Universo da obra
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OS TELEGRAMAS (ENTREATO)
Um quarto no palácio do governo em Porto Alegre.
Júlio, o Sublime, em ceroulas e de barrete frígio, afasta lentamente os lençóes e se senta na cama
Bruxuleia no quarto a chama de uma vela de graxa pelotense, pondo sombras fugidias e súbitos clarões nas faces de uma fotografia de Clotilde de Vaux. Ouve-se fora um canto de serenata ao violão.
A SERENATA (com a música do fadinho do Hilário) Ai! quem me dera querida,
Viver contigo até a morte!
Mas ah! tristezas da vida!
Sou mesmo um coió sem sorte!
JÚLIO
Coió sem sorte! Insultam-me, é isso mesmo!
Ah! canalhas! hipócritas, bandidos!
Tiram-me a graxa, deixam-me o torresmo,
Roubam-me as minhas ilusões queridas!
Dizem-se amigos, são amigos ursos,
Chamam-me chefe, mas me vejo a sós,
Sinto para a eleição não ter recursos,
Sofro como o mais reles dos coiós.
A SERENATA
Mas ah! tristezas da vida,
sou mesmo um coió sem sorte!
JÚLIO (ensaiando o metro)
Ai quem me dera a mim, presidência querida, Empolgar-te de vez, só deixar-te na morte.
Mas oh! tristeza infinda, amargura da vida Eu sou mesmo um coió, mas um coió sem sorte!
E então! não é que até consegui fazei verso-
MEDEIROS (o Borges) escutando no buraco da fechadura.
Não é que consegui fazer uns pés quebrados-
Contra o pensar do Mestre e o que o Mestre ordenou-
Não! não se metrifica a ciência do universo, A lei das eleições...
JÚLIO (pensativo)
A lei dos três Estados,
Perdoai-me Augusto Comte e Clotilde de Vaux.
MEDEIROS (entrando)
Três Estados! Quais são-
JÚLIO
De Santa Catarina,
Rio Grande do Sul e mais o Paraná,
MEDEIROS
Unidos estes três ah! que eleição divina!
JÚLIO
MAS QUAL! São muito pouco humanos sem h.
MEDEIROS
Se te vim surpreender, em trato com as musas, Foi para te provar que os ânimos inflamas E que em nossa bancada as coisas vão confusas.
Trago-te aqui, senhor, estes dois telegramas.
A SERENATA
Mas oh! tristezas da vida-
Sou mesmo um coió sem sorte!
JÚLIO (depois de ler)
Diabos o levem, ao inferno, vede,
Caro Medeiros, que desgraça a minha!
Eu creio que afinal caí na rede,
Mexeram-me de mais na panelinha.
Querem minha opinião sem mais aquela
Exigem-m'a num tom imperativo,
Como hei de me sair da entaladela-
Responde-me Medeiros, morto ou vivo!
Aqui não vim somente aconselhar-te
Nem matar as saudades de palácio.
Sei que sou o todo e que tu és a parte.
Responde-me, responde--me, pascácio!
MEDEIROS (trêmulo)
Se aqui estou, meu senhor, a ti somente o devo.
1
JULIO (iracundo)
Falo-te em verso heróico e dás-me alexandrino-!!
(Mudando de tom)
Mas vamos ao que serve, ao meu único enlevo, O que dizem de mim e dizem do Quintino-
(A SERENATA, muito ao longe)
Eu e tu no mesmo embrulho
Iremos juntos à morte!
Castigo do nosso orgulho!
Somos dois coiós sem sorte!
JULIO
Medeiros, dize cá; é comigo o "deboche"-
(A! é me saiu frouxo este verso, por cima!) Dá-lhes uma lição,
MEDEIROS
A quem quer que eu arroche-
JULIO
Ao Marçal Escobar mais o Barbosa Lima.
MEDEIROS
E a resposta, senhor, a estes dois telegramas-
Eu bem quis responder, porém não sei se devo...
JULIO
Tu que por minha glória em tais zelos te inflamas Responde ao meu nome.
MEDEIROS
O quê-
JULIO
Talvez te escreva.
MESTRE COM
Rio de Janeiro, 2 set. 1901.
Poesia Satírica e Versos de Circunstância, de Emílio de Meneses, é uma coleção poética brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza os poemas em capítulos publicados, com espelhos de conteúdo completos, fonte consolidada da Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos/UFSC e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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