Prefácio inédito
PREFÁCIO INÉDITO
Uma perturbadora intoxicação de vaidade causada por alguns acontecimentos que desde início de 1930 me predispuseram a acreditar excessivamente em mim, me fizeram retardar, pra não dizer abandonar a publicação deste livro. E mais do que isso, causaram em mim uma crise dolorosa que, bem ajuizada agora, não foi mais que o desequilíbrio entre aquela vaidade e minhas forças pessoais. Crise que tive o bom-senso de conservar dentro comigo e agüentar sozinho, foram certamente horríveis os furores românticos, sim, românticos que me fizeram sofrer. Andei mais ou menos extraviado, atirado num sacolejante jogo-de-empurra dos mais extremos requintes de aristocracismo espiritual pros mais decididos aspectos do Comunismo. Mas tudo isso não era eu nem posso ser. A precisão de inteligência, auxiliada por um retorno a melhor saúde física, me repôs na minha querência legítima e aqui estou, retomando o azulejo deixado em meio.
Na verdade a significação única da minha obra é inteiramente nacional. O pouco de internacionalismo, ou melhor, de universalidade que possa ter um Macunaíma por exemplo, são ou reflexos indispensáveis do mundo sobre mim, ou ilações naturais do menor pro maior, pois que todo o nacional participa do humano. Mas a minha obra tem de ser uma obra de nacionalidade, está visto: sem nenhum dos aspectos hediondos por onde o nacional mal compreendido e apaixonado empecilha a marcha do mundo. Nem é propriamente com o designativo “nacional” que me devo achincalhar, porque eu detesto o Brasil-nação, detesto as pátrias como conceito político. Tristão de Ataíde observou algures que eu tinha uma singular incapacidade em compreender e viver a noção política da pátria. E verdade que não tem pessoa mais infensa à política do que eu, mas não é exato que eu não tenha vivido em mim a noção política da pátria. Só que já a ultrapassei. A significação básica, destinada, primária e interessada das minhas obras é a procura do racial. Minha obra não é nacionalizante, é racializante. Obedeço às coordenações geográficas da vida e desprezo às vaidades políticas e imperialistas da inteligência. Materialismo, não. Realismo.
Depois que escrevi o poema herói-cômico de Macunaíma e o li, meu desespero foi enorme ante a obra-prima que falhou. O filão era de obra-prima porém o faiscador servia só pra cavar uns brilhantinhos de merda. Apesar de toda a minha honestidade não servi pra enriquecer ninguém. E aos mais coitados assanhei. Alguns me compreenderam; e os que me atacaram ou puderam estimar na minha obra o que havia nela de estimável, me fizeram bem. Não renego o meu melhor livro. Mas o odeio. Ele representará pra mim sempre, não sei que explosão de Guido Reni, bangalô de aluguel, e uma amargura que maior não posso imaginar. Foi o único proveito que me deu. Porém renegá-lo é impossível com esta boca cheia de saudades e bons dentes, eu completado de esperanças e remorsos, difíceis de precisar mas que só dele me vêm.
Então figurei bem esta resolução que pouco a pouco e sem escândalo, vou realizando. Já agora me vou quase off-side, e a vida se tornou um excelente campo de batatas. Fui plantar batatas, com metáfora e sem ela. As batatas úteis eu tenho desejo que dêem de comer pra certas maiúsculas terrestres. As inúteis me pertencem. Por elas que ninguém me amole porque não amolo mais ninguém. Meus livros de mim, editados por mim, nem pra crítica os mando mais. Não é sinal de desprezo, é consciência da inutilidade mais dela que minha, no estado em que ela agora está. Ou estamos, se quiserem...
O que fica de mais bonito em mim, e tenho de mais odiável, é o trabalho diário, a atividade em prol de alguma coisa. Jamais esse trabalho foi em proveito meu e isso é irritante, eu sei. Pratiquei, continuarei a praticar muitíssimas mentiras e extorsões. Desperdicei e desperdiçarei meus elogios e ataques com aquela mesma experiência com que o provérbio inglês afirma que da lama atirada, alguma fica sempre. Não atiro lama, questão de metro e muito de altura e esta lealdade que detesta romantismo e outros jogos de azar. Mas atiro elogios e ataques. Pelas pessoas? Mando todo mundo, um por um, àquela parte. E eu também. Se atiro é pelo que isso possa ter dum humano valor. Ah, sacrifícios que nada poderá pagar... Uma consciência lâmina cortando, cortando sem parada a gente pelo meio... E a gente se grudando a cola-tudo, ilusão, guspe, a grampo, num desejo em desespero de se conservar íntegro e forte... Nem forte, nem íntegro, rapazes, a ilusão é insuficiente.
Mas era preciso que alguém deitasse falação about Cendrars chegando, era eu. Comigo eu pensava sorumbático: Musicologia brasileira não há. Fiat lux! Klaxon era revista moderna, portanto: crítica de cinema sem cavação e vez primeira. Ora o que que eu tenho com Di Cavalcanti ou Vítor Brecheret? Nada, a não ser gostar de. Eu não sou brasileiro! eu não sou cinemático! Sou um dançarino mirífico esfolhado pelo vendaval. Meu braço esquerdo, tubarão comeu. Minha preguiça caiu na praia do Madeira e ficou lá naquela tarde cor-de-rosa que nem sei. Meu desejo ficou no Nordeste e se Deus me der dinheiro é lá que hei-de morrer.
“Vôm’imbora, vôm’imbora
Pá Paraíba do Norte!
Olê rosêra!”
Olê Lioné, cadê o resto? O resto paira nesses mundos surcando o vendaval.
Uma vez, faz muitos anos, encontrei com um sujeito de madrugada. Por mais que me lembre dele, e o tenho completinho na memória, é impossível negar que ele tivesse três orelhas. Duas ouviam e a terceira se movia ora num, ora noutro lugar. Essa terceira orelha movente, que nunca mais pude achar em ninguém e não é símbolo de nada, me impressionou demais porque era a prova de que eu carecia pra perceber que o corpo humano anda muitíssimo errado.
Corpo humano espacial, eis o que não entendo. O corpo humano é temporal, só temporal; e a só coisa que lhe concederia de espacial era um braço, braço, antebraço e mão de polaca, bem nutridos e flácidos, irrompendo da testa feito um corno de todas as nossas ambições, desejos e necessidades individuais. Porque isso é que o homem é, para vingança do meu campo de batatas.
Enfim, seu Serafim, foi isso o que se deu. O que sofri por dentro não se conta. O que banquei por fora não interessa contar. Vale mais o respeito pragmático pelas aventuras humanas. Isso é que faz-me publicar este livro dos dias passados da experiência brasileirista.
Quando fiz estes contos, a maioria no tempo em que Elísio de Carvalho sustentava a América Brasileira, e pra ela destinados, o momento pra mim era de exercícios de estilo. Isso quanto a exterior. Nem bem principiado o primeiro conto, o leitor verá, lembrando este Prefácio, que esse tempo até pra mim já passou já. Hoje o que eu sonho é um dicionário de 50 palavras, com todos os milhares de outras esperando o momento de estourar. Se o momento não vier que não estourem nunca e fiquem esperando outro escritor.
Se o livro fosse apenas meu, não deixava ele sair como sai. Mudava-lhe inteirinha a dicção. Mas é de Belazarte em principal, não meu. E solilóquio, justifica-se que fale como o livro está.
Há os que acham que a gente pode modificar à vontade os calungas que inventa. Começo por não aceitar a “invenção" dos calungas. São o que são mais por eles que por nós. Possuem evidência tão sensível que mudar-lhes um gesto ou maneira-de-ser é tornar-se hipócrita pra com uma realidade que se torna hipócrita. Não faço. Aliás basta freqüentar um bocado estas páginas pra ver que Belazarte não sou eu. Terá muito de mim como filho, é verdade, mas tem imensas variações de estranhos cromossomos. Se não respeito os cromossomos, reconheço que são mais poderosos que eu. Da mesma forma com que desprezando a Medicina, sempre achei irrecusável uma operação de apendicite. Por isso tudo Belazarte existe e estes “meus” contos ele é que os contou.
Mas não acreditem que eu seja tão forte como este Prefácio me indica, não sou mais. Acabo de reler o que escrevi, fico espantado, não sou eu! Isto é: sou eu, mas o que foi tamanha decisão assim? Justamente agora em que até a idéia de suicídio virou mosca... Não. Prefiro um som de saxofone que me volte aos meus desertos de tocaia. O medo é que este saxofone seja de reminiscências orquestrais... Foi desespero, desespero só. Mas agora procuro em vão uma tristeza, algum abatimento pra encerrar com justiça este Prefácio. Não acho. Vou dar um giro e na volta acabarei.
Agora sim: estou salutarmente fatigado e bem disposto. Sinto-me feliz e posso continuar mais triste.
Eu estava falando nestes contos... Não sei o que eles valem e a distância vasta que me separa deles não me permite mais aquele ardor com que o artista se ilude sobre o que faz no momento. Porém gosto deles principalmente porque abrem com modéstia um rumo novo pra mim.
Se esteticamente Macunaíma
foi bem o ponto-de-chegada da minha experiência brasileirista, espiritualmente era pra mim um beco sem saída. Se não é possível em mim sequer uma esperança de mudar meu pessimismo neste país desgraçado em que cada mocidade é um monturo nojento de fraquezas, ignorâncias, complacências e ambições paupérrimas, é por vias mais humanas que terei de cantar a elegia do caráter morimbudo e a imundície de tudo quanto somos.
Belazarte é um bom começo. Tem piedade dos seres reais, que não tenho. E não sabe conceber o que seja a felicidade. Quando a busca não acha ou a supõe nos bêbados. É uma limitação amarga e insuportável.
Mas por ele recomeçam de novo em mim vivendo os seres reais. Não me interessam mais assombrações. É um mundo fácil em que o espírito cria como quer com suas mortíferas preguiças. Vagamente eu já pressentira isso quando ao principiar Macunaíma, de que faria, eu pensava, um puro joguete livre em que meu ser em férias se desfatigasse do mundo, fui logo botando nele intençõezinhas, imagens, alusões que o tornaram a caricatura dolorida que é. Oh! esse vácuo abominando entre aquilo que existe e a sua imagem, na certa é o único empecilho que nos impede de aferrar com nitidez a realidade!
Espero que este livro seja detestado. Isso não prova que ele seja bom, mas me liberta. O maior castigo do artista é ser gostado. Não lhe dá amigos, lhe dá muitos companheiros. Os outros principiam compreendê-lo excessivamente e não tem nada que deforme e suje mais uma entidade que a excessiva compreensão dos outros.
É verdade que muito eu já tenho recomeçado... Só que nunca me veio uma sensação tão livre de recomeço. E este deserto é que ambiciono mais, meus saxofones. Porém meu medo, meu receio tristonho, é que os meus saxofones sejam tão somente umas reminiscências orquestrais...
MÁRIO DE ANDRADE
[São Paulo] 2 de maio de 1930 [1931]