Leia agora
Poesia Satírica e Versos de Circunstância

Universo da obra

Poesia Satírica e Versos de Circunstância

Capítulo 11 · Poesia Satírica e Versos de Circunstância

O Ano Rubro

11 de 19 ≈ 6 min de leitura

Mil noventos e onze

Ano de triste memória,

Promete ficar no bronze

Na bronzea chapa-da-Hist6ria,

Como o ano mais belicoso,

Mais feroz, mais desumano,

Desse período famoso

Da era do aeroplano.

Há guerras por toda parte,

Aqui e ali, longe e perto;

Sob a tutela de Marte

Nasceu este ano, por certo.

Luta a Itália com a Turquia,

A França ameaça a Alemanha

Enquanto a democracia

Abala o trono da Espanha.

Em Portugal o litígio

O mundo inteiro atordoa:

De encontro ao barrete frígio

Raivosa investe a coroa.

Com tinta rubra se escreve

A história dos nossos dias;

Chile jura que em breve

Peru corta em fatias.

Num desespero maluco

A política se dana;

Cá no Brasil, Pernambuco

Afia a pernambucana.

Contrastando com a funérea

Nota de tanta chacina,

O mundo escuta a pilhéria

Da república da China!

E ante tais fatos, em prece,

Diz o Múcio, desolado:

Ah! Deus do céu! se eu pudesse

Profetizar... o passado!

Quando surgisse o ano novo

Com certeza rude fria,

Tais fatos, todos ao povo

Então profetizaria.

Ser profeta do futuro Estragou-me a inteira pose!

Hei de levar tanto furo

Em novecentos e doze!

Mas como importa! o meu nobre

Esforço é bem compensado:

Se os tolos me passam cobre,

Sou profeta do passado!

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1401, 23 out. 1911, p. 1.

NOTURNO

(Sugestões de um poeta, faminto)

Tudo cor de azeitona. Fim do mês.

Noite opípara: a lua, qual pedaço

De manjar branco, gira pelo espaço.

Ergue-se o monte como um bolo inglês.

Vejo a calda do oceano e a languidez

Da geléia d'arbustos que, em melaço

De orvalho, treme à aragem. Há um bagaço De nuvens no ar. O mar, de vez em vez,

Lança n'areia espumas de cerveja...

Vejo um sorvete e até de abacaxi

Sob a forma de torre de uma igreja!

Pelo espinheiro além, quanto palito!

E as estrelas, no céu, longe daqui,

São biscoitos jogados no infinito!

Por se ter aquecido um bronze, chegou, com um atraso de duas horas, o noturno paulista.

É, de certo, estranho caso

Esse que a imprensa anuncia:

Natural é haver atraso,

Porém, quando o bronze esfria.

O dr. Seabra recebeu telegrama de Manaus comu-nicando que, num ataque de índios, foi levemente ferido o trabalhador Grego.

Escaramuças ridículas

E um Grego ferido, enfim!

A proteção aos silvícolas

Perde o seu tempo e o latim

A Academia Brasileira de Letras elegerá, talvez, o cardeal Arcoverde, para a vaga de Raimundo Correia.

A eleição é só provável-

Qual nada! é certa, é fatal.

Candidato mais palpável

Não há de que um cardeal.

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1402, 24 out. 1911, p. 1.

"A polícia leve denúncia contra o solicitador Irineu Antão de Vasconcelos, acusado de ter feito várias transações com terrenos que lhe não pertenciam!'

Um limpo trabalho ao menos,

Por que não fizeste, Antão-

Pisaste em falso os terrenos

Nas transações, "transação"-

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, N.° 1403, 25 out. 1911, p. 1.

Diz um telegrama de Porto Alegre que a atriz Ma ria Ricci, enviada violentamente para Buenos Aires, pelo empresário Guerra, a fim de não se casar com o maestro Costábile, seguirá diretamente do Rio Grande, de acordo com o cônsul italiano.

Esse Guerra que faz guerra

Aos casamentos alheios

Merece dez nomes feios

E pau que o ponha por terra

Pois quê! a moça desterra

Com tão violento furor-

O que empresário impostor

Que evita com tal desplante

Que a atriz com o maestro cante

Um belo dueto de amor!

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1404, 26 out. 1911, p. 1.

"Populares exaltados têm quebrado os condutores da iluminação pública."

(Telegrama de Recife)

Decerto têm os dantistas

Muitas virtudes preclaras.

Mas não são positivistas

Não querem viver às claras

"A polícia continua recolhida aos quartéis: O Diá rio de Pernambuco suspendeu a publicação."

(Telegramas)

O Diário (é o que aqui se entende)

Acompanha a situação:

Como a polícia, suspende

A sua pública ação.

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n. ° 1418, 9 nov. 1911, p. 1.

"O chefe de Polícia proibiu que fizessem parte da Guarda Civil oficiais da Guarda Nacional."

(Dos jornais)

Quem agora da Briosa envergue a farda,

Não pode mais, segundo o chefe ordena,

Fazer parte da nobre Civil Guarda

Que com luva e com pau, ao povo acena.

Não encontra o motivo a mente tarda

Dessa resolução que assim condena

O Civil que àcidade assiste e guarda,

A não possuir patente, por pequena.

E as razões indagando uma por uma

Não encontro, de fato, em toda a lista,

Senão esta que é frágil como espuma.

Julga o chefe, que é um rubro governista, Que um "nacional" não pode ser em suma,

"Civil", civilizado ou civilista...

Que me dizes do projeto do Correa Defrheytas sobre o júri-

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n. ° 1451, 12 dez. 1911, p. 1.

"Disse o sr. Osvaldo Machado que não aderia ao sr. Dantas Barreto, porque não lhe apraz; o papel de estampilha política."

(Telegrama de Recife)

O fato nos maravilha:

É de virtude um modelo.

Quem não quer ser estampilha

Embora podendo sê-lo.

"0 sr. Guerra Duval conferenciou com os revolu-cionários para evitar o bombardeio da cidade."

(Telegrama de Assunção)

O diplomata emprega o meio

E muito bem por certo faz

De um tiro dar no bombardeio.

Porém com espanto o caso leio

De Guerra ser quem quer a paz,

ZANGÃO

A Imprensa, Rio de Janeiro, n.° 1453, 14 dez. 1911, p. 1.

Poesia Satírica e Versos de Circunstância

Sinopse

Poesia Satírica e Versos de Circunstância, de Emílio de Meneses, é uma coleção poética brasileira em domínio público disponível gratuitamente no Literunico para leitura online em HTML. Esta edição digital organiza os poemas em capítulos publicados, com espelhos de conteúdo completos, fonte consolidada da Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos/UFSC e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978654747137460260536884
Poesia Satírica e Versos de Circunstância

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Poesia Satírica e Versos de Circunstância

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de Poesia Satírica e Versos de Circunstância

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Poesia Satírica e Versos de Circunstância Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 11 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir