa, aguardando — surgiu sem forma definida, mas com peso suficiente para dobrar sua respiração. Emily sentiu-se pequena, insuficiente, cruel. A ideia de negar uma despedida transformava-se, em sua mente, numa sentença contra si mesma. dela.

“Você é a pior pessoa” — murmurou algo dentro

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Desviou o olhar, acelerou o carro e seguiu para o escritório. Mas o pensamento não ficou para trás. Ele a acompanhou como uma sombra. No trabalho, Emily parecia presente apenas fisicamente. Sentou-se diante do computador, abriu arquivos, respondeu e-mails, mas não absorvia nada. As palavras se misturavam na tela, os números perdiam sentido, as imagens dos projetos se deformavam levemente, como se o monitor respirasse. Tentou se concentrar. Não conseguiu. O nome da avó brotava em sua mente, repetido em um ritmo quase hipnótico. A cidade natal surgia como uma fotografia antiga, amarelada, cheia de rachaduras. Quando percebeu que não conseguia sequer compreender o que estava lendo, fechou os olhos e pediu para desmarcar uma reunião importante. Usou a justificativa de uma indisposição repentina. Na hora do almoço, levantou-se sem fome, sem plano, sem destino claro. E, ainda assim, seus passos a levaram exatamente para onde ela tentava não pensar: a rodoviária. O lugar parecia diferente visto de perto. Mais alto, mais estreito, mais opressor. O ar lá dentro era pesado, misturado a combustível, suor, comida requentada e despedidas não ditas. Emily caminhou até o guichê meio sonâmbula. Pediu informações, ouviu horários, confirmou datas, anotou valores. Descobriu que havia uma passagem 13

para aquela mesma noite. Chegaria à cidade natal na manhã seguinte. Seu coração acelerou. Sem compreender exatamente o que a movia, estendeu o cartão. A compra foi rápida, mecânica, irreversível. Quando recebeu o ticket, sentiu o peso do papel. Aquele pequeno retângulo continha uma sentença. Parou diante do portão de embarque e ficou ali, imóvel, observando pessoas que chegavam, partiam, choravam, riam, se despediam. Cada rosto parecia carregar uma história que não lhe pertencia e, ainda assim, todas pareciam refletir algo dela. Ao dar o primeiro passo em direção à saída, seu corpo tremeu. Um espasmo breve, mas intenso. O momento certo existia? Ou apenas momentos inevitáveis? Pegou o celular e enviou uma mensagem ao trabalho, informando que não retornaria à tarde, que precisava viajar para resolver assuntos familiares e que estaria de volta em dois dias. Ao pressionar “enviar”, sentiu que, de certo modo, tinha apagado uma linha invisível entre o presente e algo que não queria mais encarar. O apartamento a recebeu com uma sensação estranha. O espaço parecia menor, as paredes pareciam mais próximas; o teto, mais baixo. 14

Parecia que o cômodo estava se fechando lentamente ao seu redor, como um organismo vivo que respirava em sincronia com sua ansiedade. Enquanto arrumava a mochila, suas mãos tremiam. Dobrou roupas com cuidado excessivo, qualquer movimento brusco parecia poder desorganizar algo além dos tecidos. A respiração começou a falhar, o ar não entrava por completo, o peito apertou. O medo subiu como um líquido quente pela garganta, o coração disparou. As paredes começaram a girar — ou talvez fosse ela. Sentou-se na cama, apoiou os cotovelos nos joelhos, tentou controlar a respiração, mas a sensação de pânico já se espalhava, ocupando cada pensamento. Pensou em desistir, pensou em rasgar a passagem. Pensou em simplesmente desaparecer. Mas algo dentro dela, uma voz sem palavras, uma intuição sem forma, insistia que aquela viagem era necessária. Que havia um propósito escondido sob o medo. Que certas dores só se curam quando são encaradas. Então, seus olhos pousaram no ticket, no nome da cidade. E, naquele instante, parecia que dezenas de portas se abriam ao mesmo tempo dentro de sua mente. Rostos, vozes, gritos, silêncios, cheiros, toques, olhares. Fantasmas. Não etéreos, não visíveis; mas vivos o suficiente para doer. Todos retornavam, todos exigiam espaço. 15

Emily fechou os olhos com força, sentindo que talvez sua mente não estivesse pronta para suportar tudo aquilo de uma vez. Mas, mesmo assim, estava ali. Com a mochila pronta, com a passagem em mãos, com o corpo à beira do colapso, com o coração dividido entre fugir e enfrentar. O que ela não sabia — e ainda não podia saber — era que a cidade não a esperava apenas com lembranças. Ela a esperava com algo que nunca havia sido resolvido.

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O caminho de volta A noite já havia tomado a cidade quando Emily fechou a porta do apartamento. O clique da fechadura soou mais alto do que deveria, ecoando pelo corredor vazio como um aviso. Ela permaneceu alguns segundos parada, com a mão ainda apoiada na maçaneta, sentindo o metal frio sob os dedos, aquele talvez fosse o último ponto de apoio antes de atravessar um limite que não conseguia enxergar. Chamou um carro por aplicativo. Enquanto aguardava, apoiou-se na parede e respirou fundo, tentando ignorar a sensação de que estava abandonando algo mais do que um lugar. Havia, naquele gesto, uma despedida que não sabia nomear. Quando o carro chegou, o motorista a cumprimentou com cordialidade automática. Emily respondeu num tom quase inaudível e se acomodou no banco traseiro. O trajeto até a rodoviária tornou-se um espaço de confronto. Ela pensava na vulnerabilidade que estava escolhendo. Pensava no risco de tocar feridas que nunca cicatrizaram. Perguntava-se, em silêncio, se valia a pena atravessar novamente os corredores da memória apenas para atender ao pedido de alguém que, durante tanto tempo, era só uma marca em seu passado. “Talvez eu esteja me traindo” — pensou. Mas o carro continuava avançando. Cada semáforo vencido era uma recusa a desistir. Cada 17

esquina ultrapassada era um passo mais fundo em direção ao que ela temia. Quando a rodoviária surgiu à frente, iluminada por lâmpadas frias, Emily sentiu o estômago se contrair. Pagou a corrida, agradeceu mecanicamente e ficou alguns segundos parada na calçada, observando o fluxo de pessoas entrando e saindo, aparentando compartilhar uma urgência que ela ainda não compreendia por completo. Entrou. O ambiente a recebeu com seu cheiro antigo de espera. O som dos anúncios nos alto-falantes parecia distante, distorcido, como se viesse de dentro de sua própria cabeça. Sentou-se em um dos bancos e, sem perceber, sua mente a levou para outro tempo. Ela se viu mais jovem. Estava na rodoviária de sua cidade natal. O banco era duro e frio, sugando o calor de suas pernas. As malas repousavam no chão, pesadas demais para alguém que ainda aprendia a carregar o próprio peso. Ela chorava. Chorava de dor, de alívio, de medo, de felicidade. Chorava por tudo o que havia suportado e por tudo o que ainda não sabia que teria de enfrentar. Sentia que estava escapando. Escapando de gritos, silêncios, humilhações, negligências, ausências. Escapando de um martírio que aprendera a chamar de lar.

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E, ao mesmo tempo, carregava na mente as últimas palavras da mãe, afiadas como lâminas: — Acha que vai ser fácil viver sozinha? Está se achando só porque conseguiu um empregozinho na cidade grande. Aposto que não é isso tudo o que contou! Quando estiver na merda, não adianta voltar com o rabinho entre as pernas, não! Aquelas palavras se cravaram nela como uma sentença. E agora... agora elas retornavam. Não como som, mas como ferida aberta. Emily piscou e voltou ao presente. Estava novamente na rodoviária da cidade grande, com a mochila aos pés e o coração inquieto. As palavras da mãe ecoavam em sua mente com a mesma força. Mas havia uma diferença. Ela não estava voltando derrotada, não estava voltando em busca de abrigo, não estava voltando por fraqueza. Estava voltando porque haviam pedido. Estava voltando porque havia algo que ainda não tinha sido encerrado. Mesmo relutante, levantou-se, fez o check-in, entregou documentos, recebeu orientações. Cada etapa parecia um ritual silencioso de passagem. Quando entrou no ônibus, foi para seu assento próximo à janela. O interior do veículo era iluminado por uma luz amarelada, cansada. As pessoas conversavam em murmúrios, mexiam nos celulares, ajeitavam bolsas, todos prestes a dormir.

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Emily permaneceu imóvel. O coração pulsava tão forte que ela sentia as batidas na garganta. As mãos suavam, os pensamentos se atropelavam. Quando o ônibus começou a se movimentar, uma onda de desespero a atravessou. Não era medo do caminho, era medo do destino. As lágrimas brotaram sem aviso. Ela virou levemente o rosto para a janela, permitindo que escorressem discretas, silenciosas, suficientes para aliviar, insuficientes para curar. Do lado de fora, as luzes da cidade se alongavam em rastros tremidos. Do lado de dentro, Emily chorava não apenas pelo que estava voltando a enfrentar, mas por tudo o que nunca havia conseguido deixar para trás. E, enquanto o ônibus se afastava, ela teve a estranha impressão de que não era ela quem retornava à cidade. Era a cidade que estava, finalmente, vindo buscá-la.

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O que caminha entre as árvores Emily manteve a cabeça apoiada no vidro da janela. O frio da superfície atravessava sua pele como um toque impessoal, quase clínico. Do lado de fora, a noite se estendia em camadas: campos escuros, manchas de água refletindo a lua, árvores altas formando corredores sombrios, trechos de terra que pareciam engolir a própria estrada. O ônibus avançava, cortando a paisagem com seus faróis trêmulos. Ela passou a observar os detalhes. O contorno irregular dos troncos, o movimento das folhas, agitado por um vento que ela não podia sentir. O brilho intermitente das áreas alagadas, como olhos abertos na terra. A repetição da paisagem começou a anestesiar seus pensamentos. Pela primeira vez desde que embarcara, a mente desacelerou. As imagens do passado perderam nitidez, substituídas por aquela sucessão hipnótica de sombras e reflexos. Foi então que algo se deslocou entre as árvores. No início, Emily acreditou que fosse apenas um jogo de luz. Talvez um tronco torto, talvez um animal atravessando o campo, talvez apenas cansaço. Piscou. A figura ainda estava lá. Não era possível distinguir forma exata. Parecia alta demais para ser humana, mas estreita demais para ser uma árvore. O 21

contorno era impreciso, parecendo estar sempre em movimento, mesmo quando permanecia parada. Ela tentou ignorar. Forçou os olhos a se fixarem em outro ponto, mas a figura insistia em permanecer. E, então, Emily percebeu algo que fez sua respiração falhar: a criatura — fosse o que fosse — parecia acompanhar o ônibus. Não corria, não caminhava. Deslizava. Flutuava a poucos centímetros do chão, mantendo a velocidade do veículo. Seu corpo se enrijeceu. O coração começou a bater mais forte, mais rápido, mais alto. A cada curva da estrada, a figura se aproximava um pouco mais. Não em saltos bruscos, mas em aproximações sutis, quase educadas. Então sentiu o estômago afundar. Agora conseguia perceber traços. Um rosto alongado, olhos fundos, uma boca que não parecia sorrir nem gritar — apenas existir. A distância diminuía. O campo já não era tão largo, as árvores já não pareciam tantas. A figura vinha, e vinha, e vinha. Até que, de forma abrupta, ocupou todo o espaço diante da janela. Emily teve a impressão de que seu próprio rosto estava do lado de fora. O mesmo formato, os mesmos olhos, mas vazios.

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Ela gritou. O som cortou o interior do ônibus. Algumas pessoas se viraram assustadas. Uma senhora murmurou algo. Um homem a observou com estranhamento. — Desculpa... — disse, com a voz falha. — Foi... foi um pesadelo. Ninguém respondeu. Ela respirava rápido demais. As mãos tremiam. O corpo inteiro parecia ter sido atravessado por uma descarga elétrica. Voltou os olhos para o vidro, viu apenas seu reflexo. O rosto pálido, os olhos marejados, as marcas profundas de quem não dorme direito há anos. Um suspiro de alívio quase conseguiu se formar em seu peito, foi só uma ilusão, só um reflexo, só a mente cansada. Mas, quando desviou o olhar do vidro e voltou o rosto para a frente... a criatura estava ali. Não do lado de fora, não no reflexo, estava dentro, diante dela, material, próxima demais. Suas mãos — longas, finas, frias — seguraram o rosto de Emily com força. Os dedos pressionaram sua pele tentando moldá-la, puxá-la, arrancá-la do próprio corpo. Emily tentou gritar, tentou se mexer, tentou respirar. Mas o mundo se dissolveu. Ela apertou os 23

olhos com toda a força que conseguiu. E, no instante em que pensou que seu grito finalmente sairia, o ônibus deixou de existir. Ela caiu de joelhos sobre um solo úmido. O ar era pesado, espesso, sufocante. Ao abrir os olhos, viuse em um campo cercado por árvores altas demais para serem naturais. Seus troncos se inclinavam levemente para dentro, davam a sensação de que observavam o centro daquele espaço. O céu era escuro, mas não havia estrelas. Havia apenas uma camada de nuvens que se movia lentamente. O vento não fazia barulho, o silêncio ali era absoluto. Emily levou as mãos ao próprio rosto, sentindoo inteiro, quente, real. — Onde... — tentou falar, mas a voz não saiu. Seu peito subia e descia rápido demais. Ela não fazia ideia de como havia ido parar ali. Não sabia quanto tempo havia passado, não sabia se estava acordada, não sabia se ainda era ela. Ao se levantar, percebeu algo ainda mais perturbador: não havia estrada, não havia ônibus, não havia luzes, não havia qualquer sinal de civilização. Apenas o campo, as árvores, o céu. E a sensação sufocante de que aquele lugar não era um destino. Era um retorno. 24

O corpo que devora Emily começou a caminhar. Cada passo parecia se arrastar dentro dela, não no chão. O campo escuro estendia-se como um oceano imóvel, e o vento inexistente tornava o silêncio ainda mais opressor. O medo não era apenas uma sensação — era uma presença, comprimindo seus sentidos, congelando seus músculos, tornando a respiração mais difícil ainda. Ela procurava uma explicação. Qualquer uma que fosse. Seria tudo aquilo um sonho? Alucinação? Crise? Colapso? Mas nenhuma palavra conseguia se sustentar naquele lugar. Tentou gritar. Abriu a boca, forçou o peito. O som não veio. O desespero a fez entrar em choque. Nem mesmo sua voz lhe obedecia. Então, em pânico absoluto, percebeu que o único caminho possível era a floresta. A mata se erguia à sua frente de forma densa, fechada, hostil. Um frio terrível percorreu sua espinha, arrepiando cada centímetro de sua pele. Ainda assim, avançou. Ao cruzar o primeiro limite entre o campo e a floresta, sentiu que estava atravessando uma membrana imperceptível. As copas das árvores começaram a se aproximar umas das outras, lentamente, como dedos que se entrelaçam para impedir a fuga. 25

Emily virou-se. O campo havia desaparecido. Não havia trilha, não havia abertura, não havia retorno. A floresta a havia engolido. O chão era úmido, escorregadio, coberto por folhas em decomposição que exalavam um cheiro adocicado e doentio. Cada respiração trazia um gosto estranho à boca, o ar parecia saturado de algo que não devia ser inalado. Foi então que ela a viu. Adiante, entre os troncos tortos, uma criatura se movia, era enorme. Seu corpo era coberto por uma gordura espessa, irregular, que parecia pulsar sob a pele, aumentando, deformando-se, crescendo sem limites. A carne escorria em dobras, como se não coubesse mais em si mesma. O rosto era quase inexistente, soterrado por camadas de tecido vivo, mas uma boca se abria e se fechava num movimento contínuo, faminto. A criatura devorava tudo ao seu redor: troncos, raízes, pedras, folhas, terra. Mas nunca se saciava. Quanto mais comia, mais crescia. Quanto mais crescia, mais faminta se tornava. Emily recuou, sentindo o pânico rasgar seu peito. Virou-se para correr, mas não houve tempo. A criatura avançou sem pressa, como quem sabe que a presa não tem para onde ir. Seu corpo se abriu, formando uma massa viscosa, quente, sufocante.

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Emily foi engolida, absorvida, apagada. Dentro da criatura, não havia escuridão, havia memória. Sentiu seu corpo desaparecer, enquanto sua consciência era lançada em fragmentos. Ela se viu criança, depois adolescente. Depois criança outra vez. Sempre no centro, sempre cercada. Os rostos familiares se formavam ao seu redor como máscaras deformadas. As vozes começaram a surgir. — Se continuar comendo desse jeito, vai acabar explodindo. — Imensa de gorda, nunca vai conseguir nada na vida assim. — Quem é que vai olhar para uma garota gorda? Lógico que ninguém vai querer. As frases se repetiam, sobrepunham-se, misturavam-se, rasgavam seu peito. Emily tentava tapar os ouvidos, mas não tinha mais mãos. Tentava fechar os olhos, mas não tinha mais pálpebras. As palavras entravam direto nela. Ela se lembrava da compulsão, do vazio. Da comida como anestesia, do alívio breve, da culpa interminável, do ciclo. Lembrava-se de comer sem fome, de chorar sem lágrimas, de se odiar em silêncio. 27

E lembrava-se, sobretudo, de que aqueles que deveriam acolhê-la haviam escolhido feri-la. A dor tornou-se cada vez mais insuportável, como lâminas afiadas que lhe atravessavam de forma invisível. Seu estômago começou a se contorcer. Uma sensação pesada se formou dentro dela, uma massa grotesca estava sendo moldada em seu interior. A bola crescia, inchava, pressionava seus órgãos, expandia-se até ocupar todo o seu corpo. Sentiu-se feita de gordura, de vergonha, de rejeição, de culpa. A bola subiu pela garganta, arranhando, queimando. Ela tentou resistir, mas era impossível. Então, vomitou. Não era líquido, não era comida, era a própria materialização de tudo o que haviam colocado dentro dela. No mesmo instante, a criatura também a expeliu. Emily foi cuspida para fora, coberta por uma gosma espessa, quente, fétida, que escorria por seus cabelos, rosto, braços e pernas. Caiu no chão da floresta, ofegante, tremendo, suja, inteira. Inteira, mas quebrada. O ar finalmente voltou aos seus pulmões, o corpo voltou a ser corpo. E, junto com ele, veio o choro.

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Um choro avassalador, alto, convulsivo. O grito que estivera preso durante anos encontrou passagem, rasgou o silêncio. Fez a floresta estremecer. Emily chorava não apenas pelo que havia vivido, mas por tudo o que havia sido obrigada a engolir. E, naquele instante, compreendeu algo terrível: a criatura não a tinha devorado, ela era feita daquilo que fizeram com ela.

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O toque sem permissão Emily permaneceu algum tempo ajoelhada na floresta, tentando recuperar o controle do próprio corpo. A gosma ainda escorria por sua pele, mas agora parecia mais leve. Quando se levantou, percebeu que a floresta havia mudado. Os troncos estavam mais próximos uns dos outros. As sombras, mais densas. O ar, mais quente. Havia um cheiro diferente, algo mais adocicado, quase enjoativo. Ela caminhou com cautela, sentindo o chão pulsar sob seus pés. Não era imaginação, o solo realmente parecia vivo, expandindo e contraindo como um peito que respira. Então, viu a próxima criatura. Seu corpo era feito de formas humanas incompletas: braços que surgiam de lugares errados, bocas espalhadas pela pele, olhos que não piscavam. A carne parecia lisa demais, brilhante demais, parecendo sempre molhada. A criatura não caminhava, aproximava-se deslizando, como uma lembrança que não pede licença para existir. Quando tentou recuar, sentiu algo tocar seu braço. Não era a criatura, era uma memória. A floresta dissolveu-se por um instante. Ela voltou a ser menina. A casa estava silenciosa demais. Um quarto, uma porta entreaberta, um cheiro que ainda hoje não sabia nomear.

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O corpo dela pequeno demais para entender. A voz dele próxima demais para ser segura. A confusão, o medo, o congelamento. O toque que não devia existir, o pedido para não contar. A promessa de que era melhor assim. E, depois, a avó, sentada à mesa, com o rosto sério. — Acho bom você não falar mais nisso. Não invente mais essas coisas. Você pode acabar destruindo a família. A palavra família soava como uma ameaça. A memória se misturou ao presente. A criatura se aproximava, estendendo mãos que não tinham forma definida. Cada dedo parecia feito da mesma matéria das lembranças. — Não... — sussurrou, sentindo o corpo tremer. A criatura não a tocou, ela a atravessou. E, ao fazê-lo, Emily sentiu novamente o peso do silêncio imposto, da culpa que nunca foi sua, da vergonha que nunca lhe pertenceu. A criatura se dissolveu em partículas brilhantes, como pó de ossos. Emily caiu de joelhos, respirando com dificuldade. Compreendeu, com uma dor quase insuportável, que aquele trauma não estava apenas no passado, ainda vivia em seu corpo.

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O espelho quebrado Quando conseguiu se levantar, a floresta havia mudado outra vez. Agora, havia espelhos pendurados nos galhos das árvores, centenas deles. Alguns inteiros; outros rachados. Outros tão distorcidos que devolviam rostos impossíveis. Entre os espelhos, movia-se outra criatura. Ela tinha vários rostos, todos parecidos. Mas nenhum era o de Emily. Os rostos sorriam, riam dela, brilhavam. A criatura caminhava ereta, elegante, envolta por uma luz falsa que fazia parecer maior do que realmente era. Quando Emily se aproximou, os espelhos começaram a projetar cenas: seus irmãos, seus primos, suas primas. E então, as comparações. — Olha como sua prima é bonita. — Olha como ele é inteligente. — Você devia ser mais como eles. — Por que você não consegue ser assim? — Veja como eles conseguem. — Veja como você nunca consegue.

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A criatura apontava para os espelhos, um por um. Cada reflexo mostrava alguém melhor do que ela. Cada reflexo diminuía Emily um pouco mais. Ela sentiu o velho aperto no peito, aquela sensação de insuficiência que ela tanto conhecia, de inadequação, de estar sempre um passo atrás. A vontade silenciosa de ter o que os outros tinham: segurança, aceitação, orgulho, amor declarado. Não porque quisesse ser eles, mas porque queria deixar de ser ela. A criatura se aproximou e, pela primeira vez, mostrou um rosto que se parecia com o de Emily, mas era um rosto vazio, sem brilho, sem expressão. — Você nunca foi o bastante — a criatura murmurou, com a voz formada por várias vozes conhecidas. Ela fechou os olhos. E, quando os abriu, empurrou o espelho mais próximo, o qual caiu e se quebrou. Depois outro. Depois outro. O som dos vidros se partindo se espalhou pelo ambiente, cada pedaço atingia metaforicamente uma parte de Emily. A criatura começou a rachar junto com os espelhos, até que se fragmentou por completo. Emily respirava com dificuldade, mas ainda permanecia de pé.

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O incêndio que não pôde existir A floresta começou a emitir um calor que não vinha do clima, era interno. O ar parecia vibrar de forma acelerada. As árvores apresentavam fissuras luminosas em seus troncos, veias incandescentes sob uma pele vegetal. O chão estava seco demais, quebradiço, qualquer passo era capaz de gerar faíscas. Emily sentiu algo subir do estômago para o peito. Não era medo, era tensão, era pressão. Era tudo o que nunca teve permissão para dizer. No centro da clareira, a criatura aguardava. Seu corpo era feito de músculos contraídos, aparentemente em permanente estado de ataque. Os dentes estavam sempre à mostra, não em ameaça, mas em exaustão. Os olhos ardiam, vermelhos, úmidos, cheios de algo que nunca escorria. A criatura tremia e não era de frio, era de contenção. Quando Emily chegou mais perto, imagens começaram a explodir ao redor; ela sendo interrompida, ela sendo silenciada, ela ouvindo: — Engole esse choro. — Para com esse drama. — Você é muito sensível. — Você exagera tudo. 34

Viu-se criança, sendo acusada por aquilo que não fez. Lembrou-se de quantas vezes chorou de raiva por injustiças, até soluçar e cair no sono. Viu-se adolescente, com os punhos fechados, as unhas cravadas na própria pele para não responder. Lembrou-se dos cortes nos pulsos, forma de autodefesa que encontrou nesses momentos de ira contida. A criatura avançou, não para atacá-la, mas para gritar por ela. E então Emily compreendeu: aquela criatura não era a raiva que machuca, era a raiva que nunca pôde existir. Ela abriu a boca e gritou. Somente sons, ruídos, choros. A garganta queimou, o corpo tremeu. Então, a floresta pareceu se inclinar. A criatura começou a se desfazer em fumaça vermelha, como brasas que se apagam quando finalmente encontram ar. viva.

Emily caiu de joelhos, estava exausta, mas ainda

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O trono dos que se acham deuses O caminho a levou até uma construção feita de ossos claros e espelhos polidos. No centro, um trono. Sobre ele, uma criatura alta, esguia, quase elegante demais para aquele mundo. Seu corpo não era grotesco, era perfeito demais, liso demais, intocável demais. Ela não olhava Emily, olhava para baixo sempre. A criatura não falava, mas o espaço inteiro era preenchido por frases que a jovem conhecia bem: — Você precisa aprender a se portar. — Está se vitimizando. — Isso é falta de maturidade. — Quando você crescer, vai entender. — Enquanto estiver na minha casa, vai fazer o que eu quiser. — Quem manda aqui sou eu. — Aqui dentro, você não opina nada! Ela se viu pequena, diante de adultos que nunca erravam. Viu-se tentando explicar dores e recebendo lições, nunca escuta, nunca colo. Sempre os outros em posição de superioridade.

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A criatura desceu do trono, para passar por ela, como se não existisse. E aquilo doeu mais do que qualquer agressão. Emily sentiu a invisibilidade, a anulação, o não reconhecimento. Deu um passo à frente, depois outro. Colocou-se diante da criatura. Ela ainda não a via. Então Emily se sentou no chão, não como uma forma de submissão, era um ato de permanência. Respirou, existiu. A criatura começou a rachar. Porque nada que se sustenta apenas na superioridade resiste à simples existência do outro. Foi aí que o trono desmoronou.

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O quarto que nunca foi abrigo A floresta se dissolveu lentamente, as árvores recuaram. O chão perdeu as folhas. E Emily percebeu que estava dentro de um quarto. Um quarto antigo, simples, com paredes claras demais, quase sem marcas, ali ninguém estava autorizado a existir plenamente. Havia uma cama estreita, uma janela pequena, uma porta fechada. E, no centro, mais uma criatura. Essa não era monstruosa, no entanto, era fria. Seu corpo parecia feito de porcelana rachada, coberto por pequenas fissuras por onde não saía nada — nem sangue, nem luz, nem sombra. Apenas vazio. Os olhos eram límpidos, sem expressão. As mãos estavam sempre juntas, como quem protege algo que ninguém mais consegue ver. A criatura não se movia, apenas guardava. Emily sentiu o estômago se contrair. O quarto começou a se transformar em lembrança. Ela se viu criança, sentada na beira da cama, tentando contar algo que a havia machucado. Do outro lado, um adulto arrumava papéis. — Agora não. Depois a gente vê isso.

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Ela se viu adolescente, chorando em silêncio no banheiro. Ninguém bateu na porta. Ela se viu uma jovem adulta, tentando falar com alguém da família. — Não posso te ouvir agora. Estou ocupada. A criatura abriu levemente as mãos. Dentro, havia pequenos objetos: um pedido de ajuda, um choro contido, uma tentativa de abraço, uma pergunta nunca respondida. Tudo seco, tudo intocado, tudo negado. Emily sentiu a dor mais antiga de todas: a dor de não ter sido rejeitada explicitamente — mas esquecida, ignorada, postergada. Suas emoções eram sempre tratadas como menos importantes do que as dos outros. A criatura falou pela primeira vez, com uma voz suave demais: — Amor demais estraga. A frase parecia uma sentença. Emily caiu de joelhos. Lembrou-se de todas as vezes em que aprendeu a pedir menos, a sentir menos, a precisar menos, a existir menos, para não incomodar, para não pesar, para não ser demais. Ela se aproximou da criatura, tocou suas mãos e sentiu o frio absoluto.

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— Não foi economia — sussurrou, com a voz quebrada. — Foi abandono. Fissuras começaram a se abrir na criatura fria. De dentro, não saiu luz, saiu pó. Tudo o que foi guardado demais morreu sem nunca ter sido usado. A criatura se desfez nos braços de Emily. E, pela primeira vez, ela chorou por algo que nunca teve.

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O dia em que ela quase não ficou Quando o quarto desapareceu, Emily se viu sozinha em um espaço completamente branco, sem chão, sem céu, sem horizonte. No centro, uma criatura deitada. Era a própria, não uma cópia, não era um reflexo. Era ela mesma, mais pálida, mais magra, mais vazia. Os olhos estavam abertos, mas não olhavam. O peito subia e descia lentamente, cada respiração era uma negociação com a própria permanência. Emily sentiu o impacto no corpo inteiro. A lembrança veio sem aviso. Ela no banheiro, sentada no chão, com os joelhos contra o peito, o celular na mão. As mensagens não respondidas, os compromissos cancelados, a comida fria sobre a mesa, a luz apagada no quarto. Ela se lembrava da frase que martelava em sua mente: "Se eu sumisse agora, ninguém perceberia na hora." Lembrou-se do peso, do cansaço, da vontade de dormir para não acordar. Não que fosse desejo de morrer, ela só não sabia mais como viver. Quantas vezes se sentiu estagnada, com um peso que não entendia, sem vontade de fazer coisa alguma, sem querer sequer sair da cama. E, junto, vinha 41

a culpa e se sentia ainda mais paralisada, com a sensação de que não era produtiva, que não adiantava fazer nada. A criatura abriu os olhos e chorou. Sem som, sem movimento. Lágrimas escorriam imóveis. Emily aproximou-se, sentou-se ao lado de si mesma, sentiu o frio daquele corpo. Lembrou-se de como era difícil levantar, de como o mundo parecia distante, de como tudo exigia mais força do que ela tinha. — Eu não queria morrer. Eu só queria que parasse de doer. A criatura piscou uma única vez. E, naquele gesto mínimo, Emily sentiu o impacto de todas as vezes em que quase desistiu. Ela deitou ao lado da criatura, encostou a testa na dela, respirou no mesmo ritmo. Não disse que ia salvar, não prometeu cura. Apenas ficou. E isso foi o que nunca havia acontecido antes. Tudo começou a se dissolver lentamente, como névoa ao sol, em calor. Emily ficou sozinha, entretanto não havia sensação de vazio. Ela respirava. E isso, naquele instante, era tudo.

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O alívio que envenena A floresta permaneceu imóvel por mais alguns instantes. Depois de tantas criaturas, Emily imaginou que talvez tivesse encontrado um raro momento de descanso. As árvores voltavam a respirar lentamente, e o chão deixava de pulsar sob seus pés. O silêncio já não parecia ameaçador. Era apenas... silêncio. Ela caminhou sem direção, permitindo que a respiração encontrasse um ritmo mais calmo. Foi quando percebeu um brilho suave entre os troncos. O brilho não era branco, não era dourado. Era uma luz leitosa, quase azulada, que parecia dissolver a escuridão sem realmente iluminá-la. Quanto mais se aproximava, mais leve seu corpo se tornava. Pela primeira vez desde que atravessara aquela floresta, o peito deixou de doer. A ansiedade diminuiu, os ombros relaxaram, o coração desacelerou. Era bom. Bom demais e, ao mesmo tempo, suspeito demais. No centro, havia uma figura sentada sobre uma pedra lisa. Diferente das outras criaturas, ela possuía uma aparência quase humana. Vestia roupas claras que pareciam feitas de névoa. O rosto era sereno, os olhos transmitiam uma paz impossível. Nas mãos, pequenos frascos de vidro refletiam a luz da floresta como se guardassem estrelas líquidas. Ao lado da criatura repousavam uma garrafa de vidro 43

escuro, taças vazias, comprimidos espalhados sobre um tecido branco. Nada parecia ameaçador, tudo parecia oferecer descanso. A criatura sorriu. — Você está cansada. Emily permaneceu imóvel. A voz daquele ser era macia, aveludada. Não exigia, não ordenava, convidava. — Venha. Ela deu um passo, sentiu vergonha de como desejava obedecer. — Você não precisa lutar o tempo todo. Outro passo. — Dói muito, não dói? Emily fechou os olhos. A pergunta a pegou de um jeito certeiro, porque era verdade. Doía. Sempre doía. A criatura abriu um dos pequenos frascos. Um perfume adocicado espalhou-se pelo ar. De repente, a floresta desapareceu. Ela voltou ao apartamento momentaneamente, à cama, ao quarto escuro. O copo com água, as cartelas

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abertas. Os comprimidos enfileirados sobre a mesa de cabeceira. Lembrou-se de quantas vezes aumentara discretamente a dose por conta própria. Não para morrer, nunca para morrer. Só para conseguir dormir, só para conseguir levantar, só para conseguir passar por mais um dia. Lembrou-se das noites em que uma taça de vinho parecia suficiente. Depois duas. Depois a garrafa aparecia vazia antes que percebesse. Não porque gostasse do sabor. Na verdade, sempre sentiu um gosto amargo na boca ao beber qualquer coisa alcóolica. Mas porque, durante algumas horas, o mundo finalmente diminuía o volume. As vozes ficavam distantes, as lembranças perdiam o contorno. Ela conseguia respirar. A criatura levantou-se lentamente. Cada passo era silencioso. Quando ficou diante de Emily, ofereceulhe um pequeno frasco transparente. Dentro dele não havia comprimidos. Havia silêncio. Era possível vê-lo. Parecia algo espesso, líquido, hipnótico. — Tome. Não é fraqueza querer descansar. A voz continuava doce. — Ninguém suportaria carregar tudo isso acordado.

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Emily olhava para o frasco. Queria mais do que qualquer outra coisa. Não precisava ser felicidade, não precisava ser cura. Bastava não sentir. — Só por hoje. Aquelas três palavras pareceram abrir uma porta dentro dela. Quantas vezes repetira essa promessa? Só por hoje. Só mais um comprimido. Só mais uma dose. Só mais uma noite sem pensar. Só mais algumas horas em que a dor permanecesse adormecida. A criatura aproximou o frasco de seu rosto. Emily já conseguia sentir aquele silêncio penetrando seus pulmões. Era quente, confortável, acolhedor. Quase materno. Então percebeu algo. O chão ao redor da criatura estava coberto por corpos. Não corpos humanos, mas cascas, peles vazias. Como se pessoas inteiras tivessem permanecido ali por tanto tempo que acabaram evaporando por dentro. Restavam apenas formas, sem olhos, sem voz, sem desejo. Apenas alívio. Um alívio eterno. A criatura percebeu seu olhar, sorriu da mesma maneira. — Eles finalmente descansaram. Emily deu um passo para trás. O sorriso permaneceu. Pela primeira vez, ela enxergou as mãos da criatura. Elas estavam repletas de pequenas marcas. Fissuras, centenas delas. 46

Cada vez que oferecia descanso a alguém, uma nova rachadura surgia em sua própria pele. Como se também estivesse morrendo lentamente. A criatura insistiu. — Você não precisa enfrentar mais nada. — Eu sei... A resposta saiu num sussurro. — Então venha. Emily fechou os olhos. Pensou em quantas vezes sobreviver parecia exigir um anestésico. Pensou em todas as manhãs em que acreditava não conseguir levantar sem ajuda. Pensou no medo de sentir. Mas lembrou-se também da criatura feita de gordura, daquela construída pelos espelhos. Da menina que ninguém acreditou, da mulher deitada no vazio. Mas então veio um leve despertar. Ela abriu os olhos, afastou lentamente o frasco. Os dedos tremiam. A criatura não insistiu. Pela primeira vez, seu sorriso tornou-se triste. Como se soubesse que não precisava convencê-la. Apenas esperar. — Você ainda acredita que consegue atravessar tudo isso acordada?

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Emily respirava com dificuldade, o peito ardia, as pernas pesavam. Mesmo assim, deu um passo para trás. — Eu preciso continuar. A criatura inclinou levemente a cabeça. — Precisa? Não havia ironia, não havia provocação. Apenas uma estranha compaixão. — Então continue. Ela começou a recuar, não caminhava. Afastava-se lentamente, dissolvendo-se na própria névoa. Mas sua voz permaneceu, muito próxima, como um pensamento. — Quando não restarem forças... — Outra fissura surgiu em seu rosto. — ...eu ainda estarei à sua espera. O silêncio voltou. Emily permaneceu imóvel, sentia o corpo inteiro tremer. Pela primeira vez desde que entrara naquela floresta, ela percebeu que estava aceitando seu destino. Já estava exausta de tentar escapar. Levantou a mão até o peito, seu coração continuava batendo. Mas agora havia outro peso, uma certeza. Ela podia continuar caminhando, podia enfrentar mais monstros, podia sobreviver. Mas alguma coisa dentro dela havia começado a desistir. 48

Quando retomou o caminho, percebeu algo estranho. Sua sombra não acompanhava exatamente seus passos. Por um breve instante, parecia permanecer imóvel. Como se uma parte dela tivesse escolhido ficar. Emily piscou. A sombra voltou ao lugar, ou talvez nunca tivesse saído. Ela não tinha mais certeza. Seguiu caminhando. Mas, dali em diante, cada passo parecia um pouco menos seu.

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A perseguidora A floresta escurecia, como um pensamento que se fecha. As árvores se aproximavam umas das outras, inclinando-se para dentro, como costelas tentando proteger — ou aprisionar — um coração invisível. O ar tornava-se difícil de atravessar, cada vez mais difícil de respirar. Emily percebeu que restavam ainda mais sombras e medo. Entre os troncos, um vulto se movia, não corria, não se escondia, só avançava. Ela sentiu o pânico subir como um líquido ácido pela garganta. O corpo reagiu antes da mente, então começou a correr. Não sabia para onde, não sabia por quê. Sabia apenas que não podia ficar. Os galhos rasgavam seus braços, as raízes a faziam tropeçar, mas ela continuava. Cada passo era um pedido desesperado para que aquilo acabasse, para que não houvesse mais memórias, mais símbolos, mais monstros. Já não tinha forças para enfrentar nada. O coração batia tão rápido que parecia querer escapar do peito, a respiração vinha em golpes curtos. Atrás dela, algo se movia devagar, sem pressa, afinal correr naquele momento era totalmente inútil, não havia escapatória, o destino seria inevitável e implacável. 50

A certeza da perseguição era mais aterradora do que qualquer som. Ela sentia a presença como se fosse um peso sobre as próprias costas. A floresta se fechava à frente, os troncos giravam ao seu redor. O mundo começava a rodar, as árvores giravam, o céu girava, Emily girava. Até que caiu de joelhos no centro daquele círculo vivo, levou as mãos aos ouvidos, chorou compulsivamente, gritou, implorou. — Por favor... chega... eu não aguento mais... eu não aguento mais... Sua voz se desfazia em soluços. Um vento cortante se espalhou pela floresta, não era vento comum, ele cantava. Um som grave, antigo, quase humano. E então ela a viu. A silhueta de uma mulher emergindo entre as árvores. Vestia um longo vestido preto que parecia feito da própria noite. A pele era pálida demais para ser viva. Os cabelos escuros escorriam pelos ombros como sombras líquidas. A figura caminhava lentamente. Cada passo era uma sentença. Emily tentou se levantar, em vão. O corpo estava pesado demais. Não como se estivesse preso ao chão — mas como se tivesse desistido de se mover. 51

A mulher aproximou-se. Seu rosto ainda estava em sombra. Quando finalmente emergiu na luz fraca, se reconheceu. Era ela. Os mesmos olhos, o mesmo nariz, a mesma boca, só que sem cansaço, sem lágrimas, sem humanidade. A criatura segurou o rosto de Emily com firmeza. O toque não era frio, era íntimo demais, próximo demais. tremor:

E disse, com a própria voz de Emily, porém sem

— O tempo todo, eu sempre fui você. E é exatamente essa a questão. Sou eu quem lhe persegue. Você é a sua própria prisão. A frase a atravessou como uma lâmina. Todas as imagens vieram juntas: a culpa, a vergonha, a cobrança, a autodestruição, o ódio silencioso, o medo de existir. A sensação de não ser suficiente. Tudo se condensou num único ponto dentro dela. Seu corpo começou a ceder, as pernas falharam, os braços caíram. As lágrimas não tinham mais forças para cair. Restava apenas um resquício, um último fragmento de energia. E dele nasceu o grito. Um grito que não era som, era dor, era exaustão, era despedida, era tudo. 52

O grito invadiu a floresta, fez as árvores tremerem, fez o vento silenciar. Porém não havia ninguém para ouvir. Porque aquele grito não era para o mundo, era para si mesma. Emily havia chegado ao limite, não havia mais monstros, não havia mais fuga, não havia mais defesas. A floresta começou a se dissolver, o céu se fechou, a criatura sorriu. Emily caiu. Para dentro. E tudo se apagou.

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A chegada O ônibus entrou lentamente na rodoviária. O motor gemeu baixo, cansado, como quem carrega mais do que quilômetros. As luzes externas iluminaram o concreto úmido da plataforma. O dia começava a nascer, pálido, sem graça. As portas se abriram, pessoas começaram a descer. Algumas bocejavam, outras sorriam ao reconhecer rostos à espera. Havia abraços, havia malas sendo puxadas. Havia vozes dizendo “cheguei”, “estava com saudade”, “demorou”. A vida seguia seu curso. Dentro do ônibus, porém, uma movimentação diferente começou a se formar. — Moça, já chegamos. Nenhuma resposta. — Moça? Um homem tocou levemente no ombro de Emily. Ela não se mexeu. Estava sentada junto à janela, com a cabeça levemente inclinada para o lado, os cabelos caindo sobre o rosto. Os olhos estavam fechados. A expressão era serena demais para quem dorme. 54

Outra passageira se aproximou. — Ela não acorda? Tentaram novamente. Chamaram seu nome, depois de ler o bilhete preso à mochila. — Emily? Nada. O motorista olhou pelo retrovisor. Suspendeu a saída. Algumas pessoas começaram a cochichar. — Ela está respirando? Alguém encostou a mão em seu peito. — Sim. Respirava, mas era uma respiração distante, lenta, parecendo estar em outro lugar. O seu rosto não expressava dor, tampouco paz, era um rosto suspenso. Parecia estar entre dois estados que não se nomeiam. Chamaram um funcionário, depois outro. Ninguém conseguia acordá-la. Não era desmaio, não era sono comum. Era como se ela estivesse presa em um espaço que o corpo não acompanhava. Do lado de fora, a cidade a aguardava. 55

A família. A casa. As ruas. O passado. Do lado de dentro, Emily permanecia imóvel. Os olhos fechados. O corpo presente. A mente — em algum lugar que ninguém podia alcançar. Uma mulher murmurou: — Parece que ela está sonhando... O ônibus permaneceu parado. As pessoas olhavam, esperavam. Mas Emily não voltava. E ninguém sabia dizer se ela ainda estava atravessando a floresta... ou se encontrava perdida dentro dela.

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