II O Meu Próprio Romance · Capítulo 2 de 2
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II

II

A MINHA primeira separação da familia foi lancinante. Deixar minha mãe em prantos, vir acompanhado por tanta gente, como num enterro, até em baixo na rampa, agarrar-me a meu pae, aos meus tios e aos velhos amigos da casa, desesperado de os deixar, fazer a travessia para o vapor no escaler que me levara a tantos prazeres pela bahia e pelos rios, era excessivo para o menino, cuja petulância se fundira na dôr e na tristeza. O vapor sahira do porte ao anoitecer. Eu vi os pharóes, üluminando o lado opposto á cidade, mas não senti c mar. Deitei-me dolorido, esmagado, solitário, na estreita cama do acanhado camarote. Não me lembro exactamente da noite confusa e extranha que passei. Recordo-me do fulgor do sol já de madrugada, entrando pela vigia. Foi então que espiei o mar. Deslumbramento que me tomou pelos peitos, que me suffocou e me fez chorar. Aquelle azul ferrete, translúcido, me atordoou, as ondas de espumas brancas subiam, mugiam e o vapor dansava para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita. Estes movimentos desencontrados me desequilibraram. Era o enjôo com o seu aviltamento physico. Tive o que todos os enjoados têm, a ânsia de morrer, de que tudo terminasse rapidamente no abysmo verde e liquido. Desse torpor, desse máo estar, fui arrancado pela apparição de Sabino. Vinha vestido de pirata. Todo de branco, com uma larga facha vermelha, carapuça vermelha, trazendo dependurada na facha uma grande faca com bainha de couro. O ser imaginativo, que era Sabino, compuzera aquella fantasia, segundo a imagem de algum quadro. Apezar de ter vivido sempre sobre a água, pescando na bahia, ou no serviço de abastecimento de carvão aos vapores, Sabino nunca vira o alto mar. Era a sua primeira viagem, e a imaginação o escandecia. Não enjoara. Gosava as delicias do vento solto, das vagas agitadas em liberdade. Não tardou em se familiarizar com o oceano, com o vapor, com a equipagem. Durante o tempo em que o enjôo me confinara no camarote, elle vinha com uma solicitude paternal dar-me laranjas, limonadas, gelados, para combater a minha angustia. Contava-me as suas novas impressões, os incidentes de bordo e a imposição que recebera para recolher a faca de pirata, o que lhe parecia idiota. Cada hora nós entravamos mais pelo grande mar e no balanço do vapor a vigia era um óculo de cosmorama, em que eu via o oceano azul, vagas brancas, gaivotas, vapores, navios a passar, e lá ao longe, a costa arenosa. No terceiro dia, a areia da costa se tornou mais alva, as praias de areia mais descampadas, morros de areia branca e sobre ellas o sol brilhante. As águas se transmudaram de azul em verde, as jangadas appareceram veleiras, destemidas, tudo brincando no espaço alegre e luminoso. Era o Ceará. 0 balanço do vapor afrouxara e foi do tombadilho que eu assisti á chegada na entrada de Fortaleza. Ainda o vapor não parará, já uma infinidade de jangadas o cercaram e as mais ousadas se agarravam ao seu costado. Apreciei o aspecto dos jangadeiros da mesma raça, que eu vira no Maranhão, nos retirantes cearenses. Apreciei a sua linguagem cantada, as suas exclamações, as suas pragas, as suas injurias. A bordo, o reboliço era enorme, um desafogo em todos os semblantes libertos do enjôo. Os jangadeiros solicitavam passageiros para terra, vendiam pássaros, graúnas, corrupiões, macacos, sauins, vendiam cocos, rapaduras, bolos de milho, tudo ostentando uma fartura incrível na terra da secca e da desolação. Não tardei, com alguns estudantes, a tomar uma jangada para ir para terra. Sabino veiu comnosco, sempre vestido de pirata, mas desta vez com o seu facão e intrigava os jangadeiros desconfiados. Não havia cáes; o desembarque era na areia da praia. O transporte na jangada era um encanto. A leve e frágil embarcação de vela aberta e cheia de vento, vinha no dorso das vagas, fagueira e veloz. Nós exultávamos, dominadores daquelle mar verde, mar de praia, mas sempre mar livre, sem porto. Ao approximarmos de terra, uma chusma de homens de ceroula e camisa avança para nos arrancar da jangada. No atropelo, os jangadeiros esqueceram de tirar a bolina que arrastando na areia, fez, virar a delicada embarcação e nós, bumba nagua! A gente de terra nos soccorre, nos carrega e nos deposita na areia, molhados. Assim atravessamos o jardim que leva á cidade e no alto entramos num hotel, onde o nosso primeiro cuidado foi fazer seccar as roupas. Essa primeira chegada ao Ceará ficou inesquecível e nas outras vezes que ali aportei, tomava todas as precauções e vigiava os jangadeiros descuidados. Felizmente o vapor dormiu no porto e as nossas roupas seccaram e pudemos passear pela cidade. Aquelle casario miúdo, branco, me separava dos casarões coloniaes do Maranhão. As calçadas cheias de famílias sentadas a tomar o fresco da tarde, o tom plebeo, democrático, da cidade tão differente do Maranhão, a raça cabocla dominando a negra, o sol ardente, os areiaes brancos, os coqueiros, os comoros, tudo me dava a impressão de haver aportado na costa marroquina, sem a arte mussulmana, terra pobre, deserta, de beduinos e ciganos. A' noite, no passeio publico, nesse jardim crestado, que me recebeu pela manhã, a banda de musica a tocar, as cearensinhas, sem chapéos, risonhas, atiradas, tão differentes das maranhensinhas sizudas e pretenciosas, desfilavam joviaes para nós e tudo me parecia novo, extranho, encantador. Foi o primeiro contacto com uma cidade differente de minha velha terra. Que delicia e que perspectivas para o meu espirito curioso me abria o mundo! Proseguiu a viagem. Sempre á vista, praias e coqueiros. O mar continuava verde, quando no dia seguinte, paramos na barra de Natal. O vapor ficara fora. Desolação da paisagem ardente. Ninguém saltara. Vinham de terra em jangadas e escaleres passageiros, na maioria estudantes. A' noite, era a grande reunião dos estudantes, as vaias nos calouros, os juramentos obsce-nos destes, a collecta para o almoço collectivo na Parahyba, pago unicamente pelos calouros, que na algazarra, nas correrias, eram judiados pelos veteranos. A minha pouca idade me protegia das maldades, ás vezes exageradas, mas não me defendia de ouvir a linguagem immunda dos meus collegas. Naquelles seis dias de tal viagem, aprendi mais pornographia, do que em todo o meu tempo do Maranhão.

Já na entrada da Parahyba, o mar se torna alvo, recebendo o rio. A paisagem é de uma doçura primitiva, água branca e mansa, vegetação moderada, praias suaves e coqueiraes carregados de frutas. No Cabedello, debaixo das arvores, defronte do casario miúdo, aos olhos curiosos da gente morena e descuidada, bebia-se água de coco verde e almoçava-se peixe fresco ensopado, cheirando a tomate e a pimenta de cheiro. Os estudantes não gosavam desse encanto simples, que os outros passageiros, fugindo á promiscuidade, vinham fruir socegadamente. Em escaleres e ás vezes em lanchas a vapor, a leva de estudantes ia para a cidade. Ahi, os dirigentes do bando encommendavam o tradicional almoço, emquanto companheiros se espalhavam para a cidade a fazer suas estrepolias, que causavam a principio riso á gente da terra e depois indignação e repulsa armada. Esses movimentos contradictorios eram justificados pelos excessos da fantasia dos estudantes.

Vaiavam os personagens graves, penetravam na Assembléa provincial, perturbavam as sessões com assuadas ou fazendo discursos bestialogicos, debandavam pelas ruas, invadiam casas, lojas, em gritarias, tomavam objectos sem pagar, provocando distúrbios. Desfilavam pelas pedregosas ruas, conduzindo calouros amarrados, com orelhas de burros, insultavam as pacificas gentes, que subitamente se revoltavam e os'aggrediam a pedradas. Uma feita, os estudantes surgiam nas ruas mascarados. Era em plena quaresma, quinta-feira santa. A indignação da população foi ao auge. Magotes de homens coléricos correram os estudantes a pedra, e vieram sobre elles, armados de cacete e faca. Oh! desabalada corrida da estudantada para o porto, para tomar os escaleres! Felizmente ali encontraram o commandante do vapor que os protegeu e os salvou. Na Parahyba, cessava o tumulto alegre dos rapazes. No dia seguinte, o vapor amanhecia em Recife. Senti uma deslocação violenta das perspectivas a que estava habituado, quando me vi mettido nas pedras do recife que quebrava o mar e formava o acanhado porto, em frente ao forte do Brum e em face da torre de Malakoff. A construcção da cidade era extranha, sobrados esguios de vários andares. A Lingueta, de arvores sombrias, cheia de marítimos e de vadios, era tão differente da pelada rampa e do baluarte do Maranhão e das praias nuas e ardentes do Ceará. Eu vinha endereçado a um estudante veterano que meu pae conhecera em suas passagens pelo Maranhão com destino ao Piauhy, sua terra. Trouxe-me elle do vapor para a sua republica na rua do Hospício. Foi a mais penosa transposição que soffri. Sahir da minha vasta casa paterna, dos meus mirantes, dos meus quintaes, para metterem-me em um casebre de meia morada, sem assoalho, com um mesquinho terreno, ter como meu quarto um espaço de três metros de comprimento e metro e meio de largura, dormir em cama de vento e me servir de uma estricta e pobre mobilia, foi um sacrifício que me impunha resignação. O meu temperamento não se conforma, mas submettido á disciplina, não se revolta por coisas medíocres e mesquinhas. Posso passar do estado de maior conforto ao da maior miséria, sem indignação. Só quero conservar em tudo, integra, a minha liberdade espiritual. Confinado no meu quarto, esperava na maior desolação que se abrisse a Faculdade, para me occupar. Sabino também entristecera. Consolavamo-nos, os dois, nas recordações do Maranhão, e com os doces que trouxemos e que serviam para mitigar a fome que soffriamos com a exígua comida da republica. Os companheiros de casa, com excepção do piauhyense, eram infectos. Viviam desmazeladamente, sem o menor pudor, e distantes de qualquer preoccupação intellectual. Andavam nús pela casa, berravam palavrões e devoravam a comida que vinha de fora e deixavam-me em jejum. A audácia delles não poupara os meus objectos, de que se apropriavam para uso commum e das minhas roupas em que se enfiavam, apezar de serem homens corpulentos e eu ainda uma criança. Uma tarde, ao chegar á republica, vi um pugilato de Sabino com um delles que havia arrombado a minha mala e delia retirado algumas camisas. Sabino que removia esses abusos e essas misérias, avançou energicamente para o arrombador e, mais forte do que elle, o sovara a valer. Foi como cessou a depredação dos meus companheiros de casa, que me mostravam curiosos aspectos da humanidade. Nada communiquei a meu pae. Elle, na sua grande bôa fé, tinha escolhido tal republica, preferia soffrer tudo a dar-lhe uma tristeza. 0 respeito a meu pae me governou muito nesse primeiro anno da Academia. Tinha-lhe promettido recolher-me todas as noites ás 9 horas. Não havia convites, seducção, passeio, riso, escarneo, ameaças dos collegas, que me fizesse faltar a esse compromisso. Quantas vezes, não vim correndo para a casa, deixando a mais interessante companhia, quando soava na matriz da BôaVista, a primeira badalada das nove horas. Sabino me esperava confiante. Fechavamos-nos no meu quarto. Recordávamos o nosso Maranhão. Falávamos nos queridos ausentes e eu, incrédulo, agarrava-me na solidão, no vasio de toda aquella primeira vida de estudante, aos santos, que minha mãe me dera e que vieram commigo, São Luiz Gonzaga, patrono dos estudantes, a quem eu fora consagrado, São José, santo do meu nome. Esse martyrio obscuro, informe, ia cessar. Abrira-se o concurso para professor substituto da Faculdade. Foi o concurso de Tobias Barretto. Eu já havia iniciado os meus estudos na Academia. O que me ensinaram de philosophia do direito, eu não entendia. Era superior ao meu preparo, e professado sem clareza, sem o fluido da communicação. José Hygino, o pesado, mestre spenceriano, nos enjoava e nós não o entendiamos. A outra matéria era o direito romano mais comprehensivel, porem, que professor calamitoso era o velho e ridiculo Pinto Júnior! O concurso abriu-se como um clarão para os nossos espiritos. A electricidade da esperança nos inflammava. Esperávamos, inconscientes, a coisa nova e redemptora. Eu sahia do martyrio, da oppressão para a luz, para a vida, para a alegria. Era dos primeiros a chegar ao vasto salão da Faculdade e tomava posição junto á grade, que separava a Congregação da multidão dos estudantes. Immediatamente Tobias Barretto se tornou o nosso favorito. Para estimular essa predilecção havia o apoio dos estudantes bahianos ao candidato Freitas, bahiano e cunhado do lente Seabra. Tobias, mulato desengonçado, entrava sob o delirio das ovações. Era para elle toda a admiração da assistência, mesmo a da emperrada Congregação. O mulato feio, desgracioso, transformava-se na arguição e nos debates do concurso. Os seus olhos flammejavam, da sua bocca escancarada, roxa, movei, sahia uma voz maravilhosa, de múltiplos timbres, a sua gesticulação transbordante, porem sempre expressiva e completando o pensamento. O que elle dizia era novo, profundo, suggestivo. Abria uma nova época na intelligencia brasileira e nós recolhíamos a nova semente, sem saber como ella frutificaria em nossos espirites, mas seguros que por ella nos transformávamos. Esses debates incomparaveis eram pontuados pelas continuas ovações que fazíamos ao grande revelador. Nada continha o nosso enthusiasmo. A Congregação humilhada em seu espirito reaccionario, curvava-se ao ardor da mocidade impetuosa. Proseguiamos impávidos, certos de que, conduzidos por Tobias Barretto, estávamos emancipando a mentalidade brasileira, afundada na theologia, no direito natural, em todos os abysmos do conservatismo. Para mim, era tudo isto delirio. Era a allucinação de um estado inverosimil que eu desejava, adivinhava, mas cuja realização me parecia sobrenatural. Tobias Barretto fez a sua prova de prelecção oral. 0 orador attingiu para a minha sensibilidade ao auge da eloqüência. Quando terminou, recebeu a mais grandiosa manifestação dos estudantes, a cujo enthusiasmo adheriram os lentes unanimes. Foi então que, tomado de um impulso irreprimível, saltei a grade e por entre as acclamações dos estudantes e deante do assombro da Congregação, atirei-me aos braços de Tobias Barretto, que me recolheu commovido e generoso. "Já é acadêmico?" perguntou-me, admirado da minha pouca idade. "Sim, calouro." Abraçou-me novamente. "Pois bem, vá á minha casa esta noite." Que deslumbramento! Não voltei aos meus collegas. Fiquei por ali mesmo, mettido em algum canto da sala da Congregação e sahi acompanhando, como uma pequenina sombra, o Mestre. A' noite, eu estava em sua casa em Afogados. Nunca mais me separei intellectualmente de Tobias Barretto. São passados mais de quarenta annos desse grande choque mental, e ainda resinto em mim as suas ineffaveis vibrações. Por elle me fiz homem livre. Por elle sahi dos nevoeiros de uma falsa comprehensão do universo e da vida. Por elle affírmei a minha personalidade independente e soberana. A lição de Tobias Barretto foi a de pensar desassombradamente, a de pensar com audácia, a de pensar por si mesmo, emancipado das autoridades e dos canons. A sua primacial acção foi destructiva. Naturalmente. No Brasil ha sempre muito que destruir. Mas ao mesmo tempo que a sua critica destruía, novas perspectivas surgiam para a cultura, novas bases para a intelligencia se firmavam. Para se avaliar o que foi a acção de Tobias Barretto, basta attender o que eram os estudos de direito antes delle e depois delle. Sahiamos da disciplina de Braz Florentino, de Ribas, de Justino, para as lições de tantos mestres emancipados. O Código Civil brasileiro, construcção de Clovis Beviláqua, se filia á inspiração de Tobias. A critica se renova por elle. Sylvio Romero, Araripe e o próprio José Veríssimo são seus discipulos. A nossa mesquinha philosophia, o que tem de mais intelligente, vem da libertação do grande mestre do pensamento livre. Ainda hoje se pode dizer como se disse de Kant, que voltar a Tobias é progredir. As grandes alavancas com que combateu a velha mentalidade brasileira, foram o transformismo, o monismo, o determinismo. Todas estas forças, por maiores que sejam as modificações das interpretações que receberam, estão vivas e zombam dos ataques innocuos e estafados dos theologos. Si não é possivel comprovar o mecanismo do transformismo e si o conceito deste variou com as hypotheses da mutação e da genética mendeliana, é impossível a certeza scientifica do criacionismo. A hypothese da criação será uma hypothese sentimental. O monismo de Tobias Barretto não é o monismo inflexível do mecanismo haeckeliano Tobias Barretto, kantiano imperterrito, admitte no conceito do monismo philosopbico a parte do sentimento, que o movimento para elle não explica. Ha o mecanicamente inexplicável de Kant, que é uma brecha no monismo integral, levando ao dualismo. Também hesitou em afastar totalmente o finalismo, admittiu a hypothese do acaso, e assim destruiu, pela base, a concepção mecanista do universo. Estas hesitações de Tobias Barretto, de que os seus adversários theologos não souberam até agora tirar partido, se explicariam pelas reacções sentimentaes, pela disparidade entre a evolução da intelligencia e a do sentimento, que elle maravilhosamente explicou e generalizou. Onde Tobias Barretto não vacillou, foi na repulsa do direito natural. Para elle o direito não é anterior á sociedade, é um producto cultural desta. Só por isso, o seu serviço ao pensamento jurídico, foi incommensuravel. Cahiu por terra toda a construcção errônea do direito e no Brasil entrou uma rajada de pensamento livre, de cultura moderna, que fecundou numerosos espirites e está se desenvolvendo na insurreição mental que leva de vencida as reacções de toda a ordem. Ninguém trouxe tamanha contribuição á cultura neste paiz. Pela vastidão da intelligencia, pela actualidade da orientação, pelo realismo no pensamento, pela instrucção dos novos valores scientificos e literários, pelo desassombro, pela dialética, Tobias Barretto foi o maior homem do Brasil até hoje, não excedido, nem mesmo igualado por nenhum outro. Foi um precursor, não somente no direito e na philosophia, mas também na critica literária e musical. Foi o primeiro brasileiro que definiu Wagner e deu-lhe a supremacia na musica moderna, reduzindo os méritos, então muito apregoados, de Meyerbeer. Foi o primeiro que, em 1880, comprehendeu e assignalou Walt Whitman, que estava reformando a poesia moderna. Em 1882, apontou a grande novidade que Aluisio Azevedo trouxera á literatura brasileira com o Mulato. Em nada lhe faltou o gênio divinatório e si por acaso foi injusto, não deixou de perceber o alto merecimento dos seus adversários, quando estes o tinham, e os combatendo, prestava-lhes grande homenagem. Todo esse assombro, eu colhi na própria fonte, da convivência de Tobias Barretto e a vida passou a ter para mim um sentido fabuloso, o da intelligencia do universo. O que me sustentou na adolescência e me livrou do desespero em que succumbiram ou se perderam muitos jovens, foi esta aspiração á cultura scientifica. A certeza que eu tinha, embora precipitada e presumpçosa, me contentava. Delia se originou uma metaphysica, pela qual eu me integrei no Cosmos e me resignei a ser um accidente do universo. Esta salutar resignação deu-me a calma e a força de proseguir no desenvolvimento espiritual. Não conheci as famosas crises da mocidade, não hesitei entre a religião e o materialismo. Decidi-me muito cedo, serenamente, por este. Não fui um momento siquer vitalista, criacionista, finalista. Fui religiosamente determinista, mecanicista, monista. E quando hoje vejo de novo restabelecidas e victoriosas, nas suas bases essenciaes, estas ideas, que me fanatizaram na juventude, sinto-me arrebatado por uma grande e ineffavel alegria. Nesta allucinação cerebral, os meus sentidos se entorpeciam e a minha puberdade não recebia choques sexuaes perturbadores. A machina de pensar se desenvolvia em mim atrophiando ou amortecendo o mecanismo sensual. Nem mesmo a paizagem interior do Recife me enfeitiçava nesse primeiro anno. Só mais tarde gosei o encanto das pontes, que atravessava chupando roletas de canna, deliciei-me com as margens do Capiberibe, a magia de Magdalena, da Torre, da Ponte de Uchôa, com os banhos do Beberibe, de Apipucus e de Caxangá. Nesse primeiro anno o tempo era pouco para absorver o alimento intellectual que recebia de Tobias Barretto. Destaquei-me dos meus infectos companheiros de republica, reduzindo ao mínimo a nossa forçada convivência. Agrupei-me com os ardentes da Faculdade, formei no rancho dos estudiosos, dos innovadores, dos rebeldes. A primeira marca de revolta que dei, foi por occasião da eleição do representante dos acadêmicos, na commemoração abolicionista de 28 de setembro. O nosso candidato, o poeta Martins Júnior, era combatido pelo candidato bahiano Felinto Bastos. Este sustentado pelo lente Seabra, naquelle tempo o mais desenfreado reaccionario dos professores. Nós, os avançados, o detestávamos e elle não nos poupava. Na eleição tão disputada, a urna foi fraudada. Seguiu-se um tumulto diabólico. A eleição foi interrompida, os estudantes partidários de Martins Júnior sahiram, carregando a urna viciada pelas ruas e fomos nos reunir na republica maranhense de Benedicto Xeite, Urbano Santos e Francisco Viveiros de Castro, chefes desse movimento abolicionista-academico. Foi redigido um protesto contra a fraude que se attríbuia á inspiração do então joven Seabra. Quando foi o momento de o assignar, fui o primeiro a escrever meu nome, debaixo de applausos dos collegas. Fiquei altivo com este acto de independência e o menino calouro já conhecido pelo seu pequeno tamanho e pela sua pouca idade, notabilizou-se pela sua coragem. Essa attitude valeu-me a consideração dos maranhenses e a amizade de Martins Júnior, de quem passei a ser companheiro, apezar da differença de idade. Eu o seguia nas reuniões publicas, filiei-me ao seu grupo republicano, e como elle era discípulo fervente de Tobias Barretto, a ossa affinidade se completava. E' verdade ue nem nos escriptos, nem nas lições, em nas conversas do nosso mestre encon•avamos apoio philosophico ou politico para 3 nossas idéas republicanas. Decididatente eu estava em estado de graça para iceber fascinações. A' fascinação de Tobias arretto veiu juntar-se a de Martins Júnior, íão tinha esta a força absorvente da outra, inha muita doçura, que tornava Martins unior encantador. Do meu segundo anno licanos ardentes e ahi o meu temperamento paixonado se refinou. Fui dos mais exaltaDS e mais radicaes. Toda a vez que uma íéa me toma, ella se converte em sentiLento absoluto, exclusivo, e me governa, ssim fui abolicionista, republicano, anarnsta, alliado, modernista e revolucionário, o primeiro momento, no período do conirso, o grupo de Tobias Barretto se fortacia nos seus adeptos Clovis Beviláqua, rthur Orlando, Martins Júnior, Gumercindo Bessa, Fausto Cardoso, Oliveira Telles, Phaelante da Câmara, Souza Bandeira e entre outros menos expressivos, Urbano Santos, Benedicto Leite e Francisco Viveiros de Castro. Foram estes os príncipaes representantes da "escola do Recife", inspirada também por Sylvio Romero. Os que mais possuíam a iniciação secreta de Tobias Barretto, os que mais participavam das suas confidencias e o seguiam muito de perto, eram sem duvida Arthur Orlando, Gumercindo Bessa e Fausto Cardoso. Os outros tinham profundas ligações, mas por alguns lados escapavam á disciplina do mestre. Assim Martins Júnior era republicano e vinha do positivismo. Cio vis Beviláqua também recebera na iniciação positivista o toque da emancipação. Para ambos, a sociologia era a sciencia instituída por Auguste Comte e jamais a repudiaram. Ao passo que Clovis Beviláqua desenvolvia o seu espirito nas experiências jurídicas e nellas adquiriu a mestria pela orientação e pela cultura, Martins Júnior se tornou homem de partido. Emquanto foi preciso demolir a monarchia, a sua actividade foi útil e fecunda. Finda a batalha, a insufficiencia do seu espirito se patenteou para a organização politica e mesmo partidária. Faltaram-lhe a habilidade de conduzir, a orientação de mandar, o conhecimento pratico. Ficou um vago demagogo que se desequilibrou nas contingências da realidade, improductivo, inútil. Esse phenomeno de homens combatentes, demolidores, se tornarem imprestáveis constructores, está se repetindo na organização revolucionaria de 1930. Ninguém fanatizou Pernambuco e todo o norte, como Martins Júnior, no advento da republica de 89. O seu fim foi lamentável. Não acompanhei Martins Júnior nas suas experiências da poesia scientifica, como também fiquei fiel á orientação philosophica de Tobias Barretto. As nossas affinidades eram principalmente nos problemas sociaes, abolição e republica. A esses movimentos fui seguramente levado mais pelo sentimento do que pelas idéas. Devia ser indifferente a um iniciado no darwinismo a escravidão do mais fraco pelo mais forte, e também a organização monarchica da sociedade, como a do universo pelas leis da attracção e da gravitação. Mas o sentimento humanitário reagiu sempre em mim e determinou a minha conducta. Por outro lado, sou h0reditariamente revolucionário. Essa fatalidade me impõe a ânsia da libertação, o furor de mudar o mundo, e tudo transformar. Taes foram as directivas, que recebi, no meu primeiro anno. No principio apenas recolhi as sementes, que iriam germinar mais tarde. Essa fecundação espiritual era muito violenta e inebriante. Absorvido nelja, pude supportar os soffrimentos, que me causavam as misérias da republica, e atravessar puro, num halo de innocencia, as torpezas que me armavam os meus abjectos companheiros. Já eu assignalei essa reserva de pureza que levei para o Recife e que me mantinha em estado de candura. A essa pureza devo juntar o estado de magia que me vinha da embriaguez do conhecimento, da aspiração de penetrar nos segredos do universo. Foi o milagre de Tobias Barretto em mim. 0 milagre da libertação. Exames concluídos, volta ao Maranhão para as primeiras ferias do acadêmico. Para quem sahia como eu, da sarça ardente do pensamento e da acção intellectual, a viagem, que na ida me deslumbrara, era agora triste desencanto. Escapava-me o sentido objectivo da paizagem. Esta me interessara pelo seu angulo subjectivo. Voltando, não era eu o mesmo, que recebia alegremente as revelações das terras, das praias e dos mares differentes do Maranhão. O meu estado de espirito me separava do ambiente e me concentrava nas meditações abstractas. Assim cheguei ao Maranhão. Recebi logo o choque da desolação. Aquelle triste porto, aquellas coroas de areia, aquellas águas baixas, me acabrunhavam. Desde a rampa, onde o escaler me deixou, me veiu a invasão do silencio. Recife certamente não é uma grande e ruidosa metrópole. Mas para mim, naquella época, era o movimento e a agitação, emquanto a minha cidade tinha recuado muito no tempo e se paralysara. No largo do Palácio, onde era a velha moradia, capinavam os calcetas da cadeia e pastavam carneiros e cabras. Debaixo das vastas amendoeiras, os mesmos moleques de sempre atiravam pedras aos frutos, que jamais elles deixam amadurecer. Na minha casa, agora desencantada, aquecia-me a infatigavel ternura dos meus pães. Uma athmosphera de admiração me envolvia e meu pae era o seu inspirador. Eu não me sentia equilibrado nesse velho mundo agora' extranho para mim. Era uma criança que voltava á familia. Não era bem um estudante emancipado, mas sentia-me separado do meio familiar. 0 paladar era o único sentido que me prendia ao meio maranhense e na sua desforra, a alegria que me integrava no velho Maranhão. Eu pedia a minha mãe que me desse as comidas mais populares da cidade, o carneiro da tia Carolina, que passava ás 9 horas da manhã, a cangica de Dona Monica ás duas horas da tarde, o dez-reis-só das negras minas, cocada puxa de mel escuro, os alfinins, os confeitos, as amêndoas dos tabuleiros de doce da tarde, e o peixe frito e o arroz de cuchá da noite. Era um regalo tudo isso, que me matava a fome trazida da republica e me consolava. Emquanto os outros estudantes folgazavam nas dansas familiares e nos calacearios, eu me recolhia á solidão da casa. As moças me achavam muito menino. Quatorze annos apenas. O pudor e a educação me afastavam da gandaia. Deliciosos serões com minha mãe. Ella era uma grande devoradora de romances. Quando as provisões que o carinho de meu pae sempre entretinha, se extinguiam, havia o recurso da bibliotheca do Gabinete Portuguez de Leitura. A velha Militina era a mensageira dos livros. Minha mãe dispensava nas noites de novidade literária acompanhar meu pae ás suas visitas. As crianças estavam recolhidas. Só eu velava ao seu lado. Emquanto ella absorta lia, eu ensaiava escrever dissertações de philosophia e de direito, que eram reminiscencias das colheitas das lições de Tobias Barretto. Raramente éramos interrompidos, porque, segundo os costumes, as visitas se annunciavam pelas criadas, que, durante o dia, vinham "tirar licença" para as suas senhoras. O que apparecíam ás vezes, eram pedintes, sempre soccorridos. Ou então a visita de duas velhinhas esqueléticas e miúdas. Minha mãe repousava o livro e as ouvia complacente. Vinham vender bonecas de panno que faziam. Sobre a mesa, ostentavam bonecas vestidas de bahiana, portuguezas, saloias, francezas de anquinha. Bonecas nuas, brancas, mulatas e pretas. Depois dessa mostra, as velhinhas retiravam sorrateiras, do balaio, outras bonecas que traziam escondidas e muito cautelosas apresentavam bonecas que chamavam perfeitas, peitudas, sexuadas, pelludas. Essa nudez desenvergonhada da mulher, mesmo assim em effigie de panno, alvoroçava doidamente a minha virgindade curiosa. Minha mãe corria com as exquisitas velhas da sua casa, onde ellas tornavam cynicamente para o meu prazer imaginativo. Outra diversão dessas minhas primeiras tristes ferias eram os passeios a cavallo para fora da cidade. Eram jornadas maravilhosas, organizadas por meu pae para a minha diversão. Elle não me acompanhava. Eu ia de bando com os tios moços e com alguns primos. Seguíamos pelo caminho grande, a única estrada que leva para o Cutim e dahi até o Anil, Villa do Paço e São José do Riba-mar, com a bifurcação do Turú. Eram manhãs quentes, em que o sol come as cores e torna tudo luz. No Cutim, toca a despir e a cahir nagua fresca e lodosa do regato. Monta-se de novo, um bom galope, passa-se nas sombras de Saramanta, chega-se aos alagados do Anil, espantam-se as lavadeiras e segue-se até o encantador Paciência, onde me esperam as já burguezas primeiras recordações do seu encontro. E' a Maioba, o sitio de Martinus Hoyer, das ferias de meu pae, e mais longe o sitio do Fernando das Cuias. Este era curioso artista que havia descoberto ou continuado o segredo de pintar cuias com tintas indeléveis e brunil-as com um verniz maravilhoso. Ahi estacionávamos. O velho, artista cego, estava na sua pequena, humilde officina. As filhas, raparigas formosas, o ajudavam. A nossa presença tudo transtornava. O velho encantava-se em trabalhar sob a nossa admiração. As filhas, sem mãe, tratavam de nos obsequiar. Subitamente o velho ficava abandonado pelos rapazes. Só eu, o mais criança, permanecia em sua companhia. Os outros embarafustavam pela casa a dentro em busca das mo(1886) ças e logo se ouviam gritinhos gostosos das perseguidas, correrias pelo terreiro, dos rapazes atraz das raparigas, que eram por elles apanhadas sob a alegria de beijos violentos e cubiçosos. A caça não tinha melhor resultado. Parava nessas caricias, cheias de esperança. Março chegou e voltei a Pernambuco. O vapor repleto de estudantes. Na minha qualidade de segundo annista cabia-me ser perseguidor dos calouros. Preferi ser o protector. Todos eram mais velhos do que eu e nada mais agradável á minha vaidade do que os proteger. Obstava as judiarias excessivas e com doçura vencia os Ímpetos das grosserias dos veteranos. A aureola da sympathia foi me acompanhando durante todo o curso acadêmico. O meu primeiro acto de independência ao voltar ao Recife, foi o de abandonar a dolorosa republica do meu primeiro anno e ir morar com estudantes maranhenses. Nesse meio quasi familiar e tão affectuoso, senti-me á vontade. Sahi das mortificações, das scismas e do isolamento, que tanto me acabrunharam para uma livre animação do meu temperamento. Principiei a ser verdadeiramente um estudante. Expandi-me nas brincadeiras juvenis, vadiei pelas ruas em grupos barulhentos, formei nas manifestações acadêmicas de protestos contra a policia, fui alegre e ruidoso. Por esse tempo descuidado, tomei conhecimento mais intimo com a cidade e fiquei encantado com a sua paizagem e com a dos arredores.

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