Universo da obra
Universo da obra
1 Malvado Gato, Gato irreverente,
Que sem pena os políticos arranhas,
Que enches de medo da polícia a gente
Com as tuas endiabradas gatimanhas.
5 A polícia persegue-te inclemente
E uma reclame estardalhante apanhas.
Aumentas a edição galhardamente
E, com os aplausos, mais trame ganhas.
9 Escaldados, não temes água fria;
De unhas de fora, investes com coragem
Contra a bajulação e a hipocrisia.
12 Elas, sentindo os arranhões, reagem;
Mete a polícia o Gato na enxovia, Deixando em liberdade... a gatunagem.
"Um guarda civil proibiu que vendedores de jornais, descalços, exerçam a sua profissão."
1 Guarda civil desastrado.
Que agiste de tal maneira!
Vês agora o resultado-
S'tás por causa do calçado
Levando descalçadeira.
ZANGÃO
A Imprensa, Rio de Janeiro, n 1554, 15 dez. 1911, p. 1.
1 Aquele negro capacho
Caiu de uma escada abaixo
Em noite de carraspana...
4 Mentiu, depois, que a bicheira,
Que rareou-lhe a cabeleira,
Fora uma bala certeira
Da pífia gente solana.
1 Empertigado malandrin pachola,
De polainas, monóculo e bombachas,
Mandou pôr na botinas meia sola
E abandonou de vez Porto das Caixas.
5 Traz registradas na caraminhola
Marcas de pontapés e de bolachas;
Faz versos; nos lundus ao tom da viola
É o Conde Monsaraz das classes baixas.
9 De Senha-Flor na rabadilha, ansioso, De focinho no ar e ereto rabo
Tem estesias de cachorro gozo.
12 Come sardinha e dois vinténs de nabo; Bufa num quebra-queixo pavoroso
E arrota petisqueiras de nababo.
"Arrancado às hortas e capinzais de Catumbi, no primeiro dia da florescência dos agriões, aniversário de Sinhá Flor."
1 Como passas, B. Lopes- - Eu- Maluco!
Julguei um dia possuir princesas...
- E arranjaste este tipo mameluco-
- Que anda me pondo cá lampas acesas
5 - Mas eu te vejo sempre em tais proezas
- "Era a mais bela flor de Pernambuco"
- E hoje- perdeu acaso tais belezas-
É o mais feio canhão de Chacabuco.
9 Mas coragem! que a rima se derive
Pelo reguinho do meu verso, à toa,
Murmurando, ao passar, rimas em ive.
12 Vejo-te magro, espinafrado...
- É boa! Pois tu não sabes que comigo vive D. Adelaide de Mendonça Uchoa-
1 Meu caro Nico. Eu sei que tu compreendes, Da vida, o que há de menos ou demais
E não ralhas, castigas ou repreendes,
A não ser por motivos imorais.
5 Trazes apenso ao nome teu de Mendes O plural da moral, sendo Morais.
Com tais nomes de ataques te defendes
E podes atacar com nomes tais...
9 E que esses nomes são a bela herança Da honestidade atávica, ancestral
Que dá aos teus atos força e segurança.
12 Deixa pois que esta musa amiga e leal Aqui te oferte a humílima lembrança
Deste soneto sobre o teu natal.
1 Meu caro Silva Araújo,
Júlio forte, alegre e nédio.
Eu de tão "limpo" ando sujo,
Por causa de um tal remédio.
5 Aí tenho uma receita
Que fica, por meus tormentos,
Depois da conta já feita,
Em treze mil e quinhentos...
9 Se algum crédito mereço
Este fiado não disfarço,
Pagarei logo ao começo
Do próximo mês de março
12 O pedir-te me desgosta,
Porém, como de outras vezes,
Sê bom mandando a resposta
Ao Emílio de Menezes.
MEU CARO PIRES BRANDÃO: Menos Brandão que brandura,
Pois de "Brandão" tens a cera
Ao lhe dar molde e feição
Fecho o parênteses, mau!
Não me sai isto a contento,
A frase é banal, sem jeito,
E se és amigo do peito,
Dá com o que peço um quinau,
Pois hoje sofro o tormento
De não ter um "nicolau"!
Como os tempos são cruéis
Para mim por estes meses,
Eu já não sei o que faça,
A não ser que na desgraça,
Me valham amigos fiéis!
Salva o Emílio de Menezes,
Brandão, com vinte mil-réis.
A pobreza.
De acordo.
A necessidade.
E eu que o diga.
AO QUERIDO PIRES BRANDÃO:
1 Não te perpassa pela mente a troça
(Pois é troça o pensar-se na velhice),
De que se a idade, em anos, se te engrossa, Já deixaste a garrida meninice.
5 A bondade imortal, que a alma te adoça, Dá-te um cunho infantil, e essa meiguice Que é nosso encanto e que é alegria nossa, Chora entre risos e, entre prantos, ri-se.
9 Se no espírito tens a madureza
E no caráter tens a anciã virtude
Dos remotos varões da sã nobreza,
12 Quem de ti se aproxima, não se ilude: No coração plantou-te a natureza
O viço em flor da eterna juventude.
Poesia Satírica e Versos de Circunstância, de Emílio de Meneses, é uma coleção poética brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza os poemas em capítulos publicados, com espelhos de conteúdo completos, fonte consolidada da Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos/UFSC e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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