Universo da obra
Universo da obra
Mil noventos e onze
Ano de triste memória,
Promete ficar no bronze
Na bronzea chapa-da-Hist6ria,
Como o ano mais belicoso,
Mais feroz, mais desumano,
Desse período famoso
Da era do aeroplano.
Há guerras por toda parte,
Aqui e ali, longe e perto;
Sob a tutela de Marte
Nasceu este ano, por certo.
Luta a Itália com a Turquia,
A França ameaça a Alemanha
Enquanto a democracia
Abala o trono da Espanha.
Em Portugal o litígio
O mundo inteiro atordoa:
De encontro ao barrete frígio
Raivosa investe a coroa.
Com tinta rubra se escreve
A história dos nossos dias;
Chile jura que em breve
Peru corta em fatias.
Num desespero maluco
A política se dana;
Cá no Brasil, Pernambuco
Afia a pernambucana.
Contrastando com a funérea
Nota de tanta chacina,
O mundo escuta a pilhéria
Da república da China!
E ante tais fatos, em prece,
Diz o Múcio, desolado:
Ah! Deus do céu! se eu pudesse
Profetizar... o passado!
Quando surgisse o ano novo
Com certeza rude fria,
Tais fatos, todos ao povo
Então profetizaria.
Ser profeta do futuro Estragou-me a inteira pose!
Hei de levar tanto furo
Em novecentos e doze!
Mas como importa! o meu nobre
Esforço é bem compensado:
Se os tolos me passam cobre,
Sou profeta do passado!
ZANGÃO
A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1401, 23 out. 1911, p. 1.
NOTURNO
(Sugestões de um poeta, faminto)
Tudo cor de azeitona. Fim do mês.
Noite opípara: a lua, qual pedaço
De manjar branco, gira pelo espaço.
Ergue-se o monte como um bolo inglês.
Vejo a calda do oceano e a languidez
Da geléia d'arbustos que, em melaço
De orvalho, treme à aragem. Há um bagaço De nuvens no ar. O mar, de vez em vez,
Lança n'areia espumas de cerveja...
Vejo um sorvete e até de abacaxi
Sob a forma de torre de uma igreja!
Pelo espinheiro além, quanto palito!
E as estrelas, no céu, longe daqui,
São biscoitos jogados no infinito!
Por se ter aquecido um bronze, chegou, com um atraso de duas horas, o noturno paulista.
É, de certo, estranho caso
Esse que a imprensa anuncia:
Natural é haver atraso,
Porém, quando o bronze esfria.
O dr. Seabra recebeu telegrama de Manaus comu-nicando que, num ataque de índios, foi levemente ferido o trabalhador Grego.
Escaramuças ridículas
E um Grego ferido, enfim!
A proteção aos silvícolas
Perde o seu tempo e o latim
A Academia Brasileira de Letras elegerá, talvez, o cardeal Arcoverde, para a vaga de Raimundo Correia.
A eleição é só provável-
Qual nada! é certa, é fatal.
Candidato mais palpável
Não há de que um cardeal.
ZANGÃO
A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1402, 24 out. 1911, p. 1.
"A polícia leve denúncia contra o solicitador Irineu Antão de Vasconcelos, acusado de ter feito várias transações com terrenos que lhe não pertenciam!'
Um limpo trabalho ao menos,
Por que não fizeste, Antão-
Pisaste em falso os terrenos
Nas transações, "transação"-
ZANGÃO
A Imprensa, Rio de Janeiro, N.° 1403, 25 out. 1911, p. 1.
Diz um telegrama de Porto Alegre que a atriz Ma ria Ricci, enviada violentamente para Buenos Aires, pelo empresário Guerra, a fim de não se casar com o maestro Costábile, seguirá diretamente do Rio Grande, de acordo com o cônsul italiano.
Esse Guerra que faz guerra
Aos casamentos alheios
Merece dez nomes feios
E pau que o ponha por terra
Pois quê! a moça desterra
Com tão violento furor-
O que empresário impostor
Que evita com tal desplante
Que a atriz com o maestro cante
Um belo dueto de amor!
ZANGÃO
A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1404, 26 out. 1911, p. 1.
"Populares exaltados têm quebrado os condutores da iluminação pública."
(Telegrama de Recife)
Decerto têm os dantistas
Muitas virtudes preclaras.
Mas não são positivistas
Não querem viver às claras
"A polícia continua recolhida aos quartéis: O Diá rio de Pernambuco suspendeu a publicação."
(Telegramas)
O Diário (é o que aqui se entende)
Acompanha a situação:
Como a polícia, suspende
A sua pública ação.
ZANGÃO
A Imprensa, Rio de Janeiro, n. ° 1418, 9 nov. 1911, p. 1.
"O chefe de Polícia proibiu que fizessem parte da Guarda Civil oficiais da Guarda Nacional."
(Dos jornais)
Quem agora da Briosa envergue a farda,
Não pode mais, segundo o chefe ordena,
Fazer parte da nobre Civil Guarda
Que com luva e com pau, ao povo acena.
Não encontra o motivo a mente tarda
Dessa resolução que assim condena
O Civil que àcidade assiste e guarda,
A não possuir patente, por pequena.
E as razões indagando uma por uma
Não encontro, de fato, em toda a lista,
Senão esta que é frágil como espuma.
Julga o chefe, que é um rubro governista, Que um "nacional" não pode ser em suma,
"Civil", civilizado ou civilista...
Que me dizes do projeto do Correa Defrheytas sobre o júri-
ZANGÃO
A Imprensa, Rio de Janeiro, n. ° 1451, 12 dez. 1911, p. 1.
"Disse o sr. Osvaldo Machado que não aderia ao sr. Dantas Barreto, porque não lhe apraz; o papel de estampilha política."
(Telegrama de Recife)
O fato nos maravilha:
É de virtude um modelo.
Quem não quer ser estampilha
Embora podendo sê-lo.
"0 sr. Guerra Duval conferenciou com os revolu-cionários para evitar o bombardeio da cidade."
(Telegrama de Assunção)
O diplomata emprega o meio
E muito bem por certo faz
De um tiro dar no bombardeio.
Porém com espanto o caso leio
De Guerra ser quem quer a paz,
ZANGÃO
A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1453, 14 dez. 1911, p. 1.
Poesia Satírica e Versos de Circunstância, de Emílio de Meneses, é uma coleção poética brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza os poemas em capítulos publicados, com espelhos de conteúdo completos, fonte consolidada da Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos/UFSC e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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