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Poesia Satírica e Versos de Circunstância

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Poesia Satírica e Versos de Circunstância

Capítulo 7 · Poesia Satírica e Versos de Circunstância

Um Milagre

7 de 19 ≈ 12 min de leitura

(Propaganda do xarope Bromil)

Lira: Se qual o azeite anda por cima,

Nada a muda do branco para o preto,

E nem perde a verdade apreço e estima

Pelo fato de a expor em tom faceto;

Como tudo que existe cabe na rima, Bem cabe um atestado num soneto.

Por isso, a idéia que hoje aqui me anima, Nestes quatorze versos lhe remeto;

Pode afirmar, por toda a eternidade,

Aos mil que sofrem e aos descrentes mil, Que isso que aí vai é a essência da verdade!

De horrível tosse que me pôs febril,

Dei cabo, usando apenas a metade

De um milagroso frasco de Bromil.

D. Quixote, Rio de Janeiro, 1 ago. 1917 (contracapa).

"Ferrando José Patrício, guarda-livros da casa An gelino Simões & C., caiu ontem no Conto-do-Vigário, tendo os larápios lhe levado a quantia de 100.000$000.”

(Noticiário)

Que o delegado de olho vivo seja

nesse inquérito, ao qual já deu início

E, se a verdade descobrir deseja,

Note que o gajo é mestre no artifício.

Com tal nome não vai à minha igreja,

Pois de pátria não ter, tem ele o vício: Em qualquer parte em que Patrício esteja Ele de todos há de ser patrício.

O caso nada tem de extraordinário:

O vigarista, porque andasse pronto,

Viu no patrício o desejado otário.

Mas repare só a polícia neste ponto:

Se prender o contista do vigário,

Não deixe solta a vítima do conto.

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n.º 1340, 23 ago. 1911, p. 1.

"Acertemos os nossos relógios! A questão da hora.

O governo propõe que se adote a hora universal!

(Editorial d'A Noite)

A Noite (entre parênteses eu digo

sem reclame: e um jornal muito bem-feito) Deu em colunas de honra um longo artigo

Sobre a hora certa, e leva o caso a peito, Eu gostei da tirada e dou-lhe abrigo;

Porém, no assunto, penso cá a meu jeito,

Pois só tenho um relógio muito antigo Que regula do modo mais perfeito!,..

Sabem que o penhorista sempre "adianta"

Se o dono do relógio em sede e gula

Está "atrasado" e empréstimo levanta.

Assim, tendo a "cautela" do Farrula, À hora em que parou, ele, em paz santa,

No prego dorme e, sem variar, regula!...

ZANGÃO

imprensa, Rio de Janeiro, n.º 1341, 24 ago, 1911, p. 1.

"Causou, aqui um verdadeiro sucesso a entrevista que teve o dr. Sã Peixoto com um jornalista do Rio, contando o abuso diário que o coronel Bittencourt, vulgo Pedro Álvares Cabra], faz de unia caninha especial, que manda vir de Pernambuco, e à qual dá o nome de imaculada.

Pena é que o Ilustre amazonense não se tenha referido a outros viciozinhos mais picantes do tira-nete de Manaus."

(De uma correspondência de Manaus)

Esta é mesmo imprevista e inesperada!

O velho Bittencourt pifões cozinha!

E do Amazonas descem de enxurrada,

Pororocas de cana ou laranjinha.

De palácio mal desce, agora a escada!

Física e moralmente ele definha

E o que a alma lhe macula, é a "imaculada", O que o corpo lhe verga é essa caninha.

Deu-lhe o alambique original mania:

É, uma loucura a bem dizer didática;

Fala até da prosódia e ortografia.

De pau-d'água governa ele na prática,

Pois não passa, a qualquer hora do dia,

Sem ser com "dois dedinhos de gramática"...

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n.º 1344, 27 ago. 1911, p. 1.

O NOVO PRESIDENTE DA REPUBLICA PORTUGUESA

"A escolha portanto, a todos os respeitos, não po-deria ser mais auspiciosa.

Apenas haveria a objetar, quanto à sua avança-

da idade de 70 anos, total inexperiência prática de negócios públicos, e até mesmo essa integridade moral, pouco favorável à convivência com elementos partidários, ainda agitados pela recente revolução."

(Gama Rosa - Comentários)

Pondo de parte a inexperiência prática

Que. é igual à atividade de quem dorme,

À rapidez motriz da força estática,

Ou a ser desigual por ser conforme;

Pondo mesmo de parte a nota enfática

Do artigo todo, hão de perdoar-me o opor-me.

A essa nova teoria sintomática

De grave mal e de perigo enorme!

Para o Gama a República recente

Ao que é honesto oferece logo embargo!!!

Que lhe agradeça a lusitana gente!

Olha o Rosa a bradar num gesto largo:

É muito sério para presidente!

Tem caráter demais para tal cargo!

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1352, 4 sei. 1911, p. 1.

"No momento crítico, chegou o coronel Antonio Bittencourt, governador, que foi assim amavelmente recebido pela sua cunhada:

Veja, aprecie estes escândalos. Os senhores man-dam dizer pelos seus jornais que no governo do Constantino e do Sã Peixoto se faziam neste palácio os maiores escândalos e as maiores orgias e, no entanto, eles nunca fizeram o que você e os seus estão fazendo. Metem meretrizes aqui, embe-bedam-se e se dizem homens de bem!"

(Correspondência de Manaus para

um dos nossos vespertinos)

Pedr'Alvares, pajé daquelas zonas,

Mas não tendo, como o ouro, um pedestal, Carrega o nome tropeçando às monas

Da "imaculada" cachacinha ideal!

Não me espanta este case do Amazonas,

Pois que chamam aqui na capital,

Certa rainha mãe das marafonas

de viúva de Pedr'Álvares Cabral.

Por isso, contra o tal velhote chuva

Não sei por que a cunhada assim se dana!

Veja-lhe a mão que está justinha à luva!

Pedr'Álvares também tem alma humana E do homônimo honrando o nome e a viúva

Faz do palácio a casa da Suzana!

ZANGÂO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1353, 5 set. 1911, p- 1.

"É preciso.................................................................

... que o Sr. Oliveira Lima venha curtir saudades, para ver se a nossa chancelaria vai mesmo mal dirigida ou se éapenas efeito da dístância."

(DA Imprensa)

A Colmeia discorda do É preciso...

Acho que esse homem vir aqui não há de,

Por mar de rosas e caminho liso,

Curtir uma hipotética saudade!

Sim! Saudade não tem quem não tem juízo, Nem quem intriga por perversidade!

Que o glorioso Barão, de sobreaviso

Fique, e mantenha firme a autoridade!

Põe ó Barão, teu coração de lado!

Por glória do Brasil e glória tua

Ninguém te empana o brilho conquistado!

O que É preciso - ---, eis a verdade crua: Para um tal tipo de indisciplinado,

É a pena popular: o olho da rua!...

ZANGÃO

Imprensa, Rio de Janeiro, n. 1354, 6 set. 1911, p. 1.

"Meu distinto amigo e chefe dr. Belisário Távora.

Saúdo-vos com a mais alta estima e toda conside-ração..

Estando quase que plenamente apurada a respon-sabilidade do dr. Juvenato Horta, no inquérito por mim aberto na 2.a delegacia auxiliar, venho de maneira a mais respeitosa solicitar dispensa dessa co-missão que,. interinamente, exerço.

Trata-se de um meu condiścipulo e companheiro de formatura, cujo infortúnio, pelo muito que me contrista, deveras lamento e deploro Espero que encontrareis nisso a justificativa de minha atitude.

Como sempre, lealmente solidário convosco, subscrevo-me com elevado apreço "amo cro att".

FLoREs DA Cunha."

(Dos noticiários)

Flores, não fora a nossa velha estima

E bastaria apenas esse fato

Para mostrar-me quanto estás acima

Do comodismo egoístico e pacato.

No gesto audaz que a independência anima, Do teu caráter deste fiel retrato.

Desta musa que nunca vende a rima,

Tens o, elogio a resto de barato.

Não sei quem seja o teu amigo, amigo!

Mas vi, mais de uma vez, que o teu ser vibra, Se, ante o dever, o amor corre perigo.

Em tempos em que o egoísmo se equilibra

Para bem se manter no achado abrigo,

Provas que és homem da mais rara fibra!...

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n. 1355, 7 set. 1911, p. 1.

"S. S. Pio X resolveu suprimir sete dias santifica-dos e criar um para o dia de São Pedro."

(Notícias de Roma)

Sem ter ofício certo, o nosso papa

Matuta agora em que passar o dia.

Da prisão que o envolve não se escapa

E, de Veneza, sofre a nostalgia.

Do mundo crente dominando o mapa

E, exercendo a maior soberania,

Vê, entretanto, que o mundo se lhe escapa E, não conhece o que dirige e guia.

Para se distrair, o prisioneiro,

Os dias santos, impiedoso, corta

Mas um concede ao celestial porteiro!

E não fizesse que, de cara torta,.

Quando soltasse o alento derradeiro,

São Pedro, à face, lhe trancava a porta!

ZANGÃO

imprensa, Rio de Janeiro, n. 1357, 9 set. 1911, p. 1,

"O sr. cônego Rangel concita os fiéis a tomarem atitude decisiva, contra o ato do governo que nan-dou seqüestrar os bens de Santo Antônio dos Pobres."

(Da Gazeta)

Seu cônego Rangel, brabo não seja!

Ninguém furtou seu rico patirmônio;

Ninguém foi profanar a sua igreja:

Você se perde num caminho errôneo.

Não sei por que você grita e troveja,

Sem ser procurador de Santo Antônio.

Até parece nessa má peleja

Que há dentro de você qualquer demônio.

O santo, dizem, era irmão dos pobres.

Santo Antônio dos pobres, não o nego,

Foi um santo dos mais puros e nobres!

Mas dos irmãos nenhum foi burro ou cego

E o que deixaram, carregando os cobres,

Não chega a dar quatro vinténs no prego...

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n. 1359, 11 set. 1911, p. 1.

Do padre Sena Freitas a figura

Nem é mal feita, nem das mais perfeitas.

As idéias que tem, outrora aceitas,

Ninguém por elas hoje em dia jura.

As "gotas" de um gostoso padre-cura, (Que são talvez de causas bem suspeitas) Assim as batiza o padre Sena Freitas:

Gotas de ciência e de literatura.

Já tendo Pingos o Correio, as gotas

Não são gotas nem pingos, são toleimas

Para velhas ingênuas e devotas.

"Mas elas" próprias, discutindo e em teimas, Dizem todas ponteando meias rotas:

Gotas virtuosas para as almorreimas...

ZANGÃ(1

A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1361, 13 set. 1911, p. 1.

"Mas entre essas patranhas aparecem as verdades, que são em geral os atos oficiais. Ora, precisamente, nessas notícias com loros de verdadeiras, surge a de que vão mandar para cá, exportados diretamente, os malandros e os patifes vagabundos que infes-tam Lisboa.

É uma idéia profundamente estapafúrdia e crimi-nosa, que é preciso em tempo impedir."

(Da Gazeta)

Terra que nada do que é nosso importa,

A não ser o dinheiro aqui cavado;.

Que ao cacau e ao café -nos fecha a porta E nem ao nosso açúcar dá mercado;

Que no manda o que estraga e o que conforta,

Grelhos paios, comenda, viscondado, Virgem da Régua, Verde Pedra Torta,

Genro vadio e tio desempregado;

Quer ver também se agora um plano ensaia E nos manda o seu vil resíduo humano.

De crime e vício toda a infâmia arraia!

Alto lá, Arriaga nesse plano!

O Brasil não é todo Sapucaia

Nem trapiche do lixo lusitano!..

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1363, 15 set. 1911, p. 1.

"Entre as muitas profecias do poeta Múcio Teixeira, há uma que diz: grande incêndio numa importante repartição pública-"

(Dos noticiários)

Múcio, o profeta, Múcio o hierofante,

Múcio que tudo cura e não se cura

Dos seus graves acessos de loucura,

Nem na fama de reles cartomante,

Talvez agora, num só breve instante

Por presente, pretérita e futura

Audácia, pague em horas de amargura,

O fez, o faz e o há de fazer por diante!...

Nada mais para inquérito é preciso,

A polícia debalde assim tateia

Em pasto incerto, trôpego e indeciso!...

Ouça o conselho que lhe dá a Colméia Com partícula vivíssima de juízo: Meta o Múcio, o profeta, na cadeia!

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1365, 17 set. 1911, p. 1.

Poesia Satírica e Versos de Circunstância

Sinopse

Poesia Satírica e Versos de Circunstância, de Emílio de Meneses, é uma coleção poética brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza os poemas em capítulos publicados, com espelhos de conteúdo completos, fonte consolidada da Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos/UFSC e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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